23/11/2017

Série que recomendo: The Kennedys (2011)

O elenco principal de The Kennedys (2011). Da esquerda para a direita: Robert F. Kennedy (Barry Pepper), Ethel Kennedy (Kristin Booth), John F. Kennedy (Greg Kinnear), Jacqueline Kennedy Onassis (Katie Holmes), Joseph P. Kennedy (Tom Wilkinson) e Rose Kennedy (Diana Hardcastle). Imagem: Reprodução. 

     No dia 21 de novembro deste ano eu assisti ao último episódio da série The Kennedys (2011) e é sobre a mesma que eu vou escrever aqui hoje. É uma ótima alternativa para quem gosta de estudar a história dos Estados Unidos e também sobre a família Kennedy, que embora não tenha a influência política e econômica de outrora, possui muitos descendentes vivos.

Cartas de divulgação da série The Kennedys (2011). Imagem: Reprodução. 

     Eu tenho uma lista onde estão listadas as séries que quero assistir. Havia acabado de assistir Gigantes do Brasil (2016) e queria assistir outra série. Como eu sei que as séries que quero assistir não estão sendo exibidas na TV aberta e nem na TV por assinatura, eu comecei a pesquisar em qual site poderia assistir as mesmas gratuitamente. Para minha alegria, encontrei a série The Kennedys (2011) completa  no Youtube e ainda por cima com legendas em português! O canal Cine Filmes Nostalgia foi o responsável por tamanha caridade.

Charlotte Sullivan como Marilyn Monroe em The Kennedys (2011). Imagem: Reprodução. 

     Joseph P. Kennedy (1888-1969) teve nove filhos, mas a série em questão foca apenas em John F. Kennedy (1917-1963) e Robert F. Kennedy (1925-1968). Joseph P. Kennedy Jr. (1915-1944) aparece na série, mas logo sai de cena, assim como Rosemary Kennedy (1918-2005), que tinha transtornos mentais e após passar por uma lobotomia, fica sem falar, sem andar e passa o resto da vida em um hospital psiquiátrico. Na série, Joseph P. Kennedy (Tom Wilkinson) é mostrado como um patriarca controlador e que se preocupa com a reputação da família. Ele é o cérebro por trás de toda a família, sempre engenhoso e vitorioso em quase tudo que faz na esfera política. Queria ser presidente dos EUA, mas não conseguiu realizar este sonho e procurou se realizar nos filhos. Joseph P. Kennedy Jr. (Gabriel Horgan) é mostrado como o filho perfeito (fato que deixava os demais inseguros) e que parecia capaz de chegar à presidência dos EUA. Entretanto, sua morte acaba mudando os planos.
     Com a morte de Joseph P. Kennedy Jr., as expectativas de chegar ao cargo mais alto da política norte-americana cai sobre John F. Kennedy (1917-1963). Greg Kinnear é idêntico ao John F. Kennedy e na série ele ainda está mais parecido com o ex-presidente em questão. Isso sem contar que ele é um ótimo ator e está muito bem no papel que foi incumbido de interpretar. Katie Holmes está super parecida com Jacqueline Kennedy Onassis (1929-1995). Ela foi criticada pelo fato de interpretar uma Jacqueline sem brilho. Entretanto, retratar Jacqueline desta forma foi proposital porque o objetivo foi mostrar uma primeira-dama despreparada para o jogo político da Casa Branca. Como tudo mundo sabe, John F. Kennedy (1917-1963) teve inúmeras amantes e isso é mostrado na série, só não é focado. Jacqueline Kennedy Onassis (1929-1995) sabia das traições do marido, mas fingia não saber de nada. Não a julguem, pois é preciso entender o lado dela: uma mulher de família tradicional e conservadora, casada com um homem cuja família era católica e bastante influente nos EUA. Tal homem havia chegado à presidência dos EUA e ela precisava representar muito bem a sua função de primeira-dama. Desta forma, ela era presa a inúmeras convenções sociais e tudo que ela fazia tinha uma repercussão ainda maior, ao contrário do que acontecia com outras mulheres que não ocupavam a mesma posição que ela. Pode e não foi a única, mas com certeza Marilyn Monroe (1926-1962, interpretada por Charlotte Sullivan na série) foi a amante mais conhecida de John F. Kennedy (1917-1963). Na série, ela é mostrada como uma mulher de apetite sexual irrefreável, dando em cima até de Robert F. Kennedy (Barry Pepper), que era casado. A cena épica onde Marilyn Monroe (1926-1962) canta Happy Birthday to You para John F. Kennedy até foi gravada pelos atores, mas infelizmente foi cortada na edição final. Os responsáveis afirmaram que a cena não tinha muita relação com o restante da história. A morte de Marilyn é mostrada na série e até hoje ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Na série, boatos tentam culpar John F. Kennedy pela morte de Marilyn. Tais boatos diziam que eles eram amantes (o que não é mentira) e que Marilyn poderia atrapalhar a carreira política de John. E justamente por isso que era preciso tirá-la do caminho. Até hoje há quem acredita que os Kennedys são os responsáveis pela morte de Marilyn Monroe.

Comparação entre o Robert F. Kennedy da vida real (à esquerda) e o Robert F. Kennedy interpretado por Barry Pepper em The Kennedys (2011) (à direita). Muito parecidos? Imagem: Reprodução. 

     Outro protagonista de The Kennedys (2011) é o Robert F. Kennedy (Barry Pepper). Durante o governo Kennedy (1960-1963), foi o Procurador Geral dos Estados Unidos. Na série, ele é mostrado como alguém inseguro, sem muita capacidade para o cargo a qual foi designado e que está sempre a sombra do irmão e/ou do pai. Aliás, é Robert quem "limpa a barra" do presidente Kennedy muitas vezes, principalmente quando o mesmo comete as suas muitas "puladas de cerca". Apesar dos problemas que vez ou outra afetam a vida do casal, Robert é também mostrado como um homem fiel e apaixonado pela esposa Ethel Kennedy (Kristin Booth) e amoroso com os numerosos filhos (ele teve onze filhos e quando foi assassinado, a esposa estava a espera do 11º bebê).

O presidente Kennedy, a primeira-dama Jacqueline Kennedy Onassis e o então governador do Texas John Connally (1917-1993) na limousine presidencial, minutos antes do assassinato de Kennedy. Imagem: Reprodução. 

     Com relação à morte de John F. Kennedy, a série mostra como as coisas foram feitas segundo as investigações. Porém, a mesma não adota uma versão com relação ao assassinato de Kennedy. Ao invés disso, a série mostra as várias razões que teriam motivado o assassinato do então presidente dos EUA. Coisa semelhante é feita com relação ao assassinato de Robert F. Kennedy, em 1968. Ele era senador e tinha tudo para ser mais um Kennedy a chegar à presidência dos EUA. O que motivos os assassinatos em questão? Adversários políticos que temiam ser vencidos por eles? Um suposto envolvimento com a máfia? Foram os mafiosos insatisfeitos com o combate à máfia executado Robert F. Kennedy que o mataram? Será que a razão foi o fato de John e principalmente Robert F. Kennedy estarem dispostos a combater a discriminação racial nos EUA? São perguntas que jamais saberemos a resposta. Em The Kennedys (2011), Robert F. Kennedy se sente culpado pela morte do irmão, uma vez que combateu os mafiosos, possíveis responsáveis pelo assassinato de John F. Kennedy. Em uma tentativa de se redimir da culpa que sente, Robert F. Kennedy passa a cuidar da segurança de Jacqueline e de seus filhos. A série mostra um carinho muito grande entre ambos, levando alguns espectadores a interpretarem de outra forma. Eu não sabia, mas pesquisando para escrever esse texto, eu soube que produziram a série The Kennedys After Camelot (2017). A mesma é uma continuação da série de 2011 e é baseada no livro Jackie, Ethel and Joan: Women of Camelot (2000), de J. Randy Tarraborelli. Na série em questão, Katie Holmes retoma o papel de Jacqueline Kennedy Onassis, ao passo Matthew Perry interpreta Ted Kennedy (1932-2009). Já Alexander Siddig interpreta Aristóteles Onassis (1906-1975) e Kristen Hager interpreta Joan Bennett Kennedy.

Conclusão

     The Kennedys (2011) é uma série bem escrita, bem dirigida e com um bom elenco. Destaque para as sequências que narram a Invasão da Baia dos Porcos (1961) e a Crise dos Mísseis (1962), onde os diretores e atores levam o telespectador a sentir a tensão que tais eventos causaram. Por conta do formato narrado para a série, nem tudo o que está ali aconteceu de fato. Entretanto, isso não tira o mérito da série em questão, que eu recomendo para quem gosta de História e quer saber mais sobre a história dos EUA e da própria família Kennedy que, mesmo não tendo a influência política e econômica de outrora, possuem uma tradição que ainda hoje desperta a curiosidade de muita gente. 

16/11/2017

A promíscua relação entre os militares e a república brasileira

Os Marechais Deodoro da Fonseca (à esquerda) e Floriano Peixoto (à direita). Os primeiros presidentes do país eram militares. Imagem: Reprodução. 

     Historicamente, a história do país é marcada pela presença dos militares na política. Esta presença constante é mais antiga do que se pensa e se iniciou quando o país ainda era uma monarquia. 
   Após a Guerra do Paraguai (1864-1870), o Exército brasileiro voltou reequipado e reforçado. Duque de Caxias (1803-1880) havia transformado o Exército em uma grande potência militar. Entretanto, os oficiais achavam que o mesmo não tinha o papel político que acreditavam que deviam ter. O Exército queria ter a voz ouvida pelo governo. Os militares acreditavam que o imperador D. Pedro II (1825-1891) tratava as Forças Armadas com descaso. Este argumento foi reforçado com a ausência do imperador no desfile que o Exército fez no Rio de Janeiro para comemorar a vitória na Guerra do Paraguai. Aliás, o Exército voltou da guerra em questão com duas ideias em mente e até então tidas como revolucionárias: o abolicionismo e o republicanismo. Nos dois movimentos, teve atuação fundamental. 
     Influenciados pelo positivismo de Augusto Comte (1798-1857), que acreditava que somente um governo central e forte (ou seja: autoritário) era capaz de conduzir uma nação, os militares deram o golpe militar republicano em 15 de novembro de 1889. Os primeiros anos da república brasileira foram marcados por perseguição a opositores políticos, censura e revoltas. Além disso, os primeiros presidentes da república brasileira eram militares, mais especificamente marechais: Deodoro da Fonseca (1889-1891) e Floriano Peixoto (1891-1894). O período em que Deodoro e Floriano estiveram no poder é chamado de "República da Espada" pelo fato de os presidentes que governaram neste período terem sido militares.

Da esquerda para a direita: Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Eles eram militares e foram presidentes durante a ditadura civil-militar brasileira. Imagem: Reprodução. 

     A Era Vargas (1930-1945) chegou ao fim quando o General Góis Monteiro afastou o então presidente Getúlio Vargas do poder. José Linhares, até então presidente do Supremo Tribunal, sucede Vargas. Ele passou o poder para o General Dutra, que foi eleito pelo voto secreto e direto. Em 1950, Getúlio Vargas retorna à Presidência da República pelas vias democráticas. Entretanto, seu segundo governo foi marcado por uma grave crise política e, para não renunciar, se suicida dando um tiro no próprio peito. Políticos conservadores, a elite do país, a mídia hegemônica e os militares se articulavam para tirar Vargas do poder. Tem historiador que diz que Getúlio Vargas atrasou o golpe civil-militar em 10 anos. Ele atrasou, mas não evitou. No dia 01 de abril de 1964 (uns falam em 31 de março), militares, com o apoio de parte da sociedade civil, instaram uma ditadura que durou 21 anos. O argumento para a mesma era "proteger o Brasil contra os perigos do comunismo". Durante este período, o Brasil foi governado por militares.
      Após o fim da ditadura, o Brasil parecia tomar a ordem democrática, até que em 2016 um golpe parlamentar, judiciário e midiático afastou Dilma Rousseff da presidência, cargou que ela ocupou após vencer as eleições. Foi um golpe que não contou com o apoio das Forças Armadas, pois o objetivo era parecer ao máximo que o afastamento de Dilma tinha bases legais. Entretanto, tem gente que pede uma nova intervenção militar no Brasil. Eles não sabem o que pedem.

Conclusão

      A relação dos militares com a república brasileira é uma relação promíscua porque os militares só aparecem no cenário político para censurar, perseguir, torturar e até matar. É "pra colocar ordem na casa", dizem os defensores de uma nova ditadura militar. Com uma forma de governo que começou com um golpe militar, não era de esperar que eles se contentariam somente em aparecer nos primeiros anos da república, não é mesmo?

14/11/2017

Práticas contraditórias da república do Brasil

Bandeira do Brasil republicano. Imagem: Reprodução.

     A república do Brasil é marcada por contradições desde que a mesma nasceu no país, em 1889. Além disso, a república brasileira de pública não tem nada, uma vez que a maioria da população não se vê representada no Congresso Nacional.
      República é uma expressão latina que significa "coisa pública", "coisa do povo". Entretanto, não é isso o que se vê na prática, pelo menos no Brasil. No fim do século XIX, nos últimos anos da monarquia brasileira, o movimento republicano tinha força, mas não a necessária para derrubar um imperador querido por muita gente (que no caso era D. Pedro II) e muito menos uma estrutura de governo que já durava 67 anos, que no caso era o regime monárquico, que no Brasil durou de 1822 a 1889. Porém, a monarquia estava obsoleta e D. Pedro II (1825-1891) parecia incapaz de governar. Desta forma, a monarquia acabou caindo por um gesto involuntário do Marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892), que não queria tirar D. Pedro II do poder, mas sim o Visconde de Ouro Preto. Assim, se conclui que o golpe militar republicano no Brasil foi acidental. 

Proclamação da República (1893), óleo sobre tela de Benedito Calixto (1853-1927). 

    Aqueles que haviam implantado o golpe militar republicano tinham a noção de sua impopularidade. Foi justamente por isso que a família imperial brasileira foi convidada a partir para um exílio forçado. Assim que eles saíram, uma lei os impedia de retornar. Tal lei só foi revogada pelo então presidente Epitácio Pessoa em 1920. Por conta de dificuldades na comunicação, a notícia da proclamação da república não chegou ao mesmo tempo em várias regiões do país. Teve lugares onde as pessoas só souberam da queda da monarquia em 1890. Além disso, a grande maioria da população não tinha nenhuma identidade e/ou vínculo com a república. Desta forma, a mesma teve dificuldades para se consolidar. E foi justamente por essas e outras razões que os primeiros presidentes do Brasil eram autoritários. Durante seu governo, Marechal Deodoro da Fonseca (1899-1891) era autoritário e perseguia opositores políticos. Já seu vice, Marechal Floriano Peixoto (1891-1894) recebeu a alcunha de "Marechal de ferro" por conta do modo como reprimiu alguns movimentos, como por exemplo a Revolta da Armada e a Revolução Federalista do Rio Grande do Sul. A república no Brasil começou de forma nada democrática. 

Crucifixo pregado em sala do Supremo Tribunal Federal (STF). Estado laico? Imagem: Reprodução. 

     Com a república, uma nova Constituição precisava ser feita, já que a que estava em vigor era de 1824, tempos em que o Brasil era uma monarquia. Com a Constituição de 1891, todos podiam votar, com a exceção de mulheres, analfabetos, soldados e padres. Na prática, a maioria da população não poderia votar. O governo era público, mas o público não tinha acesso ao governo. Além disso, a Constituição de 1891 dizia que Estado e Igreja deveriam se separar. Na monarquia, o catolicismo era a religião oficial do Império. Porém, passaram os anos e as constituições, mas a Igreja e o Estado continuam cada vez mais unidos. Símbolos cristãos são facilmente encontrados em repartições públicas, a Igreja católica tem grande influência no país e no calendário brasileiro há vários feriados de santos católicos. Além do catolicismo, é vista a ascensão galopante da religião evangélica na esfera política do país. Políticos evangélicos estão presentes nas esferas municipais, estaduais e federais da política brasileira. Eles organizam cultos em repartições públicas, vetam pautas que são contra aos seus dogmas e criam políticas que os beneficiam. 
     A corrupção reinava na hora do voto. Para começo de conversa, o voto era aberto, o que facilitava a corrupção, uma vez que o coronel sabia em quem a pessoa estava votando e ai dela se ela não votasse no candidato do coronel. Havia o chamado voto de cabresto, que era quando o coronel usava de sua influência política e econômica para eleger um candidato por ele indicado. Até a força era usada, caso fosse preciso. Como o voto era aberto (hoje ele é secreto), os eleitores eram vigiados pelos capangas do coronel para que o mesmo se certificasse de que eles de fato estivessem votando no candidato por ele indicado. Além disso, havia também o curral eleitoral, que era uma versão "light" do voto de cabresto. Neste esquema, o coronel pressionava de forma sutil os eleitores a votar no candidato por ele indicado. Era a construção de uma ponte por um lado, oferecimento de emprego para o outro e assim vai. Nada muito diferente de alguns políticos da atualidade que, às vésperas da eleição, fazem churrascos, oferecem cestas básicas e revitalizam uma praça do bairro por exemplo, não é mesmo? Isso sem contar com os votos fantasmas, que era quando um eleitor já falecido aparecia para votar. Na verdade, seus documentos eram falsificados e alguém votava por ele no candidato do coronel.

Deputados favoráveis ao impeachment comemoram continuidade do processo contra Dilma em abril de 2016. Imagem: Reprodução. 

     Se você acha que as contradições da república brasileira findariam com o tempo, se enganou. Embora tenha "pública" no nome, a república do país nunca foi pública. Pelo contrário. A política brasileira é caracterizada por famílias que há décadas estão se perpetuando no poder e fizeram da política um meio de sustento e também de enriquecimento. Grupos historicamente marginalizados como mulheres, pobres, negros, analfabetos e LGBTs podem votar (o voto é secreto), mas os mesmos têm pouca ou nenhuma representatividade no Congresso. As mulheres são a maioria do eleitorado, mas são minoria no Congresso; os negros são maioria no país, mas são minoria no Congresso; o Brasil é composto majoritariamente de pobres, mas quem está no Congresso são empresários e fazendeiros, que não sabem fazer outra coisa, a não ser criar leis em benefício próprio. De pública, a república do Brasil não tem nada.

Conclusão

     A república do Brasil é contraditória em vários aspectos. A contradição acompanha a república desde o nascimento da mesma e não desapareceu com o passar do tempo, como alguns pensaram que iria acontecer. Isso porque o projeto de república no Brasil é inacabado. 

09/11/2017

Quem não ama odiar o Flamengo?

Símbolo do Flamengo. Imagem: Reprodução. 

     O Flamengo é um dos poucos times do mundo que é capaz de despertar sentimentos opostos e intensos. Muita gente ama o Flamengo, mas também muita gente o odeia. E aí fica a pergunta: quem ama odiar o Flamengo?

Torcida do Flamengo exibe mosaico "Somos uma Nação" durante jogo. A torcida do Flamengo é a maior do país e também a maior do mundo. Imagem: Reprodução. 

     Torcer pelo Flamengo é muito louco. Isso não é clichê, mas o fato é que o Flamengo é um dos poucos times de futebol do mundo que é capaz de levar os torcedores do céu ao inferno.Uma hora está ganhando, uma hora está perdendo, passa por uma série de derrotas, passa por uma série de vitórias e assim a vida segue. Até quem não gosta muito de futebol se diz flamenguista. Não sou lá muito chegado em futebol, mas me reconheço como flamenguista. Isso sem contar que essa energia dos flamenguistas, que poucos times e torcidas têm, é capaz de contagiar até quem é de outros times. Mazinho, ex-jogador de futebol que jogou no Vasco, na seleção brasileira e em alguns times da Europa, conta que os filhos Thiago e Rafinha Alcântara, que também são jogadores de futebol, eram vascaínos, até que um belo dia os meninos viram um jogo do Flamengo e se tornaram flamenguistas. Mesmo não morando no Brasil (Rafinha mora na Espanha e Thiago na Alemanha), os rapazes continuam torcendo pelo Flamengo. É como diz o hino do Flamengo: "Uma vez Flamengo, sempre Flamengo".
     Por outro lado, da mesma forma que o Flamengo desperta amor intenso, ele também desperta ódio intenso. É incrível a quantidade de pessoas que conheço que odeiam o Flamengo e o pior: há páginas na rede destinadas a destilar o ódio que sentem pelo Flamengo. Aqui perto da minha casa há um bar e parte dos frequentadores assistem ao jogo do Flamengo para torcer contra o mesmo. A gente até já sabe: quando eles gritam enlouquecedoramente é porque o time rival fez gol. Um tio meu é flamenguista doente e sempre quando o Flamengo perde e/ou leva um gol, a vizinhança comemora zombando da cara dele. A sogra de um amigo meu torce pelo Botafogo e não pode nem ouvir a palavra Flamengo. Certa feita, em uma festa de família onde eu fui um dos convidados, o humor da mulher mudou completamente quando ela ouviu a palavra flamenguista. Eu ia dizer que também torcia pelo Flamengo, mas por bom senso revolvi ficar quieto. No começo de setembro deste ano, quando Flamengo e Cruzeiro se enfrentaram, um compadre de uma das minhas primas assistiu o jogo aqui em casa. Vascaíno, passou o jogo todinho torcendo peloo Cruzeiro. A sua intenção era clara: em um espaço onde ele era o único não-flamenguista, a sua intenção era provocar. A situação ficou insustentável e ele nem vem mais aqui rsrs (rindo para não chorar, é uma situação tragicômica). Aliás, nos dois jogos do Flamengo e Cruzeiro, é incrível a quantidade de pessoas torcendo para o Cruzeiro. Pra que isso? Se não gosta, por que não troca de canal? E eis aí outro ponto: detestam o Flamengo, mas gastam tempo e energia assistindo o jogo do time e torcendo contra. Eles podem não estar cientes disso, mas assistindo ao jogo do Flamengo, ainda que torcendo contra o mesmo, acabam dando audiência e visibilidade para o time. É por essas e outras que, independente de o Flamengo estar buscando uma vaga no Campeonato Carioca, no Brasileirão ou na Libertadores, a TV Globo exibe os jogos do time porque sabe que a audiência é garantida.
     Além do ódio pelo Flamengo ser manifestado nas formas acima citadas, o ódio ao time em questão revela também preconceitos de classe e de gênero. Já ouvi torcedores de outros times chamarem os flamenguistas pejorativamente de "mulambada". Fiz o curso de História na UERJ, que é praticamente ao lado do Maracanã. Quando tinha  jogo do Flamengo, aquela região virava um caos. Bares mega lotados, carros por todos os lados, engarrafamento, centenas de pessoas nas ruas com a blusa do Flamengo e isso sem contar que, ainda que distantes e pouco claros, a gente ouve os ecos que saem do Maracanã. Pois é, pensem como é ter aulas em um dia de jogo do Flamengo. Pois bem, uma colega minha da universidade, ao observar tudo isso, sempre dizia "a favela desceu". Ela se referia aos milhares de flamenguistas que iam ao Maracanã. Além disso, já ouvi torcedores não-flamenguistas dizendo que a torcida do time rubro-negro é a que mais tem bandidos. E também já ouvi não-flamenguistas falando de forma pejorativa que no Flamengo só tem homossexual. A torcida do Flamengo é a maior do país e a maior do mundo e, por conta disso, a mesma tem torcedores de vários credos, raças, classe social e sexualidade. Mas de onde vem tanto ódio?

Enquanto jogadores do Flamengo entram em campo, a torcida rubro-negra exibe o mosaico "Isso aqui é Flamengo". Imagem: Reprodução.

     Para responder a pergunta feita no parágrafo anterior, vamos atentar para os números. Como já falado aqui, o Flamengo é uma torcida intensa, envolvente e que expressa seu amor ao time independente da situação que o mesmo esteja vivendo. Aliás, a torcida do Flamengo é a maior do país e a maior do mundo, com um total de 33 milhões de torcedores. No âmbito internacional, o Flamengo fica na frente de times como Chivas (México), Boca Junior (Argentina) e Milan (Itália). Um dado curioso é que três das maiores torcidas de futebol do mundo são do México, a saber: Chivas (30,8 milhões de torcedores), América (26,4 milhões de torcedores) e Cruz Azul (13,2 milhões de torcedores). Já dentre as maiores torcidas do país, o Flamengo fica na frente de times como o Corinthians (24 milhões de torcedores), São Paulo (15 milhões de torcedores), Vasco (10 milhões de torcedores) e Santos (4,9 milhões de torcedores). Já o valor de mercado da marca Flamengo é o maior do país, com um valor absoluto de R$ 1,43 bilhão, ficando na frente do Corinthians (R$ 1,42 bilhão) e Palmeiras (R$ 1,02 bilhão). Dentro de campo, o Flamengo já levou cinco títulos do Campeonato Brasileiro (a saber, o das temporadas de 1980, 1982, 1983, 1992 e 2009), três títulos da Copa do Brasil (temporada de 1990, 2006 e 2013), foi campeão da Copa Libertadores da América em 1981 e recentemente a FIFA reconheceu o título do antigo e extinto Mundial Interclubes que o Flamengo havia conquistado em 1981. Desta forma, o Flamengo é o único time do estado do Rio de Janeiro com um título mundial no currículo. Já o Vasco, que tem a segunda maior torcida do estado do Rio de Janeiro, foi o vencedor do Campeonato Brasileiro por quatro vezes (a saber: 1974, 1989, 1997 e 2000), foi o vencedor da Copa do Brasil em 2011 e campeão da Copa Libertadores da América em 1998. O Flamengo é o maior dentro e fora de campo e isso incomoda quem não é flamenguista, levando muitos a odiarem o Flamengo.

Conclusão

     Com o Flamengo é assim: ou você ama ou você odeia. Não existe meio termo. Da mesma forma que a torcida rubro-negra é intensa e envolvente, ela também causa repulsa em muita gente, principalmente em quem não torce pelo Flamengo. Além disso, o Flamengo é a marca mais lucrativa do Brasil e tem vários títulos no currículo, despertando o ódio dos demais torcedores, que na verdade só queriam estar no lugar do Flamengo. 

07/11/2017

A questionada definição de "onda conservadora"

Manifestante pedindo intervenção militar durante manifestação. Imagem: Reprodução. 

     Algumas pessoas classificam o momento tenebroso que o Brasil vive como "onda conservadora". Entretanto, o modo como as coisas são ditas dão a entender que o conservadorismo é um fenômeno recente na história do país.
     Vivemos um período em que os poucos e tímidos direitos dos LGBTs, negros, mulheres e pobres estão seriamente ameaçados. Crimes e discursos de ódio contra os grupos aqui citados são constantemente notíciados nos jornais. É a aprovação da PEC do fim do mundo, da Reforma Trabalhista, da Reforma Curricular do Ensino Médio e a aprovação da terapia de reversão sexual, que permitiria a "cura gay". É um período de retrocessos sem igual na história do país e alguns chamam tal de "onda conservadora". Entretanto, esta classificação é alvo de questionamentos.

O ex-presidente Lula ao lado do atual prefeito da cidade do Rio de Janeiro Marcelo Crivella. O apoio da bancada evangélica ajudou o PT chegar à Presidência da República. Imagem: Reprodução.

     Quando se fala em "onda conservadora", dá a entender que o período anterior a esta onda era um verdadeiro paraíso onde não havia crimes de homofobia, feminicídio, racismo e pobreza. Sabemos que não é bem assim. Se deve reconhecer que no período em que o Partido dos Trabalhadores (PT) esteve no poder (2003-2016), as minorias conquistaram seus direitos. Poucos, mas conquistaram. O avanço na construção de uma sociedade mais igualitária não foi mais profundo justamente porque o PT fez sua política conciliando classes sociais extremamente opostas. Se o pobre conseguia comprar um carro, a indústria automobilística recebia incentivos do governo; se o pobre conseguia comprar passagens de avião, as companhias aéreas recebiam benefícios do governo e por aí vai. Nesta política de conciliação, o PT fez aliança com o empresariado, os ruralistas e a bancada evangélica. Se nos últimos tempos a bancada evangélica votou em massa a favor do afastamento de Dilma Rousseff, a favor da Reforma Trabalhista e "salvou" Michel Temer da investigação duas vezes, saiba que nem sempre foi assim. A bancada evangélica foi essencial para que Lula fosse eleito e posteriormente reeleito Presidente da República, em 2002 e 2006 respectivamente. Esta mesma bancada ajudou Dilma Rousseff a ser eleita Presidente da República, em 2010. Em 2014, onde o quadro político se mostrava bastante acirrado como nos dias de hoje, tal bancada se mostrou dividida e parte considerável da mesma apoiou o então candidato à presidência Aécio Neves.
     Foi justamente esta conciliação de classes que impediu que as mudanças estruturais na sociedade brasileira fossem mais profundas. Embora o poder aquisitivo do pobre tenha aumentado, a desigualidade social ainda é latente no país. Se o número de pobres e negros nas universidades aumentou consideravelmente, os negros ainda continuam sofrendo racismo e sendo vítimas do genocídio da polícia. Em 2010, Dilma Rousseff foi eleita Presidente da República. Era a primeira vez que uma mulher chegava no cargo mais alto da política republicana brasileira. Do ponto de vista da representatividade, tal fato é importantíssimo. Entretanto, uma mulher sozinha, por mais que esteja no cargo mais alto da política, não é capaz de romper com a histórica e arraigada estrutura patriarcal, um dos pilares da sociedade brasileira. Por conta disso, as mulheres continuaram com uma jornada de trabalho mais longa que a dos homens, elas continuaram sendo vítimas de estupros, violência doméstica e feminicídio. Além disso, não houve avanços na questão da legalização do aborto, uma das principais pautas do movimento feminista no Brasil. Aí esbarra em um dos grandes opositores de tal bandeira: a bancada evangélica. Esta bancada cresce a cada eleição que passa e tem a finalidade única e exclusiva de barrar pautas que não estão de acordo com seu credo. A bancada evangélica é em massa contra a legalização do aborto em qualquer circunstância, mesmo naquelas que são asseguradas pela Carta Magna, como em casos de estupro, quando o feto não apresenta massa encefálica ou quando a gravidez coloca a vida da gestante em risco. Esta bancada impediu que a pauta da legalização do aborto fosse adiante e também que o "kit gay" fosse usado nas escolas brasileiras. Para quem não sabe ou não se lembra, o Escola sem Homofobia (que recebeu a alcunha pejorativa de "kit gay") eram vídeos elaborados pelo Ministério da Educação (MEC) em convênio firmado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), que tratavam de homossexualidade, transexualidade e bissexualidade entre os jovens. O material, que ainda tinha três vídeos e guia de orientação para os professores, tinha como finalidade debater a sexualidade no ambiente escolar. O objetivo era distribuir o material para professores e estudantes do Ensino Médio de todo o país. Porém, o projeto não foi para frente. Assim que o MEC divulgou o kit, ele foi alvo de críticas e gerou muita polêmica entre os setores mais conservadores do país e do Congresso Nacional. Jair Bolsonaro, então deputado pelo Partido Progressista (PP) do Rio de Janeiro, foi um dos primeiros a se posicionar contra o projeto, dizendo que o MEC e grupos LGBTs "incentivaram o homossexualismo (sic) e a promiscuidade" e tornam os filhos "presas fáceis para pedófilos".

Mulheres na Marcha da Família com Deus pela Liberdade em 1964. Imagem: Reprodução/Blog CPDOC Jornal do Brasil. 

     A questão é muito maior do que o PT e/ou Lula e/ou Dilma. Culpar o PT por todas as mazelas do país é uma análise simplista e até mesmo ignorante. As mazelas que assolam o país são estruturais e históricas e o PT só deu continuidade a maioria delas. Ao longo da história, o país já vivenciou inúmeras manifestações conservadoras. Em 1964, poucos dias depois de João Goulart anunciar que as Reformas de Base seriam colocadas em prática, donas de casa, damas da alta sociedade, pastores evangélicos, comerciantes, policiais e políticos conservadores organizaram em São Paulo a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. O objetivo do movimento era conter "uma ameaça comunista representada pelas ações dos grupos radicais e pelo discurso em comício realizado pelo então presidente João Goulart em 13 de março daquele mesmo ano." (saiba mais sobre o movimento aqui). Pouco tempo depois, João Goulart seria deposto e uma ditadura que só acabaria em 1985 foi implantada. Aliás, além de  ser um golpe político, o golpe civil-militar de 1964 foi também um golpe moral. Temas como divórcio, feminismo, homossexualidade e liberdade sexual eram proibidos. Já falei sobre este assunto neste texto. Um pouco antes, em 1960, foi fundado por Plinio Corrêa de Oliveira a Tradição, Família e Propriedade (TFP), que no Brasil foi registrada como Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. A organização tinha a finalidade de combater as ideias maçônicas, socialistas e comunistas. Mais ou menos 20 anos depois, no começo do anos 1980, as Senhoras de Santana (uma alusão ao bairro de mesmo nome que fica na Zona Norte de São Paulo) se uniram em protestos contra a discussão da sexualidade na televisão. Em 1989, quando Lula e Collor disputavam a Presidência da República, o anticomunismo foi usado contra Lula. Diziam que o então candidato era defensor de regimes comunistas do leste europeu e que se ganhasse as eleições, o país viraria um caos. Lula perdeu e Collor foi eleito. O resto da história todo mundo já sabe.

Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro em América (2005). Imagem: Divulgação. 

     Em 1995, a novela A Próxima Vítima fazia o maior sucesso na TV Globo. Uma das tramas mais marcantes do folhetim e até hoje lembrada é a relação homossexual e inter-racial entre Jefferson (Lui Mendes) e Sandro (André Gonçalves). Estudiosos e bons moços, a relação dos rapazes foi relativamente aceita pelo público. Entretanto, André Gonçalves relatou que foi agredido na rua por conta do personagem em questão. Três anos depois, a novela do momento era Torre de Babel (1998). Rafaela (Christiane Torloni) e Leila (Sílvia Pfeifer) eram dois personagens da trama e viviam uma relação homossexual. O ódio dos telespectadores contra o casal foi tão grande que, para tirar ambas da trama, o autor matou as duas na épica explosão do Shopping Tropical Tower. Isso aconteceu porque em A Próxima Vítima os rapazes foram apresentados aos poucos ao público e uma vez que eles eram de bom caráter, houve certa aceitação do casal. Já em Torre de Babel, o telespectador soube desde o início que Leila e Rafaela formavam um casal lésbico, fato que causou a rejeição das personagens em questão. Uma curiosidade: as novelas em questão foram escritas por Silvio de Abreu. Alguns anos depois, mais precisamente em 2005, a novela do momento era América (2005), de Glória Perez. Uma das histórias principais da novela girava em torno de Júnior (Bruno Gagliasso), filho da Viúva Neuta (Eliane Giardini) e Zeca (Erom Cordeiro). Ao longo da história, Júnior e Zeca percebem que estão apaixonados um pelo outro. Os atores chegaram a gravar uma cena de beijo entre seus personagens, que iria ao ar, o que não aconteceu. A cena em questão nunca foi exibida.
     Os fatos acima mostrados provam que historicamente o Brasil é um país conservador. Tais fatos são epenas exemplos, uma vez que as manifestações conservadoras no país ao longo da história são incontáveis. Em artigo publicado na Folha de S. Paulo em 25/12/2015, Vladimir Safatle disse que "o Brasil sempre foi um país com uma grande parcela de sua população claramente identificada ao pensamento conservador".

Conclusão

      O termo "onda conservadora" é problemático porque dá a entender que anterior a este período de retrocessos que o Brasil vive, o mesmo era um país onde imperava a igualdade, a tolerância e o respeito. Entretanto, não é isso o que aconteceu. Esta onda sempre esteve presente no país, a diferença é que nos últimos tempos ela tem crescido como um verdadeiro tsunami

02/11/2017

O estudo descontextualizado do Egito

Além das obras de arte da época, muitos estudos indicam que o Egito já teve faraós negros. Imagem: Reprodução. 

     A África é considerada o berço da civilização e há anos que o Egito é estudado nas escolas por conta de sua complexa organização social e também  pelos avançados instrumentos tecnológicos por eles usados. Entretanto, embora esteja havendo uma mudança lenta e gradativa nesta questão, o fato é que o Egito não é estudado dentro de seu devido contexto. 
     O continente africano é considerado o berço da humanidade porque é na África que há a maior diversidade genéticas entre os humanos. Além disso, os fósseis de ancestrais humanos mais antigos do mundo foram encontrados neste mesmo continente, onde se acredita que a espécie que mais  tarde seria o ser humano só existiria lá, se espalhando posteriormente pelas demais partes do globo. E, por fim, todas as espécies mais próximas do ser humano são oriundas da África, como por exemplo os gorilas, chimpanzés e bonobos (também chamados de chimpanzé-pigmeu, chimpanzé-anão e grácil). Sem dúvidas, o Egito é o país africano mais estudado do Mundo Antigo por conta de sua complexa organização social. Estabelecidos nas margens do rio Nilo, a civilização egípcia construiu coisas super complexas para a época e que não haviam em nenhum outro lugar do mundo, como por exemplo diques, canais de irrigação, templos e pirâmides (que até hoje ninguém sabe ao certo como elas foram construídas). Não tem como falar em história da humanidade e não citar o Egito e a África.

Bastidores da gravação da novela Os Dez Mandamentos (2015). Imagem: Divulgação/TV Record. 

     Mesmo os fatos acima citados sendo estudados em sala de aula, os mesmos são retirados de seus contextos. Eu só vim saber que a África é o berço da civilização depois que terminei o Ensino Médio e me preparava para o vestibular. Com relação ao Egito, eu estudei o mesmo na escola, mas em nenhum momento era dito que o Egito fica na África. Era como se o mesmo ficasse no limbo. Me lembro dos livros didáticos dizendo que o Brasil fica na América no Sul, os EUA na América do Norte, a Bélgica na Europa e por aí vai. Entretanto, ninguém dizia que o Egito fica na África. Além disso, os faraós e os egípcios em geral eram retratados nestes mesmos livros que usei na escola como pessoas morenas e até mesmo brancas. Ninguém dizia que as mesmas eram negras. Por sua vez, as produções audiovisuais compactuam com tais práticas. Impossível adentrar este assunto e não citar o filme cult e clássico Cleópatra (1963). A protagonista Elizabeth Taylor (1932 - 2011), bem como a maioria do elenco em questão são brancos. Detalhe: o Egito fica na África, cuja população é majoritariamente negra. Desta forma, tudo indica que Cleópatra (69 a. C. - 30 a. C.) era negra. A trama bíblica do mega sucesso Os Dez Mandamentos (2015), que também virou filme, é ambientada no norte da África e os personagens não são majoritariamente brancos. Entretanto, os atores que atuaram na novela são. Ao invés de contratar atores negros, a TV Record deu os principais papéis para atores brancos, que ficaram "morenos" com quilos de maquiagem. 
     Mas por que isso acontece? Para responder a esta pergunta, é preciso lembrar a escravidão de negros oriundos do continente africano. Um dos muitos instrumentos usados pelo regime escravista foi o esquecimento. Quando os africanos foram para a diáspora no Brasil, lhes foram arrancados a sua família, seu nome, sua identidade, sua cultura e sua crença. Em novas terras, foram obrigado a assumir outra identidade. Reis, rainhas, nobres e sacerdotes foram tirados de sua terra e escravizados. Sem o conhecimento de suas origens, ficam enfraquecidos e consequentemente sem forças para lutar contra a escravidão, um dos maiores crimes contra a humanidade que este mundo já viu. 
     Além disso, o regime escravista usou o discurso de que os negros são inferiores, "não possuem capacidade intelectual desenvolvida" e precisavam se redimir de seus supostos pecados. Desta forma, não seria conveniente dizer para os negros escravizados que seus ancestrais eram reis e nobres, como também não seria conveniente dizer aos mesmos que uma das maiores civilizações que este mundo já conheceu e que possuíam uma organização que até hoje deixa estudiosos e leigos boquiabertos fica na África. Também não era conveniente dizer que boa parte dos acontecimentos narrados na Bíblia têm como cenário o norte da África e que há fortes indícios de que tanto o Jesus que assumiu a forma corpórea, como aquele que João viu e descreveu em Apocalipse são negros. Se a população africana deveria ser redimida de seus pecados (e isso seria feito por meio da escravidão), não seria adequado dizer que parte das histórias bíblicas acontecem na África. 
      Como eu já disse nesse texto, o racismo age da seguinte forma: ou ele embranquece o negro ou joga o mesmo no esquecimento. Como o Egito Antigo foi uma civilização com uma organização complexa e organizada e, portanto, impossível de ser esquecida, o mesmo é estudado nas escolas. Todavia, existia (talvez ainda existe) uma condição: os faraós e demais egípcios devem ser representados como brancos ou no máximo morenos. Negros jamais. Você aí deve estar pensando: "mas hoje em dia isso não existe, a escravidão acabou em 1888!" ou "aquela lei de 2003 que obriga o ensino de História da África e das culturas indígenas está em vigor e agora tudo isso mudou". Só tenho a fazer duas observações. Um: a escravidão só acabou no papel, mas os elementos da mesma ainda se fazem presentes na atualidade. A maioria dos moradores da periferia são negros, a maioria daqueles que apresentam baixos índices de escolaridade são negros, a maioria dos encarcerados são negros e a maioria dos mortos pela polícia também são negros. Além disso, a maioria dos negros realizam serviços similares aos que seus ancestrais faziam quando eram escravizados: faxineiros, cozinheiros, empregadas domésticas, babás, motoristas, seguranças e pedreiros. Dois: de fato, há uma lei que obriga o ensino de História da África e das populações indígenas nas escolas. Porém, há uma diferença entre a teoria e a prática. Mesmo com essa lei, muitos professores não recebem uma formação adequada nas universidades com relação à história do continente africano e populações indígenas. Além disso, tem professores que simplesmente não ensinam tais coisas, embora a obrigatoriedade do ensino seja lei.
      O regime escravista acabou em 1888, mas a estrutura racista do mesmo ainda se faz presente na sociedade brasileira. É esta mesma  estrutura que mantém os negros na base da pirâmide social, executando serviços não muito diferentes do que seus ancestrais executavam quando eram escravizados. E, assim como nos tempos da escravidão, o homem branco continua a se utilizar do esquecimento para manter os negros como a mão de obra mais barata do mercado. É como diz Elza Soares em A Carne (2003): "A carne mais barata do mercado é a carne negra". 

Conclusão

     Embora isso esteja mudando gradativamente, o fato é que para muitas pessoas o Egito fica em qualquer outro lugar, menos na África. Isso acontece porque o homem branco historicamente tentou apagar da memória do negro tudo aquilo que remetia às suas origens e ao seu povo, já que sem o conhecimento e a memória fica mais fácil derrotar um povo. Mas ainda bem que isso está mudando. Aos poucos, mas está mudando. 
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