27/04/2017

O lado político-social do seriado Chaves

O seriado Chaves (1971-1980) vai muito além das risadas. Imagem: Reprodução.

     O seriado Chaves (1971-1980) dispensa apresentações. O mesmo marcou e atravessa gerações em todo o globo terrestre e ainda é capaz de arrancar risadas como se estivesse sendo assistido pela primeira vez, quando na verdade já foi reprisado milhões de vezes. Outra prova da popularidade do seriado foi quando Roberto Gomes Bolaños, que interpretava o Chaves, o personagem principal, faleceu, no ano de 2014. A internet entrou em colapso. No Brasil e no mundo (em especial nos países da América Latina) o assunto foi o mais comentado nas redes sociais. Entretanto, o seriado não se limita a risadas: há uma mensagem que vai muito além das mesmas. 

Réplica da "Vila do Chaves" construída no Memorial da América Latina, em São Paulo. É nesta vista que a maioria das histórias do seriado Chaves se desenrolam. Imagem: Reprodução. 
   
     A vila onde Chaves e os personagens principais da história moram (ao contrário do que muita gente pensa, o Chaves não mora no barril. Ele apenas se esconde nele. O Chaves mora mesmo é na casa número 8. É por essa razão que no original o seriado se chama El Chavo del Ocho, ou seja: O Menino do Oito. Na tradução para o português do Brasil chavo virou Chaves porque a primeira palavra significa menino em espanhol e em terras brasileiras não se costuma apelidar as pessoas simplesmente de menino. Assim, decidiram traduzir o seriado para Chaves) é de propriedade do Sr. Barriga (Édgar Vivar), um homem rico que é pai do Nhonho (personagem também interpretado por Vivar) e que mensalmente vai à vila cobrar o aluguel dos inquilinos. Sr. Barriga cobra o aluguel de todos, menos do Chaves, que é um menino de rua e órfão. Na vila, moram Dona Florinda (Florinda Meza) e seu filho Quico (Carlos Villágran). D. Florinda é uma viúva dona de casa cujo então marido e pai de seu filho era um marinheiro que morreu em alto mar. Ela se acha superior aos seus vizinhos (por isso os chama de "gentalha" com frequência), quando na verdade a sua situação não é muito diferente da deles. O filho Quico, assim como a mãe, se acha superior a todos da vila e é mimado e arrogante. Ele tem tudo o que quer e adora ostentar seus brinquedos para as crianças, sempre ressaltando que os dele são os melhores. Dona Clotilde, a Bruxa do 71 (Angelines Fernández) é uma mulher que vive de forma modesta e paga em dia o aluguel. Já o Seu Madruga (Ramón Váldez) é um homem que vive desempregado e que nunca consegue pagar o aluguel. O pai de Chiquinha (María Antonieta de las Nieves) deve 14 meses de aluguel e em um episódio o Sr. Barriga decide pedir a casa que Seu Madruga mora, mas como ele e a filha não tinham para onde ir, o Sr. Barriga se compadece e deixa ele ficar na casa. A fim de conseguir uma renda, o personagem em questão já trabalhou como lutador de boxe, sapateiro, leiteiro, carpinteiro e pintor por exemplo. Entretanto, quem vive em pior situação é Chaves, o protagonista da história. Ele é orfão, não tem o que vestir e nem o que comer (ele vive sonhando com um sanduíche de presunto e sempre que pode "belisca" a comida alheia). Chaves é também um menino puro, inocente e sonhador.
     A vila do Chaves (vamos chamar assim a vila onde acontecem a maioria dos episódios do seriado) foi sem dúvida inspirada em regiões pobres do México, país de origem de Roberto Gomes Bolaños (1929-2014) e da maioria dos atores que atuaram no seriado. Entretanto, a vila retrata a realidade de regiões pobres mundo a fora. Ao contrário do que muita gente pensa, favela (ou comunidade, como alguns chamam) não é algo homogêneo, onde todos os moradores possuem a  mesma condição de vida e o mesmo poder aquisitivo. Pelo contrário. Há aqueles que vivem em situações miseráveis, aqueles que são minimamente remediados e aqueles que possuem uma condição de vida melhor, ou o "pobre melhorzinho", expressão que ouvi sair da boca de uma colega da universidade. Na vila do Chaves é isso o que é retratado. Como já falado no parágrafo acima, a Dona Florinda é uma viúva que vive da pensão do falecido marido, que era marinheiro. Comparada aos demais moradores, é ela quem tem a melhor condição de vida. A mãe do Quico é ciente disso e se acha superior aos demais moradores, mimando o filho com doces e os melhores brinquedos. Já a Dona Clotilde nunca foi de se exibir financeiramente. Por sua vez, o Seu Madruga vivia sem dinheiro e nunca pagava o aluguel. Por fim, tinha o Chaves, que vivia em uma situação extremamente miserável: era órfão, não tinha o que vestir e nem o que comer. A favela (ou no caso, a vila) não é homogênea.

Se repararem bem, nenhum dos moradores da vila tem uma "família completa". Imagem: Reprodução. 

     Os moradores da Vila do Chaves sem exceção não possuem "família completa". Dona Florinda é uma mulher viúva e consequentemente seu filho Quico é órfão de pai. Dona Clotilde é uma mulher solteirona, ou seja: não se casou e nem teve filhos. Há um episódio do seriado em questão em que Dona Clotilde traz para a vila a filha de uma sobrinha escondido, pois a mãe do Quico havia proibido na vila crianças e animais. Entretanto, a bebê aparece somente neste episódio e a sobrinha de Dona Clotilde nunca apareceu. Seu Madruga é viúvo e consequentemente a sua filha Chiquinha é órfã de mãe. Há alguns episódios em que a bisavó de Chiquinha aparece. De início, eram aparições esporádicas, mas depois se torna um personagem fixo do programa. O único que talvez tenha uma "família completa" é o Sr. Barriga, pai de Nhonho. A esposa do Sr. Barriga é citada em alguns episódios, mas nunca apareceu em nenhum.
     Entretanto, mesmo com os moradores tendo um perfil de família acima descrito, eles acabam se completando. Os moradores da vila vivem brigando, mas ao mesmo tempo são muitos unidos. O Chaves, protagonista da história, é acolhido por todos. Ele participa das festas da vizinhança, das festas de aniversário e, para não que ele não ficasse sozinho, o Sr. Barriga o leva para Acapulco. Mesmo perdendo a paciência com o menino frequentemente, o Seu Madruga é o que mais se  sensibiliza com a situação em que Chaves vive. Além disso, as turras que ocorrem na vila do Chaves são desentendimentos que ocorrem em uma vizinhança qualquer. Eles discutem por falta de espaço no varal, discutem por quererem usar o tanque para lavar roupas ao mesmo tempo, discutem porque um está no meio do caminho e tem alguns desentendimentos até por brigas que envolvem as crianças.

Gustavo Díaz Ordaz Bolaños(1911-1979) foi presidente do México entre os anos de 1964 a 1970. Ele era tio de Roberto Bolaños. Imagem: Reprodução. 

     É problemático, mesmo com as análises acima feitas, dizer que o seriado Chaves contém "mensagens revolucionárias" ou algo do tipo. Não estou dizendo também que o autor do mesmo é neutro, tudo é ideologia. O seriado Chaves faz sim uma crítica social, mas mesmo que a definição de esquerda e direita seja única, na prática ela se diferencia em alguns países e isso é causado em parte pelo poder aquisitivo das pessoas, bem como pelo grau de instrução das mesmas. Roberto Bolaños nunca falou abertamente acerca de suas convicções políticas, mas em 2006 apoiou a campanha eleitoral do Partido da Ação Nacional (Partido Acción Nacional original, cuja sigla é PAN), uma sigla política de direita. Roberto criticou o candidato esquerdista Andrés López Obrador e a esquerda em geral, dizendo que o político estava dividindo os mexicanos. No ano seguinte, Roberto Bolaños se uniu a protestos de católicos e conservadores que procuravam manter o aborto como um crime, frente a postura da Assembleia Legislativa, cujos representantes se inclinaram por descriminalizá-lo durante as doze primeiras semanas de gravidez. Além disso, o criador do seriado Chaves declarou em sua conta no Twitter que era contra as manifestações de rua porque elas diminuem o tempo e a capacidade para o trabalho e afirmou que votaria em um candidato que impeça tais manifestações.
       Talvez muita gente ainda não saiba, mas Roberto Gomes Bolaños era sobrinho do já falecido Gustavo Díaz Ordaz Bolaños,ex-presidente do México. No período em que esteve no poder (de 1964 a 1970), Gustavo Díaz se mostrou autoritário, reprimindo uma greve dos médicos e manifestações estudantis em 1968 num episódio que ficou conhecido como Massacre de Tlatelolco, onde o exército mexicano matou centenas de estudantes apenas dez dias antes da abertura das Olimpíadas de 1968. Por outro lado, durante o governo de Díaz Ordaz, a economia mexicana se manteve estável e próspera. Também foram colocados em prática programas de irrigação no campo e de industrialização rural. O então presidente promulgou um novo Código de Leis Trabalhistas e foi durante o seu governo que o metrô da Cidade do México foi inaugurado. Uma curiosidade: Alfredo Díaz Ordaz Borja, filho mais novo de Gustavo Díaz Ordaz, já foi namorado da atriz e cantora mexicana Thalia. O casal estava namorando quando Alfredo faleceu de Hepatite C, em 1992.

Conclusão

      O seriado Chaves foi inspirado em lugares pobres do México, mas pessoas de todo o mundo se identificam com o mesmo. Qual é a vizinhança onde não há desentendimentos? Qual é a vizinhança onde um morador não se ache superior aos demais? O seriado em questão faz sim uma crítica social, onde temas delicados como orfandade, desemprego e fome são abordados de maneira suave e bem humorada. Particularmente, eu prefiro não classificar o seriado em questão como de esquerda ou de direita porque na prática esta classificação tem as suas variações de região para região. Entretanto, não se pode negar que o mesmo faz uma crítica social. 

25/04/2017

Paquitos e representatividade masculina

Em cima (da esquerda para a direita): Alexandre Canhoni, Robson Barros e Marcelo Faustini. Embaixo (da esquerda para a direita): Egon Júnior e Cláudio Heinrich. Os paquitos podem não ter feito tanto sucesso quanto as paquitas, mas mesmo assim eles tiveram seu brilho. Imagem: Reprodução. 

     Era a segunda metade da década de 1980 e Xuxa Meneghel apresentava nas manhãs de segunda a sábado o Xou da Xuxa. O programa era um sucesso absoluto, bem como tudo o que envolvia o nome de Xuxa. As paquitas já eram consagradas e muitas meninas sonhavam em ser uma. O estrondoso sucesso que as paquitas estavam fazendo levou a criação de uma versão masculina do grupo: os paquitos.

Sonho de Verão (1990) é um filme que reúne paquitas, paquitos e grande elenco. O longa fez um grande sucesso. Uma curiosidade: os casais do filme eram namorados na vida real. Imagem: Reprodução. 

     Motivados pelo estrondoso sucesso das paquitas, resolve-se então criar a versão masculina do grupo. Moços de todo o país se candidataram ao posto. Após uma rigorosa seleção, os jovens escolhidos foram: Marcelo Faustini, Robson Barros, Egon Barbosa, Alexandre Canhoni, Cláudio Heinrich e Yuri Martins (que entrou no lugar de Robson depois que o mesmo saiu do grupo). Os meninos faziam basicamente as mesmas funções que as paquitas: olhavam as crianças enquanto as paquitas se apresentavam, além de realizarem apresentações próprias. Os paquitos ajudavam Xuxa a descer da nave e levavam o café da manhã do Xou. Os paquitos não fizeram o mesmo sucesso que as paquitas (grupo que acompanhou Xuxa até 2002) e o único disco que o grupo gravou foi premiado com Disco de Ouro. Músicas como Nova Onda, Muito Prazer, Paquidance e Vem Dançar Rumba caíram no gosto do público.

Assim como as paquitas, os paquitos usavam fardas de soldado, mas somente em ocasiões especiais. Na maior parte do tempo eles usavam terno e gravata, como se pode ver nesta foto. Imagem: Reprodução. 

     Ao contrário das paquitas, que costumavam iniciar seus trabalhos com Xuxa no início da adolescência, os paquitos que trabalharam ao lado da Rainha dos Baixinhos já estavam em meados da mesma, por volta dos 17 anos. Eles eram altos (com exceção do Robson, que é baixinho), fortes, brancos e loiros. Além disso, eles usavam o penteado da época: o Egon (apelidado de Gigio) ostentava um corte de cabelo no estilo Chitãozinho & Xororó, que estavam em alta na época. Já o Alexandre Canhoni (Xandi) exibia um grande topete loiro. Os moços apareciam no programa de Xuxa usando terno e gravata, como pode ser visto na foto acima. As fardas de soldados eram usadas esporadicamente. Desta forma, os paquitos faziam a linha príncipe encantado, sendo cobiçado por muitas meninas e meninos também. Para reforçar ainda mais essa linha, os paquitos costumavam fazer ensaios descamisados. No palco, os rapazes cantavam (quase sempre usando fardas de soldado) e faziam coreografias elaboradas que pareciam golpes de luta; sempre com movimentos rápidos, firmes e precisos. A TV dos anos 1980 era praticamente um território sem lei. Desta forma, crianças e adolescentes eram excessivamente expostos na mídia. Com isso, assim como os paquitos apareciam descamisados em fotos, os marotos (apelido dado aos assistentes de palco de Mara Maravilha, que nesse período rivalizava diretamente com o Xou da Xuxa. A morena tinha um programa infantil no SBT) apareciam da mesma forma. Eles tinham aproximadamente a mesma idade que os paquitos. Nesta época, era praticamente inexistente uma legislação que protegesse crianças e adolescentes.

Assim como os paquitos, os marotos, assistentes de palco de Mara Maravilha, costumavam tirar fotos sem camisa. Se fosse na atualidade, a emissora (que no caso é o SBT) e toda a equipe responsável teriam sérios problemas com a justiça. Imagem: Reprodução, Facebook. 

      Os jovens iam à loucura com os "sobrinhos de tia Xuxa". Os paquitos foram populares, mas não tanto quanto as paquitas. Desta forma, com o fim do Xou da Xuxa, o grupo paquitos também chegou ao fim.

Conclusão

     Os paquitos representavam um determinado perfil de moços: brancos, loiros, altos e fortes. Aliando beleza e figurino, eles faziam a linha príncipe encantado, sendo desejados por meninos e meninas.

20/04/2017

Paquitas - Feminilidade e representatividade

Paquitas da Xuxa em pose clássica. Da esquerda para a direita: Letícia Spiller, Tatiana Maranhão, Andreia Sorvertão, Ana Paula Pituxita, Roberta Cipriani, Cátia Paganote e Priscilla Couto. 

     Os anos 1980 foi uma época de ouro para Xuxa Meneghel e para todos aqueles que tiveram o privilégio de viverem esta época. A loira estava em plena ascensão, onde suas músicas, seu programa de televisão e tudo o que envolvia seu nome era um verdadeiro sucesso. A Rainha dos Baixinhos era um verdadeiro fenômeno e nove em cada dez crianças sonharam em estar ao lado Xuxa todos os dias. Conviver com Xuxa foi um privilégio de poucos e as paquitas conseguiram fazer tal coisa. 

Em pé (da esquerda para a direita): Bianca Rinaldi, Roberta Cipriani, Xuxa, Cátia Paganote e Tatiana Maranhão. Abaixadas (da esquerda para a direita): Ana Paula Pituxita, Juliana Baroni, Priscilla Couto e Letícia Spiller. Estas meninas conseguiram o que muitas crianças sonharam: conviver com Xuxa Meneghel. 

      As paquitas surgiram quando Xuxa apresentava o Clube da Criança (1983-1998), na extinta TV Manchete. A loira tinha viajado para os EUA e lá conheceu um papagaio de nome Paquito. Retornando ao Brasil, a Xuxa não falava de outra coisa. Este fato fez com que no programa entrasse um personagem de nome Paquito. Nesta época, Xuxa apresentava o programa sozinha e por conta disso tinha dificuldades para tomar conta das crianças. Percebendo este fato, Marlene Mattos (que era diretora do programa) escolheu uma garota para ser assistente de palco de Xuxa. Andréa Veiga, que havia sido escolhida, era tida como namorada do mascote paquito, rendendo a moça o apelido de paquita. Essa história de seu em 1984 e por volta de dois anos depois Xuxa assina contrato com a Rede Globo. Na nova emissora (que nessa época já era a maior do país), Xuxa tinha um programa com um cenário maior e consequentemente um número maior de crianças passaram a ir ao programa. Com isso, as paquitas se tornaram indispensáveis e por conta disso elas foram com Xuxa para a Rede Globo (com exceção da paquita Heloísa Morgado, que foi substituída por Andréia Faria, a Xiquita Sorvetão). Ainda na TV Manchete ficou claro que uma única paquita não conseguiria cuidar de tantas crianças  e na TV Globo a situação não seria muito diferente.

Em pé (da esquerda para a direita): Ana Paula Pituxita, Flávia Fernandes, Letícia Spiller e Bianca Rinaldi. Abaixadas: Roberta Cipriani, Priscilla Couto, Cátia Paganote e Juliana Baroni. Os anos 1980 foram o auge das paquitas. Imagem: Reprodução. 

      Além de ajudarem Xuxa com as crianças, as paquitas também cantavam e dançavam. Elas formaram um grupo musical de nome homônimo que fez muito sucesso. O primeiro disco do grupo, que recebeu o título Paquitas, vendeu em torno de 800.000 cópias. o hit É Tão Bom é um clássico do grupo. Outra música que as paquitas emplacaram foi Eu Não Largo o Osso, tema de abertura do programa infantil TV Colosso (1993-1997). Se a vida de paquita era glamourosa, a rotina delas era a de um soldado. As meninas que vestiam roupas de soldadinhos tinham uma rotina que incluía aulas de dança, de canto, elas não podiam ter notas baixas na escola e deviam sempre cuidar da aparência.         As paquitas surgiram nos anos 1980 e absorveram a moda deste período. Praticamente todas as paquitas que trabalharam com Xuxa durante as décadas de 1980 e 1990 usavam franja, uma moda da época. Aliás, a própria Xuxa usou a mesma durante um bom tempo. Além de usarem franja, as paquitas tinham longos cabelos loiros. O cabelo grande é o sinal máximo da feminilidade de uma mulher e cortar os mesmos é sinal de independência. É por esta razão que ainda hoje algumas feministas usam cabelos curtos. Não há uma razão específica para tal fato, mas com raras exceções, todas as paquitas eram loiras. Este era o critério número um para ser paquita da Xuxa. Uma das explicações para tal fato seria de que as paquitas eram uma mini representação da Xuxa, que é loira. Especulações à parte, o fato de nunca ter havido uma paquita negra é algo que até hoje persegue a Rainha dos Baixinhos. Certa feita, um seguidor da loira no Facebook perguntou porque não tinha paquitas negras e a loira apenas disse: "nem loira, nem negra, nem japa... não tem mais paquita". Em meu cursinho preparatório para o Ensino Médio a professora de História do Brasil era negra. Certa feita, durante a aula, ela disse que em sua época a moda era ser paquita da Xuxa, mas como ela era negra, ela não podia ser uma. Crianças negras tiveram sua auto-estima destruída por não poderem trabalhar com Xuxa. Vale lembrar que a Rainha dos Baixinhos já teve uma assistente de palco negra, que foi a Adriana Bombom. Ela surgiu muito tempo depois que Xuxa foi contratada pela Rede Globo. Ela foi descoberta no Xuxa Hits, quadro do Xuxa Park (1994-2001). Ela ajudava Xuxa durante o programa, dançava esporadicamente com as paquitas e saía em turnê com Xuxa. Entretanto, ela nunca foi paquita.

Da esquerda para a direita: Cátia Paganote, Ana Paula Pituxita e Juliana Baroni. As paquitas costumavam usar roupas curtas. Imagem: Reprodução.

     As paquitas costumavam usar fardas de soldado, botas e um chapéu também de soldado com a letra "X" na frente. As fardas mostravam a barriga e o short deixava as pernas de fora. Se isso acontecesse na atualidade, certamente Xuxa e a equipe responsável seriam duramente criticados e a situação poderia chegar à justiça. Entretanto, era a década de 1980 e nesse período não tinha o cuidado que tem hoje com as crianças. Pais costumavam vestir suas filhas desta maneira e isso era uma prática aceitável, ao contrário do que acontece hoje. Vale lembrar que a TV durante as décadas de 1980 e 1990 era praticamente uma terra sem lei. Milhares de produtos eram destinados ao público infantil sem pudor algum, propagandas de cerveja com mulheres seminuas passavam em plena luz do dia (às vezes durante o intervalo de um programa infantil), cantores iam a programas infantis cantar músicas de cunho sexual, apresentadoras de programas voltados para crianças apareciam na televisão com pouca roupa (a própria Xuxa é um exemplo) e a Banheira do Gugu, extinto quadro do Domingo legal, passava em um domingo à tarde. Aliás, Gugu era especialista em quadros com forte apelo sexual. As assistentes de palco de Xuxa Meneghel costumavam aparecer da maneira aqui descrita durante as apresentações e faziam coreografias elaboradas. Tais eram compostas de gestos sensíveis e delicados, reforçando a feminilidade das meninas.

Da esquerda para a direita: Gisele Delaia, Diane Dantas, Caren Lima, Vanessa Amaral, Bárbara Borges, Graziela Schmitt e Andrezza Cruz. As novas assistentes de palco de Xuxa foram chamadas de Paquitas New Generation. Imagem: Reprodução.

      Desde os anos 1980, quando as paquitas surgiram, até meados da década de 1990, as assistentes de palco de Xuxa foram substituídas pontualmente e/ou entraram no meio do caminho. Em 1995, as então paquitas (que já estavam crescidas) Ana Paula Almeida, Ana Paula Guimarães, Cátia Paganote, Flávia Fernandes, Priscilla Couto, Bianca Rinaldi, Roberta Cipriani e Juliana Baroni deram lugar a Caren Lima, Graziela Schmitt, Diane Dantas, Gisele Delaia, Andrezza Cruz, Bárbara Borges e Vanessa Amaral, as Paquitas Nova Geração (ou New Generation). A moda dos anos 1980 não era a mesma que  a dos anos 1990. Desta forma, as paquitas acompanharam a tendência da época. Elas não mais eram apelidadas de Xiquita, Paquitita, Pituxita, Catuxa, Catu, Miúxa ou algo do tipo. Ao invés disso, elas receberam apelidos como Chaveirinho (Caren Lima), Lady Di (Diane Dantas) e Miss Queimados (Gisele Delaia), por exemplo. Estes apelidos eram a moda da época. A roupa que elas usaram também tiveram de ser atualizadas. As já consagradas roupas de soldado eram usadas durante o Xuxa Park e foram incorporados ao figurino das paquitas roupas colegiais e figurinos como o que pode ser visto na foto acima, que incluíam calça baggy e blusas que deixavam a barriga de fora. O look era uma sensação da época. Entretanto, mesmo com tantas mudanças, as novas paquitas não romperam a barreira da feminilidade. Elas continuavam sendo femininas dentro da época a qual estavam inseridas. Mudou a forma, mas a essência continuou sendo a mesma.
     As Paquitas New Generation trabalharam com Xuxa até 1999, quando deram lugar para as Paquitas Geração 2000. Assim como as paquitas anteriores, as desse grupo não romperam a barreira da feminilidade, pelo contrário. Assim como o grupo anterior, o novo grupo procurou captar a moda feminina da época. Além disso, elas poderiam não usar franja, mas continuavam sendo loiras. Ao contrário dos grupos anteriores de paquitas, as da Geração 2000 tiveram vida curta, pois em 2002 a relação de amizade e trabalho entre Xuxa e Marlene Mattos que durou aproximadamente 19 anos chegou ao fim. Com o fim da parceria entre Xuxa e Marlene e diante da incerteza do que aconteceria no futuro, se achou por bem dispensar as paquitas. Desta forma, os planos e projetos para as paquitas foram cancelados.

Conclusão

      As paquitas representavam um determinado perfil de menina: branca, loira e delicada. Elas reforçaram estereótipos que historicamente as feministas procuram quebrar. Além disso, elas destruíram a auto-estima e o sonho de muitas moças que não se encaixavam no perfil aqui descrito e que um dia sonharam em trabalhar ao lado de Xuxa.

18/04/2017

O dia em que o nome de Deus foi dito em vão inúmeras vezes

Deputados favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff exibem as faixas "tchau, querida" e "impeachment já". Imagem: Reprodução.

     Foi no dia 17 de abril de 2016, em um domingo, que a Câmara dos Deputados aprovou o pedido de impeachment da presidente eleita democraticamente Dilma Rousseff. Algumas emissoras de TV interromperam suas programações para exibir a votação que ocorria ao vivo. Além disso, não se falava em outra coisa nas redes sociais. Foi neste dia também que o Brasil conheceu seu Congresso.
     Pelo fato de algumas emissoras de televisão interromperem sua programação para acompanhar a aprovação do pedido de impeachment na Câmara dos Deputados, isto acabou sendo uma oportunidade para os brasileiros conhecerem seu próprio Congresso: branco, masculino, conservador, cristão, empresarial e defensor do agronegócio são apenas algumas características do Congresso do Brasil. Mulheres, homossexuais e negros eram minoria. Se bem que de homossexual assumido só havia um: Jean Wyllys. Ele é o único homossexual assumido que defende os direitos da população LGBT dentro do Congresso.
     Desde 2015 que manifestações pedindo o afastamento de Dilma Rousseff ocorriam em várias regiões do país. Estas manifestações ocorriam por causa de uma crise política iniciada em 2013 e por conta da insatisfação de parte da população para com o governo de Dilma. É importante lembrar que estas manifestações receberam ampla cobertura da mídia, ao contrário do que houve com as manifestações em apoio a Dilma Rousseff. Esta crise política se tornou ainda mais aguda em 2016 e o clamor das ruas havia chegado nas instâncias legais de poder. Os políticos eleitos pelo povo iriam decidir se o pedido de impeachment seria ou não encaminhado para o Senado.
      Como todo mundo sabe muito bem, o pedido de afastamento de Dilma Rousseff foi aprovado na Câmara dos Deputados e posteriormente no Senado. O que chamou a atenção foi que a maioria dos políticos que votaram fizeram isso "por Deus", "pela família", "pelo filho", "pela neta" e por aí vai. A grande maioria deles não apresentaram argumentos consistentes para que Dilma fosse afastada. Nenhum destes votantes apresentaram um argumento legal que servisse de justificativa para o afastamento de Dilma Rousseff. Não apresentaram porque não existia. Dilma foi uma presidente honesta que foi afastada por corruptos. E isso é algo que a História não há de esquecer. Lembrando que defender o mandato de Dilma vai além de questionar se ela fez ou não um bom governo. É a defesa da democracia. Dilma foi eleita democraticamente, mas foi tirada do poder por pessoas que tinham (e ainda tem) pendências com a justiça.

A presença de políticos evangélicos é cada vez maior no Congresso e os mesmos costumam misturar política e religião. Imagem: Frente Parlamentar Evangélica/Divulgação.

     Como já dito no parágrafo acima, a maioria do políticos que pediram o afastamento de Dilma fizeram isso "por Deus". Isso é reflexo da bancada cristã que possui presença notória no Congresso. Entretanto, o contexto em que a afirmação "por Deus" foi usada é no mínimo intrigante. É comprovado que a maioria dos políticos que compõem a bancada evangélica estão envolvidos em corrupção e são ausentes no Congresso. Todos sabem bem que tais práticas vão contra a moral cristã. Além disso, os políticos evangélicos e conservadores costumam agir na maior parte do tempo quando o assunto é drogas, aborto e questões LGBT. É quando tais questões entram em pauta que os cristãos costumam se unir e barrar. Eles se dizem seguidor de Cristo, mas em nenhuma parte dos Evangelhos você vê o Mestre perseguindo as pessoas por conta de sua orientação sexual. Ao invés disso, o que se vê é Jesus andando ao lado dos excluídos da época: mulheres, crianças, pobres, leprosos e deficientes físicos. Jesus não passou a maior parte  do tempo perseguindo as pessoas que não se encaixavam em um determinado padrão, mas sim socorrendo todo aquele que lhe pedia ajuda sem exceção.
      É importante lembrar que nem todos os que pediram o afastamento de Dilma Rousseff  "em nome de Deus" eram componentes da bancada evangélica. Políticos conservadores (que não necessariamente fazem parte da "Bancada da Bíblia") e que compõem demais bancadas do Congresso votaram pelo impeachment  e usaram o nome de Deus para isso. Políticos com pendências com a justiça usaram o nome de Deus sem pudor algum. Estas pessoas devem ter se esquecido que roubo, desvio de verba, lavagem de dinheiro ou práticas semelhantes é pecado (Êxodo 20: 15). Estas pessoas que se dizem cristãs devem ter se esquecido também que a mentira e o falso testemunho contra o próximo também são pecados (Apocalipse 22: 15 e Êxodo 20: 16 respectivamente).

O deputado Wladimir Costa (Solidariedade/PA) virou hit nas redes sociais após  jogar papel picado na Câmara dos Deputados, fato que lhe rendeu a alcunha de "deputado dos confetes". Imagem: Reprodução.

     Parte considerável dos deputados que pediram o afastamento de Dilma Rousseff possuía ou ainda possuiu pendências com a justiça. Eles fizeram isso porque viram no impeachcment de Dilma a possibilidade de verem suas práticas ilícitas acobertadas. O próprio Eduardo Cunha (que é membro da Assembleia de Deus), então presidente da Câmara dos Deputados, era um. No período em que a Câmara votava o afastamento de Dilma, já eram noticiados em larga escala os escândalos de corrupção que Eduardo Cunha estava envolvido. A mídia, em especial a golpista, fingia indignação com tal fato, mas na prática usada Eduardo para tirar do poder uma pessoa eleita democraticamente. Na prática, Eduardo Cunha estava sendo usada para que pautas de interesse do grupo dominante passassem pela Câmara dos Deputados, já que foram eles quem o elegeram (o pedido de afastamento de Dilma e a aprovação da redução da maioridade penal são apenas alguns exemplos). Após isso, ele foi descartado, sendo afastado da presidência da Câmara dos Deputados e preso. O deputado federal Wladimir Costa (Solidariedade/PA) se tornou conhecido após jogar confetes, depois de votar favoravelmente pelo afastamento de Dilma. Em julho de 2016 o deputado teve seu mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Pará. A corte eleitoral o acusou de ter recebido dinheiro vindo de fontes não declaradas para sua campanha à Câmara dos Deputados em 2014. Além disso, ele teria omitido da Justiça Eleitoral uma quantia de R$ 410.800 de sua declaração de valores recebidos pela campanha. Este mesmo deputado é conhecido por ser ausente. A deputada federal Raquel Muniz (PSD-MG) ficou conhecida após elogiar a gestão do marido Ruy Muniz, afastado da prefeitura de Montes Claros (MG). Raquel elogiou o marido enquanto votava favoravelmente pelo impeachment de Dilma. Neste período, o casal estava sendo alvo de inquérito por suspeita de sonegação fiscal, falsidade ideológica, estelionato e lavagem de dinheiro. Já Cristiane Brasil (PTB-RJ) estava sendo alvo de inquérito referente a crime de boca de urna. A parlamentar chegou a ser detida em flagrante praticando boca de urna durante as eleições de 2014. A lista de políticos com pendências com a justiça e que pediram o afastamento de Dilma é extensa. O jornalista Paulo Henrique Amorim fez uma lista com nomes de golpistas (o impeachment foi na prática um golpe) que fugiam da justiça (leia aqui). Além disso, o escritor e colunista Marcelo Rubens Paiva fez um levantamento e concluiu que dos 513 deputados da casa, 299 tinham ocorrências judiciais, 76 já foram condenados e 57 eram réus do Supremo Tribunal Federal (STF). De lá para cá, alguns pendências judiciais foram quitadas e outras não.
      Com uma Câmara tão corrupta como essa mostrada aqui, será que Jesus estaria mancomunado com tais pessoas? Será que Jesus estaria mancomunado com ladrões para praticar a injustiça contra uma pessoa justa? Será que Jesus estaria ao lado de defensores da tortura, machistas, homofóbicos, defensores do empresariado e do agronegócio para afastar uma pessoa justa e íntegra? Jesus estaria compactuando com a mentira?

Conclusão

     O afastamento de Dilma Rousseff foi na prática um golpe na democracia brasileira. Uma mulher honesta foi julgada e condenada por uma corja de ladrões. Eram eles quem deveriam ser condenados e não Dilma. Uma "raça de víboras" usou o nome de Deus em vão para afastar Dilma. O que estas pessoas se esquecem é que Deus não compactua com a mentira, o roubo, a injustiça e toda forma de preconceito contra o próximo.

13/04/2017

Planeta Xuxa: o programa que veio para mudar gradativamente a imagem de Xuxa

Xuxa ao lado das paquitas e do grupo You Can Dance em abertura do Planeta Xuxa. O número 1 em seu vestido é uma alusão ao primeiro mês de gestação de Xuxa, que estava grávida de sua única filha Sasha. Imagem: Reprodução.



     Na segunda metade da década de 1990, Xuxa já estava muito bem consolidada com Rainha dos Baixinhos. Seus programas de televisão, seus filmes, suas músicas e tudo que carregava seu nome eram um verdadeiro sucesso. Entretanto, nada dura para sempre: Xuxa não passaria a vida toda apresentando programa infantil (ao contrário do que ela pensava). Uma mudança em sua carreira precisava ser feita e isto aconteceria de modo gradual. 



Alguns dos muitos figurinos que Xuxa usava durante seus programas infantis. As roupas que Xuxa usava, bem como o seu comportamento espontâneo e carismático, davam a impressão de que Xuxa era uma menina. Imagem: Reprodução.


     Antes de falarmos sobre o Planeta Xuxa, programa que estreou no dia 05 de abril de 1997, convém primeiro analisar brevemente a carreira de Xuxa até o dia em que o programa em questão foi ao ar pela primeira vez. Na segunda metade da década de 1990, Xuxa já era nacional e internacionalmente conhecida como Rainha dos Baixinhos. Ela já estava há 10 anos na Rede Globo e seus programas eram um sucesso de audiência. O Xou da Xuxa (1986-1992) foi um sucesso absoluto e até hoje é conhecido como o programa infantil de maior audiência da história da televisão brasileira. O Xuxa Park (1994-2001) era líder de audiência nas manhãs de sábado. Além disso, os discos de Xuxa "vendiam que nem água" e era regra em festas infantis. Quem não tinha, pegava emprestado com alguém (o jeito era esse. Não tinha internet, pen-drive ou plataformas digitais onde você podia baixar músicas). Os filmes estrelados por Xuxa também eram um verdadeiro sucesso. Na verdade, tudo que tinha o nome de Xuxa vendia. É por isso que até hoje ela tem dezenas de produtos que leva seu nome. O sucesso da loira entre o público infantil era absoluto, mas não ia durar para sempre. 



Xuxa e Hebe Camargo (1929-2012) durante o Programa Xuxa (1993). O programa não teve o sucesso esperado e ficou apenas cinco meses no ar. Imagem: Reprodução. 


     Antes de investir no público infanto-juvenil com o Planeta Xuxa, a loira já havia feito outros programas que não eram voltados para o público infantil. O Programa Xuxa foi ao ar em 1993 e findou no mesmo ano porque não teve a repercussão esperada. O insucesso da atração televisiva em questão não foi porque o programa era ruim, foi por outras razões. O épico Xou da Xuxa havia chegado ao fim no ano anterior e a imagem de Xuxa estava fortemente associada ao público infantil. O Programa Xuxa não era voltado especificamente para o público infantil, mas sim para toda a família. Estas razões fizeram com que o programa em questão não desse certo. Em 1994, Xuxa passa a apresentar o Xuxa Park nas manhãs de sábado. O programa em questão tinha uma linguagem similar a do Xou da Xuxa e era voltado especificamente para o público infantil. O mesmo foi líder absoluto de audiência no período em que foi exibido. O Programa Xuxa não era ruim, ele só foi lançado no momento errado. 



Xuxa entrevistando o ex-jogador de futebol Ronaldo Fenômeno no Intimidade, quadro do Planeta Xuxa. Neste quadro, a loira costumava fazer perguntas íntimas e falar levemente de sexo. Imagem: Reprodução. 


     O tempo passou e Xuxa arriscou mais uma vez. É neste momento que estreia o Planeta Xuxa. O programa era uma adaptação do Xuxa Hits, quadro do Xuxa Park. O programa era voltado para o público já adolescente. Por conta disso, algumas reformulações precisaram ser feitas, uma vez que o programa não era voltado para o público infantil.  Xuxa continuava mantendo a imagem de rainha, mas ela não mais descia de  uma nave espacial, mas sim surgia de um globo terrestre que se abria ao meio (em uma das temporadas do programa). Além disso, ela não mais se vestia como uma menina, como nos tempos de Xou da Xuxa. A rainha estava em sua fase "zoeira" e por causa disso cantava com os convidados, dançava sem pudor algum e fazia perguntas inusitadas e pessoais que eram feitas de modo cômico e leve. As paquitas também estavam no programa, mas elas não se vestiam com as clássicas fardas e chapéus de soldado. Ao invés disso, elas eram chamadas por apelidos que eram condizentes com os anos 1990 e as roupas que usavam eram figurinos que estavam na moda neste mesmo período. Destaque também para os papaquitos, belos assistentes de palco que enlouqueciam homens e mulheres. Havia também os fortões, que dançavam sem blusa no programa. A atração contou também com as Garotas do Zodíaco, grupo composto por 12 moças onde cada uma representava um signo. Os meninos do grupo You Can Dance, Adriana Bombom e as Irmãs Metralha também passaram pelo Planeta Xuxa. A turma da Xuxa marcava presença. 
     Xuxa se dedicou ao Xuxa Park e ao Planeta Xuxa ao mesmo tempo. Ambos eram exibidos aos sábados. O primeiro era de manhã e o segundo à tarde. Entretanto, depois de um tempo, o Planeta Xuxa passou a ser exibido nas tardes de domingo. Com isso, Xuxa se tornou uma das primeiras (ou até mesmo a primeira) mulheres a apresentar um programa aos domingos, horário tradicionalmente dominado por homens. Lembrando que Planeta Xuxa não foi o primeiro programa dominical que Xuxa apresentou. Antes, a loira já havia apresentado o Bobeou Dançou (1989) e Programa Xuxa (1993). Xuxa se dedicou a estes dois programas porque ela estava fazendo uma transição de público, onde gradativamente ia abandonando o público infantil e se aproximando do público mais crescido. 


Há aproximadamente 20 anos atrás Thalia foi ao programa de Xuxa e foi entrevistada pela loira. Entretanto, a participação de Thalia nunca foi exibida. Imagem: Reprodução.


     O Planeta Xuxa era um programa que incorporou o espírito de uma boate. O cenário e as músicas tocadas (com direito a DJ) eram similar ao de uma boate. Além disso, cantores que estavam fazendo sucesso na época costumavam ir ao programa de Xuxa. Quando a loira entrou de licença-maternidade para ter Sasha, o programa em questão foi apresentado por vários cantores como Ivete Sangalo, Claudinho e Buchecha, Daniel, Alexandre Pires e Zezé di Camargo e Luciano. Os quadros do Planeta Xuxa eram famosos e fizeram história. Um deles era o Transformação, considerado o primeiro quadro da televisão brasileira que tinha o objetivo de mudar a aparência da pessoa. Xuxa escolhia uma pessoa da platéia que tinha o seu visual completamente mudado durante o programa, com direito a corte de cabelo e maquiagem. Outro quadro famoso era o Viagem Surpresa do Planeta, em que uma pessoa focalizada pela câmera do programa ganhava na hora uma viagem para algum lugar do país. Destaque também para o Cinderelas do Planeta, em que moças de 15 anos realizavam o sonho de dançar valsa com seus ídolos. Entretanto, o quadro mais famoso do Planeta Xuxa é o épico Intimidade. Neste quadro, Xuxa fazia perguntas absurdas e extremamente pessoais para seus entrevistados. Passaram pelo Intimidade famosos como Susana Vieira, Luana Piovani, Reynaldo Gianecchini, Marcelo Antony, Regina Duarte, Ronaldo Fenômeno, Renato Gaúcho e Thalia. Esta última nunca teve sua participação exibida para os telespectadores. Segundo a própria Xuxa, a Rede Globo vetou a participação de Thalia no Planeta Xuxa porque na época ela estava em alta no Brasil por conta da trilogia das Marias (Marimar, Maria Mercedes e Maria do Bairro) que era exibida no SBT, rendendo muito sucesso a emissora de Silvio Santos. Desta forma, a TV Globo não quis dar ainda mais visibilidade para o SBT e por isso a entrevista com Thalia foi cortada. Em 2014, o Planeta Xuxa foi reprisado no Canal Viva e muitos fãs cogitaram a possibilidade da participação de  Thalia ser exibida, o que não aconteceu. 

Conclusão

     O Planeta Xuxa tinha a função de dissociar gradativamente a imagem de Xuxa enquanto apresentadora de programa infantil e se aproximar aos poucos do público adulto. Enquanto apresentava este programa, Xuxa apresentava paralelamente o Xuxa Park, pois a intenção não era terminar um e começar outro imediatamente, mas devagar. Esta transição estava sendo muito bem conduzida, mas pelo fato de querer continuar trabalhando com crianças, coisa que a então amiga e empresária Marlene Mattos era contra, o Planeta Xuxa chegou ao fim depois de cinco anos no ar. Após isso, Xuxa voltou a se dedicar inteiramente ao público infantil, mas ela nunca mais obteve o mesmo sucesso de outrora. 

06/04/2017

Xuxa: a artista que vendeu milhões de discos sem saber cantar

Xuxa cantando em seu antigo programa Xou da Xuxa. Imagem: Reprodução.

     Ela possui dezenas de músicas de sucesso em seu currículo, além de já ter ganhado dezenas de discos de ouro, platina e diamante. Na lista de artistas que mais venderam discos no país, ela aparece na frente de artistas como Zezé Di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo, Raça Negra, Legião Urbana, Ivete Sangalo e Fábio Júnior. Além disso, dos 10 discos mais vendidos da história da indústria fonográfica brasileira, quatro são de Xuxa. Quem lê esta introdução, pode achar que o texto se trata de uma pessoa com grandes dotes musicais, mas e se eu te disser que o texto de hoje é acerca de uma pessoa que não possui nenhum talento musical?

Capa do primeiro disco de Xuxa após ela ser contratada pela Rede Globo de Televisão. Ela havia iniciado sua carreira no mundo da música na extinta TV Manchete, onde apresentou o Clube da Criança. Imagem: Reprodução.

     Xuxa iniciou sua carreira na televisão na extinta TV Manchete, onde apresentou o Clube da Criança. Foi lá também que ela começou sua carreira musical. Quando era contratada da TV Manchete, Xuxa lançou o álbum Xuxa e Seus Amigos em 1985, onde a loira canta ao lado de artistas consagrados como Caetano Veloso, Zizi Possi, Nara Leão, Chico Buarque e Erasmo Carlos por exemplo. Músicas como Sete Quedas e Kiddo (Meu Herói Querido) caíram no gosto do público. O álbum vendeu em torno de 500.000 cópias. Entretanto, o "boom" da carreira musical de Xuxa veio em 1986, quando ela é contratada pela TV Globo e passa a apresentar o diário Xou da Xuxa. O contrato de Xuxa com a Rede Globo incluía também um contrato com a Som Livre. Desta forma, além de apresentadora, Xuxa deveria também ser cantora. Entretanto, as coisas não foram fáceis. A falta de talento de Xuxa para a música era evidente, mas João Araújo, então presidente da Som Livre, ordenou que a loira gravasse um disco. Além disso, nenhum compositor queria dar músicas para Xuxa gravar. Guto Graça Mello, produtor do disco Xou da Xuxa, queria um álbum com compositores que não fossem exatamente infantis e a proposta era unir letras para crianças com a parte instrumental e de arranjos feitos por músicos do rock nacional. É por essa razão que neste disco há músicas de Rita Lee e Frejat por exemplo. Isso explica também o solo de guitarra impactante na introdução da música Doce Mel. Por fim, o primeiro disco de Xuxa pela nova gravadora é lançado e hits como Doce Mel, She-Ra e Parabéns da Xuxa (segunda música mais tocada em festas de aniversário) caíram no gosto do público. O disco vendeu em torno de 2,5 milhões de cópias, rendendo a ela um disco de diamante, uma premiação até então inédita na música brasileira.

Xou da Xuxa 3 é o disco mais vendido da carreira de  Xuxa e o segundo mais vendido na história da música brasileira, perdendo somente a o álbum Músicas Para Louvar ao Senhor, do Padre Marcelo Rossi. Imagem: Reprodução.

     O enorme sucesso do álbum Xou da Xuxa possibilitou que Xuxa gravasse outros discos. Com isso, em 1987 é lançado o Xegundo Xou da Xuxa, que vendeu em torno de 2.700.000 cópias, lançando no mercado músicas como Festa do Estica e Puxa (composta por Bell e Wadinho Marques, ambos até então do Chiclete com Banana), Rambo e Dodói Neném. Entretanto, o "boom do boom" veio em 1988, quando foi lançado o Xou da Xuxa 3. O disco superou a marca de 3.000.000 de cópias vendidas e o mega hit Ilariê virou mania nacional. Outros sucessos do disco foram Brincar de Índio, Arco-Íris e Abecedário da Xuxa (que ainda hoje é usada por professoras para alfabetizar as crianças). Praticamente todas as músicas deste disco se tornaram clássicos e foi a partir daí que a carreira musical de Xuxa foi projetada a nível internacional. O 4º Xou da  Xuxa foi lançado em 1989 e as músicas mais tocadas foram Bobeou Dançou, Tindolelê, Dona Girafa e Dinda ou Dindinha. O álbum vendeu aproximadamente 2.900.000 cópias. Em 1990 é lançado Xuxa 5, que vendeu mais de 1.000.000 e rendeu a Xuxa sucessos como Pinel Por Você, Lua de Cristal e Tempero da Lambada. No ano seguinte é lançado o Xou da Xuxa Seis, que vendeu aproximadamente 1.000.000 e teve sucessos como Hoje é Dia de Folia, O Xou da Xuxa Começou e Novo Planeta. Já em 1992, mesmo ano em que o programa Xou da Xuxa chega ao fim, é lançado o Xou da Xuxa Sete, que vendeu um pouco mais de 600.000 cópias (um número baixo se comparado a vendagem dos discos anteriores de Xuxa) e lançou hits como Marquei um X, A Vida é Uma Festa, Xuxa Park e Nosso Canto de Paz. O Xou da Xuxa Sete foi o último disco da coleção Xou da Xuxa, lançada em 1986, mas isso não significava que a carreira musical de Xuxa tivesse chegado ao fim. Vale lembrar que entre 1986 e 1992 Xuxa ganhou em torno de 139 discos de ouro, 52 de platina e 10 de diamante, atingindo a marca de 18 milhões de álbuns vendidos em seis anos. Além disso, dos dez discos mais vendidos da história da indústria fonográfica brasileira, quatro são de Xuxa, a saber: Xou da Xuxa 3, 4º Xou da Xuxa, Xegundo Xou da Xuxa e Xou da Xuxa respectivamente.

O disco Xou da Xuxa Sete, lançado em 1992, foi o último disco da coleção Xou da Xuxa, lançada em 1986. Imagem: Reprodução.

     Em 1993, Xuxa lança o álbum homônimo Xuxa, o primeiro disco após a bem-sucedida coleção Xou da Xuxa. Neste ano, Xuxa estava se dedicando ao seu programa na Argentina e se preparava para começar nos Estados Unidos. O disco era basicamente feito de músicas gravadas anteriormente por Xuxa, mas que não foram até então lançadas em nenhum disco. Os singles deste disco são Espelho Meu, Corrente de Amor, Terra e Coração e Tô aí. O disco teve pouca repercussão e consequentemente uma baixa vendagem. Foram um pouco mais de 100.000 cópias vendidas. No ano seguinte, a loira lança o álbum Sexto Sentido, que vendeu em torno de 1.000.000 de cópias e lançou os singles Hey DJ, É de Chocolate (regravada do Trem da Alegria), Pipoca, Jogo da Rima (regravação da cantora norte-americana Shirley Elliston, cujo nome original da canção é The Name Game), Rir é o Melhor Remédio e Grito de Guerra. Graças a este álbum, Xuxa ganhou mais um disco de diamante. Em 1995, a loira lança o disco Luz no meu Caminho, que vendeu 800.000 e lançou singles como Xuxa Hits, Príncipe Encantado, Salada Mixta e Luz no Meu Caminho. Um ano depois, Xuxa lança o disco Tô de Bem com a Vida, que rendeu a loira mais um disco de platina e lançou singles como Tô de Bem com a Vida, Xuxaxé e Lá Vai a Loura. No ano de 1997, Xuxa lança o álbum Boas Notícias que, além de render a loira mais um disco de platina, lançou os singles Libera Geral, Planeta Xuxa, Xuxalelê e Boas Notícias. Em 1998, Xuxa lança o álbum Só Faltava Você, que teve como hit Uma Canção Para Sasha, Pelotão da Xuxa e Adoleta. Já em 1999, a loira lança o disco Xuxa 2000, que teve os singles Profecias, O Elefante Feliz e Vira, Vira. O álbum em questão rendeu mais um disco de ouro para a imensa coleção de certificações de discos de Xuxa.

Capa do DVD  Xuxa  só para Baixinhos 1, o primeiro trabalho de uma série áudio-visual bem-sucedida. Imagem: Reprodução.

     Além do ano 2000 marcar um novo milênio e  consequentemente um novo ciclo na vida de muita gente, foi também o início de um novo tempo na carreira musical de Xuxa Meneghel. Foi em 2000 que a loira lançou o trabalho áudio-visual Xuxa só para Baixinhos, que foi lançado em CD, VHS e DVD. O trabalho foi muito bem aceito, rendendo a Xuxa um disco de platina e um disco de diamante. A série Xuxa só para Baixinhos chegou até o número 12, rendendo a Xuxa aproximadamente 1 disco de ouro, 5 discos de platina, 3 discos de platina duplo, 2 discos de platina triplo, 3 discos de diamante e 2 discos de diamante duplo. Além disso, a eterna Rainha dos Baixinhos foi indicada 5 vezes ao Grammy Latino pelo trabalho áudio-visual em questão, levando duas estatuetas para casa. A série pode não ter agradado as crianças que acompanhavam a Xuxa desde os anos 1980 (crianças que já haviam se  tornado adultas), mas agradou as novas gerações e a prova disso está na enorme quantidade de cópias vendidas. Quem também foi contra o projeto foi a então empresária e amiga de Xuxa Marlene Mattos, que acreditava que a Rainha dos Baixinhos não deveria mais trabalhar com crianças. Entretanto, Xuxa permaneceu firme em sua decisão e lançou o projeto, que foi sucesso absoluto. Vale lembrar que Xuxa é a artista que mais vendeu discos pela gravadora Som Livre. A loira já vendeu em torno de 40.000.000 de cópias, ficando na frente de artistas como Maria Bethânia, Legião Urbana, Zezé Di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó, Ivete Sangalo, Daniela Mercury e Roberta Miranda.
     Como já dito no início deste texto, esse currículo musical invejável seria compreensível se a detentora do mesmo tivesse grandes dotes musicais. Entretanto, este definitivamente não é o caso de Xuxa. O que explica a bem sucedida carreira de Xuxa na música não é a sua extensão vocal, mas sim outros fatores. O que explica o sucesso de Xuxa é o fato de a todo instante a loira estar assistida dos melhores profissionais: os melhores arranjadores, os melhores compositores, a melhor gravadora e a maior emissora do país (a TV Globo). O último fator foi essencial para o sucesso de Xuxa, não apenas para sua carreira no mundo da música. Além disso, quando Xuxa iniciou a sua carreira como cantora, lá nos anos 1980, havia um vazio na indústria fonográfica com relação a músicas infantis. Na verdade, este vazio era com relação ao mundo infantil em geral. É fato que antes de Xuxa aparecer programas infantis e discos para crianças já haviam sido lançados, tais como Sítio do Picapau Amarelo (1977), Bozo (1980) e Balão Mágico (1983), que além do programa na TV havia um grupo musical homônimo. Destaque também para o grupo musical Trem da Alegria. Entretanto, nenhum destes programas infantis foi capaz de suprir o vazio que existia no mundo infantil. Só quem foi capaz de fazer tal coisa foi Xuxa. Além disso, há pesquisas que comprovam o seguinte fato: o público infantil é um consumidor em potencial. Tudo que é bem feito e que for feito para crianças vende. Isso explica o sucesso de Chiquititas (1997 e 2017), Carrossel (1989 e 2012) e Carinha de Anjo (2000 e 2016); e explica também porque o SBT tem um núcleo dedicado somente para o público infantil. Isso explica também porque a Galinha Pintadinha e Peppa Pig fazem tanto sucesso. Isso sem contar com os sempre bem sucedidos filmes da Disney, bem como o seu parque temático, capaz de fazer adulto voltar a ser criança. Produtos voltados para o público infantil vendem muito bem.
      Há outro fator que contribuiu para o sucesso de Xuxa. Isso pode ser clichê, mas é verdade. Cantar não envolve somente uma voz bonita, envolve sentimento também. E Xuxa sempre foi muito espontânea, sincera e carismática, tanto apresentando seu programa, como em suas apresentações musicais e no fim foi isso o que acabou prevalecendo, ofuscando a falta de talento que Xuxa tem para a música.

Conclusão

     O que fez Xuxa ter sucesso como cantora foi o fato de estar cercada a todo instante dos melhores profissionais que havia no mercado, além ser contratada da TV Globo, a maior emissora do país, fato que deu ainda mais visibilidade para seu trabalho. Além disso, quando Xuxa  surgiu, havia um vazio com relação a produtos em geral (e não só discos) voltados para o público infantil. Antes da loira em questão surgir já haviam pessoas que tentaram se aventurar nesse  ramo, mas ninguém fez tanto sucesso como Xuxa fez. Depois da loira, outras pessoas tentaram fazer sucesso usando uma fórmula semelhante a de Xuxa e estas tiveram seu brilho, mas nenhuma delas foram capazes alcançar o patamar que Xuxa alcançou. 

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