12/03/2019

O que é se dar o respeito?

Recentemente, o falecido político Clodovil Hernandes (1937 - 2009) foi visto como um homossexual de "respeito" por parte da direita brasileira. Imagem: Reprodução.


     Quem nunca ouviu a expressão "se dê o respeito" ao menos uma vez na vida? Garanto que muitos aqui ouviram a mesma nos mais variados contextos. O objetivo desse texto é analisar tal expressão no contexto político e desde já adianto a resposta: no contexto político social, "se dar o respeito" significa não incomodar o status quo.
     Todo mundo fala e/ou já ouviu a expressão "se dê o respeito" nas mais diversas situações. No campo do relacionamento amoroso, tal expressão significa não aceitar humilhação e/ou ser tratado como inferior por exemplo. Mas não é no campo dos relacionamentos que eu quero analisar a expressão em questão: é no campo político.
     Durante as eleições presidenciais de 2018 no Brasil (e um tempo após esse período) circulou pelas redes sociais uma imagem que dizia que o falecido parlamentar Clodovil Hernandes (1937 - 2009) era um homossexual que se dava o respeito. Clodovil foi o primeiro parlamentar brasileiro abertamente homossexual a assumir uma cadeira no Congresso Nacional. O segundo a fazer isso foi Jean Wyllys e, após o mesmo abrir mão de seu cargo por ameaças de morte, quem o substitui em Brasília é o também homossexual David Miranda. Tal post sobre Clodovil deixou uma questão no ar: o que faz de Clodovil ser um homossexual de respeito e o Jean Wyllys, por exemplo, não? A resposta é simples: Clodovil Hernandes (1937 - 2009) enquanto político nunca criou uma lei que amparasse a população LGBT, era contrário ao casamento homoafetivo e a Parada do Orgulho LGBT. O parlamentar fez o jogo do conservadorismo e assim conseguiu o respeito dos machistas de plantão. Jean Wyllys fez e ainda faz exatamente o contrário. Apesar das críticas e discordâncias, não se pode negar que Jean, afastado da vida pública por tempo indeterminado, é uma potente voz na defesa dos direitos da população LGBT. Em um país LGBTfóbico e cuja população LGBT é a que mais morre no mundo, Jean Wyllys pagou o preço por desafiar o status quo. Por defender a população LGBT em um país LGBTfóbico ; Jean é xingado, vítima de incontáveis notícias falsas e ameaçado de morte (assim como sua família), fato que o fez sair da vida pública e morar fora do Brasil. Para a direita fascista brasileira, Jean Wyllys não se dá o respeito. 

O ativista político Jean Wyllys é ameaçado de pena de morte por defender a pauta LGBT. Imagm: Luis Macedo/Câmara dos Deputados. 


Conclusão

     No campo da política, "se dar o respeito" é um conselho dado aos grupos historicamente marginalizados da sociedade brasileira (mulheres, negros, índios, pobres e LGBTs por exemplo). Esta expressão significa: não reivindique seus direitos, não incomodem o sistema e não saiam de seus lugares Caso contrário, você não estará se dando o respeito. 

28/02/2019

Entrevista com Tiago Crispim Salvador - 2

Tiago Crispim Salvador, o entrevistado do mês de fevereiro do blog A Hora. Imagem: Reprodução Facebook.

      Enfim, o blog A Hora exibe a primeira entrevista do ano. O entrevistado é Tiago Crispim Salvador, que já foi entrevistado pelo blog em outro momento (veja aqui). Graduado em História pela Universidade Estácio de Sá, graduando em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e mestrando em Ciências Sociais pela mesma universidade, Tiago ama a história da cidade e também do estado do Rio de Janeiro. Porém, o foco dos estudos de Tiago não é o que todo mundo já estuda: as ruas do centro da cidade do RJ e/ou os bairros nobres da cidade carioca. O Rio de Janeiro que Tiago gosta de estudar é o Rio que quase ou nunca aparece nos livros: a formação das favelas, os habitantes nativos e os bairros da Zona Oeste da cidade. Morador do Morro do São Carlos, de onde se pode ver parte da Baía de Guanabara, o Morro da Providência, o centro da cidade, o Morro de Santa Tereza, o Cristo Redentor, o castelo da FIOCRUZ (Fundação Oswaldo Cruz), a Igreja da Penha e até o Aeroporto Internacional Tom Jobim, que fica na Ilha do Governador; Tiago recebeu o blog A Hora em sua casa para uma prazerosa e enriquecedora entrevista. Confira:

1 - Quando e como começou a estudar a história da cidade e do estado do Rio de Janeiro?

Tiago Crispim Salvador: Eu sempre tive um interesse muito grande nos estudos fluminense, que são os estudos do Rio de Janeiro e isso é algo desde criança. Eu nem sonhava em fazer História, estava no Ensino Fundamental e este interesse por descobrir cada canto do Rio já existia. É interessante porque eu tinha este interesse através das linhas de ônibus da cidade. Eu comecei a me interessar pelo Rio de Janeiro desde que eu tinha uns 6, 7 anos de idade através dos nomes dos bairros e dos itinerários.
Meu avô foi motorista de ônibus e meu tio é mecânico de ônibus. Então, eu sempre fui de ir detalhando capa pedacinho desta cidade através dos coletivos. Eu tive uma revistinha onde havia os ônibus da antiga CTC (Companhia de Transportes Coletivos), que era estatal e dos rodoviários do Rio de Janeiro. E eu ficava lendo esta revista, era quase a minha primeira alfabetização. Uma vez eu levei uma baita surra porque eu matava aulas para andar de ônibus (risos). Eu tive uma atração muito forte pelo Rio de Janeiro, o que fez com que eu circulasse pela cidade atrás desses itinerários e de uma certa forma eu fui conhecendo não só o Rio, mas as suas regiões metropolitanas, como a Baixada Fluminense e Niterói por exemplo e eu fui desvendando esta cidade. E daí eu passei a estudar cada vez mais a história da cidade. A minha família e os meus amigos, quando querem ir a algum lugar, eles me perguntam porque sabem que eu conheço os bairros da cidade. Mesmo com a mudança de consórcios, fruto da gestão dos prefeitos, eu tenho essa facilidade de mapear a cidade através desses itinerários.

2 - Como era o estado do Rio de Janeiro na época em que os portugueses chegaram ao estado pela primeira vez?

TCS: Não se pensava em um estado do Rio de Janeiro. Era um grande litoral povoado por indígenas. Não se tinha desbravado ainda o que a gente chama de sertão. Vale lembrar que não é sertão no sentido geográfico, mas no sentido simbólico, que permeia não só o Rio de Janeiro, mas toda a história do Brasil. E esse contato primário que se tinha era com a aldeia de Uruçu-Mirim, no território onde hoje em dia é a praia do Flamengo. Então, você tinha essa predominância de habitantes nativos que mais tarde foram chamados de tupis e tamoios. Naquela região da Glória e Flamengo, onde é a Rua do Catete, corria um rio que era um dos braços do Rio Carioca, tinha uma tribo indígena. Então, você tinha esses conjuntos de tribos indígenas.
A Ilha do Governador era um espaço indígena e o Araribóia, que depois dá nome a uma estação das barcas em Niterói, sai dali por causa de guerras que existia entre as tribos indígenas. Ele sai e se refugia onde hoje é o estado do Espírito Santo e depois, na guerra entre portugueses e franceses, onde cada tribo indígena tomou de certa forma um lado, ele consegue voltar para a Ilha do Governador. Porém, não se interessando em ficar lá, ele ganha essa sesmaria onde hoje é a cidade de Niterói. Tem um livro muito bom chamado O Rio Antes do Rio: a Guanabara Tupinambá e suas aldeias ancestrais, a história do primeiro carioca e dos exploradores, conquistadores e moradores que marcaram a fundação do Rio de Janeiro (2016), de Rafael Freitas da Silva, que conta esse passado do Rio. Outro livro muito bom que recomendo para quem quer aprender a história do Rio de Janeiro é A Formação das Estradas de Ferro no Rio de Janeiro: o resgate da sua memória (2004), de Helio Suêvo Rodrigues. É um Rio do fim do século XIX. Estas são as referências básicas que vai de certa forma analisar o resultado desse contato entre o português e os indígenas. E esse contato, é válido sempre dizer, foi marcado pelo etnocentrismo. 

3 - No Pré-vestibular do São Carlos (PREVESC), onde você dá aulas e é um dos coordenadores do curso, há a disciplina História Social do Rio de Janeiro, que é ministrada por você. Qual a importância desta disciplina?

TCS: Antes de eu falar da importância, eu gostaria de falar das dificuldades. Quando eu comecei a organizar o PREVESC junto com mais algumas pessoas e a organizar as disciplinas, houve dilemas com relação a isso. Eu sou de História e Ciências Sociais. Colocar esta disciplina em um curso pré-vestibular choca-se com o objetivo de um propósito, que é a aprovação em uma universidade. E isso requer, de uma certa forma, um redirecionamento para um currículo mínimo que o vestibular vai exigir com um ordenado de matérias específicas. E onde entra o Rio de Janeiro nisso? Alguns acusaram de ser uma pegada mais academicista e a gente pode até discutir isso (risos). Só que alguns vestibulares requer esse conhecimento prévio do Rio, principalmente se for um vestibular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). A UERJ pressupõe que você saiba minimamente a história da sua cidade. Mas não só nos aspectos cronológicos: também nos aspectos políticos e culturais. Então, há a necessidade desta disciplina.
O PREVESC fica no Morro do São Carlos, que por sua vez está em uma área central, e é histórico. Então, isso tem um diferencial, até pelo reconhecimento do aluno com o território nas demandas que ele vai ter que aprender pra vida, até no nível mais rudimentar, de você se preparar para um vestibular e a universidade querer que você saiba coisas mínimas no aspecto de sua cidade. Isso é cobrado em provas específicas de humanas, mas perpassa de uma forma geral todas as disciplinas. E como é um pré-vestibular social, o meu interesse é fazer com que os alunos conheçam não só a história do Rio colonial, do centro da cidade, da Zona Sul; mas discutir e problematizar os outros aspectos das áreas metropolitanas do Rio. A importância crucial que essas micro-regiões tinham para o abastecimento da cidade, para a defesa, para tudo. Então, a gente tem que problematizar a memória social destes espaços. A história, como dizia Walter Benjamin (1892 - 1940), é contada a partir da ótica dos vencedores. Os chamados vencidos têm sempre a voz apagada. Então, a história é feita de ausências. Desta forma, colocar a ausência e a memória destes espaços dentro desse repertório disciplinar é uma luta e tanto. 

4 - Você sempre frisa que o nome da disciplina que ministra é História SOCIAL do Rio de Janeiro. Por que o ênfase no social?

TCS: Como eu falei acima, eu queria fugir da História scrito sensu. Eu queria uma pegada interdisciplinar e isso está relacionado à minha formação, que sou historiador e graduando e mestrando em Ciências Sociais. O objetivo é trabalhar essas ausências históricas. Porque não problematiza a riqueza cultural e social da Baixada? Pelo fato de ali haver um dos caminhos reais,  onde hoje é a Avenida Automóvel Clube, vilas eram construídas. Além disso, tem também a questão dos rios na ligação do espaço e tem uma questão social por causa dos mesmos. É justamente por isso que o social não pode estar dissociado. Porque esses rios viraram valões? Quem passa na Linha Vermelha e sente aquele cheiro insuportável vai imaginar a história de riqueza e grandiosidade que foi o Rio Meriti? Porque aqueles rios viraram valões? Qual o significado da palavra valão? E porquê está associado aqueles espaços? Há estereótipos de valões na Zona Sul, mas não são vistos assim. Porque a Zona Oeste e a periferia não têm tanta evidência nesta produção de conhecimento historiográfico. Além do meu olhar histórico, tem essa pegada social. E eu pego muito no pé com relação a isso. Não é História do Rio de Janeiro: é História Social do Rio de Janeiro. 

5 - Um trajeto que você gosta de fazer em suas aulas sobre Rio de Janeiro abrange o bairro de Santa Cruz e mais alguns bairros. Você pode falar um pouco sobre este trajeto?

TCS: Em São Cristóvão há uma riqueza (não estou dizendo que os outros bairros não tem: todos têm). Há o domínio jesuíta, no período colonial. Qual a questão de São Cristóvão? o caminho real, o caminho dos jesuítas. Passa o Brasil colônia, o período joanino, onde reforma a Cidade Nova, Canal do Mangue, toda essa área. Então, se tem uma mudança a partir do que vai ser a Cancela, o caminho dos jesuítas e após a expulsão dos mesmos, passa a ser o caminho real e na República o Amaro Cavalcanti (1849 - 1922) retalha todo o caminho real e aqueles espaços, que eram a antiga Suburbana, passa a ser a Avenida Dom Helder Câmara e a Avenida Santa Cruz, em Santa Cruz, por exemplo.
Outro exemplo é a Avenida Automóvel Clube, em Caxias. Certa feita, vários alunos fizeram perguntas do tipo: "porque uma Automóvel Clube em Caxias, uma em Del Castilho e uma em Petrópolis?" e eu respondia: "Gente, é a mesma avenida". Agora, qual o sentido simbólico destas "retalhações" no período republicano? O objetivo de trabalhar esses roteiros é mostrar a vida simbólica que estes espaços foram adquirindo. Entretanto, fazer isso é dispendioso e precisa de transporte. Então, eu acho que os ex-caminhos coloniais e imperiais ainda estão vivos e presentes na nossa memória, mas porque eles foram transformados e reapropriados simbolicamente e que sentido isso passou a ter? Qual é o objetivo político e social disso? Através destes caminhos a gente tem uma facilidade de ficar em contato com a História do Rio de Janeiro, ou melhor: a História Social do Rio de Janeiro.

6 - A região que hoje corresponde ao bairro de Santa Cruz foi no passado uma propriedade da família imperial. Qual a história desse bairro?

TCS: Antes dele ser propriedade da família imperial, uma das casas de verão da família ficava em Petrópolis, onde hoje é o Museu Imperial. A família imperial tinha a Fazenda Real de Santa Cruz, que eles adoravam. A gente diz Santa Cruz hoje como bairro, mas o alcance da fazenda ia até áreas que hoje é o próprio bairro de Santa Cruz,  Itaguaí e chegava até Vassouras. Ela era muito grande. E as regiões onde hoje é Paracambi e Sepetiba também faziam parte desta fazenda. Tinha também o Engenho da rainha, que virou um bairro de mesmo nome que fica na Zona Norte carioca. Tinha também a praia de D. João VI (1767 - 1826), perto de onde hoje é o Cemitério do Caju. Havia também a casa de D. Carlota Joaquina (1775 - 1830), onde hoje é a Rua Marquês de Abrantes, no bairro do Flamengo. Então, a família real tinha várias residências. Entretanto, a preferida era a propriedade de Santa Cruz. Então, antes de ser propriedade real e é sempre bom falar isso, a propriedade pertencia aos jesuítas. Ela tinha um aldeamento próprio, a São Francisco Xavier de Itaguaí e depois foi ligado à Fazenda Real de Santa Cruz. E vale dizer que Santa Cruz foi adquirindo status, ela era uma fazenda, depois bairro desmembrado, o matadouro municipal do Rio de Janeiro passou a funcionar lá. Desta forma, Santa Cruz teve todas as características neste processo para ganhar o status de princesinha. Ela tem uma base aérea, os primeiros japoneses que chegaram ao Rio de Janeiro se estabeleceram ali, que era conhecida como Reta do Japonês e hoje é a Reta do Rio Grande.
Tem também uma questão particular minha e de minha família. A minha bisavó, quando veio para o Rio de Janeiro, na década de 1940, conviveu com os japoneses da colônia agrícola de Santa Cruz, que hoje virou conjunto habitacional. Na década de 1980 houve o boom de conjuntos habitacionais em Santa Cruz, que vão descaracterizando a marca rural da região. Santa Cruz tem toda essa importância simbólica. 

7 - No início, o morro era o lugar onde a parcela abastada da população vivia. Com o tempo a situação se inverteu: os pobres subiram o morro e os ricos desceram o morro. Por que isso aconteceu?

TCS: Muito simples. O que era o Rio de Janeiro? Morros e pântanos. Então, essa elite quando chega, ocupa as áreas enobrecidas, que eram os morros. No processo de ocupação da cidade, o Rio de Janeiro aterra as suas lagoas e pântanos e desta forma essa população começa a descer. E o morro vai ficar para a população de baixa renda. E quando se aterra e coloca a Alfândega, os serviços públicos e administrativos, esta população começa a descer e acessar tais serviços. É válido falar que o Rio de Janeiro é a única cidade que destruiu seu sítio arqueológico. Estou falando do Morro do Castelo, que foi posto abaixo e teve suas terras usadas para aterrar parte da Urca, da Lagoa Rodrigo de Freitas, do Jardim Botânico e outras áreas baixas ao redor da Baía de Guanabara. E depois da Reforma Pereira Passos, os morros vão passar a ser vistos como um problema social por conta das habitações precárias existentes nos mesmos. No momento em que esta cidade é dominada, aterrada e submetida ao domínio do colonizador, essa elite vai descer.

8 - Você pode contar a história do Morro do São Carlos? Me lembro de você ter dito que no passado ele era uma grande fazenda.

TCS: Sim, chegou a ser fazenda no século XIX e tudo mais. Porém, o que acontece: com o desmembramento, ele passa a ser loteado e ele é um dos morros a ser primeiramente ocupado, não que não tivesse sido ocupado antes, mas a leva de ocupação dele surge com a Reforma Pereira Passos. No início do século XX, ele passa a ser majoritariamente habitado. Lembrando que ele ficava próximo à Pequena África, que hoje é a Praça Onze, que era reduto dos ex-escravos que vinham do Vale do Paraíba, mas também da Mineira e a gente tem uma parte do Morro do São Carlos que se chama Mineira, uma alusão aos migrantes mineiros. Você tem também uma parte colada à Mineira, a São José Operário, que tem esse nome por conta do fato de as primeiras casas a serem construídas eram dos operários e funcionários que ajudaram a construir o Presídio Frei Caneca que existiu na região. Então, o Morro do São Carlos tem esses espaços. Alguns o chamam de complexo, mas eu, antropologicamente falando, não gosto de trabalhar com o termo complexo. Isso porque o complexo passa a ideia de que tudo é homogêneo, quando não é. Se tem as particularidades nestes espaços. Destaque também para Portugal Pequeno, que passa a ser procurado por imigrantes portugueses e é sempre bom falar que a ocupação começa nas escadarias do morro, que são centenárias.
Destaque também para o Querosene, que tem esse nome por conta de uma fábrica de querosene que existiu na região. Então, o Morro do São Carlos tem todas estas particularidades. E isso sem contar com a área da Irmandade, que atravessa a Mineira, que era uma área contestada entre a Light e o Cemitério São Francisco de Paula, que hoje é tomado de pessoas. E não tem como deixar de falar na primeira escola de samba que surge aqui em 1928, a Deixa Falar

9 - Já ouvi de algumas pessoas, inclusive de você, que, mesmo tendo por perto a sede da prefeitura, o Morro do São Carlos é esquecido pelo poder público e também praticamente não há muitas ações sociais no mesmo. Qual a explicação para este fato?

TCS: Até existem algumas ações sociais, mas não são visibilizadas porque tem todo um histórico social que contribui para isso. Algumas favelas do Rio de Janeiro costumam ter várias ações sociais em seus territórios, o que não é bem o caso do Morro do São Carlos. 

10 - Esta pergunta está relacionada a anterior. O Morro da Providência, que fica de frente para o Morro do São Carlos, tem em seu espaço muitas ações sociais e por vezes é visitado por artistas como Madonna. O que faz o Morro da Providência ter esse perfil?

TCS: É porque o Morro da Providência é a primeira favela da cidade do Rio de Janeiro. Era chamado de Morro da Favela, onde os combatentes da Guerra de Canudos (1896 - 1897), ao voltarem do combate, começaram a ocupar o morro e a chamar o mesmo de Morro da Favela. Para quem não sabe, favela é uma planta que eles encontravam nos arredores do morro. Com o tempo, a favela passou a ser vista como um problema social. Antes haviam os cortiços, que eram palacetes abandonados pela burguesia, que alugavam os mesmos e iam para a Zona Sul. No século XX, morar de frente para o mar passou a ser símbolo de status

11 - Falando em Morro da Providência, estou me lembrando neste momento da novela Lado a Lado (2012), exibida pela Rede Globo e que conta a história da fundação do morro. Como bom noveleiro que você é e que gosta de fazer análises político-sociais a partir de novelas, o que você achou desta novela? A história do Morro da Providência foi contada de forma fidedigna?

TCS: Eu não posso dizer que foi fidedigna (risos). É uma novela e por conta disso ela não vai atender a demandas puramente criticas porque ela precisa de audiência para continuar sendo exibida. Teve algumas falhas e acertos, mas a nível cronológico e um pouco político, pode-se dizer que tentou fazer um pouco do que foi a proposta da novela. Entretanto, aquelas discussões de nível sócio-político não foram levadas a fundo, como por exemplo a questão da capoeira, que poderia ter sido abordada de forma menos estigmatizada. Teve também a questão do futebol, que eu achei interessante. Os jogadores negros, que tinham que passar pó de arroz no rosto e brilhantina nos cabelos para poderem jogar, uma vez que naquela época o futebol era um esporte de elite e os negros não tinham permissão para praticar o mesmo.
Infelizmente, vivemos em uma sociedade que não dá ênfase a leitura. Então, o povo vai aprender a História do Brasil por meio das escolas de samba e das novelas históricas. Isso é bom por um lado, mas não traz à tona essas denúncias sociais que uma novela não se propõe a fazer com profundidade. E isso não é uma crítica ao autor ou ao formato de uma novela. Não estou dizendo que não se deve aprender a história por meio de samba enredo e novelas, mas a questão é que a ênfase de você aprender a história do país por tais meios é muito pífia. 

12 - E o que você tem a dizer sobre o Complexo da Maré, que tem em seu território todo tipo de ONG (Organização Não-Governamental) e chega até a ter uma clara disputa de poder, com ONGs atuando no mesmo espaço territorial e visando os mesmos propósitos?

TCS: A Maré é uma favela que nasceu pressionando o poder público. Havia uma luta muito grande entre associação de moradores e Getúlio Vargas (1882 - 1954). Era uma luta da Maré com o Executivo e nessa luta os moradores da Maré foram percebendo que eles não poderiam se acomodar, principalmente depois do período de industrialização, quando a construção da Avenida Brasil se inicia e as ocupações nas redondezas se multiplicam; e se não se articulassem e negociassem, eles não conseguiriam várias positividades por parte do poder público naquele espaço. Então, o diálogo entre o poder público e agentes sociais tem essa linha histórica de continuidade muito grande. E ela nasce do embate pela própria sobrevivência porque caso contrário, tudo teria sido aterrado e os moradores teriam sido expulsos de lá.
A própria Nova Holanda, que seria uma favela temporária, acaba se tornando um espaço fixo de moradia e então as forças sociais presentes passam a ter uma visibilidade maior. Então, essa iniciativa, não só privada, mas também pública, precisa estar o tempo inteiro visível com aqueles atores sociais. Aqueles atores sociais são visíveis para aquele espaço ali.

13 - Uma pessoa que não conhece a cidade do Rio de Janeiro pode achar que o bairro do Recreio dos Bandeirantes é perto de bairros nobres como Ipanema e Lagoa, quando na verdade é um bairro mais distante e que fica próximo de bairros como Tanque, Anil e Freguesia; em Jacarepaguá. Por que o Recreio dos Bandeirantes é associado a bairros da Zona Sul carioca?

TCS: Porque é um bairro feito para a elite. O Recreio dos Bandeirantes, desde que ele existe, ele é associado a empreendedores paulistas que tinham capital suficiente para residir naquele bairro.  É daí que vem o nome do bairro: Recreio dos Bandeirantes, uma referência aos bandeirantes, homens que adentraram o Brasil durante o período colonial para expandir e explorar o território brasileiro, além de capturar a população indígena para usar os índios como escravos. A imobiliária organizava um pique-nique onde os futuros moradores almoçavam e este pique-nique costumava ser realizado no Portal de Sernambetiba. O Recreio dos Bandeirantes foi criado para isso: abrigar a elite.

14 - Tiago, é sempre muito enriquecedor entrevistar você. Para finalizar, peço que você deixe uma mensagem para os leitores do blog A Hora.

TCS: Leiam o blog A Hora. As entrevistas que têm ali possuem um caráter democrático e simbólico a nível de participação muito grande. Você tem atores sociais que contribuem para uma discussão crítica e necessária para se entender os problemas sociais e culturais que estão em voga. Há essa passagem de um resgate histórico onde se está sempre indo a fundo no cerne das questões sociais e das questões mais emblemáticas a serem colocadas em debates públicos. É um momento em que a gente tem que debater cada vez mais. 

15/02/2019

Direita brasileira: uma direita fascista

Militantes de esquerda pedem intervenção militar em manifestação. Imagem: Reprodução.


     Ao contrário dos movimentos políticos de direita espalhados pelo mundo, a direita brasileira é de cunho fascista. Este fato torna a mesma peculiar e ao mesmo tempo assustadora.
      Antes de dar continuidade ao assunto, convém primeiro explicar ao leitor o que é direita e o que é fascismo. O primeiro tem sua origem na Revolução Francesa (1789) e serve para classificar aquelas pessoas que defendem o Estado mínimo e são contra programas sociais. Já o fascismo é um regime político e uma filosofia que prega que os conceitos de raça e nação prevaleçam sobre valores individuais. Outra característica do fascismo é a extinção parcial ou total dos direitos de grupos historicamente marginalizados. 
     Por conta do cenário político brasileiro atual, muita gente acha que fascismo e direita são sinônimos, mas não são. Como dito no parágrafo anterior, uma característica do fascismo é a supressão de direitos de grupos historicamente marginalizados. A direita por via de regra não é assim. A Holanda é um país conhecido por ser liberal com relação a comportamento. Lá, as drogas, o aborto e o casamento gay são permitidos. Além disso, devido a uma série de medidas tomadas para ajudar a população carcerária, as prisões holandesas têm se tornado desérticas. E a Holanda não é e nunca foi um país comunista. Justin Trudeau, atual primeiro-ministro do Canadá, levanta a bandeira do feminismo, dos direitos dos LGBTs e legalizou as drogas em território canadense. Justin Trudeau nunca foi comunistae nem o Canadá tem o comunismo por regime político. Aliás, nunca teve.

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Justin Trudeau, atual primeiro-ministro do Canadá, durante parada LGBT no país. Foto: Associated Press.


     Entretanto, a direita brasileira não é como a direita de outros países do mundo. Além de serem nacionalistas ao extremo, a direita tupiniquim é contra as cotas raciais, direitos LGBTs, dsireitos das mulheres e dos povos indígenas. Se pautas como violência contra a mulher é uma pauta de esquerda, o que se pode esperar da direita brasileira? Que a mesma é a favor da violência doméstica? Por conta de tais pautas serem consideradas de esquerda, a pessoa que defende tais é chamada de esquerdista, mesmo que não tenha nenhuma afinidade com o socialismo. Existem bandeiras que independem de posicionamento político e as citadas neste parágrafo são um exemplo.
     As pautas citadas no parágrafo acima são consideradas de esquerda, mas nem sempre foi assim. No clássico Da Monarquia à República: momentos decisivos (1987), a historiadora Emília Viotti da Costa (1928 - 2017) afirma que o movimento operário que emergia no Brasil entre fins do século XIX e começo do século XX defendiam a igualdade de direitos entre homens e mulheres, mas as mulheres não eram vistas assinando programas e nem participando de Programas Operários. As mulheres também não eram vistas na liderança de partidos políticos. Durante a Ditadura Civil-Militar brasileira (1964 - 1985)houve grupos de resistência ao regime. Foi neste momento também que o movimento gay surgia no Brasil e no mundo. O preconceito era quase que generalizado e estava presente entre os militantes que faziam oposição ao regime então vigente. Em Cuba, um país socialista desde 1959, os homossexuais foram vítimas de preconceito, foram recusados em alguns empregos por conta da orientação sexual e teve alguns que foram parar em uma espécie de campos de concentração. E recentemente em Cuba foi tirado da nova constituição cubana um trecho que abria espaço para o casamento entre pessoas do mesmo sexo. 

Conclusão

     A direta brasileira é uma direita fascista porque os direitistas são contra a projetos que visam ajudar os grupos historicamente marginalizados. No Brasil, alguns temas são considerados de esquerda quando na verdade não deveriam ser. Isso porque são questões relacionadas à dignidade humana e, por conta disso, estão acima de qualquer posicionamento político. 

01/02/2019

Espiritualidade: uma arma usada por alguns cristãos para camuflar problemas sociais

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Ilustração acerca da multiplicação dos pães e peixes, uma das passagens mais conhecidas da Bíblia. Este fato mostra que Jesus não se preocupou somente com a alma do ser humano, mas também com o corpo do mesmo. Imagem: Reprodução.



     Os primeiros seguidores de Cristo viveram a máxima do amor ao próximo e em nome deste mesmo amor compartilhavam tudo entre si para que ninguém passasse necessidade. O tempo passou, o número de seguidores de Jesus aumentou e a prática do bem comum foi praticamente abandonada. É neste momento que entra a espiritualidade, usada por alguns ditos cristãos para camuflar as desigualdades sociais.
     Conforme a Bíblia relata no livro de Atos dos Apóstolos, os primeiros seguidores de Jesus compartilhavam do bem comum: os mais abastados ajudavam os mais necessitados. Porém, o tempo foi passando e o número de seguidores de Cristo aumentando. Com isso, a ideia do bem comum foi sendo deixada de lado. Em Socialismo e as igrejas (1905), Rosa Luxemburgo (1871 - 1915) analisa o modo como a Igreja deixa de ser simples e passa a ser grandiosa, influenciando a política de uma sociedade. Neste mesmo livro, Rosa afirma também que o fato de o cristianismo ter deixado de ser uma religião humilde e composta por pessoas também humildes para se transformar em um grandioso e influente império; fez com que a religião cristã deixasse para trás a ideia do bem comum e a substituísse por uma postura conivente com a exploração dos mais pobres. Rosa Luxemburgo (1871 - 1915) destaca também que o número de cristãos que pregavam o bem comum passou a ser muito pequeno. 
     Mesmo tenso sido publicado pela primeira vez em 1905, a obra Socialismo e as igrejas não perde a sua atualidade. Em tal livro, Rosa Luxemburgo (1871 - 1915) analisa a Igreja Católica, mas o mesmo livro serve perfeitamente para se compreender o protestantismo atual no Brasil. Igrejas cujos membros vivem na pobreza têm templos extremamente luxuosos, com direito a telão, estacionamento e até equipe de filmagem para transmitir as reuniões ao vivo pela internet da melhor forma possível. Pastores extorquem os fiéis com a justificativa de financiar infinitas campanhas e projetos sociais. Muita gente aceita esta situação porque acreditam que serão exaltadas e enriquecerão. É a chamada Teologia da Prosperidade, incompatível com os ensinamentos de Jesus e com o pensamento político de esquerda. Isso explica em parte a razão de tantos cristãos serem de direita. Voltando a falar dos pastores que extorquem as suas ovelhas, os mesmos costumam morar em bairros nobres, têm casas, fazendas, motoristas particulares e até helicópteros. Alguns cantores gospel seguem a mesma linha: cobram cachês absurdos para irem cantar, só aceitam hotel 5 estrelas, exigem em seus camarins frutas da estação, água e toalhas brancas. Estes mesmos cantores moram em bairros nobres e costumam viajar para o exterior com frequência. 

Presidente boliviano, Evo Morales, presenteou o Papa Francisco com um crucifixo de madeira com formato da cruz e machado, símbolo comunista da união de operários com camponeses, em La Paz, nesta quinta (9) (Foto: Osservatore Romano/Reuters)
Evo Morales, presidente da Bolívia, presenteia o Papa Francisco com um crucifixo no formato de foi e martelo, símbolo do comunismo. Cristo e as doutrinas sociais de esquerda combinam? Imagem: Observatore Romano/Reuters.


      A relação da Igreja com as doutrinas sociais de esquerda nunca foi das mais amigáveis. A Igreja já disse que os comunistas comem crianças, invadem propriedades e até impedem os cristãos de exercerem a sua religiosidade. Há aqueles que dizem também que o comunismo já matou mais do que todas as catástrofes naturais e não-naturais que o mundo já viu. Por mais absurdas que possam parecer (e de fato são), há muitas pessoas, inclusive cristãs, que acreditam nas mesmas. Além de usarem tais argumentos contra militantes de esquerda, alguns cristãos, na tentativa de desmerecer os mesmos, usam o argumento da espiritualidade. 
     Antes de dar continuidade a este assunto, convém lembrar que nem todo aquele que luta pela justiça social é de fato de esquerda. Dando continuidade ao texto, muitos cristãos usam como argumento para criticar as doutrinas sociais de esquerda (comunismo, socialismo e anarquismo por exemplo) e também a Teologia da Libertação (corrente teológica cristã nascida na América Latina que diz que o Evangelho deve ficar ao lado dos pobres e defender os mesmos) o suposto fato de que tais tiram o foco principal da mensagem de Cristo: a salvação do homem. Entretanto, se analisadas as visões político-ideológicas destas pessoas, as mesmas em sua grande maioria apoiam políticos que legitimam a desigualdade social e destroem o Meio Ambiente por exemplo. É a revisitação da concepção de que a pobreza é um desejo divino e que cabe ao pobre se conformar com a mesma. 

Pessoas marchando contra a LGBTfobia. É justamente pelo fato de Jesus ter me ensinado a amar o próximo que o combate a LGBTfobia é uma das minhas bandeiras políticas. Imagem: Paulo Whitaker/Reuteurs


     Durante muito tempo eu separava o que era espiritual e o que não era. Hoje eu não faço mais isso, pois acredito que glorificar a Deus não se limita a execução de atividades religiosas. Frequentei a Assembleia de Deus (veja aqui) por mais de dez anos e algo que me chamava a atenção era que alguns líderes não incentivavam os liderados de forma contundente a estudar mais, ler mais e buscar um aperfeiçoamento profissional por exemplo. Uma coisa que aprendi foi que Jesus não faz nada pela metade. NADA. Se a pessoa estiver com problemas psicológicos, Jesus vai tratar nesta área (isso não significa que a pessoa não deva procurar um psicólogo, pelo contrário); se a pessoa estiver com problemas na vida sentimental, Jesus vai tratar nesta área; e se a pessoa tiver alguma enfermidade no corpo, Jesus vai tratar nesta área também (isso não significa que a pessoa não deve buscar ajuda médica, muito pelo contrário). Vou citar outra coisa para vocês onde eu vou mostrar que a separação entre o espiritual e o não-espiritual não é tão clara assim, se é que essa separação de fato existe. Jesus falou para amarmos o nosso próximo como a nós mesmos (Mateus 22: 39) e é em nome desse amor que eu luto para combater a pobreza, a desigualdade de gênero, contra a LGBTfobia e contra o racismo. Uma coisa que me chama a atenção é o fato de a maioria das denominações cristãs colocarem Jesus como uma pessoa completamente indiferente às questões político-sociais de sua época. Uma leitura atenta dos Evangelhos mostra exatamente o contrário. Além disso, o escritor Reza Aslan analisa o assunto de modo magistral no livro Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré (2013).
     Muitos negam, mas o fato é que a concepção de que política não é algo para cristão ainda é forte dentro da crença cristã. Desenvolvi e aperfeiçoei (ainda estou aperfeiçoando, é um processo contínuo) minha veia política quando frequentava a Assembleia de Deus. Eles não falavam, mas meus posts politizados nas redes sociais incomodavam os cristãos mais conservadores. Eles me cobravam de forma indireta posts religiosos e dependendo deles eu não colocaria outra coisa em minhas redes sociais. Eu só escrevo tais mensagens quando me dá vontade e quando não dá vontade, eu não escrevo. E assim a vida segue. 
     Acredito que somos forasteiros e peregrinos neste mundo (2 Pe 2: 11), mas isso não significa que eu seja indiferente às coisas deste mundo. É como uma pessoa que mora de aluguel, realidade de tantos brasileiros. A casa não é sua e uma hora você vai ter que sair de lá, mas enquanto você estiver lá, é sua obrigação lavar o banheiro, passar uma cera no chão e tirar a poeira da casa. A relação com o mundo é a mesma coisa: enquanto estivermos neste mundo, que cuidemos das coisas deste mundo, lutando por uma sociedade justa e igualitária.

Conclusão

     A (falsa) espiritualidade é usada para mascarar as desigualdades sociais. Na prática, a separação entre o que é espiritual e o que não é não é muito definida. Além disso, um Evangelho que não é comprometido com a totalidade do homem e com as causas sociais é um Evangelho pela metade. 

25/01/2019

Coisas que a esquerda deve evitar

Manifestação organizada por centrais sindicais no dia 20/08/2015, em São Paulo. Foto: Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo.


Este texto é fruto de experiências vividas por mim e também por experiências que me foram contadas acerca da esquerda brasileira.

1 - Saia da bolha: a maioria dos movimentos de esquerda só falam para os seus. Eu já fui em inúmeros eventos organizados por pessoas de esquerda e o público presente eram basicamente militantes. Se estamos falando de favelas, cadê aquele senhor que praticamente viu a favela nascer? Cadê aquela mãe cujo filho foi assassinado pela PM? Cadê aquele jovem que é abordado pela polícia toda vez que sai de casa para trabalhar?

2 - Retome o trabalho de base: este tópico está relacionado ao primeiro. Ao longo da história o trabalho de base foi muito usado pela esquerda. Aliás, foi o trabalho de base que fez do PT (Partido dos Trabalhadores) no maior e mais importante partido de esquerda da América Latina. Nos últimos anos, a esquerda abandonou este trabalho e o que se vê é o avanço da extrema-direita no Brasil. Retomar o trabalho de base é algo de vital importância nestes tempos sombrios;

3 - Não trate o adversário político como inferior: vi muitas pessoas nas eleições presidenciais de 2018 tratando os eleitores do Bolsonaro como pessoas sem conhecimento e desprovidos de cultura política. Nem todos que votaram no Bolsonaro são alienados ou coisa parecida. Alguns tinham a plena consciência do que estavam fazendo. Pare de agir como um ser de luz que tem a missão de iluminar os demais;

4 - Ato por si só não resolve nada: nos últimos tempos a esquerda tem ido para as ruas com muita frequência para manifestar a insatisfação contra os desmandos do governo, algo legítimo e que tem o meu apoio. Fizeram a manifestação, mas e depois? O que fazer? Havia um trabalho sendo realizado antes da manifestação? Protesto por si só não resolve muita coisa.

02/10/2018

Pausa necessária

Imagem: Reprodução.

     Pessoal, estou passando aqui para avisar que durante o mês de outubro não haverá texto novo. Estou desde o ano passado me preparando para um longo, exaustivo e difícil processo seletivo. A etapa mais difícil deste processo ocorre no começo de novembro e eu preciso de todo o tempo e dedicação do mundo se eu quiser obter a desejada classificação. A partir do mês que vem eu volto a escrever aqui, mas será somente um texto por semana e não dois, como é o hábito. A normalidade da publicação de textos (dois por semana) só será restaurada ano que vem. Peço a compreensão de todos e também que torçam por mim, pois este é um importante passo em minha carreira. Por enquanto, não vou falar que concurso é esse, mas espero compartilhar a vitória com vocês, caso eu alcance a mesma. As páginas do blog no Facebook e no Twitter continuarão a ser atualizadas, só que em um ritmo menor. Já estou com saudades e espero voltar a escrever aqui logo e também comemorar, se Deus quiser. 
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