19/04/2018

Aline Barros - a diva gospel que nunca sai do topo

Aline Barros em pose para foto. Imagem: Reprodução. 

     Aline Barros é um cantora evangélica brasileira que já tem um tempo considerável de ministério. Aliás, este ministério é muito bem sucedido, diga-se por sinal. Entra época, sai época, cantores ficam em alta, cantores ficam em baixa, mas Aline Barros segue invicta há décadas.
     Aline Barros é nascida e criada em uma família evangélica, sendo filha de pastores. O gosto pela música veio quando ainda era uma criança e quando tinha cerca de 9 anos de idade já acompanhava o pai e o ministério de louvor da igreja na qual fazia parte. Chegou a se graduar em Biologia Marinha pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas seu gosto pela música falou mais alto e Aline nunca exerceu a profissão. Aline Barros iniciou seu ministério em 1991 ao gravar a canção Tua Palavra. A música caiu no gosto do público cristão da época e também de algumas rádios evangélicas, ficando pouco mais de um mês entre as mais tocadas. Talvez, os mais novos podem pensar que o único mega hit de Aline Barros é Ressuscita-me, do CD Extraordinário Amor de Deus (2011), mas isso não é verdade. Por volta de 17 anos antes de lançar o álbum em questão, Aline, junto com os integrantes da Comunidade Evangélica Vila da Penha, lançou o mega hit Consagração, que foi cantada incansavelmente nas igrejas de todo o país e ficou por volta de nove meses em primeiro lugar nas rádios evangélicas de todo o Brasil. De lá para cá, Aline Barros só tem sucessos no currículo. Aline tem uma vasta discografia de sucessos que inclui CDs, DVDs, álbuns infantis e coletâneas. Somando tudo, a cantora em questão tem no currículo cerca de 15 discos de Ouro, 10 discos de Platina, 5 discos Platina Duplo, 3 discos Platina Triplo e 3 discos de Diamante e um disco Diamante Duplo. Ao longo de seu ministério, Aline Barros vendeu cerca de 15 milhões de cópias. E isso sem contar com os prêmios recebidos e indicados. Aline já foi indicada (e ganhou muitas vezes) duas vezes ao  Dove Awards, onze vezes ao Troféu Talento, sete vezes ao Troféu Promessas, quatro vezes ao Troféu Imprensa, duas vezes ao Brazilian IP Awards, uma vez ao Prêmio Arpa e nove vezes ao Grammy Latino, levando o gramofone para casa em sete ocasiões. Já alguns de seus muitos hits são: Fico Feliz, Recomeçar, Apaixonado, Sonda-me, Usa-me, Diante da Cruz, Ressuscita-me, Primeira Essência, Casa do Pai e Depois da Cruz. O ministério de Aline Barros é expressivo e admirável.

Aline Barros realizando seu discurso na ocasião em que ganhou o Grammy Latino pela sétima vez, em novembro de 2017. Imagem: Reprodução. 

     O ministério de Aline Barros se torna ainda mais peculiar se for analisado o contexto em que o mesmo é realizado. A música de uma forma geral, em especial a música gospel, sofreu e continua sofrendo inúmeras transformações ao longo do tempo. Novos ritmos são incorporados, cantores chegam ao estrelato e cantores saem do estrelato. Tem também a pirataria, uma realidade que assombra a cantores e aqueles que trabalham com música em geral. A prática da mesma faz com que premiações como Disco de Ouro, de Platina, Platina Duplo, Platina Triplo e Diamante por exemplo sejam constantemente atualizadas. Além disso, o Youtube e os aplicativos de música em geral são uma realidade acessível e reflete na redução da venda de CDs. Uma pessoa que gosta de duas ou três músicas de um CD dificilmente vai gastar quase R$ 20,00 ou mais em um por causa das três músicas. Atualmente, só compra CD quem realmente gosta e acompanha a carreira do cantor. Assim como na música secular, na música gospel também há cantores que já estiveram no auge de seus ministérios e hoje não estão mais. São cantores que chegaram a pontos extremamente altos de seus respectivos ministérios, lançaram discos impactantes, que marcaram gerações e renderam incontáveis premiações, mas que nos últimos anos têm deixado a desejar em seus discos. Tais cantores vivem mais do legado que deixaram para a música cristã brasileira, do que pelos lançamentos de seus discos. Porém, definitivamente este não é o caso de Aline Barros. Há mais de duas décadas que os discos de Aline têm sempre uma venda expressiva e são premiados por conta disso. Aline não está livre das transformações e crises que constantemente ocorrem na música cristã, ela só consegue sair invicta das mesmas, ao contrário do que acontece com muitos cantores cristãos. Não é difícil entender como isso acontece.



     Aline Barros foi pioneira ao adentrar a mídia secular e divulgar na mesma o seu ministério. Por causa de Aline Barros e outros cantores evangélicos, é muito comum na atualidade se ver cantores cristãos em mídias não cristãs. Entretanto, nem sempre foi assim. Em 1994, Aline Barros, como integrante da Comunidade da Vila da Penha, foi ao programa Xuxa Park e cantou Consagração, canção que fazia grande sucesso na época. Aline Barros foi criticada por estar "se vendendo" e também pelo fato dela estar indo no programa de Xuxa, mulher na qual muitos cristãos acreditavam ter feito pacto com o tinhoso. Hoje, o fato virou motivo de piadas até para a própria Xuxa, que já riu da situação diversas vezes. Porém, naquela época este boato era muito forte. No ano de 1995, Xuxa e Aline Barros gravam Crer Para Ver, que entrou para o álbum Luz no Meu Caminho (1995), disco de Xuxa Meneghel. Em 1996, ocasião em que Xuxa completou 10 anos de TV Globo, houve uma edição especial do Xuxa Park para a data comemorativa (que incluiu até uma nave branca onde Xuxa entrava e saía nos tempos de Xou da Xuxa). Aline Barros estava presente e cantou Minha Rainha para Xuxa. O fato gerou polêmicas porque alguns cristãos acharam que Aline estava colocando Xuxa no lugar de Deus ao cantar a canção para a eterna Rainha dos Baixinhos. Outra apresentação marcante de Aline Barros em um programa de Xuxa foi no ano de 2012. Xuxa apresentava o TV Xuxa nas tarde de sábado da Rede Globo. Aline foi no programa da loira e cantou Ressuscita-me, que estava fazendo um enorme sucesso na época. Xuxa  ficou extremamente emocionada enquanto Aline cantava e até chorou. Quem também se emocionou com uma apresentação de Aline Barros foi a apresentadora Eliana. Também no ano de 2012, Aline foi no programa dominical da loira no SBT e ao cantar o mega sucesso Ressuscita-me, Eliana chorou copiosamente diante das câmeras. Além disso, Aline Barros já marcou presença no Domingo Legal, no Domingão do Faustão, já deu entrevistas para o TV Fama, para Marília Gabriela e também já foi entrevistada por Mariana Godoy, a última entrevista que Aline Barros deu antes do fechamento deste texto. Além dos já citados, Aline Barros já apareceu em vários programas seculares.

Aline Barros foi entrevistada recentemente por Mariana Godoy, onde falou de assuntos polêmicos. Imagem: Reprodução. 

      Ser presença constante na mídia secular é um diferencial porque a pessoa acaba atingindo outros públicos e isso é positivo na venda de álbuns, que tende a aumentar com o acesso em tal mídia. Aline Barros, como já dito acima, foi pioneira ao marcar presença na mídia secular e consequentemente foi pioneira também ao atingir o público não cristão com suas canções. Isso aconteceu em um momento em que os evangélicos no Brasil eram vistos com ressalvas e preconceitos. Vale lembrar também que Aline Barros já teve uma de suas canções que entrou para a trilha sonora de uma novela. Duas Caras (2007), novela de Aguinaldo Silva, teve em sua trilha  sonora a canção Recomeçar, de Aline Barros. Aline foi a primeira cantora gospel a ter uma canção em uma trilha sonora de novela da TV Globo.
     Outro fator que explica o sucesso de Aline Barros é o jeito doce e educado com que trata as mais diversas pessoas, já que uma boa receptividade atrai muita gente. Além disso, a cantora em questão evita entrar em assuntos polêmicos, principalmente quando os mesmos são do campo religioso. Aline Barros só costuma falar de questões LGBTs quando é perguntada sobre tal e isso já aconteceu mais de uma vez. De uma forma bastante educada e procurando medir bastante as palavras, Aline diz que condena a homossexualidade porque é algo que a Bíblia reprova. Entretanto, por mais educada que seja a resposta de Aline, a polêmica sempre vem. A cantora em questão evita falar de assuntos polêmicos para não colocar a sua boa relação com os demais setores da sociedade em xeque e consequentemente trazer um reflexo negativo na venda de seus álbuns. Aline Barros não vê a homossexualidade com bons olhos e o que a difere dos demais é o modo como ela lida com a situação. Ela não concorda, mas também não age como Silas Malafaia ou Marco Feliciano, que são verdadeiros militantes Anti-LGBT e muito menos age como Ana Paula Valadão, que em 2016 encabeçou uma campanha de boicote contra a loja de roupas C&A, acusando a mesma de ter lançado um comercial que feria os valores cristãos. Como dizem por aí, o tiro saiu pela culatra e a loja de roupas em questão obteve ainda mais visibilidade. Aline Barros também não age como os irmãos do Trio R3, que no fim de 2017 lançaram a música Nosso Gênero Vem de Deus, que reforça os dogmas do cristianismo e reprova o comportamento dos LGBTs. Aline Barros não vê a homossexualidade com bons olhos, mas ela não procura falar sobre isso (só fala quando perguntada) e quando fala, procura dar a resposta mais direta, educada e curta possível. É importante lembrar também que há LGBTs que professam a fé cristã e que gostam das músicas de Aline Barros.

Conclusão

     Aline Barros é uma diva gospel que não sai do topo porque tem passe livre em programas seculares, que com a alcance que são capazes de atingir, são ótimos na divulgação de qualquer trabalho. Além disso, Aline procura manter uma boa relação com os mais diversos setores da sociedade, já que seu trabalho não alcança somente o público cristão. Ao longo da história da música cristã no Brasil, cantores tiveram mais visibilidade em uma época e menos em outra, mas este definitivamente não é o caso de Aline Barros, que segue invicta e no auge há mais de duas décadas e meia. 

17/04/2018

Conciliação de classes - uma prática que a História já mostrou ser ineficaz

Getúlio Vargas é o primeiro Presidente da República a fazer a conciliação de classes no Brasil. Imagem: Reprodução. 

     Ao contrário do que alguns podem pensar, a conciliação de classes não é uma novidade no Brasil. Em outras épocas, presidentes da república já fizeram isso e os mesmos continuam a inspirar políticos da atualidade. Entretanto, o que alguns políticos talvez não tenham percebido é que a conciliação de classes é algo ineficaz a médio e longo prazo.
     Getúlio Vargas (1882 - 1954) foi o primeiro Presidente da República no Brasil a tentar conciliar as classes sociais. Por um lado, atendeu a demandas antigas dos trabalhadores, criando uma carga horária diária de trabalho que não podia ser ultrapassada, criou as férias remuneradas e também as CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Por outro lado, procurou também agradar a burguesia, censurou a imprensa, perseguiu opositores políticos e implantou uma ditadura em 1937, que é conhecida como a ditadura do Estado Novo e que só acabaria em 1945. Vargas voltaria a sentar na cadeira da Presidência da República novamente em 1950, mas desta vez ele foi eleito pelas vias democráticas. Entretanto, os tempos eram outros, conciliar as classes como fez na primeira vez em que se tornou presidente não era uma coisa fácil de se fazer no Brasil da década de 1950. Uma grave crise política se instalou no último mandato presidencial de Getúlio Vargas e isso se deve em parte pela conciliação de classes que o então presidente havia feito no passado. Conciliar as classes não era a solução: era preciso mudanças estruturais na sociedade para que a mesma fosse de fato igualitária. Grandes jornais, militares, políticos, intelectuais e a elite começaram a tramar para tirar Vargas do poder. A crise se tornou extremamente aguda e o então presidente não viu outra opção a não ser renunciar ao cargo. Entretanto, ele não fez isso de qualquer jeito: deixou uma carta-testamento direcionada aos pobres onde dizia quem eram os responsáveis pela sua morte e em seguida se matou com um tiro no peito. A morte de Vargas causou uma comoção e também uma revolta nacional, uma vez que a carta-testamento deixada por Getúlio Vargas foi reproduzida em rádios e jornais. Os meios de comunicação que sistematicamente atacavam Vargas foram depredados. Além disso, o jornalista e político Carlos Lacerda (1935 - 1977), opositor ferrenho e declarado de Vargas, junto de algumas pessoas, tiveram de ficar um tempo fora do Brasil, tamanha a revolta do povo brasileiro naquele momento.
     Outro presidente que acreditava na conciliação de classes era João Goulart (1919 - 1976). Vice presidente de Jânio Quadros (1917 - 1992), assumiu a presidência após o mesmo renunciar sem dar maiores explicações. Jango, como também era carinhosamente chamado, era herdeiro de uma tradição política de conciliação entre a burguesia e o proletariado. O então presidente quis o apoio do PSD e do PTB, mas também aceitou alianças com a esquerda. João Goulart acreditava em um capitalismo menos selvagem e mais humano. Desejou realizar profundas mudanças estruturais no país por meio das Reformas de Base, mas ele foi derrubado em 1964 e em seu lugar entrou uma ditadura que só findaria em 1985.

O ex-presidente Lula se inspira em Getúlio Vargas. Imagem: Diego Nigro/JC Imagem. 

     Lula é outro político que tentou conciliar as classes no Brasil quando era presidente. Ele havia tentado se eleger em 1989, 1994 e 1998. Tentou em 2002 e enfim conseguiu, mas para isso algumas mudanças precisaram ser feitas. O discurso da campanha presidencial de Lula em 2002 não era tão radical quanto nos anos anteriores: era um discurso conciliador e mais moderado. Para chegar ao poder, Lula contou com o apoio da ala evangélica, do empresariado e dos grandes fazendeiros. Ao mesmo tempo em que beneficiava as elites, Lula melhorou significativamente a vida dos mais pobres no Brasil. Quem também conciliou as classes foi Dilma Rousseff quando foi eleita Presidente da República. A conciliação de classes (também conhecida como governabilidade) parecia ser o modo perfeito de governar o Brasil. Entretanto, as Manifestações de Junho de 2013 mostraram exatamente o contrário. Não foi este o fator determinante, mas uma das causas que explicam as Jornadas de Junho de 2013 foi a falência de um modo de governar que até então estava em vigor no país. Foi também por conta da governabilidade que Dilma Rousseff sofreu um golpe e Lula é vítima de um processo extremamente arbitrário que na prática nada mais é do que um processo político. Nos últimos tempos, Lula tem se aproximado mais das camadas mais humildes da população, direcionando seu discurso para as mesmas. O povo só é lembrado quando se é necessário solucionar uma crise.

Conclusão

     A História já mostrou que a conciliação de classes é algo que não dá certo a médio e longo prazo. Isso porque em algum momento as mudanças na sociedade terão de ser aprofundadas. Seria muito bom para alguns se as mudanças estruturais na sociedade fossem feitas sem que ninguém perdesse seus privilégios. Porém, não é isso o que acontece: para que a sociedade se torne de fato igualitária, é preciso que reformas profundas aconteçam e, para isso, alguém tem que abrir mão de seus privilégios. E isso é algo que ninguém quer fazer. A burguesia não está disposta a perder seus privilégios e para isso faz um "grande acordo nacional" para garantir a manutenção dos mesmos. Este acordo incluiu o empresariado, o agronegócio, a grande mídia, o Congresso Nacional, o Judiciário e o Supremo Tribunal Federal. E quanto ao proletariado, não resta outra alternativa, a não ser tomar as ruas. 

12/04/2018

Brasil, um país pacífico?

Manifestantes enchem a Avenida Rio Branco, no centro da cidade do Rio de Janeiro, durante as chamadas Jornadas de Junho de 2013. Imagem: Reprodução. 

     Muitos brasileiros acreditam verdadeiramente que o Brasil é um país pacífico, onde a paz reina e onde também os terremotos, avalanches, furacões e tsunamis são coisas que acontecem em qualquer país do mundo, menos no Brasil. Entretanto, uma análise histórica mostra que o Brasil não é um país tão pacífico assim, se é que se pode chamar este país de pacífico.
     O Brasil foi colônia de Portugal por mais de três séculos. Em um primeiro momento, os moradores nativos da terra que mais tarde se chamaria Brasil foram escravizados e depois de um tempo os escravizados passaram a ser os negros oriundos do continente africano. Os nativos não aceitaram passivamente a escravidão, muito pelo contrário. Eles lutaram bravamente contra os europeus, mas foram vencidos porque os europeus tinham armas mais potentes e os mesmos trouxeram para a América doenças que os índios não conheciam e consequentemente não tinham anticorpos para tal. Desta forma, populações indígenas foram dizimadas, assim como suas respectivas culturas. Com relação ao negro, a situação não foi muito diferente. Eles foram retirados de sua terra, impedidos de usarem seus nomes, separados de suas famílias, de seus amigos, foram impedidos de exercerem a sua crença, suas profissões e atravessaram o oceano a contra gosto e chegaram ao Brasil. Aqui, receberam um tratamento pior do que é dado a objetos e sofreram as mais severas torturas físicas e psicológicas. E isso sem contar com as mulheres negras escravizadas (e alguns negros também), que foram constantemente violentadas e não tinham a quem recorrer, uma vez que não havia quem as amparasse. Destaque também para os quilombos, que ficavam no meio da mata e eram de difícil acesso. Composto por negros e também por brancos, os quilombos foram na prática um verdadeiro ato de resistência contra a escravidão.
     No final do século XVIII, dois movimentos sacudiram a então colônia de Portugal e entraram para a historiografia brasileira. É claro que estou falando da Inconfidência Mineira (1789) e da Conjuração Baiana (1796), que também é conhecida como Revolta dos Alfaiates. A primeira foi uma conspiração realizada por cafeicultores, filhos de cafeicultores, advogados, médicos e membros da elite que queriam libertar Minas Gerais do domínio português e estabelecer uma república no estado. Já a segunda foi um movimento ocorrido na Bahia que foi organizado por alfaiates, sapateiros, escravos e ex-escravos. Entre as pautas deste movimento estavam o estabelecimento de uma república no estado da Bahia e o fim do regime escravista. Tais movimentos foram duramente reprimido e os líderes dos mesmos receberam as mais severas punições. Tiradentes, apelido de Joaquim José da Silva Xavier (12/11/1746 - 21/04/1792), um dos líderes da Inconfidência Mineira e transformado tempos depois em símbolo da mesma, foi morto e teve seu corpo dividido em vários pedaços que foram espalhados por regiões dos atuais estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. A mensagem que estava sendo passada era clara: "se vocês tentarem coisa semelhante, o mesmo acontecerá com vocês".

Bandeira do Brasil quando o mesmo era governado por um regime monárquico. Para manter a unidade territorial, inúmeras revoltas separatistas foram duramente reprimidas. Imagem: Reprodução

     O Brasil é um país com dimensões continentais por conta de sua grande extensão territorial. Neste grande pedaço de terra chamado Brasil há variedade de culturas, crenças, culinária e também de clima. Não foi fácil manter esta unidade territorial e houve uma época em que a mesma esteve seriamente ameaçada. Durante o Primeiro Reinado (1822 - 1831), o Período Regencial (1831 - 1840) e também durante o Segundo Reinado (1840 - 1889), o Brasil correu o sério risco de se desmembrar e formar novos países. Porém, isso não aconteceu porque as rebeliões separatistas foram duramente reprimidas. A Confederação do Equador ocorreu em 1824 em Pernambuco. A Paraíba, o Ceará e o Rio Grande do Norte também aderiram ao movimento. Os revoltosos estavam insatisfeitos e criaram um país independente e republicano. O movimento foi duramente reprimido. A Cabanagem (1834 - 1840) ocorreu no Grão-Pará (região onde atualmente é o Amazonas e o Pará) e foi organizada pelas camadas mais humildes da sociedade. Eles defendiam o fim da escravidão e a redistribuição de terras. A Balaiada (1838 - 1841) ocorreu no estado do Maranhão e também foi organizada pelas massas populares. Índios, escravos e quilombolas aderiram ao movimento e o mesmo chegou ao Piaui. Já a Sabinada (1837 - 1838) ocorreu na Bahia e foi organizada por aristocratas e membros das camadas médias de Salvador. Eles estavam insatisfeitos com as exportações de açúcar e fumo, que estavam enfraquecidas. Proclamaram a república e a independência, mas respeitavam a monarquia. Destaque também para a Revolta dos Malês (1835), ocorrida na Bahia e que foi organizada por escravos muçulmanos e também por negros de diversas etnias. Eles defendiam o fim da escravidão e a tomada do governo. Por fim, neste contexto de revoltas separatistas ocorridas no Brasil, não tem como não falar da Revolução Farroupilha (1835 - 1845). A mesma ocorreu no Rio Grande do Sul e foi organizada por estancieiros gaúchos que estavam insatisfeitos com as exportações de charque e couro, uma vez que os mesmos diziam que tais competiam de forma desleal com o charque e o couro vindos do Uruguai e da Argentina. Eles defendiam o federalismo e depois passaram a defender a separação do estado do restante do país. Neste período, houve outras manifestações em várias regiões do país e as aqui citadas são as mais conhecidas. Todas as revoltas aqui mencionadas foram duramente reprimidas e a unidade territorial do Brasil foi garantida.

A Revolta da Vacina em charge de Leonidas, publicada na revista O Malho no dia 29/10/1904. 

     O golpe militar republicano foi dado no dia 15 de novembro de 1889. Nos primeiros anos da república, houve censura a jornais e perseguição a opositores políticos, uma verdadeira contradição porque república não é nada disso. A Guerra de Canudos (1896 - 1897) ocorreu na Bahia, quando o Brasil já era republicano. A guerra em questão foi um movimento popular sócio-religioso cujo líder era Antônio Conselheiro (1830 - 1897). Tal movimento ocorreu em um contexto onde havia secas cíclicas, latifúndios improdutivos e desemprego crônico, causando uma grave crise econômica. Houve também a Guerra do Contestado (1912 - 1916), ocorrida entre os estados do Paraná e Santa Catarina. A guerra teve sua origem nos problemas sociais causados principalmente pela falta de regularização da posse da terra e da insatisfação da população carente, em uma região onde a presença do poder público era pífia. Houve também revoltas urbanas, como a Revolta da Vacina (1904) e a Revolta da Chibata (1910). A primeira ocorreu por uma boa causa, era uma campanha de vacinação, mas muita gente não sabia o que era vacina, algo que até então era uma novidade. Além disso, a mesma foi aplicada de forma autoritária e violenta. Houve casos em que os agentes invadiam as casas e vacinavam a força aqueles que não queriam se vacinar. Já a segunda foi um motim naval no Rio de Janeiro, então capital do Brasil, ocorrido em novembro de 1910. Os revoltosos queriam o fim das chibatadas como forma de punição para marinheiros negros. Destaque também para as constantes greves nas primeiras décadas do século XX realizada por operários e que tinham um viés anarquista. Exigindo melhores condições de trabalho, os operários fizeram constantes greves nos estados de Rio de Janeiro e São Paulo. A maior e mais conhecida destas manifestações ocorreu em 1917, mesmo ano em que houve a Revolução Russa.

Estudantes, artistas, intelectuais e religiosos fazem manifestação na Avenida Rio Branco, centro da cidade do Rio de Janeiro, contra a ditadura civil-militar implantada em 1964. Este movimento entrou para a história como a Passeata dos Cem Mil. Imagem: Agência O Globo.

     Getúlio Vargas (1882 - 1954) chegou à Presidência da República em 1930 e em 1937 implanta a ditadura do Estado Novo, que durou até 1945. Durante este período, Vargas censurou a imprensa, perseguiu opositores políticos e cassou os direitos políticos do PCB (Partido Comunista Brasileiro), jogando o mesmo na ilegalidade. Pagu (09/06/1910 - 12/12/1962), Olga Benário (12/02/1908 - 23/04/1942), Graciliano Ramos (1892 - 1953) e Nise da Silveira (1905 - 1999) são algumas das muitas pessoas presas durante o governo Vargas por motivações políticas. 19 anos depois do fim da ditadura do Estado Novo, é implantada no Brasil uma ditadura civil-militar que só findou em 1985. Neste período, a imprensa foi censurada e os manifestantes contrários ao regime foram perseguidos implacavelmente, severamente torturados e/ou mortos. Foi um período de intensas manifestações e talvez a mais conhecida de todas seja a Passeata dos Cem Mil, que reuniu cerca de 100 mil pessoas na cidade do Rio de Janeiro que pediam o fim da ditadura. Já em 1992, quando a normalidade democrática retornou no país, houve diversas manifestações organizadas pelos caras pintadas, movimento estudantil que pediu o impeachment de Fernando Collor de Melo, então Presidente da República, após escândalos de corrupção envolvendo seu nome virem à tona.
     Em junho de 2013, manifestações ocorreram em todo o Brasil. Estas manifestações ficaram conhecidas como Jornadas de Junho de 2013. Inicialmente, tais atos pediam a redução do preço do transporte público, mas pautas relacionadas à  educação, a saúde e a corrupção foram incorporadas. Estas mesmas manifestações começaram com um número pequeno de pessoas, mas rapidamente passaram a ter grande adesão, lotando ruas e avenidas de todo o Brasil. Estes movimentos foram bastante diferente das manifestações que até então tinham sido vistas no país. Uma destas diferenças era o uso de celulares com câmera, que denunciaram a violência policial usada nestas mesmas manifestações. Durante este período, se usaram muito a expressão "o Brasil acordou", o que me incomodou bastante. Os que falavam tal coisa  diziam que o país tinha acordado e agora manifestava contra os desmandos dos políticos brasileiros. Esta expressão me incomodou porque ela trazia a ideia de que brasileiro é burro e não gosta de política, só querendo saber de praia, futebol e carnaval. As pessoas que disseram tais coisas certamente não se lembram das aulas de História ou talvez só estivessem destilando o seu preconceito contra a população pobre brasileira. Destaque também para as incontáveis manifestações ocorridas após as Manifestações de Junho de 2013. São greves, manifestação de professores, de estudantes, de médicos, agentes de saúde e trabalhadores terceirizados. Tais são reprimidas de forma brutal pela polícia. E isso sem citar as constantes manifestações pró e contra Lula e Dilma, que ocorrem pelo menos desde 2015.

Em 2015, um carro com cinco jovens negros dentro recebeu mais de 100 tiros que foram dados por policiais. Imagem: Janaína Carvalho/G1. 

      Tem outro fator que também colabora para derrubar o mito de que o Brasil é um país pacífico: o assassinato massivo da população negra brasileira. Se o Brasil é um país pacífico, porque o número de negros assassinados pela polícia é tão alto? Já existem pesquisas que comprovam que o número de mortos no Brasil é igual ou superior ao número de mortes em países onde há uma guerra civil. Vivemos ou não vivemos em uma guerra? E isso sem contar com o aparato bélico da polícia. O armamento por eles usado é de quem está indo para uma guerra. Aliás, os policiais brasileiros enxergam a população como inimigos a serem exterminados, e não como pessoas a quem devem oferecer segurança. No final de 2015, o assassinato de  cinco jovens negros teve grande repercussão. Eram cinco rapazes que estavam dentro de um carro branco. Eles estavam voltando de um passeio a noite quando passaram por uma abordagem policial. Os jovens não estavam armados e nem ofereceram resistência. Ainda assim, foram alvo de 111 tiros vindos de armas potentes. Os tiros foram dados a uma curta distância e a abordagem gerou de críticas até de outros policiais. Além disso, os policiais envolvidos alteraram a cena do crime e correram o sério risco de serem expulsos da corporação. Entretanto, em 2016 os policiais envolvidos no caso ganharam Habeas corpus e respondem pelo crime em liberdade.

Conclusão

     O Brasil definitivamente não é um país pacífico e uma análise histórica confirma este fato. O Brasil é um país de constantes convulsões sociais, fato que ainda é uma realidade no país. É extremamente problemático chamar de pacífico um país com incontáveis manifestações sociais e com uma quantidade tão grande de negros assassinados anualmente. 

10/04/2018

A atualidade das Reformas de Base

João Goulart (1918 - 1976) em foto colorida digitalmente. Imagem: Reprodução. 

     O Golpe Civil-Militar de 1964 havia sido tramado em 1954, mas a morte do então Presidente da República Getúlio Vargas (1882 - 1954) mudou o rumo dos acontecimentos. Ele adiou o golpe, mas não evitou o mesmo. Desta forma, o golpe foi tramado e executado em 1964 e o estopim para o mesmo foram as Reformas de Base, propostas pelo então presidente João Goulart (1918 - 1976). Mesmo sendo propostas há mais de 50 anos atrás, as Reformas de Base ainda são atuais.
     Para situar você, que está lendo este texto neste exato momento, voltarei um pouco no tempo para que você entenda o contexto das Reformas de Base. Em 1950, Getúlio Vargas, que já havia sido Presidente da República entre os anos de 1930 a 1945, volta a ser presidente mais uma vez, só que agora ele é eleito pelas vias democráticas, já que em 1937 houve a ditadura do Estado Novo, que findou em 1945. Os tempos eram outros e uma grave crise política se instaurou em seu governo. Grandes jornais, militares e setores da sociedade civil começaram a tramar para tirar Vargas do poder. A situação se tornou tão delicada que não restou a Getúlio Vargas outra alternativa, a não ser a renúncia. Porém, para não renunciar, Vargas se suicida. Sua morte causa uma comoção nacional. Este cenário adiou a tomada do poder pelos opositores de Vargas. Alguns historiadores são categóricos ao afirmar que Vargas adiou por 10 anos um golpe civil-militar que foi executado em 1964.
     Depois de Vargas, Café Filho (1889 - 1970) e Juscelino Kubitschek (1902 - 1976) assumiram a Presidência da República. Estes presidentes não incomodaram tanto a ponto de serem tirados do poder. Desta forma, a crise que assolou o governo Vargas parecia ter ido para nunca mais voltar. Entretanto, esta ideia caiu por terra quando Jânio Quadros (!917 - 1992) se torna Presidente da República em 1961. Jânio não era de esquerda, mas suas atitudes enquanto presidente começaram a irritar os próprios aliados. Uma destas atitudes foi reatar relações diplomáticas com a URSS e a China socialista. A "gota d'água" foi quando ele condecorou Che Guevara (1928 - 1967) com a Ordem do Cruzeiro do Sul. Nesta época, Che Guevara já era conhecido mundialmente e já era também um símbolo da luta pela igualdade. Além disso, o mundo vivia o auge da Guerra Fria (1945 - 1991) e a Revolução Cubana havia ocorrido em 1959, levando Cuba a  se tornar um país socialista. Diante de tudo isso, a atitude de Jânio foi vista como "esquerdista", embora ele não tivesse nada de esquerda. A crise política de seu governo se tornou ainda mais aguda e, sem maiores explicações, após sete meses de governo, Jânio Quadros renuncia o poder. Quem o substitui na presidência é João Goulart, o vice de Jânio Quadros.

João Goulart ao lado da esposa no célebre Comício da Central do Brasil, em março de 1964. O discurso de Jango foi o estopim para m golpe civil-militar que seria imposto poucas semanas depois. Imagem: Reprodução.

     João Goulart era membro de uma família de ricos fazendeiros gaúchos. Não tinha nada de esquerdista, muito pelo contrário. A questão é que ele não era a favor do capitalismo selvagem, podendo ser classificado como um social-democrata. Classificações à parte, João Goulart acreditava que deveriam acontecer reformas sociais no Brasil. Inclusive, Jango achava que a reforma agrária deveria ser feita no país, mesmo vindo de uma família de latifundiários. João Goulart era herdeiro de uma tradição populista de conciliação entre a burguesia e o proletariado. Desta forma, aceitou o apoio do PSD e PTB e também se aliou aos comunistas e demais setores da esquerda. Entretanto, os tempos eram outros. As contradições sociais eram muito fortes e a luta de classes era acirrada. Não havia a possibilidade de conciliação em um contexto como esse. Foi neste contexto que João Goulart começou a falar em Reformas de Base.
     As Reformas de Base eram profundas mudanças na sociedade sugeridas pelo então presidente João Goulart. Eram reformas que visavam uma mudança profunda na sociedade, mas ao mesmo tempo sem alterar a estrutura da mesma. As Reformas de Base abrangiam vários setores da sociedade. Tais reformas sugeriam a reforma agrária, uma vez que naquele tempo (hoje em dia não é muito diferente) extensões gigantescas de terras ficavam na mãos de poucos e os mesmos nada plantavam na mesma, ao mesmo tempo em que milhares de famílias camponesas passavam fome por não ter o que comer. Havia também a reforma urbana, onde os valores dos aluguéis dos imóveis seriam controlados e facilitaria os inquilinos na compra da casa própria. As Reformas de base tinham um caráter nacionalista, uma vez que o objetivo era proibir que empresas estrangeiras operassem em setores como energia elétrica, frigoríficos, indústria de remédios, refinarias de petróleo e o ramo da telefonia por exemplo. A reforma da educação era outro ponto importante. Naquela época, havia a necessidade de mais escolas e universidades públicas que oferecessem um ensino de qualidade. E mais: os estudos deveriam ser voltados para os problemas do Brasil, ao invés de copiar modelos estrangeiros, como era feito até então. Era necessário parar de copiar o que vinha de fora do país e pensar de forma brasileira os problemas nacionais. A reforma política era outro ponto das Reformas de Base. O objetivo era dar direito de voto para analfabetos, sargentos e patentes inferiores das Forças Armadas. Como já foi dito aqui, João Goulart não era de esquerda e nem queria que o comunismo fosse o novo modelo de governo do Brasil. Na verdade, Jango estava propondo um novo tipo de desenvolvimento capitalista nacional. A questão é que as reformas em questão ameaçavam os privilégios de muita gente. Além disso, o mundo vivia o auge da Guerra Fria e a Revolução Cubana, ocorrida em 1959, assombrava muita gente. João Goulart estava determinado a aprovar as Reformas de Base e anunciou isso em um comício realizado na Central do Brasil (estação de trens que fica no centro da cidade do Rio de Janeiro) no dia 13 de março de 1964. Jango foi acusado de querer fazer do Brasil um país comunista e aqueles outros xingamentos que são feitos aos esquerdistas. No dia 01 de abril de 1964, Jango foi derrubado e teve início uma ditadura civil-militar que só findou em 1985.

Os governos de Lula (2003-2010) e os governos de Dilma Rousseff (2011-2016) melhoraram a condição de vida dos mais desfavorecidos, mas não foram a fundo nas transformações sociais. Imagem: Divulgação/PT. 

     A questão é que as Reformas de Base continuam sendo bastante atuais, pelo menos em partes. A ditadura civil-militar brasileira que durou 21 anos, bem como os presidentes que a sucederam (a saber: José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e FHC) não se mostraram nem um pouco interessados em colocar as Reformas de Base em debate. Muito pelo contrário. Os governos aqui citados atenderam muito bem aos interesses da elite brasileira.
      Quando Lula se tornou Presidente da República (o mesmo foi eleito em 2002 e reeleito em 2006), o mesmo realizou muitos atos que beneficiaram os desfavorecidos. Os mais pobres puderam comprar suas casas, reformar as mesmas, comprar automóveis, andar de avião e adquirir bens que outrora não podiam comprar. Além disso, tanto no governo Lula, como também no governo Dilma, foram criados programas que possibilitaram aos mais pobres o ingresso no ensino superior e o ingresso em universidades estrangeiras. É fato que os feitos realizados na Era PT (2003 - 2016) foram substanciais e ajudaram bastante os desfavorecidos. Entretanto, foram mudanças superficiais. Nem Lula e nem Dilma aprofundaram as mudanças sociais por eles implementadas. Assim como os presidentes anteriores, Lula e Dilma em nenhum momento falaram em Reformas de Base. Os feitos dos dois presidentes em questão são notórios e devem ser reconhecidos, mas foram ações paliativas. A luta pela reforma agrária ainda é uma realidade no Brasil e em nome da mesma muita gente já foi morta. Comprar casa é algo muito difícil no país, principalmente no Rio de Janeiro, que depois de sediar tantos mega-eventos, o preço dos imóveis e o custo de vida são astronômicos. A direita brasileira se diz nacionalista, mas na prática é entreguista. A Operação Lava-Jato e demais operações cuja finalidade é prender os corruptos (pelo menos, é isso o que deveria acontecer), pelo modo como são conduzidas, simplesmente estão quebrando as indústrias brasileiras, que se veem obrigadas a realizar demissões em massa, veem o seu valor despencar no mercado e tomam prejuízos milionários (em alguns casos, o prejuízo chega na casa dos bilhões). Uma vez que as empresas brasileiras estão destruídas, entram em cena as empresas estrangeiras, criando uma concorrência desleal que no fim beneficia as empresas transnacionais. No campo educacional, os professores são desvalorizados e ganham baixos salários. Em escolas públicas de todo o país, faltam professores, água e luz elétrica por exemplo. A Reforma do Ensino Médio, que, segundo o governo, vai melhorar o ensino, é na prática, na opinião de alguns, um passo rumo a privatização do ensino público. A reforma política é necessária no país para o fortalecimento das instituições democráticas, mas isso ainda não aconteceu. As minorias praticamente não são representadas no Congresso Nacional, prefeitos, vereadores e suplentes são assassinados em pleno exercício de mandato e parte considerável da população não sabe a função de cada político (vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, governador, senador e presidente).

Conclusão

     Os tempos são outros e é fato que o Brasil não é o mesmo de 54 anos atrás, quando João Goulart anunciou as Reformas de Base. Entretanto, ao analisar as mesmas, é possível chegar a conclusão que tais ainda são atuais, mesmo tendo sido pensadas há mais de 50 anos atrás. Para o Brasil ser de fato uma sociedade igualitária, uma mudança profunda deve acontecer. Medidas paliativas não devem mais acontecer porque a História mostra que elas podem dar certo em dado momento, mas depois se tornam ineficazes.
     

29/03/2018

Igrejas orgânicas: uma alternativa ao cristianismo institucional

Imagem: Reprodução.

     O cristianismo institucional não é uma instituição perfeita. Tem sua base bíblica, mas pelo fato de ser criado por homens, não é perfeito. As críticas ao cristianismo institucional são infindáveis e, por conta disso, muitos acabam se afastando da fé. Muitas destas pessoas que criticam o cristianismo institucional acabam encontrando nas igrejas orgânicas o espaço ideal para se reunir com os demais crentes.
     Chamo de cristianismo institucional aquele movimento de caráter cristão que está organizado com seus templos, com um figura central como líder, com normas próprias e organização própria também. Pelo fato de ser criado por homens e nada que o homem faz é perfeito, ainda que seja para a glória de Deus, o cristianismo institucional tem muitas falhas. Mundo afora, muitas igrejas institucionais possuem casos de adultério, pornografia, lavagem de dinheiro, roubo, teologia da prosperidade (coisa que não tem base bíblica), indulgências do século XXI (frasco com água do Rio Jordão, lenço com poderes curativos, pedras vindas de Israel, réplica da Arca da Aliança (?) e por aí vai), disputa de cargos, nepotismo e guerras entre ministérios diferentes por exemplo. Alguns destes casos vieram a tona, outros não e outros ainda continuam a acontecer. Não é difícil encontrar tais problemas em uma instituição cristã. Basta conversar com alguém que já frequentou uma igreja ou até mesmo fazer uma rápida procura aqui no Google. Você vai encontrar casos como os que foram aqui citados e muitos outros.
     Eu, particularmente, tenho muitas críticas à Assembleia de Deus. Como já falei aqui em outros momentos, costumo usar a AD como ponto de partida porque, além de ter frequentado a mesma por mais de 10 anos, eu estudo a história da maior denominação evangélica do país. Considero a AD uma igreja bastante autoritária em sua organização, onde uma só pessoa costuma dar a palavra final e a mesma na maioria das vezes não tolera vozes contrárias. Além disso, a AD é uma igreja extremamente machista. O ministério das mulheres é limitado ao máximo nesta denominação. Há também a hierarquização e a obrigatoriedade do dízimo, coisas eu também não concordo. Foi por essas e outras que eu saí desta denominação. Eu já falei sobre este assunto aqui.

Interior do templo central da Assembleia de Deus em Belém do Pará. A igreja é considerada a mãe das Assembleias de Deus no Brasil. Imagem: Reprodução. 

      Nos últimos tempos, a crença evangélica tem alcançado patamares muito altos. Atores, cantores e jogadores de futebol por exemplo têm se declarado evangélico. Por outro lado, da mesma forma em que há um grande número de pessoas se declarando evangélicas, há também um número muito grande de pessoas que têm abandonado a fé evangélica. Cantores e atletas por exemplo já disseram em inúmeras entrevistas que em dado momento de suas vidas já foram adeptos da religião evangélica. Eu também já falei sobre este assunto aqui. Já conversei com inúmeras pessoas que abandonaram a fé cristã a fim de entender as razões que as fizeram abandonar a religião. Algumas pessoas me confessaram que não queriam abandonar a fé, mas pelo fato de não se enquadrarem no perfil de um "bom cristão" segundo os parâmetros de alguma denominação, muitos acabaram saindo. São estrangeiros que estão com saudade de sua pátria.
     Igrejas orgânicas são aquelas igrejas que não se assemelham ao cristianismo institucional. As pessoas que são adeptas deste tipo de igreja podem até se reunir em galpões ou similares, mas as reuniões costumam acontecer mesmo na casa de algum fiel. Esta igreja não costuma seguir uma doutrina fixa, vamos assim dizer. Os membros de tal igreja costumam ser das mais diversas vertentes do cristianismo. Me lembro que há cerca de um ano e meio atrás eu fui em uma reunião desta dita igreja orgânica. Ali havia eu, que vim de uma vertente pentecostal, um luterano, um metodista e alguns católicos. Nestas reuniões se falam de Jesus, não de religião. Atualmente, nas reuniões que tenho frequentado há um de matriz pentecostal, um luterano e duas católicas. Tais reuniões costumam haver cânticos, orações, leituras da Bíblia e em algumas têm até Santa Ceia. Já nas reuniões que frequento, além de haver tudo isso, a gente também costuma falar de política, religião e comportamento por exemplo. Creio que somos peregrinos nesta terra (I Pedro 2: 11), mas enquanto estivermos neste mundo, cuidemos das coisas deste mundo. 

Imagem: Reprodução.

     As igrejas orgânicas são uma opção para aquelas pessoas que creem em Deus, mas não se encaixam no padrão de "bom cristão" defendido pelas igrejas, uma vez que em uma igreja orgânica não há uma vertente cristã definida, mas sim a reunião de várias vertentes. Eu, particularmente, não gosto de religião. Costumo dizer que tenho fé. Não gosto de religião porque ela poda o ser humano. Quando eu frequentava a Assembleia de Deus, eu fui recomendado a não ler Harry Potter, a não expressar minha opinião sobre política e a não expor minhas críticas ao cristianismo. Acho que se eu estivesse lá até hoje, eu não seria nem metade do que sou hoje. O Evangelho é liberdade, mas não confunda liberdade com libertinagem.
     Além disso, as igrejas orgânicas são uma alternativa a aquelas igrejas grandiosas compostas por milhares de membros. Em igrejas assim, a tendência é uma parte dos membros ficarem abandonados porque, uma vez que o número de membros é grande, certamente nem todos receberão a devida atenção. Vale destacar neste contexto as chamadas células (que em nada tem a ver com o Movimento G12, movimento polêmico que incluía até hipnose para voltar ao passado afim de curar traumas passados. A polêmica aumentou porque os participantes deste encontro não podiam falar para ninguém o que se passava nas reuniões), que são pequenos grupos que costumam atuar em grandes denominações para que todos os membros recebam a devida atenção. Ainda assim, o desencanto com a instituição cristã tem crescido consideravelmente nos últimos tempos.

Conclusão

     As igrejas orgânicas são assim chamadas porque não se enquadram no padrão de organização do cristianismo institucional. Tais até podem se reunir em um galpão, mas é mais comum as reuniões serem realizadas na casa de alguém. Nestas reuniões costumam haver salmos e cânticos, além da discussão de outros assuntos. Pelo fato de não ter uma vertente definida e reunir várias correntes, as igrejas orgânicas costumam ser uma boa opção para aquelas pessoas que, por inúmeras razões, abandonaram o cristianismo institucional e não se identificam com o mesmo. 

27/03/2018

9 fatores que revelam a fragilidade da democracia brasileira

Imagem: Reprodução.

     A democracia brasileira é frágil e isso não vem de hoje, embora a república seja o regime político do Brasil desde 1889. Entretanto, a democracia do país possui algumas práticas que, embora sejam naturalizadas, não deveriam existir se a democracia fosse de fato algo consolidado e aplicado em sua totalidade no Brasil. Abaixo, eu listei nove motivos que fazem a democracia no Brasil ser algo frágil. Confira:

1 - Famílias que se perpetuam na esfera política há gerações:

Aécio Neves ao lado do avô Tancredo Neves (1910 - 1985). Imagem: Reprodução.

     Nas esferas municipais, estaduais e federais, algo que é comum em praticamente todo o país é a presença de filhos de políticos na política. Algumas famílias estão no poder há gerações. Eles estão ali com a única finalidade de garantir os direitos de suas respectivas famílias, além de criarem privilégios em benefício próprio.

2 - Bancada evangélica em um Estado laico: 

Membros da bancada evangélica durante culto. Imagem: Frente Parlamentar Evangélica/Divulgação. 

     Teoricamente, a religião foi separada do Estado após o golpe militar republicano em 1889, uma vez que até então o catolicismo era a religião oficial do Império do Brasil. Entretanto, na prática o catolicismo continuou sendo a religião de maior influência no país. Nas últimas décadas, o número de evangélicos no país tem aumentado e isso se reflete na política, com a presença da bancada evangélica no Congresso Nacional. Esta bancada não tem muita coisa a fazer, a não ser controlar o corpo alheio (são contra a união de pessoas do mesmo sexo, aulas de educação sexual, aborto e liberação das drogas por exemplo). A bancada evangélica não faz um projeto que propõe a redução da desigualdade social, não propõe um maior investimento em saúde e educação ou coisa parecida. Eles reproduzem o sistema vigente no Brasil.
      Além disso, a bancada evangélica é uma ameaça a democracia brasileira, já que estamos falando de um país laico que é o Brasil, pelo menos na teoria. O discurso de ódio da bancada evangélica contribui para que os índices de assassinatos de LGBTs e feminicídio sejam tão altos.

3 - Pouca representatividade das minorias no Congresso:

Observe a quantidade de homens e mulheres no Congresso Nacional. Quem está em maior quantidade? Imagem: Reprodução. 

     As mulheres são a maioria do eleitorado, os negros são a maioria da população e o movimento LGBT tem ganhado muita força nos últimos anos. Em um país que se apresenta como democrático, o mais lógico seria estes grupos citados estarem devidamente representados na esfera política. Porém, não é isso o que acontece na prática. O Congresso Nacional brasileiro é masculino, branco, conservador e cristão. Não é preciso dizer que o Congresso do país não representa a sociedade brasileira. 

4 - Assassinato de vereadores, prefeitos e suplentes em pleno exercício de mandato:

A morte de Marielle Franco, no último dia 14/03, teve repercussão internacional. Imagem: Reprodução. 

     No dia 14/03/2018, Marielle Franco foi brutalmente executada no centro da cidade do Rio de Janeiro. O acontecido teve grande repercussão nacional e também internacional por conta das pautas que Marielle defendia, bem como o seu futuro promissor na política brasileira. Marielle não foi a primeira e nem a última vereadora em exercício de seu mandato a ser executada. Cerca de três dias após seu assassinato, foi executado em Magé, cidade do estado do Rio de Janeiro, o suplente de vereador Paulo Henrique Dourado Teixeira, de 33 anos. Ele era do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Desde 2014 que pelos menos 24 lideranças políticas foram assassinadas no Brasil. Tais lideranças defendiam a causa quilombola, indígena, o Meio Ambiente, os direitos LGBTs e a reforma agrária por exemplo. Além disso, o Brasil é o país das Américas onde mais se mata pessoas que defendem os Direitos Humanos, o Meio Ambiente e as demais pautas aqui citadas. Tais mortes revelam a fragilidade do sistema político brasileiro e remete aos tempos da República Velha, onde as execuções de desafetos políticos eram banais.

5 - Sucessivos golpes ao longo da República:

Getúlio Vargas instaurou a ditadura do Estado Novo, que começou em 1937 e durou até 1945. Imagem: Reprodução. 

     A república do Brasil é marcada por sucessivos golpes. A república foi imposta no Brasil por meio de um golpe, o chamado golpe militar republicano, em 1889. Além disso, os primeiros anos da república no Brasil foram similares aos de uma ditadura: censura a opositores, militares no poder e repressão a manifestações. Já em 1937, o então Presidente da República Getúlio Vargas (1882 - 1954), que havia chegado à presidência em 1930, instala a ditadura do Estado Novo, que durou até 1945. Ele retomaria o poder em 1950, mas desta vez foi pelas vias democráticas. Em 1954, uma grave crise atinge seu governo e o mesmo comete suicídio. Já em 1964, quase vinte anos desde o fim da ditadura do Estado Novo, uma ditadura militar com o apoio de alguns setores da sociedade civil instalam uma ditadura que chegou ao fim em 1985. O próximo golpe de nossa república aconteceu em 2016, mas vou falar dele no tópico seguinte.

6 - Golpe parlamentar/Judiciário/midiático de 2016:

Dilma Rousseff foi a primeira mulher a chegar à Presidência da República do Brasil. Imagem: Reprodução. 

     Desde 1989, quando houve as primeiras eleições diretas para Presidente da República desde o fim da ditadura, que o Brasil procurou viver uma normalidade democrática. As eleições ocorriam de tempos em tempos e os brasileiros escolhiam seus governantes. Parecia que as ditaduras haviam ficado no passado, sendo registrada nos livros e estudadas nas aulas de História. Entretanto, o golpe que afastou Dilma Rousseff do poder mostrou que a a república brasileira ainda é errante. Ao contrário do que houve em outras ditaduras, o golpe que tirou Dilma do poder contou com o apoio do Judiciário, de um Congresso corrupto e de uma mídia golpista. Os militares não tiveram participação neste golpe. Dilma foi eleita democraticamente pela vontade popular e não havia nada que justificasse o seu afastamento da Presidência. Entretanto, tudo isso foi ignorado e Dilma foi afastada. E tem mais: algumas pessoas que pediram o afastamento de Dilma estão envolvidas em escândalos de corrupção. Estas sim deveriam ter sido afastadas do poder.

7 - Monopólio da mídia:

Ilustração mostrando como funciona a monopólio da mídia. Imagem: Reprodução.

     No Brasil, algumas poucas famílias detêm os grandes meios de comunicação. Eles têm canais de televisão, estações de rádio, jornais, revistas e portais na internet por exemplo. E o que se vê no final é um número muito pequeno de pessoas controlando a maior parte da comunicação no Brasil. Além disso, estes grandes meios de comunicação estão a serviço do capital. No passado, esta mídia hegemônica apoiou o golpe civil-militar de 1964, a campanha eleitoral de Fernando Collor em 1989 e a campanha eleitoral de Aécio Neves em 2014 por exemplo. É uma mídia a serviço do capital e não há nenhum pudor em esconder isso. Alguns portais de comunicação até esquecem as regras do bom jornalismo em nome da propaganda política. O monopólio da mídia é uma verdadeira ameaça a democracia.

8 - Ignorância política de parte considerável da população: 

Imagem: Reprodução.

     No Brasil, grande parte da população não tem conhecimento de política. Não entendem como funcionam as coligações, não analisam as propostas dos seus candidatos e até mesmo não se lembram de quem votou depois de um tempo. É preciso tomar cuidado para não chamar a população de "burra", "dorminhoca" ou coisa parecida. A população sabe o que está bom e o que não está e não preciso ir muito longe para chegar a esta conclusão. Basta você conversar com uma babá, diarista, porteiro e motorista por exemplo para chegar a esta conclusão. Entretanto, o que falta é um entendimento sobre como funcionam as esferas de poder. Já vi pessoas cobrando do Presidente da República uma obrigação que é do prefeito. Além disso, já vi gente também votar em um governador de um partido e na hora de votar para deputado estadual, votar no candidato da oposição. E não tem como citar as eleições para prefeito e vereador de 2016. Na cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB) e Marcelo Freixo (PSOL) foram para o segundo turno. Disseram coisas completamente sem nexo sobre o Freixo. Diziam que ele iria liberar o aborto, as drogas, que iria tirar os presos das cadeias e obrigaria as crianças a mudarem de sexo. Além de serem coisas sem lógica alguma, os supostos atos de Freixo estão muito além de sua alçada. Ele estava se candidatando à prefeitura de uma cidade, e não disputando a Presidência da República. E as obrigações de um prefeito são: cuidar das escolas municipais, das escolas municipais, das creches, do transporte público e saneamento básico por exemplo. Esta confusão dos cargos se deve a ignorância política, mas também as inúmeras ditaduras que a democracia brasileira já sofreu, onde o poder costuma ficar nas mãos de uma única pessoa. 

9 - Corrupção na esfera política: 

Imagem: Reprodução.

     A corrupção na política brasileira é uma prática histórica, endêmica e estrutural. Graças ao dinheiro de obtido de forma ilícita, políticos foram eleitos e também tirados de seus respectivos cargos. O desvio de verbas que são destinadas a saúde, a educação e ao transporte público é algo mais comum do que se possa imaginar. A corrupção é uma das estruturas da política brasileira. 
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