19/09/2017

A perseguição midiática sofrida por Pabllo Vittar

Pabllo Vittar. Imagem: Reprodução/Jornal O Globo. 

     Pabllo Vittar é uma drag queen brasileira que tem feito um sucesso estrondoso nos últimos anos por conta de suas músicas. Assim como qualquer celebridade e qualquer pessoa em geral, ela não tem agradado todo mundo. E o curioso é que parte (ou talvez a maioria) destes ataques são executados por jornalistas homossexuais, pessoas que, pelo menos em tese, por conta da sororidade, deveriam ser os primeiros a apoiarem a Pabllo.

Pabllo Vittar em início de carreira. Ela foi infectada pelo "Ryca Vírus". Imagem: Reprodução. 

     Pabllo Vittar é uma drag queen maranhense que é cantora e compositora. É a mais nova de três irmãs, sendo uma sua irmã gêmea fraterna. Veio de uma família humilde, foi criada pela mãe e não conhece o pai, que abandonou sua mãe quando esta estava grávida de Pabllo e sua irmã. Começou sua carreira cantando em festas de família e na escola, chegando a fazer parte de um coral de uma igreja católica. Mais tarde, começou a se apresentar em casas noturnas e a participar de concursos musicais. O cachê era pequeno e não era um trabalho profissional. Pabllo chegou a ser aprovado para o curso de Design da Universidade Federal de Uberlândia, mas por conta de sua agenda de shows, que se tornou mais intensa por conta da divulgação de seus vídeos musicais na internet, trancou a matrícula. A fama nacional veio em 2015, com a música Open Bar, uma releitura da canção Lean On de Major Laser em parceria com a . Esta mesma fama foi coroada com a contratação de Pabllo por parte da TV Globo para ser a vocalista da banda do programa Amor & Sexo, substituindo Léo Jaime na temporada de 2016. Dentre as músicas de Pabllo Vittar, as mais conhecidas são: K.O., Corpo Sensual (em parceria com Mateus Carrilho), Decote (em parceria com Preta Gil), Todo Dia (em parceria com Rico Dalasam) e, talvez, o seu maior sucesso, Sua Cara (em parceria com Anitta e Major Lazer).


Pabllo Vittar, Diplo (criador e integrante do grupo Major Lazer) e Anitta. Imagem: Reprodução.

     Pouco tempo após a divulgação do clipe da música Sua Cara, o blogueiro norte-americano Perez Hilton divulgou o vídeo em sua conta no Twitter. Entretanto, ele só marcou Anitta e Diplo, ignorando propositalmente Pabllo Vittar. Indagado e criticado por muitas pessoas, inclusive pelo próprio Diplo, Perez Hilton disse que não marcou a Pabllo de propósito porque simplesmente não fala dela em seu blog. Esta é uma atitude no mínimo sem fundamento, uma vez que Pabllo e Perez não se conhecem pessoalmente. Esta atitude de ignorar Pabllo Vittar não foi algo praticado apenas por uma celebridade estrangeira. Aqui no Brasil, durante uma coletiva de imprensa sobre o lançamento do clipe em questão, o jornalista Amin Khader estava entre Pabllo e Anitta para entrevistar as duas. Entretanto, ele ficou de costas para Pabllo e só entrevistava Anitta, que fazia questão de incluir Pabllo em suas respostas. Visivelmente incomodada, Anitta pegou Amin pelos braços e o colocou em uma posição de modo a não ficar de costas para Pabllo Vittar. O fato teve grande repercussão e em pronunciamento sobre o fato, Amin disse que gosta de entrevistar as pessoas olhando nos olhos das mesmas e foi por isso que ele ficou de costas para Pabllo.





     Os ataques sofridos por Pabllo Vittar não param por aí. O que muda é o modo como estes ataques acontecem. Alguns jornalistas, ao invés de ignorarem Pabllo, como alguns já fizeram, procuram a todo instante questionar seu talento. Felipeh Campos, um dos jornalistas que trabalham com Sonia Abrão no A Tarde é Sua, da Rede TV!, disse certa vez que Pabllo está tendo ataques de estrelismo, se recusando a tirar fotos com fãs e não dando muita atenção aos mesmos. Na mesma ocasião, ao saber que a drag queen estaria sendo sondada para apresentar um programa de televisão, Felipeh disse que no momento ela não estaria preparada para isso, uma vez que seria difícil compreender o que a mesma fala. Leo Dias, em sua conta no Twitter, disse que Pabllo se recusou a falar com a imprensa na comemoração do aniversário da revista Cosmopolitan, onde a drag fez um show ao lado de Preta Gil. Leo Dias completou dizendo que "ela precisa de um choque de realidade urgentemente".
     O que chama a atenção é que todos os jornalistas aqui citados que criticaram Pabllo Vitar (a saber: Perez Hilton, Amin Khader, Felipeh Campos e Leo Dias) são sem exceção homossexuais. Este é um fato no mínimo curioso, uma travesti ser constantemente atacada por gays, pessoas que pelo menos teoricamente deveriam apoiá-la em primeiro lugar. Isso porque a LGBTfobia é uma realidade mundo afora, inclusive no Brasil. Com o estrelato de Pabllo, a causa LGBT ganha visibilidade e a drag queen acaba se tornando uma referência para muita gente, especialmente para as novas gerações. É incrível o sucesso que Pabllo faz entre a garotada. Entretanto, nem todo mundo pensa desta forma e, ao invés de somar na luta contra o preconceito, acabam tentando silenciar Pabllo e questionar seu imenso talento a todo instante.
     Não estou dizendo que Pabllo Vittar é isento a críticas, pelo contrário. Não estou dizendo também que uma pessoa deve apoiar a outra apenas baseada na sororidade. Se uma celebridade cometeu uma falha dentro ou fora de sua esfera profissional, isso deve ser dito. A questão é que é no mínimo curioso uma drag queen ser atacada a todo instante por jornalistas homossexuais, pessoas que em tese deveriam apoiá-la. Inveja do sucesso de Pabllo? Transfobia? Sim, por mais contraditório que possa ser, um homossexual pode ser transfóbico, manifestando tal preconceito por meio de palavras, gestos e atitudes como as aqui citadas por exemplo.

Conclusão

     Não há uma razão clara para o modo descrito no texto acerca do tratamento reprovável dado a Pabllo Vittar por jornalistas homossexuais. Se as razões para isso não são claras, o que é claro é que tentam silenciar Pabllo a todo instante e o seu talento é posto em dúvida por estes mesmos profissionais da comunicação a todo momento. Mesmo passando por situações como as aqui descritas, a carreira de Pabllo Vittar continua em plena ascensão, dando vôos cada vez mais altos. 

12/09/2017

A narrativa oficial contada nos quadros

Pintura Independência ou Morte, de Pedro Américo (1843-1905). A obra foi encomendada pela Família Real brasileira mais de 60 anos após a independência do Brasil. Imagem: Reprodução.

     A arte, em especial as pinturas, podem ser usadas para as mais diversas finalidades. Muitos quadros que reproduzem determinados fatos históricos foram pintados em diferentes épocas e na maioria dos casos não são fiéis ao que de fato aconteceu.
      A relação entre arte e política é mais estreita do que se imagina e um texto de blog é pouco para abarcar a totalidade deste assunto. O diferencial da arte é que a mesma permite a liberdade de criação, dando espaço para a ficção. Entretanto, nada impede que a arte seja usada como protesto. Ao longo da história, músicas, poesias, histórias, crônicas, quadros e charges por exemplo foram usados como instrumentos de contestação política.
    A arte também pode ser usada para a legitimação de narrativas históricas oficiais, exaltando personagens e determinados fatos históricos. Muitos quadros que são reproduzidos incansavelmente em salas de aula e livros didáticos foram encomendados para legitimar um fato histórico que beneficiasse determinado grupo social. Ao contrário do que muitos podem pensar, estes quadros não foram produzidos no calor da emoção. Até porque pintar um quadro era (e ainda é) muito trabalhoso para serem produzidos na base do sentimento. Isso porque estes quadros não são pequenos. Além disso, por conta dos muitos detalhes, tais exigem uma grande variedade de pincéis, tintas e demais instrumentos necessários para pintar um quadro. E isso demanda dinheiro. Muito dinheiro. É por isso que só quem tinha posses poderia se dar ao luxo de ter um quadro para chamar de seu.
      O quadro que abre este texto é intitulado Independência ou Morte, de Pedro Américo (1843-1905). É um dos quadros mais famosos do país e é reproduzido incansavelmente em livros didáticos. Quem não fez História, acredita que a independência do Brasil se deu da forma como foi pintada por Pedro Américo. Entretanto, quem fez ou faz graduação em História, sabe que não é bem assim que a história aconteceu. A geografia retratada na foto não condiz com a real geografia do lugar onde teria acontecido o grito do Ipiranga e o uniforme dos soldados que estão com D. Pedro I (1798-1834) não é o uniforme que eles usavam na época. Além disso, no senso comum se acredita que o Brasil só passou a existir enquanto nação após este episódio, que teria acontecido do nada. Porém, o processo de independência do Brasil estava acontecendo há muitos anos, desde pelo menos 1808, quando a Família Real portuguesa e sua corte vieram para a cidade do Rio de Janeiro, elevando o Brasil a condição de Reino Unido de Portugal e Algarves. Entretanto, os erros no quadro em questão podem ser explicados se atentarmos para o contexto em que o mesmo foi produzido. O quadro foi encomendado pela Família Real brasileira a Pedro Américo, que finalizou o mesmo em 1888, na Itália, 66 anos após a independência ser proclamada. A crise que culminaria no golpe militar republicano no ano de 1889 era aguda em 1888 e a encomendação do quadro em questão foi feita a fim de aumentar a baixa popularidade da monarquia brasileira, recorrendo a um ato que foi retratado de forma heroica.

A Ilusão do Terceiro Reinado, popularmente conhecido como o Último Baile do Império, é um óleo sobre tela de Aurélio de Figueiredo (1856-1916). Imagem: Reprodução. 

     O baile da Ilha Fiscal, que acabou entrando para a história do país como o símbolo da melancólica despedida da monarquia, foi na verdade uma festa para homenagear a oficialidade chilena que havia aportado na cidade do Rio de Janeiro a bordo do encouraçado Almirante Cochrane, que era comandado por Constantino Banen. Entretanto, este baile, que ocorreu no dia 09 de novembro de 1889, seis dias antes do golpe militar republicano, ocorrido em 15 de novembro de 1889, entrou para a história e para o imaginário popular como o "último baile do Império". Este episódio foi apropriado pelo período republicano como uma espécie de despedida da monarquia. Uma das mais expressivas imagens dessa comemoração e de seu significado político ficou registrada na tela do artista Aurélio de Figueiredo, de 1905. Intitulada "A Ilusão do Terceiro Reinado", popularmente conhecida como o "Último baile da Ilha Fiscal (ou do Império)", a tela de Figueiredo foi feita já no período republicano. Na tela, estão pintados personagens importantes da política brasileira, inclusive a Família Real, que se despede educadamente do baile para dar lugar a república, que surge ao longe no céu com a bandeira do país. A monarquia e seus símbolos estão ali no céu imponentes, mas logo sairá de cena para dar lugar a república.

Conclusão

     Muitos quadros que representam determinados períodos da história foram pintados anos depois de tal episódio. Além disso, os mesmos servem para legitimar uma determinada narrativa histórica. Muitas pinturas são usadas para este fim e as aqui citadas são apenas dois exemplos. Estas obras são reproduzidas incansavelmente em livros didáticos. Não estou dizendo que isso não deve ser feito, só que antes de tudo as devidas observações devem ser feitas. 

07/09/2017

A romantização da escravidão

Adolescentes vestidos de escravos durante atividade escolar. Imagem: Reprodução Facebook.

     A escravidão dos negros africanos é um período tenebroso da história do Brasil e mudou o mundo para sempre. Pelo fato de ter sido algo extremamente doloroso cujos efeitos ainda não foram eliminados, é no mínimo infelicidade querer romantizar esse período.
     A prática da escravidão existe muito antes da vinda de Cristo à terra. Ela existiu em várias regiões do Mundo Antigo e era aplicada na quitação de dívidas ou quando uma tribo era derrotada. Inclusive, a escravidão é narrada em vários textos bílicos. A tribo de Israel foi escrava em diversos momentos. Aliás, na abertura do Mar Vermelho, uma das mais conhecidas passagens da Bíblia, o povo de Israel foi liberto da escravidão depois de mais de 400 anos convivendo debaixo deste julgo praticado por um faraó. Quando o povo estava no meio do caminho, faraó foi atrás para reescravizar o mesmo, que por sua vez tinham a frente o Mar Vermelho. Eles não tinham saída: atrás estava faraó com seus homens e na frente estava o Mar Vermelho. Foi quando o impossível aconteceu: o mar se abrir e as águas eram como paredes. Quando o povo passou, os cavaleiros de faraó foram atrás, mas as águas voltaram a seu estado normal e não sobreviveu uma alma para contar a história. 

Mapa mostrando o destino dos africanos escravizados. A maioria deste contingente veio para o Brasil. Imagem: Reprodução. 

     A prática da escravidão já existia em algumas regiões da África, onde a tribo vencedora escravizava a tribo perdedora em uma batalha (há quem diga que isso nunca aconteceu, mas aí é outra história). Os europeus chegaram e se aproveitaram destes conflitos para lucrar. Desta forma, muitos líderes tribais negociaram os escravos com os europeus. Entretanto, ninguém esperava o que estava por vir. A escravidão africana mudou para sempre a configuração do mundo e refletiu na cultura, política e economia de várias regiões mundo a fora. Estes africanos foram arrancados de sua terra, de sua família, de seus amigos e eram reis, nobres e pessoas da alta sociedade que foram relegadas a condição de escravo. Uma vez na diáspora, estes africanos escravizados foram impedidos de falarem sua língua, praticarem seus costumes, exercerem sua crença e foram, como já dito, separados de seus familiares. Foram forçados a trabalhar exaustivamente quase vinte horas por dia, sofreram os piores castigos físicos (o chicote é nada se comparado a outras formas de agressão física), foram abusados sexualmente, tiveram filhos resultantes de estupros, não havia uma lei que os amparasse... foram postos a uma posição pior do que o objeto, pois o objeto você cuida, coisa que não foi feita com os escravos. Os escravizados experimentaram dores indescritíveis. 

Em 2016, uma coleção de roupas da rede de lojas Maria Filó causou polêmica ao lançar blusa com desenhos de negros escravizados. Imagem: Reprodução Facebook.

      Entretanto, mesmo com o fato de a escravidão ter sido um horror, há pessoas que romantizam a mesma. Em 2016, a coleção da rede de lojas Maria Filó causou polêmica ao exibir blusas com estampas de negros escravizados. A recepção foi negativa e a marca foi acusada de fazer apologia a escravidão e ao racismo. Em comunicado, a Maria Filó disse que a estampa buscou inspiração na obra de Debret e que em nenhum momento quis ofender. A estampa foi retirada de circulação. Em agosto de 2017, um amigo meu postou em sua página pessoal no Facebook uma foto printada onde uma pessoa fotografou crianças na faixa dos 10 anos de idade com os rostos pintados de preto ao lado de um copo de caldo de cana com a seguinte legenda: "Hoje nosso trabalho foi muito prazeroso! A turma do 4º ano aprendendo sobre os engenhos de açúcar e a importância da mão de obra escrava nas lavouras de cana". Provavelmente, até por conta da idade, não foi contado a estas crianças que os escravos trabalhavam até 18 horas por dia, se alimentavam mal, dormiam mal, viviam mal e pouco e sofriam todo tipo de castigo físico, verbal e psicológico. Vejam a imagem abaixo:

Mulher que não teve a identidade revelada romantizando o trabalho escravo nas lavouras de açúcar do Brasil colonial, chegando ao cúmulo de pintar o rosto das crianças de preto. Imagem: Reprodução Facebook

      A imagem que abre este texto foi tirada em uma escola de Ensino Médio da cidade do Rio de Janeiro. A mesma foi tirada durante uma atividade extra curricular chamada "Café Colonial". Nesta atividade, os estudantes se vestem com roupas da época e trazem comidas do período. Na foto, há adolescentes com roupas que eram usadas pelos escravos. O modo como tudo foi retratado deu a entender que escravos e brancos viviam tranquilamente. Não. Isso nunca aconteceu. Primeiro, por todas as violências aqui já citadas que os escravos sofreram. E segundo, os negros eram tratados como invisíveis. Os brancos passavam por eles e fingiam não os conhecer, não os cumprimentavam. Eles não podiam falar e muito menos levantar a voz. Eles deviam apenas fazer tudo que o senhor mandava. TUDO. 

Conclusão

      A escravidão, que no Brasil durou pouco mais de três séculos, foi um dos piores crimes contra a humanidade que este mundo já viu. Entretanto, algumas pessoas procuram romantizar a mesma, minimizando os efeitos deste que foi um sistema extremamente cruel. A escravidão não deve ser romantizada, mas sim mostrada em sua realidade para que nunca mais aconteça e para que o racismo seja eliminado de nossa sociedade de uma vez por todas. 

05/09/2017

A masculinização das Forças Armadas

Soldado beija o marido ao chegar da guerra. Imagem: Reprodução Facebook

    As Forças Armadas são entendidas como um espaço reservado somente aos homens heterossexuais que se encaixam no padrão masculino do sistema heteronormativo. Entretanto, nem sempre foi assim, uma vez que grandes líderes políticos e militares do passado sentiam atrações por pessoas do mesmo sexo. Além disso, a formação da identidade homossexual, assim como a heterossexual, é uma construção social.
     A Marinha, o Exército e a Aeronáutica, bem como o universo bélico de uma forma geral são entendidos como elementos pertencentes do machismo. Quando o homem é uma criança, lhes é dado brinquedos de pistola (não necessariamente uma mini-pistola, mas aquelas de brinquedo que jorram água por exemplo), bonecos que costumam se envolver nas mais diversas guerras e video-games onde algumas tarefas consistem em lutar nas mais diversas situações, seja em uma guerra ou em uma luta corporal. Atores como Jean-Claude Van Damme, Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger, que possuem no currículo dezenas de filmes de ação (que por sinal contém cenas épicas de luta), costumam ser os ídolos destes mesmos rapazes. Esta é uma das razões que fazem com que muitos meninos sonhem com as Forças Armadas.
      Os LGBTs não são tolerados nas Forças Armadas. Os mesmos sofrem todo tipo de violência e humilhações, que incluem agressões físicas, verbais, "piadinhas", punições sem motivo aparente e até estupro. Os LGBTs que desejam ingressar nas Forças Armadas são desestimulados a seguir tal carreira. E quando não são desestimulados a fazer tal coisa, lhes são recomendados a não "dar pinta" e "engrossar" a voz para não sofrerem nenhuma forma de violência. As Forças Armadas são um dos redutos do machismo.

Alexandre (Colin Farrell, à esquerda) e Heféstion (Jared Leto, à direita) em cena do filme Alexandre (2004). Imagem: Reprodução. 

     Se atualmente a presença de LGBTs nas Forças Armadas não é tolerada, saiba que nem sempre foi assim. O conquistador Alexandre, o Grande (356-323 a.C.), que deixou seu legado na história e até hoje é lembrado por isso, costumava se envolver com pessoas do mesmo sexo que o seu. Seu amante era Heféstion, seu braço direito e ocupante de um importante posto no Exército. Quando o amado morreu, Alexandre ficou sem comer e beber por dias. Ordenou que um funeral majestoso fosse preparado. Os preparativos eram tantos que o mesmo só pôde ser realizado seis meses depois da morte de Heféstion. Alexandre fez questão de dirigir a carruagem fúnebre, decretando luto oficial em seu reino. O romano Suetônio (69-130 d.C.) escreveu em seu livro As Vidas dos Doze Césares (datado do século II) sobre os hábitos dos governantes do fim da república e do começo do Império Romano. Dos doze, só um deles, Cláudio, nunca teve relações com outros homens. O mais famoso, Júlio César (100-44 a.C.), teve aos 19 anos um relacionamento com o rei Nicomedes. É de extrema importância ressaltar que no tempo em que Júlio César e Alexandre, o Grande viveram não existia a "cultura LGBT" como existe hoje. Eles apenas gostavam de se relacionar com outros homens. Ponto. Não havia gosto musical, modos de vestir, falar, andar e hábitos culturais de maneira geral que classificam os LGBTs, como acontece hoje. Até porque o termo LGBT só surgiria MUITO tempo depois, nos anos 1990 d.C.
     Entretanto, parece que com o tempo houve uma retrocesso. Como já dito neste texto, militares do sexo masculino que se envolvem com outros homens são vítimas de todo tipo de violência, como por exemplo: violência física, verbal, "piadas e brincadeiras", punições sem motivo aparente e estupros. Este é um assunto que volta e meia vem a tona, onde militares assumidamente LGBTs falam sobre o assunto. Talvez o caso mais recente é o de Talles de Oliveira Faria, que em dezembro de 2016 foi à formatura do curso de Engenharia do Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA) usando vestido, salto alto, maquiagem e cabelo descolorido. O jovem fez isso em sinal de protesto contra a homofobia latente na instituição. O caso teve grande repercussão e reacendeu a discussão sobre a LGBTfobia nas Forças Armadas. Em resposta ao ocorrido, o ITA disse que não questiona a orientação sexual de seus estudantes e formandos. Entretanto, Talles escreveu em sua página pessoal no Facebook expressões que ouviu dentro da instituição que provam que a mesma é homofóbica. Veja aqui.


A quantidade de mulheres que escolhem ingressar nas Forças Armadas tem aumentado bastante nos últimos tempos. Imagem: Reprodução. 

     Alguns militares usam como argumento para proibir a presença de LGBTs nas Forças Armadas o fato de o homossexual ser descontraído, efeminado e espalhafatoso, sendo brincalhão na maior parte do tempo. Isso porque, para ser militar, é preciso ser discreto, sério e enérgico. Vamos por partes. Não se pode encaixar os homossexuais em uma mesma categoria porque existem homossexuais e homossexuais. Da mesma forma que existem gays espalhafatosos e efeminados, existem também gays discretos e masculinizados. Independente de serem efeminados ou não, um homossexual sabe muito bem como se comportar em cada ocasião. Se ele puder ser brincalhão, vai ser brincalhão e se a situação exige seriedade, ele vai agir com seriedade. Além disso, quando dizem que um gay militar não vai ser respeitado pelo fato dele ser efeminado, é reforçada a misoginia, que demoniza tudo aquilo que é referente ao universo feminino, seja a voz da mulher, o modo como ela anda e como se comporta por exemplo. E é esta mesma misoginia que é uma das razões para a mulher não atingir posições muito altas nas Forças Armadas. Aqueles que dizem que um homossexual não deve ingressar nas Forças Armadas pelo fato de o mesmo ser escandaloso e efeminado escondem por trás deste argumento a homofobia e a misoginia que carregam dentro de si.
      É importante destacar que, apesar do preconceito, muitos homossexuais conseguem seguir carreira nas Forças Armadas, chegando até a viver livremente a sua sexualidade. Alguns até conseguem se casar, fardado e tudo! Este debate é antigo e a maioria dos países ocidentais, em especial aqueles que são membros da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), revogaram leis que excluíam das Forças Armadas membros de minorias sexuais. No Brasil, os membros LGBTs não são excluídos das Forças Armadas, mas denúncias de LGBTfobia dentro das mesmas não são raras.

Em fevereiro de 2016, uma foto do casamento dos militares norte-americanos Shane Adriano e Tristian Resz, foi publicada nas redes sociais e teve repercussão mundial. Imagem: Reprodução Facebook.

Conclusão

      A masculinização das Forças Armadas foi algo que aconteceu ao longo do tempo, uma vez que nem sempre foi assim. Por incrível que pareça, houve uma época em que se envolver com pessoas do mesmo sexo era algo normal e isso não era empecilho para alguém seguir uma carreira militar. De lá para cá houve um enorme retrocesso. 

29/08/2017

Características da historiografia assembleiana

Gunnar Vingren (à esquerda) e Daniel Berg (à direita), os fundadores das Assembleias de Deus no Brasil. Imagem: Reprodução. 

     A Assembleia de Deus é a maior denominação evangélica e pentecostal do Brasil. Assim como qualquer organização social, os assembleianos fazem história e possuem um modo específico de escrever a mesma.
      A Assembleia de Deus é uma igreja evangélica de matriz pentecostal que está presente no Brasil e em diversos países. No Brasil, a AD é a maior denominação evangélica do país. Popular sobretudo entre as camadas mais humildes da sociedade, a igreja em questão é conhecida no imaginário popular pelo seguinte estereótipo de seus membros: mulheres de cabelos longos, sem maquiagem, esmalte, pendentes (com exceção do relógio de pulso e aliança) e calça comprida. Já os homens desta denominação são vistos como aqueles que não usam bermuda, blusa sem manga e cabelos longos. É importante lembrar que a AD no Brasil não é uma unidade. Desta forma, os estereótipos aqui citados não se aplicam a todas as ADs.

Paulo Macalão ao lado da esposa Zélia Brito Macalão. Paulo é o fundador da Assembleia de Deus Ministério Madureira. Imagem: Reprodução.

     Pelo fato de ser uma denominação centenária, as ADs têm muita história para contar e os assembleianos possuem um modo característico de escrever a própria história. É muito comum líderes assembleianos escreverem sua autobiografia, em especial aqueles que foram os pioneiros em abrir a primeira igreja da Assembleia de Deus em determinada região do país. A grosso modo, estas autobiografias seguem a seguinte fórmula: valorização de atos heroicos, destaque para as necessidades sofridas ao longo do percurso, destaque para os feitos realizados e o foco na vida santa do autobiografado. Aliás, o personalismo é uma das características da historiografia da Assembleia de Deus. Há uma hiper valorização da figura dos líderes da AD. Paulo Macalão e Gunnar Vingren são exemplos disso. É importante destacar que se nos últimos anos Daniel Berg e Gunnar vingren são exaltados dentro da AD, nem sempre foi assim. Este personalismo é uma característica da política brasileira que a Assembleia de Deus copiou. O personalismo, que é a ideia do indivíduo como ponto de referência de tudo o que ocorre à volta do mesmo, é uma prática muito antiga da política do país que se consolidou durante o governo Vargas (1930-45, 1950-54). Getúlio Vargas (1882-1954), ao criar em torno de si a imagem de "pai dos pobres" e controlar tudo o que saía em torno de si na imprensa, consolidou uma prática já existente em nossa política e que se faz presente na atualidade, que é o personalismo.
      Outra característica da historiografia assembleiana é o constante silenciamento de determinados acontecimentos. Quem estuda a história das Assembleias de Deus no Brasil sabe que as disputas internas pela liderança são uma realidade em muitas ADs e não costumam ser contadas na história oficial. Desta forma, ao ler uma biografia onde há expressões como "passou-se um tempo", "passado um período" ou similares, tenha a  certeza de que tais escondem conflitos que existiram. Um membro da Assembleia de Deus pode ter contribuído bastante para a denominação, mas a partir do momento que ele sai da mesma, é completamente ignorado, é como se ele nunca tivesse existido e/ou que seus atos não foram importantes para a  denominação. Esta é uma prática comum, principalmente quando o membro silenciado teve sérios conflitos com a denominação em questão. Quem também costuma ser silenciada na história oficial das ADs são as mulheres. Todos sabem que a AD limita o ministério feminino, sendo tachada como uma igreja extremamente machista. Desta forma, na hora de escrever a história das Assembleias de Deus, as mulheres são limitadas ao máximo. Vale destacar os livros Frida Vingren (esposa de Gunnar Vingren) e 100 Mulheres que Fizeram a História das Assembleias de Deus no Brasil, ambos de autoria de Isael de Araújo, renomado intelectual assembleiano.

Conclusão

     A história tende a ser contada a partir da ótica dos vencedores e com relação a história das Assembleias de Deus no Brasil não é diferente. Quem conta a história da denominação são aqueles que venceram a disputa na liderança da mesma. Tais pessoas criam em torno de si e de seus antepassados uma imagem heroica, valente e santa. Além disso, estes mesmos narradores tentam esconder conflitos e disputas que marcaram a história da denominação, excluindo da narrativa oficial as mulheres e pessoas indesejadas, ainda que tais tenham contribuído grandemente para a Assembleia de Deus. 

17/08/2017

A narrativa dominante contada na grande mídia

Imagem: Reprodução.

     A História não é fechada, pelo contrário. Ela pode ser contada sob as mais diversas perspectivas, além de nunca se fechar. Entretanto, o que chama atenção é que séries e novelas históricas produzidos pelas emissoras de televisão contam a história a partir da ótica dos vencedores.
     Ao contrário do que alguns podem supor, a História não é um campo fechado que pode ser olhado apenas sob uma única perspectiva. Muito pelo contrário. Para começo de conversa, a História NUNCA se fecha. Os acontecimentos nacionais e internacionais da atualidade com certeza serão estudados no futuro. Além disso, há as leituras e também as releituras da História, cuja finalidade é rever o passado. A História pode e é lida de várias formas e as concepções político-ideológicas de uma pessoa e até mesmo a sua religião vão interferir no modo como o sujeito interpreta a História. Entretanto, as maiores emissoras de televisão do país contam a História a partir da ótica dos vencedores, praticamente ignorando os sujeitos historicamente silenciados como negros, mulheres e pobres por exemplo. 

Joaquim (Chay Suede) em cena da novela Novo Mundo (2017). Imagem: João Miguel Júnior/TV Globo. 

     Após quase morrer e aparecer boiando em uma praia, Joaquim (Chay Suede), um homem branco, é levado pelos índios para uma aldeia na novela Novo Mundo (2017), atual folhetim das seis da TV Globo. Após se recuperar, Joaquim se torna o líder indígena da tribo que o acolheu, conseguindo findar conflitos entre as tribos indígenas e servindo de intermediário em um conflito que envolveu os índios e o imperador D. Pedro I (Caio Castro). Este fato passou a ideia de que os índios são incapazes de se organizar e resolver seus problemas, precisando sempre de uma pessoa branca para tal. Vale ressaltar que o homem branco é associado à civilidade, educação, progresso e inteligência. Coisa semelhante acontece com os negros. Sempre que a escravidão é retratada na televisão, o protagonista é quase sempre o branco indignado com os horrores do regime escravista e que decide lutar pela abolição da escravatura. Os negros que lutam das mais diversas formas pelo fim da escravidão até estão presentes, mas eles quase sempre são os coadjuvantes. Os protagonistas mesmo são os brancos. Os romances A Escrava Isaura (1875) (já falei sobre isso aqui) e Sinhá Moça (1950), que já foram adaptados para a televisão, podem ser usados como exemplo. 

Logotipo de Liberdade, Liberdade (2016), exibida no horário das onde pela TV Globo. Imagem: Reprodução. 

     Liberdade, Liberdade, é uma telenovela produzida pela Rede Globo de Televisão. A "novela das onze", que entrou para a história da dramaturgia brasileira ao mostrar a primeira cena de sexo entre dois homens (assista aqui), tem por protagonista a jovem Joaquina (Andreia Horta), filha de Tiradentes e Antônia. É importante lembrar que o personagem interpretado por Andreia Horta na trama é fictício. Joaquina fica órfã e é levada por Raposo (Dalton Vigh) para Portugal, onde passa a se chamar Rosa. Voltando ao Brasil, Joaquina/Rosa encontra a então colônia de Portugal em um grande momento de efervescência política por conta dos desdobramentos da Inconfidência Mineira e de outros movimentos que resultaram na independência do país. Joaquina/Rosa se envolve em tais acontecimentos e acaba virando o símbolo da luta contra a Coroa Portuguesa. 
     Como vocês leram no parágrafo anterior, a Inconfidência Mineira virou até tema de minissérie da principal emissora de TV do país. Este acontecimento político-histórico é um dos episódios mais conhecidos da historia do Brasil. Há feriado para lembrar esta data e lugares públicos Brasil afora que são chamados de Tiradentes, que por sinal é considerado um herói nacional. O lema em latim "LIBERTAS QUÆ SERA TAMEN", que pode ser encontrado na bandeira do estado de Minas Gerais, teria sido cunhado pelo inconfidente Alvarenga Peixoto a partir de um verso das Bucólicas (1.27) do poeta latino Virgílio. A Inconfidência Mineira foi um movimento que ocorreu no Brasil em fins do século XVIII, cujas pautas reivindicadas eram a independência do país, a construção de uma universidade em Vila Rica (MG), a criação de uma casa da moeda e o desenvolvimento industrial, o que até então era proibido no Brasil-Colônia. Não havia consenso com relação ao fim do regime escravista, uma vez que muitos dos inconfidentes tinham escravos. Os revoltosos tinham o seguinte perfil: eram em sua maioria homens ricos que exerciam (não todos) cargos públicos. Alguns dos inconfidentes tinham ido para a Europa estudar e de lá trouxeram os ideais do Iluminismo e da Revolução Francesa (1789). Havia também religiosos e militares, como Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, símbolo máximo da Inconfidência Mineira. 
      A Inconfidência Mineira ocorreu em 1789 e não foi o único movimento a pedir a independência, o que aconteceria em 1822. No ano de 1798 ocorreu na cidade de Salvador (Bahia) a Conjuração Baiana. Os protagonistas deste movimento eram negros e pessoas das camadas mais pobres da sociedade que defendiam o fim da escravidão, a independência  e a criação de uma república, que só aconteceria em 1889. A Conjuração Baiana também é conhecida como Revolta dos Alfaiates, uma vez que parte dos manifestantes exerciam esta profissão. Mesmo ocorrendo no mesmo período em que houve a Inconfidência Mineira, a Conjuração Baiana não é tão conhecida pela maioria da população. Por que a Conjuração Baiana não é tão conhecida? Por que um movimento organizado por humildes e escravos que defendiam o fim da escravidão não é tão lembrando quanto a Inconfidência Mineira? Cadê os filmes e minisséries na grande mídia sobre a Revolta dos Alfaiates? Cadê feriado da Conjuração Baiana? Fica a reflexão. 

Logotipo da minissérie A Casa das Sete Mulheres (2003). Imagem: Reprodução. 

     Inspirada em livro homônimo da gaúcha Letícia Wierzchowski, a série A Casa das Sete Mulheres foi escrita por Maria Adelaide Amaral e Walter Negrão, tendo a colaboração de Lucio Manfredi e Vincent Villari. Foi exibida pela TV Globo entre os meses de janeiro e abril de 2003. Misturando ficção e realidade, bem como personagens reais e fictícios, a minissérie em questão conta os dramas e perspectivas de sete mulheres da família de Bento Gonçalves (1788-1847), líder da Revolução Farroupilha. Com personalidades diferentes, as sete mulheres se envolvem diretamente em episódios do movimento da qual Bento Gonçalves é o líder. 
     A Revolução Farroupilha (1835-1845) ocorreu no Rio Grande do Sul em um momento que o Brasil enfrentava uma série de movimentos que ameaçavam a fragmentação do extenso território brasileiro. D. Pedro I (1798-1834) havia renunciado ao Império do Brasil para ir para Portugal a fim de restituir o trono da filha D. Maria da Glória (1819-1853), que havia sido usurpado pelo tio D. Miguel (1802-1866). D. Pedro II (1825-1891), que chegaria ao trono por meio do famoso golpe da maioridade, era criança e por conta disso não podia ser coroado imperador. Foi um período em que o Brasil foi governado por regentes, cuja História denominou de Período Regencial (1831-1840). Foi um momento em que houve revoltas separatistas em todo o Brasil e a Revolução Farroupilha foi uma delas, não a única. Ela só é a mais conhecida. Aliás, é no mínimo curioso o fato de um movimento organizado por estancieiros, que não tinha um caráter popular e que não havia consenso com relação ao fim do regime escravista ser tão conhecido. Acho que o fato de ser um movimento organizado pela elite explica alguma coisa.
     A Cabanagem (1834-1840), a Balaiada (1838-1841), a Sabinada (1837-1838) e a Revolta dos Malês (1835) ocorreram no mesmo período em que houve a Revolução Farroupilha, mas por que só o movimento organizando pelos estancieiros gaúchos é o mais conhecido? O fato de terem sido movimentos protagonizados por pobres, índios, negros escravizados, negros libertos e quilombolas que exigiam o fim da escravidão, a redistribuição de terras, a proclamação da república e um governo de fato popular explica muita coisa.

Conclusão

     As grandes emissoras de televisão são de propriedade de uma elite e estão a serviço deste mesmo grupo. Logo, a História contada por tais emissoras é a história dos vencedores, cuja elite faz parte. Desta forma, não é interessante para este grupo contar uma história onde os protagonistas são negros, índios e pobres. Isso porque a dominação também é praticada por meio da educação.
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