27/07/2017

A esquerda do asfalto e a esquerda da periferia

Morro do Vidigal visto do alto (no canto à esquerda). A favela está situada na Zona Sul, área nobre da cidade do Rio de Janeiro. A região faz fronteira com os bairros do Leblon, São Conrado, Gávea e Rocinha. Imagem: Reprodução. 

     Um defende as pautas da favela, como violência policial e ausência de serviços básicos que devem ser oferecidos pelo Estado. Já o outro costuma defender pautas que estão no campo da política nacional, como eleições diretas e denúncias ao golpe parlamentar de 2016 por exemplo. São grupos diferentes, mas que tem muita coisa em comum. Juntando, se tornam imbatíveis.
     A esquerda da periferia é composta por pessoas oriundas da favela e que chegaram ao ensino superior. Esta não é uma regra geral, visto que dentro da esquerda periférica há pessoas com baixo nível de escolaridade. Eles reivindicam saneamento básico, melhoria dos serviços de saúde e de educação. Denunciam também a violência policial, uma vez que a polícia costuma agir de modo arbitrário nas favelas e matando as pessoas, principalmente os jovens negros. Eles até costumam se manifestar sobre questões no campo da política nacional, mas este não costuma ser o foco deles.

Imagem: Reprodução.

     A esquerda do asfalto costuma defender pautas que estão no âmbito da política nacional, como por exemplo a reprovação da nomeação de algum político, a ação arbitrária de um juiz contra uma figura política e a reprovação de um plano orçamentário por exemplo. Golpe parlamentar de 2016, PEC do Fim do Mundo, condenação de Lula e Reforma Trabalhista são questões que foram alvos dos protestos desta mesma esquerda. 
     Parte da esquerda da periferia não se manifestou sobre o golpe parlamentar de 2016 sob a justificativa de que na favela o golpe acontece todos os dias, uma vez que as operações  policiais são uma realidade constante nas favelas. Ainda com relação às operações policiais, os militantes da esquerda periférica convidam de forma irônica os defensores de uma intervenção militar a morarem na  favela, uma vez que na mesma a polícia intervém com frequência e sempre de maneira arbitrária. Estas ações quase sempre resultam em mortos (em especial jovens negros), inocentes baleados e alterações na cena do crime realizada pela polícia. Isso sem contar nas vezes em que a polícia confundiu furadeira com metralhadora, saco de pipoca com saco de drogas e por aí vai.
     Por outro lado, a esquerda do asfalto critica a esquerda da periferia e os moradores da mesma em geral. Eles dizem que o povo está "anestesiado", "dormindo" e até dizem que o mesmo é "burro". Isso porque eles não entendem porque o povo está "adormecido" ante a tantas barbaridades que estão acontecendo no cenário nacional. Não. O povo não é burro. Eles podem até não saber o nome do juiz que condenou Lula, o nome do atual presidente da Câmara dos Deputados ou o nome daquele político e empresário que teve um helicóptero apreendido com quase meia tonelada de cocaína dentro. Entretanto, o fato de o povo não saber tais coisas não os tornam pessoas alienadas. Nos protestos de Junho de 2013, que no início era organizado pela esquerda e a pauta inicial era o protesto contra o aumento das passagens de ônibus, eu fui em alguns dos mesmos com o pessoal da universidade. No ônibus em que estávamos, assim que o mesmo passou pela concentração onde estavam os manifestantes, um motorista que era também cobrador, disse que tudo aumentava, menos o salário. Esta fala simples revela a insatisfação deste motorista com relação ao quadro político-social e a sua consciência política, uma vez que para ele dizer isso, ele sabia muito bem a quantidade de atividades que exercia ao mesmo tempo (e que mesmo assim ganhava pouco) e o preço das alimentos que consumia. Outra situação que vivenciei foi em 2014, durante as eleições presidenciais deste mesmo ano. Tenho um vizinho nordestino que há muitos anos vive na cidade do Rio de Janeiro. Como todo mundo sabe, Dilma Rousseff e Aécio Neves foram para o segundo turno. Esse mesmo vizinho iria votar no Aécio, mas ao conversar com os parentes que ainda moram no Nordeste, ele mudou de opinião e votou na Dilma. A então Presidente da República, que seria reeleita, bem como Lula e o governo do PT fizeram muitas ações que melhoraram a qualidade de vida daqueles que habitam a Região Nordeste do Brasil. A população humilde, sabendo disso, votou em peso em Dilma Rousseff. Tanto é que no nordeste do país Dilma foi absoluta. 

Mapa mostrando como cada região do Brasil votou no segundo turno das eleições presidenciais de 2014. Repare que as Regiões Norte (parte dela), Nordeste e parte da região Sudeste votaram em Dilma Rousseff. Imagem: Reprodução. 

     Apesar da esquerda da periferia e a do asfalto terem suas respectivas pautas, é possível o diálogo e a união das mesmas. Os moradores da periferia são os mais afetados com a Reforma Trabalhista, a PEC do Fim do Mundo e a Reforma Curricular por exemplo. Além disso, a mesma polícia que age de modo truculento com os moradores mais pobres, é a mesma que ataca de modo violento aquelas pessoas que vão para as manifestações. Apesar das diferenças, a esquerda da periferia  e do asfalto tem pontos em comum.

Conclusão

     A esquerda da periferia e a do asfalto possuem as suas respectivas pautas, mas também possuem pontos em comum pelo fato de terem o mesmo governo. Por conta disso, nada impede a união entre estas duas esquerdas, bem como entre os movimentos de esquerda em geral. No dia em que isso acontecer, a esquerda se tornará imbatível. 

25/07/2017

A injustiçada Marina de Oliveira

Marina de Oliveira em encarte do CD Coração Adorador (1999). Imagem: Reprodução. 

     Por muito tempo, ela era considerada (talvez ainda seja) uma cantora péssima que só lançava CDs porque seus pais eram donos da MK Music. Além disso, ela era acusada de "estragar" o grupo Voices, uma vez que as integrantes cantam bem e ela supostamente não teria o mesmo talento. Entretanto, depois que passei a ouvir suas músicas e atentar para a sua extensão vocal e, é claro, estudar sua vida, minha opinião em torno de Marina de Oliveira mudou completamente.
      Acho que a primeira vez que ouvi falar em Marina de Oliveira foi quando fui no Canta Zona Sul, em 2004. Nesse dia, estavam vários cantores de renome como Fernanda Brum, Novo Som, Oficina G3 e o grupo Voices. Marina de Oliveira estava presente e eu vi a apresentação dela. Eu e o pessoal da igreja achamos ela "estranha". Nos anos seguintes, eu passei a acompanhar Marina de Oliveira e as músicas evangélicas que eram lançadas no momento. Eu considerava a Marina uma mulher sem talento musical e que a todo instante cortava o cabelo de um jeito diferente (se você analisar os CDs de Marina de Oliveira, bem como os vídeos dela em diferentes épocas, verá que em todos eles ela está com um cabelo diferente). Na minha visão, a única explicação que fazia ela continuar gravando CDs era o fato dela ser filha dos donos da MK Music.

Na Extremidade (2010) é o último CD de Marina de Oliveira. Imagem: Reprodução. 

     A minha opinião que até então tinha a respeito de Marina de Oliveira era compartilhada por muitas pessoas. Percebia isso quando falava dela com alguns amigos cristãos, quando lia os comentários dos vídeos dela no Youtube ou quando visitava sites de humor cristão e/ou voltado para a música gospel. Minha opinião em torno de Marina foi mudando na medida que ia ouvindo suas músicas. Ouvindo seus primeiros CDs, percebi a sua bela e doce voz. Como já conhecia algumas de suas músicas atuais, percebi a diferença. Particularmente, acho que ela deveria continuar cantando no estilo de seus primeiros CDs, pois com o passar do tempo ela foi adotando estilos de música que não valorizam a sua potência vocal. Mesmo cantando bem e tendo músicas de sucesso no currículo, Marina de Oliveira nunca ganhou individualmente discos de ouro, platina ou diamante. Os que ela ganhou foram junto com grupo Voices (2 discos de ouro), a coleção Geração de Adoradores (3 discos de ouro) e a coleção Amo Você (4 discos de ouro). O fato de Marina de Oliveira nunca ter sido premiada individualmente com premiações aqui citadas não faz dela uma cantora sem talento. Há muitos cantores mundo afora de muito talento que nunca foram premiados individual ou coletivamente com discos de ouro, platina ou diamante. Indo mais além, há no mundo inúmeros cantores muito talentosos que nunca nem chegaram ao estrelato. Ao longo de seu ministério, Marina de Oliveira já foi indicada nove vezes ao extinto Troféu Talento e ganhou três vezes (em 1995, 2001 e 2003), ganhou o Troféu Achou Gospel em 2010 e foi indicada duas vezes ao Grammy Latino (em 2009 e em 2010), vencendo em 2010.



     O primeiro disco de Marina de Oliveira foi Imenso Amor (1986), cujo hit foi o dançante Faça um Teste. Com este disco, Marina marcou época e, como a mesma já disse, foi ousada e pagou o preço. Quando Marina de Oliveira surgiu no cenário musical gospel, os cantores cristãos eram sóbrios no vestir e contidos em suas gesticulações. Marina chegou e rompeu com isso. Quem já viu uma apresentação de Marina de Oliveira, sabe que ela é expansiva e se movimenta o tempo todo. Além disso, foi graças a Marina, que introduziu a dança dentro da igreja, que as coreografias são comuns em muitas denominações cristãs. É importante ressaltar que quando Marina de Oliveira adentrou a cena musical gospel, nos anos 1980, este mesmo gênero estava vivendo um momento de profundas transformações. Estas transformações contaram com a ajuda de grupos como Novo Som, Oficina G3, banda Catedral e Rebanhão por exemplo. Estes grupos inovaram ao usarem instrumentos musicais até então proibidos dentro das igrejas e mudaram para sempre o jeito de fazer música gospel no Brasil.
     Como já dito no parágrafo anterior, foi Marina de Oliveira quem introduziu a dança dentro da igreja. No videoclipe Procure Por Mim na Glória, colocado neste texto, ela praticamente dança do começo ao fim. Se ainda hoje o modo como Marina dança e se expressa no clipe causa espanto, imagina então como deveria ser nos anos 1980 e começo dos anos 1990. O clipe em questão tem uma pegada cômica e descontraída, onde Marina usa milhares de figurinos e perucas diferentes. À primeira vista, uma pessoa pode achar tudo sem nexo, mas o clipe e a música seguem em perfeita sintonia. Procure Por Mim na Glória é uma música que fala sobre a vida no porvir e, ao trocar de figurinos e perucas enquanto canta, Marina de Oliveira está dizendo que no céu todos, independente de cor, raça, gênero ou etnia, serão visto como iguais. Não é preciso dizer que o videoclipe em questão enfrentou a resistência de muitos cristãos pelo fato da música ser dançante e a Marina dançar alegremente o tempo todo. Gente, se a Bíblia fala que o porvir é um lugar onde não haverá dor, nem choro e nem tristeza, porque então não dançar e louvar alegremente ao Senhor, principalmente quando o assunto é a vida eterna?
     No ano de 1995, Marina de Oliveira lançou os CDs Momentos Vol. 1 e Vol. 2. Estes discos eram para ser um só. Entretanto, Marina gostou de todas as composições que recebeu e não queria se desfazer de nenhuma delas. Assim, um disco que a princípio seria um só, acabou se tornando dois. Estes trabalhos musicais entraram na 52ª posição dos 100 maiores álbuns da música cristã brasileira. Além destes discos, outro álbum de Marina que entrou para esta mesma lista é o Por Toda Vida (2000), que ela lançou quando integrava o extinto grupo Voices. Tal álbum está na 88ª posição.

Aviva (2000) é o décimo primeiro álbum de Marina de Oliveira. Imagem: Reprodução. 

     No ano de 1997, Marina de Oliveira lançou o CD Special Edition, álbum totalmente voltado para o mercado norte-americano, sendo gravado praticamente todo em inglês. Dois anos depois, Marina lançou o CD Coração Adorador, cuja capa é a imagem que "abre" este texto. Em 2000, Marina presenteia o público com o CD Aviva, seu décimo primeiro álbum e que é considerado uma "pérola" de seu ministério. De fato, Aviva é um CD muito bom e a canção que dá título ao mesmo dispensa comentários. A canção Aviva foi muito executada nas rádios quando foi lançada e hoje é considerada uma das mais conhecidas músicas de Marina de Oliveira. Eu só acho uma pena a Marina não ter seguido nos álbuns posteriores a fórmula que deu tão certo em Aviva. Se ela tivesse feito isso, talvez hoje ela seria uma das cantoras mais populares do país.
   Outro álbum de destaque de Marina de Oliveira é o Remix 17 (2003), que é um CD em comemoração aos seus 17 anos de ministério. Neste trabalho, Marina reúne seus maiores sucessos, que no CD em questão ganharam uma versão remixada. Inicialmente, tal trabalho seria lançado em 2001, quando Marina completou 15 anos de ministério, mas a presidência da MK Music (que na época se chamava MK Publicitá) barrou o projeto por considerá-lo excessivamente ousado (como se ousadia não fosse a marca da Marina) para uma cantora que ainda estava consolidando sua carreira. Um tempo depois, a gravadora que Marina faz parte lançou o CD Arrebatados, que reunia canções remixadas de vários cantores renomados da MK. O disco teve boa repercussão e a gravadora liberou Marina de Oliveira para fazer um disco remix só seu. Foi daí que veio o Remix 17.
     Marina de Oliveira ficou quase cinco anos sem gravar um CD com músicas inéditas, até que em 2006 lançou o Meu Silêncio: Ministração Profética entre Amigos e Irmãos - Ao Vivo. Este disco é fruto das experiências que Marina viveu durante o período em que esteve na "caverna". Dois anos depois, Marina lança o Permitéme, seu segundo disco solo voltado para o mercado estrangeiro e que foi gravado inteiramente em espanhol. Ainda em 2008, Marina lança o CD Eu Não Vou Parar. Este CD rendeu a Marina de Oliveira uma indicação ao Grammy Latino 2009 na categoria Melhor Álbum de Música Cristã em Língua Portuguesa. Entretanto, foi só no ano seguinte que Marina ganharia nesta mesma categoria com o álbum Na Extremidade.

Registro do momento em que Marina de Oliveira ganha o Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Música Cristã em Língua Portuguesa pelo CD Na Extremidade (2010). Imagem: Reprodução. 

     Na Extremidade (2010) é um CD que expressa o momento que Marina de Oliveira passava até então. Em fevereiro de 2010, Marina perde o irmão Benoni e o marido Sérgio Menezes em um acidente de ultraleve que ocorreu no bairro de Jacarepaguá (RJ). Tal tragédia foi notícia até fora do meio evangélico e abalou Marina e sua família (poucos meses depois desta fatalidade, Luiza Gerk, filha do primeiro casamento de Marina, perderia o marido em um acidente de moto). Inicialmente, o repertório de Na Extremidade foi rejeitado por Marina. Entretanto, meses após a tragédia, Marina se lembrou do CD com o repertório que havia ficado guardado em seu carro. Ela o ouviu novamente e teve a certeza de que de fato o repertório para seu então novo CD deveria ser o que ela havia rejeitado de início. Além das músicas, as fotos para o encarte do CD em questão retratam o momento que Marina vivia: nas fotos, Marina está séria e usando roupas pretas, ao contrário do que o público viu em Eu Não Vou Parar (2008), que eram fotos solares que mostravam uma Marina alegre e sorridente. Na Extremidade é o último álbum de Marina. Não entendo porque Marina de Oliveira parou de gravar, principalmente depois de ter ganhado um Grammy Latino, uma vez que o mais lógico seria ela continuar gravando.
     Além de cantora, Marina de Oliveira também é compositora, empresária, artista plástica, coreógrafa, roteirista, diretora e apresentadora. Marina abriu as portas para a música gospel ao se apresentar em casas de shows como Canecão, Imperator e Metropolitan (hoje Citbank Hall) . Além disso, Marina produziu eventos como o Canta Rio, que reuniu mais de 200 mil pessoas na Quinta da Boa Vista (RJ) em 1995. Já o Canta Rio 99 reuniu mais de 120 mil pessoas na Praça da Apoteose (RJ). Marina  de Oliveira assinou a direção artística do Canta Brasil 500 (21/04/2000), o Canta Rio 2002 e o Canta Zona Sul, em 2004 (eu estava lá), que reuniu mais 160 mil pessoas nas areias de Copacabana. Marina assinou também a direção artística de todos os grandes eventos do Grupo MK e os DVDs da empresa.
     Marina de Oliveira é a Diretora Artística da MK Music. Isso quer dizer que os encartes dos CDs e DVDs produzidos pela gravadora tem a contribuição de Marina, que por sinal faz um excelente trabalho. É fato que às vezes Marina acaba exagerando, coisa que ela fez nos seus próprios álbuns Um Novo Cântico (2002) e Na Extremidade (2010), onde tentou fazer algo extremamente bem feito e acabou passando da conta, dando a impressão de que estava fantasiada. Entretanto, tais fatos não foram suficientes para contestar a competência de Marina de Oliveira enquanto diretora artística. Vale destacar que Marina de Oliveira é uma das poucas pessoas a ouvir os CDs dos artistas da MK Music antes de todo mundo.

Conclusão

     Marina de Oliveira sabe cantar, sim. Além de cantar, Marina também cria roteiros, coreografias, organiza eventos de grande porte, compõe músicas e é apresentadora. Desta forma, se conclui que Marina de Oliveira é uma artista completa e de múltiplos talentos. Além disso, ela deixou sua contribuição para a música gospel brasileira, de modo que não tem como falar de uma sem citar a outra. 

20/07/2017

Voices - o maior grupo vocal feminino gospel da história do Brasil

Grupo Voices em foto do álbum Coração de Criança (2001). Da esquerda para a direita: Eyshila, Marina de Oliveira, Liz Lanne, Jozyanne e Fernanda Brum (centro). Imagem: Reprodução. 

     O grupo Voices era composto por mulheres de grandes talentos musicais. Suas músicas caíram no gosto do público e marcaram gerações. Por essas e outras razões, o grupo em questão é o maior grupo feminino gospel do país.

Colores del Amor (1997) é o primeiro álbum do grupo Voices. Imagem: Reprodução. 

     O grupo Voices surgiu porque a MK Music (que na época se chamava MK Publicitá) iria participar da EXPO 97, um evento internacional. Entretanto, a gravadora na época não tinha nenhum álbum musical em língua inglesa ou hispânica para apresentar neste mesmo evento. Com a necessidade de apresentar um disco em língua estrangeira e ao mesmo tempo mostrar algo diferenciado, Marina de Oliveira resolveu criar o Voices (que significa vozes em inglês), que foi composto pela própria Marina, Fernanda Brum, Eyshila, Liz Lanne e Jozyanne (que anos mais tarde seria substituída por Lilian Azevedo).
     Colores del Amor (1997) é o primeiro álbum do grupo Voices e foi voltado para o exterior. Entretanto, o fato de não haver músicas em português no disco em questão não impediu que o mesmo fosse sucesso no Brasil. Este mesmo disco é composto de músicas em português que ganharam uma versão em língua estrangeira, como é o caso de Ao Amigo Distante, uma das canções mais conhecidas do ministério de Cristina Mel. Aliás, Cristina Mel e Jossana Glessa tiveram uma participação neste mesmo trabalho.
     O primeiro trabalho do grupo Voices deu tão certo que resolveram dar continuidade ao grupo. Em 1999, o grupo em questão lançou o trabalho Corações Gratos, sendo o primeiro álbum do Voices lançado em língua portuguesa. Corações Gratos, Cante Aleluia e Digno foram as faixas de sucesso deste trabalho. Além disso, o disco chegou a ficar entre os 5 mais vendidos no MK Shopping.



     Em 2000, o Voices lança o álbum Por Toda Vida, que rendeu ao grupo um disco de ouro pela vendagem de 100 mil cópias. Destaque para Meu Tesouro, A Maior Oração, a faixa título Por Toda Vida e Pisa no Inimigo. Esta última teve direito a coreografia e um vídeo clipe que pode ser conferido acima. Uma curiosidade: os CDs do Voices eram produzidos por Emerson Pinheiro, ex-integrante da banda Quatro por Um e que agora segue em carreira solo, além de ser casado com Fernanda Brum, uma das integrantes do grupo Voices. O sucesso de Por Toda Vida foi tão grande que as meninas lançaram um VHS de mesmo nome, gravado no Olimpo (casa de show da cidade do Rio de Janeiro), lançado em 2001 e relançado em DVD no ano de 2004. Foi também em 2001 que o grupo Voices lançou o disco Coração de Criança, trabalho totalmente voltado para o público infantil. Este mesmo álbum contém músicas inéditas e clássicos cristãos infantis como Soldado de Cristo, Vem com Josué, Jerusalém e O Forró, que é um medley de corinhos de fogo conhecidos no meio pentecostal brasileiro.
     Antes de continuar este texto, é importante destacar o cenário musical no mundo no momento em que o Voices foi criado. Entre os anos 1980 e início dos anos 2000 as boy bands e girl bands estiveram em alta no Brasil e também no mundo. Menudos, Dominó, Spice Girls, Backstreet Boys, 'N Sync, KLB, Rouge e Br'oz são apenas alguns grupos que atingiram o estrelato neste período. A Igreja influencia a sociedade e vice-versa. Desta forma, o sucesso das girl e boy bands influenciaram o meio cristão. E foi nesta febre que surgiu o Voices.



     Em 2002, o grupo lança o CD Aliança. Destaque para as faixas Sai, Pelo Fogo, Aliança, Calem-se, Mãe e Hello, Good Bye. As músicas Sai, Perdido na Casa do Pai e Mãe ganharam videoclipe. Alguns dos clipes do Voices estão no canal da MK Music no Youtube, inclusive Pisa no Inimigo e Sai. O que me chama a atenção é que nos comentários dos dois clipes aqui citados, o pessoal fica dizendo que as coreografias e todo o resto são bregas. Só digo uma coisa: se atualmente as coreografias são consideradas ultrapassadas, saibam que nem sempre foi assim. Na época em que os clipes foram lançados, o sucesso foi imediato. Admiradores das meninas, conjuntos infanto-juvenis e cristãos de todo o país fizeram a coreografia. Os clipes Pisa no Inimigo e Sai eram considerados hiper modernos para a época, em especial o Sai, que tinha várias luzes iluminando o cenário, trocas de figurino e um efeito quee deixava os cabelos das meninas esvoaçantes.

Capa do CD Acústico do Voices. Lançado em 2005, o "verdinho" rendeu o segundo disco de ouro para o  grupo. Imagem: Reprodução. 

     No ano de 2005, o grupo lança o CD Acústico, que eu particularmente chamo de "verdinho" por conta do encarte ter a cor verde como predominante. A produção, assinada por Emerson Pinheiro, em nada deixou a desejar. As canções que mais gosto deste trabalho são: Meu Desejo, Vivo Ele Está, Transformado, Na Presença do Rei, Baby, Amo Você, Meu Amado Quer Me Encontrar, Eu Recebo e Recomeçar. O trabalho, bem aceito pelo público, rendeu o segundo disco de ouro para o grupo. Este trabalho, que também teve sua versão em DVD, marca a saída de Jozyanne e a chegada de Lilian Azevedo para substituí-la. Jozyanne saiu do grupo para se dedicar totalmente a carreira solo. Chegava ao fim a "formação clássica" do Voices.
     Dois anos depois do lançamento do CD Acústico, o grupo Voices lança o álbum Sobreviverei. O trabalho marca os então 10 anos do grupo e a estreia de Lilian Azevedo como integrante do mesmo. Em 2008, as meninas lançam um CD intitulado Natal e, como o nome sugere, as músicas que compõem o repertório são com temáticas natalinas. Quatro anos depois, o grupo Voices chega ao fim e, como despedida, é gravado o disco Para Sempre. Destaque para Aguenta Firme e Para Sempre, que ganharam videoclipe. O grupo Voices chegou ao fim depois de 15 anos de existência.

Capa do último álbum do grupo Voices. Imagem: Reprodução. 

     O grupo Voices fazia parte do cast da MK Music, que na época em que o grupo surgiu era MK Publicitá. Mesmo com fortes concorrentes, a MK Music se mantém como a maior gravadora do segmento evangélico no Brasil. Nos primeiros anos do grupo Voices, a gravadora em questão se destacava entre as demais por mostrar um conteúdo de alta qualidade e moderno para a época. Este fato foi crucial para o sucesso do grupo. Além disso, o mesmo era composto por cantoras que mantinham suas carreiras solo e eram bem sucedidas nisso, como Fernanda Brum, Eyshila, Marina de Oliveira e Jozyanne, que se tornou ainda mais conhecida depois que saiu do grupo. Já a cantora e fonoaudióloga Lilian Azevedo cantou em dupla por muito tempo com o esposo Marquinhos Menezes e atualmente está se dedicando a carreira solo. Já Liz Lanne, após gravar trabalhos  solos durante um tempo, deu uma pausa em seu ministério e chegou até a se aventurar no ramo empresarial, mas voltou a gravar e em 2017 lançou o álbum Confiar. Se deve dar destaque também para o cantor e produtor Emerson Pinheiro, que produziu os CDs do Voices.

Conclusão

     O grupo Voices pode ser considerado o maior grupo vocal feminino gospel do país por conta das músicas que marcaram gerações, os clipes de alta qualidade e a grande quantidade de discos vendidos. A febre das boy e girl bands ajudou direta ou indiretamente o grupo Voices a chegar ao sucesso, uma vez que o grupo surgiu neste período. Além disso, a MK Music sempre se destacou no segmento evangélico por apresentar conteúdo de alta qualidade. Não se deve ignorar o excelente trabalho de Emerson Pinheiro, que produziu os CDs do grupo. Com tantos elementos positivos, não tinha como o grupo Voices dar errado. 

18/07/2017

O status de pop star de alguns cantores cristãos

Imagem: Reprodução.

     O cantor gospel existe há muitos anos no meio cristão. Eles veêm a música como um meio de propagação da mensagem do Evangelho. Desta forma, todo cantor gospel automaticamente era cristão. Nos últimos tempos, o que se tem observado é que um cantor gospel é tratado como um verdadeiro pop star.
     A relação entre o cristianismo (tanto a corrente católica, como a corrente evangélica/protestante) e música é histórica e está em constante modificação conforme o passar dos anos. Dentro da religião cristã, a música é vista como um instrumento de evangelização e transmissão da doutrina cristã. Desta forma, um cantor gospel automaticamente é cristão. Ele era visto como uma pessoa qualquer e tinha uma vida distante de qualquer glamour, vivendo na simplicidade.

Imagem: Reprodução. 

     Não há como determinar o período que isso passou a acontecer. O máximo que se pode  dizer é que é um fenômeno recente e não é praticado por todos do ramo. Observações à parte, o fato é que há muitos cantores gospel que são tratados como estrelas. Não citarei nomes, mas se você for uma pessoa atenta, vai saber de quem estou falando. Cantores cristãos são tratados como verdadeiros astros. É comum vê-los em programa de televisão, algo que não é necessariamente ruim. Porém, algumas reflexões merecem ser feitas: em qual programa ele está indo, qual a vantagem dele estar ali e coisas do tipo. A religião cristã, em especial a evangélica, está em constante crescimento e todo mundo quer lucrar com isso. Por isso que muitos cantores evangélicos costumam estar na televisão, uma vez que a presença deles é sinônimo de audiência garantida. Ainda com relação a TV, é visto o tratamento de estrela que um cantor evangélico recebe. Principalmente nos programas de domingo da TV aberta, se vê chamadas do tipo: "menina sonha em conhecer a cantora X" ou "jovem que canta igual ao cantor Y vai conhecer seu cantor predileto". Aí, o cantor evangélico sobe ao palco é um choro sem fim. É uma pessoa conhecendo seu ídolo, que no caso é um cantor evangélico. Isto se chama idolatria, uma das "obras da carne" (Gálatas 5: 20) e que por isso deve ser condenada, ou ao menos deveria.
     Por parte dos cantores, eles parecem que gostam da posição de pop star e fazem jus a isso. Alguns cobram preços absurdos para se apresentarem em igrejas, congressos e festas. A popularidade de um cantor é crucial para ele cobrar um cachê, que pode chegar a incrível marca de R$100.000,00 por apresentação. Além do alto cachê, esses cantores também exigem quarto exclusivo em hotel cinco estrelas, quarto para a banda, carro exclusivo e outro para a banda. No camarim, também exclusivo, deve conter determinado número de toalhas brancas, de garrafas com água mineral e frutas da estação. A questão não é ele cobrar porque se ele vive disso, não há nada de errado em fazer tal coisa. A questão são os altos preços cobrados. Por onde andam, principalmente quando vão se apresentar, eles precisam ter seguranças por perto. Há vídeos por aqui de cantores se apresentando em igrejas ao lado de seguranças porque anteriormente eles estavam fazendo isso e foram surpreendidos por fãs. Li por aqui também que uma cantora foi se apresentar em uma igreja e a rua onde isso aconteceria foi tomada de fãs  e um deles chegou a subir no carro da cantora em questão. E quando os mesmos vão se apresentar, um número incontável de celulares são direcionados para eles.

Imagem: Reprodução. 

     Assim como aqueles cantores que não são do meio religioso, os cantores gospel possuem fã-clube. Entretanto, eles não se assumem enquanto tal. Eles se chamam de intercessores: intercessores de ciclana, intercessores de fulana e por aí vai. Porém, o comportamento é típico de um fã: eles sabem tudo sobre a pessoa, sabem as músicas de cor, o modo como o ídolo gosta de se vestir, de comer e por aí vai.

Conclusão

     Alguns cantores cristãos são tratados como estrelas e eles parecem gostar disso. Entretanto, este comportamento em nada tem a ver com o Evangelho, que condena a idolatria e incentiva o amor e a humildade. 

13/07/2017

As cotas raciais e o combate ao racismo

Imagem: Reprodução.

     Historicamente, os negros estão na base da pirâmide social. Isso significa que eles recebem os menores salários, exercem trabalhos perigosos e precários  e são historicamente exterminados. A política de cotas raciais tem a finalidade de mudar esse panorama, mas sozinhas não são capazes de mudar muita coisa.

Imagem: Reprodução.

     Ao longo da História, o negro é tratado da pior forma possível no Brasil. Ele foi escravizado, tirado de sua terra, de suas origens, de seu povo e das pessoas que amava. Em terras brasileiras, tiveram seus nomes trocados, foram impedidos de viverem a sua cultura e religiosidade. Em fins do século XIX, a escravidão chegou ao fim no Brasil, mas isso não mudou profundamente a vida dos negros e escravizados. Isso porque a estrutura social continuou sendo a mesma, deixando a população negra na base da pirâmide. Esta situação permaneceu ao longo da história do Brasil República.
     Além disso, os negros recebem os piores tratamentos. São eles que ficam com os piores empregos, são eles quem recebem os piores salários, são eles que mais abandonam a escola e são eles os que mais morrem pelas mãos da Polícia Militar. Ao contrário do que muita gente pode pensar, o racismo não é somente social: ele também é estrutural, sendo uma das bases da pirâmide social e econômica brasileira. Isso leva a conclusão de que no Brasil, além da desigualdade social, há também a desigualdade racial. Na prática, isso significa que uma pessoa negra raras vezes está em pé de igualdade com uma pessoa branca na hora de estudar, procurar emprego ou fazer prova para um concurso. Estas afirmações feitas neste parágrafo não é "mimimi" ou coisa parecida: há inúmeras pesquisas que comprovem o que foi dito aqui. Em agosto de 2016, foi divulgado o Mapa da Violência 2016: homicídios por armas de fogo no Brasil. Neste relatório, foi constatado que a maioria das vítimas eram jovens negros. De acordo com as estatísticas, no período entre 2003 e 2014, o número de homicídios por armas de fogo dentre a população branca diminuiu 26,1% e dentre a população negra aumentou aumentou 46,9%. Enquanto no ano de 2003 morriam, proporcionalmente, 71,7% mais negros do que brancos, em 2014 esse número saltou para 158,9%, ou seja: morrem 2,6 mais negros do que brancos no país.

Imagem mostrando Claudia Silva Ferreira já morta sendo arrastada por uma viatura da Polícia Militar. As imagens tiveram repercussão nacional e internacional. Imagem: Reprodução. 

     O Atlas da Violência 2017 aponta que, além de serem maioria entre as vítimas fatais de agressão, as mulheres negras são tão também as que mais morrem pelas mãos do Estado, nas chamadas "intervenções legais e operações de guerra". Entre os anos de 2005 e 2015, 52% das mulheres pretas ou pardas foram vitimadas pelo braço armado do Estado, como por exemplo a carioca Claudia Silva Ferreira, baleada e arrastada por uma viatura policial no ano de 2014 e Luana Barbosa dos Reis, espancada pela polícia na cidade de Ribeirão Preto (SP) no ano de 2016.

Imagem: Reprodução. 

     São pelas razões apresentadas acima que as cotas raciais são extremamente necessárias. Isso porque, da mesma forma que ainda há uma aguda desigualdade social no pais, há também uma desigualdade racial no Brasil. O objetivo das cotas raciais em concursos públicos é sanar esta mesma desigualdade. As cotas raciais são válidas e uma vitória do movimento negro. Ao contrário do que muita gente pensava (e ainda pensa), as cotas, sejam elas sociais ou raciais, não rebaixaram a qualidade do ensino universitário. Há pesquisas que comprovam que o rendimento de um universitário que entrou na universidade pela política de cotas é igual e até mesmo superior ao daqueles que não ingressaram por tal política. É também graças a política de cotas raciais que o número de estudantes negros universitários no Brasil aumentou 232% na comparação entre 2000 e 2010. Os dados são do infográfico Retrato dos negros no Brasil feito pela Rede Angola. A matéria que contém tais informações é de 2014 e pode ser lida aqui.
     As cotas raciais são uma ferramenta fundamental no combate ao racismo. Entretanto, esta medida é paliativa e, com isso, não é capaz de pôr um fim no racismo ainda latente no país. O racismo no Brasil é estrutural e se manifesta na mídia, na dramaturgia, na educação, na saúde e no mundo da moda por exemplo. Ou seja: o racismo está presente na maioria (ou em todas) das esferas da sociedade brasileira. Desta forma, para o racismo ser erradicado, é necessário a ação conjunta de toda a sociedade. De nada adianta o número de negros na universidade ter aumentado se a grande maioria deles não consegue ir adiante. De nada adianta haver cotas raciais em concursos para se tornar diplomata se os negros ainda são vistos como ladrões e/ou profissionais do sexo por uma parcela considerável da população. Além disso, o Estado precisa rever o seu comportamento genocida para com a população negra. Sim, pois a partir do momento em que o Estado nega serviços de saúde e saneamento básico para bairros habitados majoritariamente por negros (que no caso são as favelas), ele está matando a população. A Polícia Militar, braço deste mesmo Estado genocida, precisa urgentemente largar esse hábito de ver o negro como suspeito (há quem defenda a desmilitarização e até o fim da mesma) porque, ao contrário do que muita gente pensa e é noticiado, a PM não é mal treinada. Muito pelo contrário. Ela é treinada justamente para entrar de modo arbitrário nas favelas e matar a população negra. Não tem como falar desta questão e não abordar a proibição das drogas. Usando o argumento de combater o tráfico de drogas, a polícia entra nas favelas e mata os jovens negro. Entretanto, este argumento não se sustenta, pois se houvesse o real interesse em combater o tráfico de drogas, o Estado mandaria a polícia para os aeroportos e para as fronteiras. A favela é a ponta do iceberg monstruoso que  é o tráfico de drogas, um mercado que movimenta por ano no Brasil R$ 1,4 bilhões e US$ 320 bilhões no mundo. Além disso, se as drogas são proibidas para o jovem da periferia, para o morador de bairros nobres ela é liberada. Em universidades e praias de lugares nobres da cidade do Rio de Janeiro (e dos demais estados) é comum ver jovens brancos e de classe média usando drogas normalmente.

Imagem: Reprodução. 

     Como está sendo dito aqui, todas as esferas da sociedade (inclusive as que não foram citadas neste texto) precisam tomar medidas para combater o racismo, uma vez que ele é estrutural. Entretanto, se o objetivo é erradicar o racismo da sociedade, deve-se começar pela base: a educação. A educação é a base de tudo e seu potencial é transformador. É por isso que governos, temendo uma rebelião, investe tão pouco em educação. É por esta razão também que em ditaduras a educação é a primeira a sentir os reflexos de um governo ditatorial. E é por isso também que muitos políticos reacionários defendem o Escola Sem Partido, projeto inconstitucional e que visa findar a "doutrinação de esquerda" presente em muitas escolas. Na verdade, o que eles temem é o potencial transformador da educação. Desde 2003 que o ensino de História da África é obrigatório nas escolas. Porém, muitos professores ignoram esta lei. As razões para isso são muitas. Muitos docentes pouco ou nada estudaram acerca do continente africano na universidade, em muitas escolas o currículo quase nunca é cumprido e nisso a História da África é a que mais sofre. Há também a questão religiosa. Muitos professores e pais de estudantes que partilham da fé cristã se fecham para o estudo da África sob o argumento de que a religiosidade do continente africano e a sua história em si são demoníacos. A lei que obriga o ensino de História da África nas escolas existe há 14 anos, mas não há muito o que comemorar.
     Se o professor de História tem que ensinar a história do continente africano, ele deve então receber uma formação adequada para tal, coisa que ainda não acontece em muitas universidades. Há cursos que oferecem uma única disciplina obrigatória destinada ao ensino de História da África. A mesma tem de ser subdividida entre imperialismo na África (século XIX) e independência dos países africanos (século XX), o que é muito pouco porque são muitos assuntos para ser abordado em um único semestre. O continente africano é complexo demais para ser abordado em uma única disciplina. Além disso, a África não existe desde o imperialismo, pelo contrário. Porém, nas universidades ela é estudada a partir do imperialismo, como se só existisse a partir dali, o que não é verdade. Isso sem contar que a História da África é uma sub-área dentro de História Contemporânea. Ela não tem uma cadeira própria, como tem por exemplo a História do Brasil, a História da América, a História Moderna e História da Idade Média. A história vista nos cursos de História é a da Europa e isso é feito desde a Antiguidade Clássica (Grécia e Roma) até o século XX, mais precisamente até a Guerra Fria (1945-1991). O mesmo acontece com a História do Brasil, que é vista desde quando o país era colônia de Portugal até o Golpe Civil-Militar de 1964. Coisa parecida acontece com a História da América, onde se estuda as teorias de como os humanos chegaram ao continente americano até a Revolução Cubana  (1959) e as ditaduras civis-militares que foram impostas em muitos países da América Latina ao longo do século XX. Desta forma, por que a África não é estudada desde as teorias que explicam porque ela é o berço da civilização até as independência de seus países no século XX? Material para isso é o que não falta.

A Coleção História da África, organizada pela UNESCO, vai até o volume 8 e é sem dúvidas a obra mais completa acerca do continente africano. Imagem: Reprodução. 

Conclusão

     As cotas raciais são uma vitória do movimento negro, que tanto lutou pelas mesmas. Não se pode negar que as cotas raciais são uma ferramenta fundamental no combate ao racismo estrutural da sociedade brasileira. Foi com as cotas raciais que muitos negros tiveram acesso ao ensino superior, foram aprovados em concursos e conseguiram ser diplomatas. Porém, uma vez que o racismo é estrutural, é somente com a ação conjunta de diversos setores da sociedade que o racismo será erradicado. Isso se essa mesma sociedade racista estiver disposta a eliminar o racismo. 

11/07/2017

Sobre pessoas negras que só se envolvem com pessoas brancas

Cena do filme Advinha Quem Vem para Jantar (1967), cujo assunto central é uma história de amor inter-racial. Joey Drayton (Katharine Houghton) e John Prentice (Sidney Poitier) estão apaixonados, mas terão de enfrentar a resistência dos pais da moça, que não querem vê-la casada com um homem negro. Imagem: Reprodução.



     Esse texto vai falar de um assunto que é motivo de discussões intermináveis dentro do movimento negro: pessoas negras que só se envolvem com pessoas brancas. Desde já, eu deixo claro que, por mais que eu use o termo "pessoas", o foco aqui vai ser nas relações entre homens e mulheres. É fato que existe racismo dentro do movimento LGBT e abordar esse assunto seria necessário, no mínimo, mais um texto para apenas falar sobre isso. Recomendo a vocês a leitura dos textos Como é ser um gay negro que só saiu com brancos e 28 Questões Para Negros que só se relacionam com Brancos, que, em minha opinião abordam muito bem a questão do racismo dentro do movimento LGBT. Dadas as devidas observações, vamos agora para o assunto que dá título ao texto.



Pintura mostrando São Pedro de Claver evangelizando africanos nos mercados escravistas da América do Sul. Imagem: Reprodução. 


     Por mais de três séculos os negros foram escravizados no Brasil. Eles foram tirados de sua terra, de sua cultura, de suas origens, de sua família e das pessoas que amava. Na diáspora, eles foram impedidos de falarem sua língua, exercerem a sua cultura, a sua religiosidade e tiveram seus nomes trocados. Além disso, eles foram reduzidos a algo pior que nada. Não tinha lei que os amparasse e não tinha quem os defendesse. Eram tratados como objetos, podendo ser usados a bel prazer por seu dono. É de extrema importância destacar a atuação da Igreja nesse contexto. Aliada ao Estado, ela legitimou a escravidão, dando um "ar espiritual" a mesma. Essa roupagem espiritual inclui um Jesus com traços europeus (o que não condiz com a realidade) e o discurso de que a escravidão serviria para redimir os negros do pecado, uma vez que eles seriam descendentes de Cam, o filho de Noé que zombou do mesmo ao vê-lo embriagado e nu. Até hoje, há quem diga que a maioria dos africanos vivem na miséria por conta do "misticismo" em que baseiam a sua fé. 



"Abolição da Escravatura", quadro de Victor Meirelles. Imagem: Reprodução/Victor Meirelles/Wikimedia Commors.


     Em 1888, um ano antes do fim do regime monárquico e da Proclamação da República no Brasil, a Lei Áurea é assinada pela Princesa Isabel (1846-1921), pondo fim ao regime escravista então vigente no país. Entretanto, a Lei Áurea não trouxe efeitos práticos para os escravos do período. As estruturas de poder e sociais continuaram sendo as mesmas e os negros continuaram na base da pirâmide social. Não houve nenhum programa ou coisa parecida para acolher os escravos que foram libertos. O escravo passou a vida toda com seu senhor exercendo determinado ofício. Com a Lei Áurea, ele estava livre. Porém, o que ele ia  fazer? Ele não sabia ler, não sabia escrever e não tinha uma profissão formal. Isso sem contar com o racismo, uma vez que a Lei Áurea não mudou a mentalidade de ninguém. Desta forma, não tendo para onde ir, muitos escravos continuaram sendo escravizados, mesmo com o fim do regime escravista.
     Se os negros não foram amparados no processo que culminou na abolição da escravatura e até mesmo após a mesma, o mesmo não aconteceu com os brancos ricos. Ao invés de doarem terras e tornar o então escravo um trabalhador assalariado, foi incentivada a vinda massiva de imigrantes europeus ao Brasil. A ideia era embranquecer a população, além da concepção da época acreditar que o branco era o símbolo do progresso. 



Pintura mostrando escravos praticando a capoeira. Repare no homem fardado pulando a barreira. Estaria ele com a intenção de coibir a  prática? Imagem: Reprodução. 

     No ano de 1889, um golpe militar republicano põe fim ao regime monárquico vigente e manda a família imperial para um exílio forçado, proibindo seus membros de voltarem ao país. República é uma palavra de origem latina, res publica, que significa "coisa pública". Ou seja: um governo republicano é um governo do povo. Entretanto, não é isso o que se vê. Mudou a forma de governo, mas a estrutura social continuou sendo a mesma. Desta forma, com a Proclamação da República os privilegiados continuaram com seus privilégios e os explorados (em especial os negros) continuaram sendo explorados. Mesmo com o regime escravista findado no século XIX, ao longo do século XX muitos negros continuaram vivendo em situações análogas a escravidão e ocupando os postos de trabalho mais precários. Além disso, o samba, ritmo originário da cultura negra, assim como a capoeira, foram duramente perseguidos pelos governos vigentes. 
     O Golpe Civil-Militar de 1964 proibiu que a temática racial fosse abordada em novelas, filmes e músicas. O golpe reforçou o mito da democracia racial. Com o fim da ditadura, a temática racial voltou a ser abordada. Porém, os negros ainda continuam nas posições mais baixas no mercado de trabalho e na pirâmide social. Deve-se reconhecer a importância das cotas raciais, do ensino de História da África e do movimento negro (que agora tem a sua voz ampliada devido as redes sociais) na mudança desse quadro, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Isso sem contar com a matança de negros em larga escala realizada pela polícia militar e a criminalização do funk, ritmo criado pelos negros. 

Branquitude e padrões de beleza



Deise Nunes foi eleita Miss Brasil no ano de 1986, sendo a primeira mulher negra a ocupar tal cargo. Imagem: Reprodução. 

     O racismo no Brasil é estrutural e abrange todas as esferas da sociedade. Nos comerciais relacionados a beleza, as modelos na maioria das vezes são brancas. Nos comerciais relacionados a cremes para os cabelos, a maioria dos cabelos representados são lisos ou no máximo cacheados. Cabelos crespos aparecem pouco. O padrão de beleza do Brasil é o branco e isso é evidente em concursos de Miss Brasil, onde a maioria das mulheres que ocuparam este posto são brancas. O concurso existe desde 1954 e até o ano de 2016, apenas duas mulheres negras foram eleitas miss. Em novelas, a maioria dos atores e atrizes que ocupam os papéis centrais são brancos. Voltadas especialmente para o público feminino, a maioria das atrizes que aparecem em novelas são brancas. Desta forma, se um homem negro não se sente representado ao assistir uma  telenovela, imagine então como deve ser para uma mulher negra. 

A idealização do amor romântico



Cena do filme Romeu e Julieta (1968). O longa foi baseado no romance homônimo de William Shakespeare (1564-1616). Romeu e Julieta pode ser considerado o "pai" dos romances onde o amor romântico, capaz de superar a mais profunda das diferenças, é idealizado. Imagem: Reprodução. 


     O amor, em especial o amor romântico, é larga e incansavelmente difundido em novelas, séries, filmes e livros como um sentimento que é superior a classe social, posições políticas, raças e rivalidades familiares. Entretanto, na vida real não é assim que a coisa funciona. Para começo de conversa, o amor é uma construção social, onde é incutido na pessoa um perfil que ela considera como ideal para se casar. Com isso, dificilmente uma pessoa se casará com alguém de fora do seu meio social. Além disso, o amor não é apenas um sentimento, ou melhor: o amor é um sentimento que gera atitudes e que, por maior que ele seja, ele não é capaz de sanar profundas diferenças de objetivos na vida, sonhos e opiniões religiosas. Assim, por mais que duas pessoas se amem, se há entre elas profundas diferenças de pensamento e modos de vida, dificilmente elas ficarão juntas. 

As relações inter-raciais

     Enfim, entremos no assunto que dá título ao texto. Achei importante fazer uma análise de como o povo negro é tratado ao longo da história, bem como acerca dos padrões de beleza e do amor romântico difundidos pela mídia antes de entrar no assunto. A pessoa negra que se relaciona com pessoas brancas acha que faz isso por gosto, mas será mesmo? Gosto é uma construção social e não algo inato. Um torcedor de futebol ensina a criança desde o berço por meio de roupinhas do clube o time que ele deve torcer. Quando a criança cresce, ela passa a torcer por aquele time. Pode ser que quando crescer, ela passe a torcer para outro clube, os chamados "vira-casacas", mas são exceções. Assim sendo, até que ponto o homem que prefere mulheres brancas não estaria reproduzindo um padrão social? Isso porque a mulher negra não costuma ser representada na mídia em geral. Aquela pessoa negra que vai a uma festa e só procura beijar pessoas brancas, ela não estaria adotando uma postura racista? A mulher branca é o símbolo da ascensão social. É por esta razão que muitos negros que ascendem socialmente procuram se unir a uma mulher branca. Os jogadores de futebol são o exemplo máximo disso. É exorbitante a quantidade de homens negros que enriqueceram graças ao futebol e se casaram com mulheres brancas. É óbvio que não citarei nomes aqui, mas convido vocês a fazerem a seguinte pesquisa: veja quantos jogadores negros há nos times de futebol e depois veja a cor da da pele de suas respectivas esposas. Já vou adiantando que você vai ter que procurar com uma lupa o jogador negro que é casado com uma mulher negra.
      "O amor é livre" é a expressão usada por algumas pessoas para findar este debate ainda muito polêmico em movimentos negros mundo a fora. O curioso é que a mesma é usada por homens negros que são casadas com mulheres brancas. As mulheres negras, que são a todo instante silenciadas e estão na base da pirâmide social, não costumam ser consultadas sobre o assunto. Além disso, com base na explicação acima, será mesmo que o amor é livre, superior a mais profunda das questões? Será que existe mesmo livre-arbítrio com relação ao amor? O que chama a atenção também é que estas pessoas negras que defendem o "amor livre" só se envolve com pessoas brancas. Ninguém as vê se envolvendo com negras, indígenas, indianas e asiáticas por exemplo. É de extrema importância ressaltar que não vai ser se envolvendo com uma pessoa negra que você vai se livrar do estigma de "palmiteiro". As relações sociais e afetivas no Brasil são complexas e um pouco veladas. Assim, um homem pode muito bem dormir com uma mulher negra e ter um pensamento racista, que pode ser manifestado no modo como ele hipersexualiza a mulher negra, o modo como debocha de seus tracos e a possibilidade dele não querer assumi-la publicamente por exemplo. 
     Será que a pessoa negra que se envolve com pessoas brancas não estaria reproduzindo o racismo institucionalizado? Os meios de comunicação e os órgãos do Estado ensinam a todo momento que o negro é feio, seus traços são feios, sua religião é demoníaca e sua cultura é inferior. É por essas e outras que o negro não é representado na mídia e é assassinado pela polícia, um braço do Estado. Vivemos em uma sociedade onde o negro é ensinado a odiar outro negro em todos os seus aspectos. 
     Como já dito acima, os europeus vieram ao Brasil com a finalidade de embranquecer a população brasileira, que no século XIX já era composta majoritariamente por negros. Desta forma, consciente ou inconscientemente, uma pessoa negra ao se envolver com uma pessoa branca, não estaria pensando em ter filhos com a pele mais clara? É importante ressaltar que em comerciais cujos bebês e crianças pequenas são protagonistas, as mesmas costumam ser em sua maioria brancas. O bebê que muita gente acha fofo costuma ser na maioria das vezes brancos, loiros e dos olhos claros. Vim de uma família cuja grande maioria dos membros são negros. Alguns deles se envolveram com pessoas brancas e tiveram filhos com elas. Me lembro que ouvi diversas vezes (e de parentes negros) que o bebê "tinha o cabelo bom, não puxou a família". Essa expressão revela o desejo velado de embranquecimento de uma família de negros. 
     Não tem como abordar este assunto e não falar dos romances afrocentrados, onde os envolvidos são pessoas negras. São romances onde duas pessoas negras se unem com a intenção de terem filhos negros  e manterem vivas as suas práticas, culturas e tradições. Esta não é uma prática exclusiva dos negros, pelo contrário. Os judeus só se casam com judeus, os muçulmanos só se casam com muçulmanos e cristãos só se casam com cristãos. Se um cristão se casa com alguém que seja de outra religião ou que não compartilha da fé cristã, acontece o chamado jugo desigual. E mais: dentro da fé evangélica "o buraco costuma ser ainda mais embaixo" por conta das muitas correntes desta fé. Assim, um casamento entre um assembleiano e um presbiteriano não é recomendado, pois tenderia a acabar antes de começar por conta do modo como olham para a fé cristã. Além disso, pessoas que vivem fora de seus países de origem costumam falar em casa o idioma natal, bem como ensiná-los para seus filhos. Talvez o exemplo mais popular disso é daqueles chineses donos de pastelaria. Eles se direcionam aos clientes falando português, ainda que incorretamente, mas conversam entre si e na frente de seus clientes em mandarim, deixando o freguês intrigado. São famílias e grupos em geral que procuram manter suas tradições e ninguém fica questionando isso e/ou os chamando de sectários, preconceituosos ou coisa parecida. Entretanto, com relação ao negro a situação é diferente. Aqueles negros que procuram vivem um romance afrocentrado e os movimentos negros que enfatizam tal relação são chamados de sectários, radicais, exagerados e preconceituosos.

Conclusão

     Não estou dizendo aqui que uma pessoa negra e outra branca não podem viver juntas. As relações inter-raciais são uma realidade e não há nada de errado nisso. Entretanto, ao se sentir atraído por uma pessoa branca, faça uma auto-análise e se pergunte se você não está reproduzindo padrões de beleza e o racismo institucionalizado, que tanto matam os negros. Se pergunte também se ao se casar com uma pessoa branca, você não está negando a sua identidade e origens negras. Se pergunte se, ao fazer isso, você não está desejando o embranquecimento de seus descendentes. Se quer uma pessoa branca para viver ao seu lado, que seja uma que entende a sua condição de negro e que esteja disposta a estar ao seu lado na luta contra o racismo. 
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