16/08/2018

Os maiores historiadores brasileiros da atualidade

Imagem: Reprodução.

     O Dia do Historiador é no próximo domingo, dia 19 de agosto. É o meu dia, uma vez que sou historiador e professor de História por formação. Por conta deste dia, eu resolvi este ano fazer uma lista com os maiores historiadores brasileiros da atualidade. Para compor esta lista, eu criei basicamente três critérios: o historiador tem que estar vivo, ter alta titulação e ter escrito obras relevantes para a historiografia brasileira. Venha dar uma conferida:

1 - Lilia Schwarcz:

Lilia Moritz Schwarcz. Imagem: Renato Parada/Companhia das Letras/Divulgação.

     A primeira  a encabeçar esta lista é Lilia Schwarcz. Ela se graduou em História pela Universidade de São Paulo (USP) em 1980, mestrado em Antropologia Social pela  Universidade Estadual de Campinas (1986) e doutorado também em Antropologia Social pela USP em 1993. A contribuição de Lilia não se limita somente à historiografia brasileira, mas sim às Ciências Humanas em geral. É professora do Departamento de Antropologia da USP desde 2005, professora visitante na Universidade de Princeton (EUA) e já foi professora visitante na Universidade de Leiden (Holanda), na Universidade de Oxford (Reino Unido), Universidade Brown (EUA) e na Universidade de Columbia (EUA). Junto com o marido Luiz Schwarcz, fundou a Companhia das Letras, uma das maiores editoras do Brasil. Muitas são as obras de Lilia que impactaram a historiografia brasileira. Algumas destas obras são: O Espetáculo das Raças: Cientistas, Instituições e Pensamento Racial no Brasil (1870 - 1930) (1993), As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos (1998), A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis - Do Terremoto de Lisboa à Independência do Brasil (2002), O Sol do Brasil: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY e as Desventuras dos Artistas Frances na Corte de D. João, 1816 - 1821 (2008), Brasil: uma Biografia (2015) (escrito em parceria com Heloisa Murgel Starling), Lima Barreto: Triste Visionário (2017) e Dicionário da Escravidão e Liberdade (2018), livro organizado em parceria Flávio dos Santos Gomes. Além disso, Lilia Schwarcz dirigiu as coleções Perfis Brasileiros e História do Brasil Nação. Graças aos seus escritos de grande relevância, Lilia já foi vencedora duas vezes do Prêmio Jabuti, a premiação mais importante da literatura brasileira, além de ganhar a medalha Júlio Ribeiro, outorgada pela Academia Brasileira de Letras em 2008. Além disso, em 2017, junto com Dan Stulbach, apresentou a minissérie Era Uma Vez Uma História, na BAND.

2 - Mary Del Priore:

Mary Del Priore. Imagem: Reprodução.

     Mary Del Priore se graduou em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC - SP) em 1983, se especializou na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (1993), que fica na França, e fez o doutorado na USP, em 1990 e o pós-doutorado foi feito onde fez a especialização, em 1996. Atualmente, é professora da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO/NITERÓI), além de ser acadêmica correspondente da Academia Paraguaya de la Historia, da Academia Nacional de la Historia de Argentina, da Academia Colombiana de la Historia, da Real Academia de la Historia de Espanha, da Academia Portuguesa de História e do Instituto Historico e Geografico del Uruguay. E estas são algumas das muitas atividades de Mary Del Priore. Além disso, Mary assina constante artigos de História em revistas científicas e não científicas. Entre os anos de 2013 e 2017, Mary foi colunista da revista Aventuras na História e ao longo de sua trajetória acadêmica lançou muitos livros, que foram sucesso de público e crítica. Alguns livros de Mary Del Priore são: História das Crianças no Brasil (1991), Ao Sul do Corpo: condição feminina, maternidade e mentalidade no Brasil Colonial (2003), História das Mulheres no Brasil (1997), História do Amor no Brasil (2005), O Príncipe Maldito (2007), Condessa de Barral, a paixão do Imperador (2008), Histórias Íntimas: Sexualidade e Erotismo na História do Brasil (2011), A Carne e o Sangue (2012), O Castelo de Papel (2013), História dos Homens no Brasil (2013), livro organizado em parceria  com Marcia Amantino e Histórias da Gente Brasileira (uma coleção de quatro volumes que abarca desde o período colonial até o período republicano brasileiro).

3 - Ronaldo Vainfas:

Ronaldo Vainfas. Imagem: Reprodução.

     Ronaldo Vainfas fez  o curso de História na Universidade Federal Fluminense (UFF) em 1978, o mestrado na mesma instituição em 1983 e o doutorado foi na Universidade de São Paulo (USP), no ano de 1988. As suas obras mais conhecidas são: Casamento, Amor e Desejo no Ocidente Cristão (1986), Ideologia e Escravidão (1986), História e Sexualidade no Brasil (1986), onde foi o organizador, Trópico dos Pecados (1989), A Heresia dos Índios: catolicismo e rebeldia no Brasil colonial (1995),  Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia (1997), organizado em parceria com Ciro Flamarion Cardoso (1942 - 2013), Dicionário do Brasil Colonial (2000), Dicionário do Brasil Imperial (2002),Dicionário do Brasil Joanino (1808 - 1821) (2008), organizado em parceria com Lúcia Bastos e Novos Domínios da História (2011), livro organizado em parceria com Ciro Flamarion Cardoso.

4 - Fernando Novais:

Fernando Novais. Imagem: Reprodução. 

     Fernando Novais se graduou em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), onde também deu aulas entre os anos de 1961 e 1975. Sua tese de  doutorado, Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777 - 1808), apresentada em 1973, tem um caráter inovador na análise do comércio e da administração colonial em seus aspectos mais intrincados, lançando as bases para um novo olhar sobre o assunto. Outra obra de destaque de Fernando Novais é História da Vida Privada no Brasil (1997), cujo historiador é o organizador. No ano de 1986, Fernando Novais se transferiu para o Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Além disso, Fernando já lecionou na Universidade do Texas (EUA), participou de debates e seminários na Universidade de Columbia e da California, também nos EUA. Já na França, Fernando Novais deu aulas no Institut des Hautes Études de l'Amérique Latine, ligado à Universidade de Paris III (Sorbonne Nouvelle) e na Bélgica, deu aulas na Universidade de Louvain. Já em Portugual, ministrou nas universidades de Coimbra e Lisboa. Em 2010, Fernando Novais foi agraciado com a comenda da Ordem do Ipiranga, dada pelo governo do estado de São Paulo.

5 - Laura de Mello e Souza:

Laura de Mello e Souza. Imagem: Reprodução.

     Laura de Mello e Souza é filha do crítico literário Antonio Candido (1918 - 2017) e da filósofa Gilda de Mello e Souza (1919 - 2005). Tem por irmãs a também historiadora Marina de Mello e Souza (de quem vou falar abaixo) e a designer Ana Luísa Escorel. Sempre ligada ao ambiente acadêmico, sua casa era frequentada por Sérgio Buarque de Holanda (1902 - 1982) e Florestan Fernandes (1920 - 1995). Algumas de suas obras são: Desclassificados do Ouro: a pobreza mineira no século XVIII (1983), O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial (1986), Feitiçaria na Europa Moderna (1987) e organizou a  História da Vida Privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América Portuguesa (1997). Laura é pioneira em estudos nas áreas história sócio-cultural e político-cultural. Foi professora de História Moderna na USP entre os anos de 1983 a 2014 e atualmente é professora titular de História do Brasil na Université Paris - Sorbonne (França).

6 - Marina de Mello e Souza:

Marina de Mello e Souza. Imagem: Reprodução. 

     Marina de Mello e Souza, assim como a irmã Laura de Mello e Souza, é historiadora. Se graduou em Ciências Políticas e Sociais pela PUC - Rio (1981), fez o mestrado em História da Cultura pela mesma universidade (1993) e fez o doutorado em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF) (1999). É especialista nos estudos sobre as relações entre o Brasil e a África, se tornando professora de História da África da USP. Dentre os livros de Marina, destaque para África e Brasil africano, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria livros didáticos e para-didáticos no ano de 2006.

7 - José Murilo de Carvalho:

José Murilo de Carvalho. Imagem: Reprodução.

     José Murilo de Carvalho se graduou em Sociologia e Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) (1965), fez o mestrado em Ciência Política na Stanford University (1969), o doutorado em Ciência Política na mesma instituição (1975) e o pós doutorado em História da América Latina foi feito na University of London (1977). Deu aulas na UFMG, foi professor visitante nas universidades de Stanford (EUA), California-Irvine (EUA), Notre Dame (EUA), Leiden (Holanda), London (Inglaterra), Oxford (Inglaterra) e na École des Hautes Études en Sciences Sociales (França). Além disso, José Murilo de Carvalho é membro da Academia Brasileira de Letras, é Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e também pela Universidade de Coimbra (Portugal). As suas obras mais conhecidas são: Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi (1987), A formação das almas: o imaginário da República no Brasil (1990) e D. Pedro II (2007).

8 - Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves:

Lúcia Bastos. Imagem: Reprodução/Facebook.

     Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves ou simplesmente Lúcia Bastos, se graduou em História na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1974), onde atualmente dá aulas de História Moderna, fez o mestrado na Universidade Federal Fluminense UFF (1986) e o doutorado na USP (1992). As suas obras mais conhecidas são: Corcundas, constitucionais e pés-de-chumbo: a cultura política na época da Independência do Brasil (1992), sua tese de doutorado, O Império do Brasil (1999), escrito com Humberto Machado, História e Imprensa: entre práticas e representações (2006), livro organizado junto com Tania Bessone e Marco Morel e Dicionário do Brasil Joanino (1808 - 1821) (2008), organizado em parceria com Ronaldo Vainfas.

9 - Guilherme Paulo Castagnoli Pereira das Neves:

Guilherme Pereira das Neves ao lado da esposa Lúcia Bastos. Imagem: Reprodução Facebook.

     Guilherme Paulo Castagnoli Pereira das Neves ou simplesmente Guilherme Pereira das Neves, fez o bacharelado em História pela UFRJ (1973), a licenciatura em Historia pela UERJ (1976), o mestrado na UFF (1984) e o doutorado na USP (1994). Dentre as muitas obras de Guilherme, destaque para a sua tese de doutorado, intitulada E Receberá Mercê: a Mesa da Consciência e Ordens, o clero secular e a sociedade no Brasil, 1808 - 1828 (1994). Guilherme é casado com a também historiadora Lúcia Bastos, de quem falei acima. A parceria do casal também se estende para a vida profissional. A prova disso são as inúmeras vezes em que eu li um texto de Lúcia Bastos onde ela cita alguma obra do esposo, sempre mantendo o tom profissional. Guilherme e Lúcia são o casal 20 da historiografia brasileira.

10 - Angela de Castro Gomes:

Angela de Castro Gomes. Imagem: Reprodução.

     Angela de Castro Gomes possui graduação em História pela UFF (1969), mestrado em Ciência Política pela Sociedade Brasileira de Instrução (SBI/IUPERJ) (1978) e doutorado em Ciência Política pela mesma instituição (1987). É professora aposentada de História do Brasil da UFF e também foi professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), onde trabalhou entre os anos de 1976 a 2013. Os seus livros mais conhecidos são: A Invenção do Trabalhismo (1988), Getulismo e Trabalhismo: tensões e dimensões do PTB (1988), escrito em parceria com Maria Celina D'Araujo, O Brasil de JK (1991), Vargas e a Crise dos Anos 50 (1994), História e Historiadores: a política cultural do Estado Novo (1996), Cidadania e Direitos do Trabalho (2002) e 1964: o golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil (2014), livro escrito junto com Jorge Ferreira.

11 - Keila Grinberg:

Keila Grinberg. Imagem: Reprodução.

     Keila Grinberg é graduada em História pela UFF (1993) e obteve o doutorado pela mesma instituição (2000). Já os pós-doutorados foram obtidos na University of Michigan (EUA) (2012) e na New York University (EUA) (2017). Keila Grinberg escreveu vários livros didáticos e alguns livros voltados para o público historiador. É autora de Liberata: a lei da ambiguidade (1994) e em parceria com Ricardo Salles organizou a coleção Brasil Imperial (2009), coleção dividida em três livros e que abrange todo o período imperial brasileiro (1822 - 1889). Na minha opinião, tal coleção é a obra mais completa sobre o Brasil monárquico.

12 - Francisco Falcon:

Francisco Falcon. Imagem: Reprodução. 

     Francisco Falcon é graduado em História e Geografia pela UFRJ (1955), antiga Universidade do Brasil (UB), graduado em Museologia pelo Museu Histórico Nacional (1956), obteve o doutorado pela UFF (1976) e o pós-doutorado em História Moderna pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), em Portugal, no ano de 1984. Durante sua trajetória docente, passou pela UFF, UFRJ e PUC - Rio. Atualmente, é professor da Universidade Salgado de Oliveira, em Niterói. As suas obras mais conhecidas são: Despotismo Esclarecido (1987), O Iluminismo (1988) e Estudos de Teoria da História e Historiografia Volume I (2011).

13 - Hilário Franco Júnior:

Hilário Franco Júnior. Imagem: Reprodução.

     Hilário Franco Júnior é um historiador brasileiro especialista em Idade Média. Sem dúvidas, é a maior autoridade no assunto no Brasil quando se fala em Idade Média. Além disso, Hilário também se dedica à História Social do Futebol. É graduado em Administração (1972) pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV - SP), graduado em História (1976) pela USP e obteve o doutorado também pela USP (1982). Fez o pós-doutorado com Jacques Le Goff (1924 - 2014), o maior especialista em Idade Média do Mundo, na École des Hautes Études en Sciences Sociales (1993), na França. Além disso, Hilário também fez pós-doutorado em outras universidades da Espanha e na École des Hautes Études en Sciences Sociales mais de uma vez. Alguns livros escritos por Hilário Franco Júnior são: A Idade Média, o Nascimento do Ocidente (2006), A dança dos deuses. Futebol, Sociedade, Cultura (2007) e Os Três Dedos de Adão (2010). Hilário Franco Júnior já ganhou o Prêmio Jabuti duas vezes.

14 - Bernardo Buarque de Hollanda:

Bernardo Buarque de Holanda. Imagem: Reprodução.

     Bernardo Buarque de Hollanda é graduado em Ciências Sociais pela UFRJ (1996), mestrado em História Social da Cultura pela PUC - Rio (2003) e doutor em História Social da Cultura pela mesma instituição (2008), com período sanduíche na École des Hautes Etudes en Sciences Socialies (França). Já os dois pós-doutorados foram feitos na Fondation Maison des Sciences de l'Homme (França) (2009) e na University of Birmingham (Grã - Bretanha) (2018). Bernardo estuda a história social do futebol e torcidas organizadas, modernismo e vida literária no Brasil, cultura brasileira e pensamento social e história intelectual. Os seus livros de destaque são: Torcidas organizadas na América Latina: estudos contemporâneos (2017), em parceria com Onésimo Aguilar Rodrigues, A Voz da Arquibancada: narrativas de lideranças da Federação de Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro (FTORJ) (2015), coleção organizada por Bernardo, Jimmy Medeiros e Rosana da Câmara Teixeira; O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro (2010), O esporte na imprensa e a imprensa esportiva no Brasil (2012), livro organizado junto com Victor Andrade de Melo e Olho no lance: ensaios sobre esporte e televisão (2013), livro organizado por Bernardo, João Manuel C. Malaia Santos, Luiz Henrique de Toledo e Victor Andrade de Melo.

15 - Maria Regina Cândido:

Maria Regina Cândido. Imagem: Reprodução. 

     Maria Regina Cândido é graduada em Estudos Sociais pela Universidade Veiga de Almeida (UVA) (1988), fez o mestrado em História Social pela UFRJ (1995) e o doutorado em História Social também pela UFRJ em 2001, com direito a um estágio na EFA: Escola Francesa de Atenas/Grécia. Maria Regina é professora da UERJ e suas aulas, bem como suas pesquisas, estão concentrados nas sociedades antigas grega e romana. Algumas de suas publicações em revistas e coletâneas de livros internacionais já foram publicados em Portugal, Chile, México e Cuba. Suas publicações de destaque são: A Feitiçaria na Atenas Clássica (2004) e Mulheres na Antiguidade (2012).

16 - Júnia Ferreira Frutado:


Júnia Ferreira Furtado. Imagem: Reprodução.

     Júnia Ferreira Furtado é graduada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) (1983), fez o mestrado em História Social na Universidade de São Paulo (1991) e o doutorado em História Social foi feito na mesma instituição (1996). Realizou estudos de pós-doutorado na Universidade de Princeton (EUA) em 2000, na École des Hautes Études en Sciences Sociales (França) em 2008 e na UFF em 2014. Júnia também foi professora visitante em Princeton University (2001) e na École des Hautes Études en Sciences Sociales (2017) e na Universidade de Lisboa (Portugal) foi pesquisadora visitante. Júnia tem vários escritos publicados e, sem dúvidas, o mais conhecido de todos é Chica da Silva e o contratador dos diamantes: o outro lado do mito (2003), que também foi publicado no Reino Unido. Neste livro, a autora reescreve a história de Chica da Silva (1732 - 1796) longe dos estereótipos que cercam tal figura. Júnia é professora de História da UFMG e tem um Prêmio Jabuti no currículo.

17 - Ilmar Rohloff de Mattos:


Ilmar Rohloff de Mattos. Imagem: PUC - Rio.

     Ilmar possui graduação em História pela UFRJ (1965) e doutorado em História Social pela USP (1985). É professor da PUC - Rio e já foi professor visitante da Universidad de Buenos Aires (Argentina). Os seus livros mais conhecidos são: O Tempo Saquarema (1987) e O império da boa sociedade: a consolidação do Estado imperial brasileiro (1991), livro escrito junto com Marcia de Almeida Gonçalves.

18 - Isabel Lustosa:


Isabel Lustosa. Imagem: Reprodução.

     Isabel Lustosa é uma historiadora brasileira que se graduou em Ciências Sociais pela UFRJ em (1981), fez mestrado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) (1984) e o doutorado em Ciência política pela mesma instituição (1995). É pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, do Ministério da Cultura e já foi professora visitante de diversas universidades francesas. Escreveu e organizou vários livros e o mais conhecido de todos é D. Pedro I: um herói sem nenhum caráter (2006).

19 - Antonio Edmilson Martins Rodrigues:


Antonio Edmilson Martins Rodrigues. Imagem: Reprodução Facebook.

     
Antonio Edmilson Martins Rodrigues é graduado em História pela UFF, é professor da PUC - Rio e também da UERJ. É, sem sombra de dúvidas, a maior autoridade quando o assunto é história do Rio de Janeiro, pois tem um conhecimento profundo sobre o tema. Edmilson, como é chamado pelos estudantes e professores, já deu diversas entrevistas em programas de rádio e televisão onde falou sobre a história do Rio de Janeiro. As suas obras mais conhecidas são: João do Rio: a cidade e o poeta - olhar de flâneur na belle époque tropical (2000), José de Alencar: o poeta do século XIX (2001), Nair de Teffé - vidas cruzadas (2002) e As Mulheres de Machado de Assis (2004). Além disso, Edmilson ficou em segundo na edição do Prêmio Jabuti de 2005 e foi vencedor deste mesmo prêmio no ano de 2007 em duas categorias. 

14/08/2018

Futebol brasileiro: um esporte cada vez mais evangélico

O ex-jogador Kaká orando em campo.Em sua blusa, a frase em inglês significa: "Eu pertenço a Jesus". Imagem: Reprodução.

     O futebol é o esporte mais popular do planeta e também o mais popular do Brasil. Por conta disso, ele acaba refletindo a sociedade na qual está inserido. Não é atoa que em algumas universidades existem núcleos de pesquisa cuja finalidade é analisar comportamentos sociais a partir do futebol. O número de futebolistas evangélicos no Brasil tem aumentado cada vez mais e isso é um reflexo da sociedade brasileira, que tem se tornado cada vez mais evangélica ao longo dos anos.
     O futebol é, sem dúvidas, o esporte mais popular do Brasil e também do mundo. A grosso modo, tal esporte consiste em um grupo determinado de pessoas de equipes diferentes correndo atrás de uma bola. Acerta o time que colocar a bola no gol e fizer isso mais vezes. Este esporte aparentemente simples é capaz de despertar emoções intensas e unir o país em torno de algo comum. O esporte em questão também pode ser usado para fins políticos. A imagem do Brasil em quanto país do futebol foi construída durante o primeiro governo do presidente Getúlio Vargas (1930 - 1945), que depois voltaria a governar o país em 1950. O Brasil vivia um período ditatorial iniciado em 1964 quando ganhou a Copa do Mundo de 1970, conquistando o tricampeonato. Era um período de ufanismo e também o auge do regime, onde o país vivia a euforia do chamado "Milagre Econômico". O general Médici (1905 - 1985), então presidente da república, aproveitou o fato para fazer propaganda política. O feito deu certo por um momento, mas  passado um tempo o regime começou a ruir e começaram a discutir a possibilidade de uma abertura "lenta e gradual". Desde pelo menos 2013, quando começaram os protestos que entraram para a História como as Jornadas de Junho, que os brasileiros têm um descontentamento profundo com a política e isso tem refletido no futebol. Na Copa do Mundo de 2014, sediada no Brasil, o número de brasileiros torcendo contra a seleção já era grande e esta tendência se estendeu para a Copa de 2018. Como dito neste parágrafo, no Brasil futebol e política andaram juntos em alguns momentos e isto ainda está assimilado pelos brasileiros, que descontam na seleção brasileira o desgosto para com a classe política.

Neymar e David Luiz agradecem a Deus após vencerem a seleção chilena em uma disputa que foi para os pênaltis, na Copa do Mundo de 2014. Imagem: Reprodução. 

     Desde os anos 2000, pelo menos, que o número de jogadores evangélicos é cada vez maior no futebol brasileiro. Eles jogam em times brasileiros e também em times do exterior. E chegar a esta conclusão não é difícil. Basta dar uma rápida olhada nas redes sociais deles. Eles postam lá fotos com a família em um culto evangélico, postam fotos com versículos bíblicos e se reconhecem como cristão. Dentro de campo, é comum vê-los orando com frequência durante os jogos, principalmente quando fazem gol. Há um quadro no Fantástico, programa dominical da TV Globo que está no ar há mais de 40 anos, onde o jogador tem o direito de pedir música quando faz três gols em uma determinada sequência. Muitas foram as vezes em que foi visto um jogador pedir música de Cassiane, Damares e Fernandinho por exemplo. Para quem não sabe, tais pessoas são cantores evangélicos conhecidos em todo o Brasil. É comum também ver jogadores evangélicos na seleção brasileira e a quantidade não é pequena. Durante a Copa de 2014, sediada no Brasil, os jogadores chegaram até a realizar cultos na concentração, tamanha a presença de jogadores que professam a religião evangélica. Entretanto, tal prática nunca foi unanimidade: alguns críticos viam nisso um traço de uso do futebol para proselitismo, além do risco de divisões e incômodos no grupo. O fato é que em 2015 Dunga, então técnico da seleção brasileira, proibiu os cultos na concentração e a medida foi mantida por Tite.
     O número de jogadores evangélicos no Brasil é um reflexo da sociedade, que está se tornando cada vez  mais evangélica. Segundo matéria publicada no G1 em 2012, o número de evangélicos aumentou 61% em 10 anos de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O instituto disse também que em 2000 cerca de 26,2 milhões de brasileiros se diziam evangélicos, o equivalente a 15,4% da população. Em 2010, este número subiu para 42,3 milhões, o equivalente a 22,2% da população. Em 1991, o percentual de evangélicos no Brasil era de 9% e em 1980 este mesmo percentual era de 6,6%. O número de evangélicos no Brasil não para de aumentar, mas mesmo assim o Brasil continua sendo um país de maioria católica.

Neymar, então jogador do Santos, agradece a Deus após vitória do clube santista sobre o Mogi Mirim Esporte Clube em uma disputa que foi para os pênaltis, em maio de 2013. Imagem: Reprodução.

     Segundo especialistas, os evangélicos serão maioria em 2020. Este segmento religioso possui infinitas vertentes, sendo um grupo cujas diferenças culturais e teológicas são evidentes. Dentro deste grupo existem os chamados evangélicos não praticantes, que são como os católicos não praticantes, grupo há muito tempo conhecido pelos brasileiros: são pessoas que têm a fé delas baseada na crença evangélica, mas que por alguma (ou algumas) razão, deixaram de frequentar a igreja, não abandonando por completo as suas práticas. Muitos jogadores de futebol vieram de famílias evangélicas e/ou pertenceram a religião evangélica em algum momento de suas vidas. Entretanto, romperam parcialmente com a vida religiosa. Não romperam totalmente porque, se por um lado eles vão a baladas nada gospel, se envolvem com várias mulheres e possuem um vocabulário recheado de palavrões que não agradariam nem ao mais liberal dos cristãos, estes mesmos jogadores oram em campo com frequência, agradecem a Deus na vitória ou na derrota e colocam fotos com versículos bíblicos nas redes sociais. Estes atletas podem ser encaixados no grupo dos evangélicos não praticantes, nomenclatura que muitos cristãos evangélicos estão aprendendo a usar. Este fato já gerou certas polêmicas em portais voltados para o público evangélico e canais no Youtube também voltados para este segmento. Os mesmos fizeram listas com os nomes dos futebolistas evangélicos e a polêmica veio pelo fato de alguns jogadores que não têm um comportamento nada religioso estarem em tais listas. O fato de uma pessoa orar, compartilhar trechos da Bíblia de vez em quando e ouvir músicas gospel não faz da mesma automaticamente uma pessoa evangélica. É como diz aquela frase que muitos cristãos gostam de falar: "você conhece a árvore pelos frutos".

Conclusão

     O aumento do número de jogadores evangélicos no Brasil é um reflexo da sociedade brasileira, que tem se tornado mais evangélica a cada ano que passa. Os evangélicos estão presentes na política, no esporte, na saúde e na educação por exemplo. Particularmente, eu não tenho nada contra o crescente número de evangélicos no país, desde que os mesmos não procurem controlar o corpo alheio, impedir a liberdade de culto do amigo que é de outra religião e acharem que só a religião deles é a certa. 

09/08/2018

O machismo presente no golpe parlamentar que tirou Dilma Rousseff do poder

Dilma Rousseff foi a primeira mulher a chegar ao posto mais alto da política brasileira: a Presidência da República. Foi eleita para um segundo mandato, mas foi impedida de concluir o mesmo. Imagem: Roberto Stuckert Filho/PR. 

     Dilma Rousseff foi a primeira mulher a ser eleita presidente da república. Isso foi em 2010 e em 2014 ela foi reeleita para mais um mandato de quatro anos. Entretanto, um golpe Judiciário, parlamentar e midiático a tirou do poder em 2016. Além disso, este mesmo golpe tem um forte viés machista com relação à Dilma Rousseff.
     Em 2010, Dilma Rousseff foi eleita presidente da república. Era a primeira vez que uma mulher chegava neste posto no Brasil, que por sinal é o mais alto da política brasileira. A grande popularidade de Lula, bem como o seu prestígio e a promessa de dar continuidade ao programa de governo de seu antecessor e aliado, Dilma foi eleita. Dilma chegou ao poder em um momento em que mulheres em todo o mundo chegavam ao posto mais alto da política de seus respectivos países. Michelle Bachelet foi presidente do Chile entre os anos de 2006 e 2010, retornando em 2014 para mais um mandato presidencial que findou em março de 2018. Cristina Kirchner foi a presidente da Argentina entre os anos de 2007 e 2015. E Destaque também para Angela Merkel, que desde 2005 é a chanceler da Alemanha. E estes são só alguns exemplos.

Dima ao lado da filha em desfile de cerimônia da posse de seu segundo mandato como presidente da república, em janeiro de 2015. Imagem: Reprodução.

     Com muito esforço e em uma disputa extremamente acirrada no segundo turno das eleições presidenciais de 2014 com Aécio Neves, Dilma é reeleita para mais um mandato de quatro anos. A oposição não se mostrou insatisfeita em nenhum momento e antes mesmo das eleições tentou impedir que Dilma chegasse ao poder: tentaram associar o nome de Dilma à Operação Lava-Jato, que começou em 2014, disseram que Dilma recebeu verba para sua campanha de empresas com problemas com a justiça e, mesmo com o resultado das eleições, a oposição não se conformou. Exigiram a recontagem dos votos e disseram que Dilma tinha feito uma campanha eleitoral irregular. Como todos estes argumentos caíram por terra, não lhes restaram outra opção, a não ser as ruas. O ano de 2015 foi marcado por manifestações que pediam o afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República. Tais manifestações, que foram amplamente cobertas pela grande mídia, faziam críticas ao governo Dilma e também ao fato da mesma ser mulher. Em meio aos protestos, se viu muitas vezes os manifestantes atacando Dilma verbalmente por meio de cartazes e também de forma verbal. Nestes protestos, era muito comum ver e ouvir palavras como: "puta", "vaca" e daí por diante. Além disso, como "forma de protesto" pela alta do preço da gasolina, fizeram um adesivo para carros onde Dilma aparecia de pernas abertas e o mesmo era colocado sobre o buraco onde se coloca a gasolina.
     Durante todo o processo de golpe que culminou na retirada de Dilma Rousseff do poder era visto dentro e fora dos espaços políticos (entende-se aqui por câmara dos vereadores, dos deputados e câmara do senado) uma fúria e ataques sem iguais a figura da então presidente da república. Isso nada mais é do que machismo. Era um machismo velado (embora em alguns momentos ele tenha se manifestado de forma descarada), onde se mostrava um incômodo e até mesmo uma aversão a uma mulher que estava ocupando um espaço que não foi feito para ela. É interessante notar que, embora haja claros indícios de que Michel Temer está envolvido em corrupção, fazendo com que o pedido de seu afastamento fosse votado na câmara dos deputados (e rejeitado), o ódio que é visto quando se trata de Dilma não é visto quando o assunto é Temer. Isso acontece porque, além de Michel Temer atender aos interesses da elite, o mesmo é homem. Vale destacar também o que acontece com Luiz Fernando Pezão, atual governador do estado do Rio de Janeiro. Pezão levou o estado a pior crise econômica de sua história. Os protestos contra ele existem, mas os manifestantes são poucos e não se vê ninguém chamando Pezão de "galinho", "quengo", "piranho", "vadio" e por aí vai. Não se vê pessoas atacando como "forma de protesto" a vida particular de Pezão e Temer. 

A trajetória de Dilma Rousseff na Presidência da República foi marcada pelo machismo. Imagem: Roberto Stuckert Filho/PR. 

     A verdade é que o machismo permeou todo o governo Dilma, não se manifestando somente quando começaram a pedir seu afastamento. Me lembro que quando Dilma ainda era uma pré-candidata à Presidência da República, já existiam boatos e especulações acerca de sua vida pessoal. Queriam saber se ela era casada, cogitaram que Dilma era lésbica, as pessoas passaram a ficar atentas com relação ao vestuário de Dilma, queriam saber quem era seu estilista, seu cabeleireiro... Me lembro também que quando Dilma tomou posse de seu segundo mandato, após ser reeleita presidente da república, em janeiro de 2015, muita gente comentou o vestido que Dilma usava na cerimônia. Comentaram o fato dela estar desconfortável em trajar tal vestido e até descobriram a estilista que fez o mesmo. Foi como foi dito lá em cima: muita gente se mostrou incomodada com o fato de Dilma estar ocupando um lugar que não foi feito para mulheres. Não é atoa que quando Dilma sofreu o golpe parlamentar, em 2016, a "normalidade machista" foi retomada. Isso foi evidente em pelo menos duas situações. Primeiro, Temer foi alvo de críticas ao apresentar seu grupo ministerial, composto somente por homens. Para sanar as críticas, Temer chamou a advogada Grace Maria Fernandes Mendonça para ser a chefe da Advocacia Geral da União (AGU). E o segundo fato envolve Marcela Temer, esposa de Michel Temer. Se antes do marido ser presidente da república, Marcela Temer aparecia imponente e super produzida em cerimônias oficiais, depois que o marido assumiu a Presidência da República, Marcela abandonou as maquiagens e looks poderosos e passou a usar maquiagens discretas, penteados igualmente discretos e figurino mais sóbrio. Além disso, Marcela também passou a se envolver com obras de caridade, assim como fizeram outras esposas de presidentes da república no passado. O golpe de 2016 também serviu para colocar a mulher "no seu lugar".

Conclusão

     O machismo esteve presente durante todo o governo Dilma e não somente quando começaram a pedir o seu afastamento. O patriarcado/machismo (tais conceitos estão tão imbrincados que chega a ficar difícil diferenciar um do outro) estrutura toda a sociedade brasileira, inclusive a política institucional do Brasil. O fato de uma mulher ter ocupado o posto mais alto da política brasileira não rompeu com a estrutura patriarcal, que é um dos sustentáculos da sociedade brasileira. Entretanto, a presença de Dilma na Presidência da República foi muito importante para o ponto de vista da representatividade, além de levantar questões com relação ao machismo e à situação das mulheres no Brasil. 

07/08/2018

O episódio do Chaves que faz muita gente chorar

Chaves (Roberto Bolaños) vai embora da vila onde morava após ser acusado injustamente de roubo. Créditos na imagem.

     El Chavo del Ocho (1971), conhecido no Brasil como Chaves, é um seriado mexicano que há décadas faz sucesso em todo o mundo, divertindo crianças e também adultos. É uma série marcada pelo humor e irreverência. Entretanto, há um episódio do seriado em questão que já fez muita gente chorar e/ou sentir pela de Chaves (Roberto Bolaños). É sobre esse episódio que eu vou falar aqui e cuidado porque há spoilers. Bem, acredito que não tem como existir spoilers em uma série extremamente popular e que até hoje é reproduzida incansavelmente na televisão, sempre rendendo ótimos índices de audiência por sinal.
       Chaves, como o seriado é conhecido no Brasil, dispensa apresentações. Sem sombra de dúvidas, é um dos maiores seriados de todos os tempos e tem condições de ficar ao lado das grandes produções norte-americanas que fizeram história e fazem sucesso até hoje. O protagonista é Chaves, menino órfão cujo nome verdadeiro nunca foi revelado, que mora em uma vila cujo número da casa é o oito (é por isso que o nome original do sério é El Chavo del Ocho, que em tradução livre ficaria como "O Menino do Oito". E não. O Chaves não mora em um barril, ele só se esconde lá). Nesta mesma vila, tem a Chiquinha (María Antonieta de las Nieves), filha do Seu Madruga (Ramón Valdés), o Quico (Carlos Villágran), filho da Dona Florinda  (Florinda Meza), a Dona Clotilde (Angelines Fernández), o Senhor Barriga (Edgar Vivar), dono da vila onde moram os personagens e que vai a mesma mensalmente cobrar o aluguel, o filho Nhonho (que também é interpretado por Edgar Vivar) e o Professor Girafales (Rubén Aguirre). Há também os personagens que entram e saem da trama ao longo dos anos. Os moradores da "Vila do Chaves" vivem às turras uns com os outros, mas no final permanecem unidos e também se completam. Chaves também é marcado por sutis, mas não imperceptíveis críticas político-sociais. Já falei sobre o assunto aqui.

Chaves  e Seu Furtado (Ricardo de Pascual) em cena do seriado Chaves (1971). Créditos na imagem.

     O episódio que faz muita gente ter compaixão do Chaves e até mesmo ir às lágrimas é intitulado O Ladrão da Vila. O episódio começa começa dentro da normalidade: Chaves tentando equilibrar uma vassoura na palma de sua mão quando Seu Madruga o chama e pergunta se ele pode pedir a Dona Clotilde o ferro de passar roupa emprestado porque o dele sumiu misteriosamente e é neste momento que percebemos que o episódio não será tão engraçado como os demais. As crianças levanta a hipótese dele ter sumido misteriosamente por mágica da "Bruxa do 71" (é desta forma que Dona Clotilde é chamada pelas crianças, que acham que ela é uma bruxa). Dona Clotilde, eternamente apaixonada por Seu Madruga, logo se prontifica a emprestar o ferro de passar para aquele que nunca correspondeu ao seu amor. Entretanto, ela não poderá emprestar o ferro de passar porque o dela também some e é neste momento que vemos a razão do sumiço dos objetos: o Seu Furtado (Ricardo Pascual), trocadilho com a palavra furto, aparece roubando o ferro de passar da moradora do 71 e colocando em seguida no barril onde Chaves costuma se esconder. Logo, o telespectador conclui que foi ele quem também roubou o ferro de passar do Seu Madruga.
     Quico, ao procurar o Chaves, olha o barril em que ele costuma se esconder e lá encontra o ferro que o Seu Furtado roubou e colocou lá. Não demora muito e em uma cena que emociona muita gente, Chaves é acusado de ladrão por toda a vizinhança. É sério, eu conheço pessoas que sentem pena e até já choraram vendo este episódio. Eu mesmo posso servir de exemplo. Certa feita, estava em casa sozinho e como tinha um tempinho que eu não via Chaves, eu resolvi assistir. Entretanto, ao perceber que o episódio a ser exibido era o analisado neste texto, eu tratei logo de mudar de canal porque sabia que ele não ia me fazer rir como os demais episódios. Quando anoitece e todos se recolhem, Chaves junta suas coisas em uma pequena trouxa e vai embora. Antes disso, ele olha demoradamente para toda a vila e acaricia o barril que muitas vezes lhe serviu de esconderijo em um silêncio sepulcral. A cena tem um significado: aquela vila foi o lar dele e ele construiu laços com aquela vila, bem como com os moradores da mesma. E o barril, que muitas vezes lhe serviu de esconderijo, não vai servir mais.

Chaves se delicia com o sanduíche de presunto dado por Seu Furtado. Créditos na imagem.

     No dia seguinte, todos estão sentindo a falta do Chaves. Quico chora por não encontrar o amigo e um cabisbaixo Seu Madruga aparece em cena, também sentido a falta do Chaves. Não é de estranhar que todos estejam sentindo a falta do Chaves. Os moradores da vila são uma grande família e, apesar das constantes brigas, eles são muito unidos e ligados. Vale lembrar que ninguém ali tem uma família completa: Seu Madruga é viúvo e consequentemente a Chiquinha é órfã de mãe, a Dona Clotilde não se casou e nem teve filhos (ela tem uma sobrinha bebê que aparece em um episódio onde se é discutida a presença de bebês e animais na vila), a Dona Florinda é viúva e consequentemente o Quico é órfão de pai. E, claro, tem o Chaves, que não tem pai, nem mãe e muito menos irmãos, mas que no fim das contas é acolhido por todos da vila, inclusive pelo Senhor Barriga (este também parece não ter uma família completa porque a mãe de Nhonho nunca apareceu no seriado e o mesmo dá a entender que Nhonho é criado pelo pai), que o leva para Acapulco. Isso aconteceu em um episódio onde todos os moradores da vila viajam para Acapulco e o Senhor Barriga vai também, mas ao perceber que Chaves ficaria só, resolve levar o menino com ele. A única que parece estar indiferente ao sumiço de Chaves é Dona Florinda. Sempre arrogante, a mãe de Quico diz que o menino deve agradecer por ter se livrado de um "ladrão". É neste momento que Chaves aparece na vila ao lado de Chiquinha. O choro de Quico dar lugar à alegria e ele vai correndo abraçar o Chaves. A felicidade é geral entre as crianças. Outro morador da vila que fica feliz com a volta de Chaves, mas que não expressa isso abertamente é Seu Madruga. Quando Chaves reaparece, Dona Clotilde entra em cena dizendo que seu ferro de passar havia sumido novamente. Seu Madruga se mostra feliz e aliviado por ver que não tinha como o Chaves ter feito isso porque quando o ferro sumiu, ele não estava na vila. E Chaves completa dizendo que o fato de não ser ladrão foi o que o motivou a voltar.
     Chaves volta para a vila e as coisas dos moradores continuam a sumir, como por exemplo as ceroulas de Dona Florinda e a espingarda de Seu Madruga. Chaves, enquanto tais objetos estavam sumidos, conta para Quico e Chiquinha o que fez depois que saiu da vila. O menino disse que andou por longo período até encontrar uma igreja, entrar na mesma e ir procurar o padre para se confessar. Foi o padre quem o recomendou a voltar à vila de cabeça erguida, uma vez que ele não era ladrão e deveria ter a consciência limpa por conta disso. O padre recomendou também que Chaves rezasse para que as coisas se normalizassem. Em resposta a uma indagação de Chiquinha, Chaves disse que não rezou para que o ladrão fosse encontrado, mas sim para que ele se arrependesse de seus crimes. Seu Furtado passa no momento em que Chaves diz tais coisas e sua consciência pesa. Em seguida, a ceroula da Dona Florinda reaparece, assim como o ferro de passar da Dona Clotilde e a espingarda do Seu Madruga. Além disso, Chaves ganha do Seu Furtado a sua comida preferida: um sanduíche de presunto. De fato, os moradores da vila, nem mesmo o Chaves, a grande vítima em meio a tudo isso, descobriram a identidade do ladrão. Só quem soube da mesma foi o telespectador. Uma das muitas lições passadas neste seriado é a de que devemos pagar o mal com o bem, algo muito pregado por Jesus (lembrando que Chaves foi a uma igreja e o padre lhe deu este conselho). Mesmo sendo acusado por um crime que não cometeu, Chaves não quis que a real identidade do ladrão fosse revelada, mas sim que ele parasse de fazer o que estava fazendo. O ladrão fica sentido com o que ouve, devolve o que roubou e dá ao Chaves, em um gesto de retribuição pelo fato de ter ouvido dele as palavras que o motivaram a fazer isso, um sanduíche de presunto.
     Outra importante lição passada neste episódio é a de que não se deve acusar sem provas. Quico achou um ferro de passar roupas dentro do barril do Chaves e em seguida todos começam a chamar o menino de ladrão, da criança ao adulto. Ninguém se interessou em ouvir o que Chaves tinha a dizer, foram logo acusando o mesmo injustamente. No seriado, a situação não foi tão grave, mas na vida real pessoas inocentes perderam a vida por serem acusadas de coisas que não fizeram. Em 2014, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus foi espancada por centenas de moradores de Guarujá (SP) após um boato de uma rede social que dizia que uma mulher havia sequestrado uma criança para um ritual de magia negra. Esta mulher foi confundida com Fabiane, a mesma foi gravemente espancada, não resistiu aos ferimentos e veio a óbito. Cinco dos envolvidos no linchamento foram condenados. A lição passada pelo episódio do seriado Chaves analisado em questão é atual e também urgente, uma vez que boatos falsos insistem em circular pela internet, destruindo reputações e instituições.

Conclusão

     Ao contrário dos demais episódios do seriado Chaves, O Ladrão da Vila não é tão engraçado quanto os demais. Pelo contrário. É um episódio que faz as pessoas sentirem pena e até mesmo chorarem ao verem o Chaves sendo acusado por uma coisa que ele não fez. O que conforta o telespectador é que no fim descobrem que ele é inocente, os moradores da vila voltam a permanecer unidos e o telespectador aprende grandes lições com este episódio. 

02/08/2018

O desafio de incentivar as pessoas a entrarem no ensino superior quando o governo faz exatamente o contrário

Imagem: Reprodução.

     Vivemos uma época onde o atual governo não incentiva os jovens a ingressarem no ensino superior. Isso é feito por meio de políticas que sucateiam ainda mais a educação pública e a pesquisa no Brasil. Desta forma, os jovens (jovens pobres, quero frisar isso desde já) se sentem desmotivados a entrarem na universidade. Diante disso, fica a pergunta: o que fazer?
     Michel Temer assumiu a Presidência da República por meio de um golpe judiciário-midiático-parlamentar executado em 2016. Ele tem índices de popularidades extremamente baixos, mas se mantém no poder porque a sua agenda neoliberal atende aos interesses do grupo dominante. E mesmo com os evidentes indícios de corrupção que envolvem Temer, ele não é tirado do poder. É em momentos como esse que eu me pergunto onde está o povo que em 2015 bateu panelas e foi às ruas pedir o afastamento de Dilma Rousseff sob o argumento da corrupção, quando na verdade ela era inocente. Eles dizem que não vão às ruas contra o Temer e/ou Aécio por conta do foro privilegiado. Entretanto, a Dilma também tinha foro privilegiado e ninguém titubeou em ir às ruas contra ela. 

Charge fazendo uma alusão à PEC 241/16, conhecida também como PEC do Fim do Mundo. Créditos na imagem.

    Contradições à parte, o governo Michel Temer tem sufocado ao máximo o trabalhador brasileiro. O "rolo compressor" de Michel Temer se estende para todos os setores da sociedade brasileira, esmagando sempre os mais vulneráveis. Entretanto, neste texto, eu vou destacar a política de sucateamento da educação pública de Michel Temer na educação e como isso tem refletido na mesma. A PEC 241, também conhecida como a "PEC do Fim do Mundo", é um projeto que foi aprovado e que limita os gastos em saúde e educação por 20 anos. Com essa PEC, a verba destinada a saúde e à educação permanecerá a mesma por duas décadas, independente da inflação. Isso é problemático porque, por conta da inflação, o dinheiro não tem o mesmo valor daqui a dez anos ou até menos que isso. Em 2000, com R$ 50,00 você fazia uma compra de mês. Em 2018, com este mesmo valor, você tem que selecionar entre os itens básicos o que vai levar. Este é um exemplo simples do que vai acontecer, ou melhor: está acontecendo com a saúde pública brasileira. Em nenhum país do mundo, seja ele com um governo de esquerda ou de direita, os gastos em saúde são cortados. Isso porque doenças antes erradicadas podem retornar e novas epidemias podem surgir. É por essas e outras que o sarampo, pólio, difteria e rubéola, doenças antes consideradas erradicadas, estão voltando com força. E isso se soma com o número cada vez maior de pessoas que se recusam a tomar vacinas e o governo parece fazer pouco ou nada diante disso.E com relação à educação, não há muito o que dizer de tão óbvia que é a situação. Todo país que almeja uma igualdade social começa pela educação. Logo, quando a mesma não merece a devida atenção, o futuro da nação fica ameaçado. 
     Além da PEC do Fim do Mundo, a outra proposta do atual governo é a Reforma do Ensino Médio. Na teoria é tudo muito bonito, mas na prática é totalmente diferente. A Reforma do Ensino Médio propõe a separação do conhecimento por áreas onde o estudante terá a opção do que estudar. Poucas serão as disciplinas obrigatórias e as demais serão optativas e/ou interdisciplinares. Além disso, os professores não precisarão de diploma para ele lecionar: basta ele ter notório saber na área na qual deseja dar aulas. O governo argumenta que isso está sendo feito para tornar o Ensino Médio mais atrativo, uma vez que a evasão nessa fase escolar ainda é alta. Entretanto, se o objetivo é esse, porque não melhorar as  estruturas das escolas Brasil afora? Porque não aumentar o salário dos professores e criar um plano de carreira para o mesmo? Além disso, a questão do "notório saber" é um tremendo desrespeito com a classe docente. Ser professor não é chegar em sala e começar a falar como se não houvesse amanhã e/ou reproduzir aquilo que está no livro didático. O professor para ser professor precisa cumprir horas de estágio obrigatório, fazer inúmeras disciplinas obrigatórias e eletivas na educação para só assim tirar o diploma e poder lecionar. Esta reforma desrespeita ainda mais a classe docente, que nunca teve o merecido respeito no Brasil. 

Imagem: Reprodução. 

       Na prática, estas reformas na educação tiram o sonho da juventude. Eles se veem sem expectativa: não sabem se vão se formar ou se formados, se conseguirão construir carreira na área em que escolheram. E isso tem se mostrado na prática: em 2018, 6.774.891 pessoas se inscreveram no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), mas somente 5.513.662 inscrições foram confirmadas, uma vez que pagaram a taxa de inscrição. Houve uma redução de 1.261.229 inscritos. O jovem da periferia está parando de sonhar com o ensino superior. E é de extrema importância ressaltar que estas reformas visam apenas a população da periferia. Quem tem dinheiro (coisa que muita gente não tem, a não ser o básico para sobreviver), vai para o hospital particular e matricula os filhos em escolas particulares. Aliás, é difícil crer que as instituições privadas de ensino irão aderir a Reforma do Ensino Médio porque na prática a mesma sucateia o ensino e as escolas particulares não vão querer isso. Tais escolas preparam os estudantes para serem diplomatas, médicos, advogados, engenheiros, presidentes de empresa e até mesmo governantes políticos. O jovem de classe média e até mesmo rico vai continuar sonhando com seu curso superior, em se formar e seguir carreira na profissão que escolheu. 

Conclusão

     Não há uma fórmula mágica para soluçar o que está acontecendo. A única certeza que se tem é que devemos ser resistentes, embora isso seja cansativo. Desistir é tudo o que esse governo quer. Desta forma, mesmo parecendo impossível, continue sonhando com seu curso superior, sua profissão e não se esqueça de lutar para tirar Temer do poder junto com suas reformas repugnantes. 

31/07/2018

Entrevista com Tiago Crispim Salvador

Tiago Crispim Salvador, o entrevistado do mês de julho do blog A Hora. Imagem: Reprodução. Facebook.

     O mês de julho chega ao fim e com ele a entrevista mensal aqui do blog. O entrevistado do mês é Tiago Crispim Salvador, graduado em História pela Universidade Estácio de Sá, graduando em Ciências Sociais pela Universidade do Estado Rio de Janeiro (UERJ), faz mestrado em Ciências Sociais também pela UERJ e é um dos professores e fundadores do Pré-vestibular do São Carlos (PREVESC), cursinho comunitário que desde 2016 atua no Morro do São Carlos. Eu sou amigo e, portanto, suspeito para falar, mas o fato é que o Tiago é uma pessoa com uma inteligência fora da média e tem uma sede insaciável de conhecimento, uma mente brilhante! Ele tem um conhecimento profundo sobre muita coisa e nesta entrevista podemos ver a sua opinião sobre os mais diversos assuntos, como História, política, gênero, Marielle Franco e também novelas (sim, Tiago é um noveleiro inveterado). Ainda assim, esta entrevista não foi suficiente para dar conta da totalidade de assuntos da qual Tiago entende profundamente, pois uma postagem de um blog é muito pequena para este grande homem. 


A Hora: 1 - Costumo iniciar minhas entrevistas perguntando sobre a infância do entrevistado. Você pode me falar como foi a sua?

Tiago Crispim Salvador: A minha infância em suma não foi uma infância muito diferente de qualquer criança da época em que eu nasci. Sou de  1988, pode-se dizer que sou filho do neoliberalismo, um dos momentos mais tristes e árduos da história do país. E, apesar das dificuldades, por conta da minha origem social, por morar em uma favela da área central da cidade, eu só fui ver as diferenças de possibilidade de mundo relacionadas às outras favelas que a gente veio quando vi outros jovens como eu na questão de oportunidades. Eu tive uma infância muito diferenciada até dos estigmas que se colocam em cima de uma criança negra e pobre de uma favela. Apesar de tudo, eu tive uma infância muito protegida, muito centralizada no mundo em que eu estava inserido. Vivi os primeiros momentos da minha vida até 1997, quando tinha por volta de 8, 9 anos de idade, eu vivi na parte mais precarizada da favela onde moro. Eu brincava na torre da Light, mas era uma infância meio que idílica, meio que separada entre as coisas mais idílicas e o mundo que me cercava. Mas também não era tão idílico porque estava de frente com a violência, lembro que eu vi uma cabeça de traficante na minha frente neste período. Foi onde comecei a presenciar a realidade da violência. A violência sempre foi colocada para mim em dois focos: ao mesmo tempo que eu via e vivenciava, eu não sofria fisicamente, mas psicologicamente me afetava. Eu sempre fui uma pessoa muito assustada, sempre tinha medo de tudo, até os meus 12 anos de idade eu dormia com minha mãe e bisavó, eu não ficava sozinho, tinha medo do escuro e tinha medo da noite. Não que isso tivesse uma  relação direta com a violência em si. 

AH: 2 - Há quanto tempo você mora com sua família no Morro do São Carlos?

TCS: A minha família está aqui desde praticamente 1964. Quem veio primeiro para o Morro do São Carlos foi uma tia minha, que faleceu em 1985, mas a minha família está aqui no São Carlos desde 1964, 1965 praticamente. Vale destacar que a família Crispim é uma família de mineiros oriundos de Juiz de Fora, a minha bisavó é fruto do êxodo rural, ela chega no Rio de Janeiro no início dos anos 1940 e ela se estabeleceu na zona oeste quando na mesma existiam as antigas freguesias rurais, quando a zona oeste era uma área rural e esse êxodo para o Morro do São Carlos ocorre na  década de 1960. Progressivamente, no mesmo período em que tínhamos o Carlos Lacerda (1914 - 1977) na gestão do antigo estado da Guanabara (antigo nome do estado do Rio de Janeiro) com a política de remoção das favelas, a minha família consegue se estabelecer em uma favela da área central da cidade do Rio de Janeiro, que é o Morro do São Carlos. Eu nasci em 1988 e estou a minha vida inteira neste morro. Já vi e acompanhei vários processos ocorridos desde então. 

AH: 3 - Você pode falar um pouco sobre o que está pesquisando no mestrado?

TCS: Eu estou trabalhando com mães de traficantes que perderam o filho em situação de violência policial, elas não fogem deste estigma, eles foram mortos pela polícia e elas não fogem do estigma de serem mães de traficantes. Eu trabalho a vertente delas como muitas vezes a atitude destas mães é colocada com relação ao Estado e à sociedade como resignação, como se elas não entram com inquérito, com pedido de indenização e em movimentos sociais porque elas têm o desdém da sociedade e do Estado. Muito pelo contrário. Esse silêncio que elas trabalham é uma forma política, é um silêncio com outro significado e não resignado. Eu entrei neste tema por conta da minha pesquisa, sou pesquisador do PROEALC (Programa de Estudos de América Latina e Caribe), programa que existe há 20 anos. Sou estagiário e pesquisador vinculado ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) nas áreas de questão social e violência no Brasil, na qual eu faço um recorte para discutir violência policial contra "juventudes" "negras"(com destaques para as aspas) na favela. E desde 2018 eu dou aulas no DEGASE (Departamento Geral de Ações Sócio Educativos). De certa forma, entre o que eu pesquiso e a minha experiência docente, está tudo relacionado.   

AH: 4 - O que o motivou a criar o PREVESC (Pré-vestibular do São Carlos), cursinho comunitário que atua no Morro do São Carlos? Como tem sido trabalhar no mesmo?

TCS: O PREVESC sempre foi uma ambição minha em detrimento dos problemas locais daqui de onde eu moro, que sempre me chamou a atenção a inexistência de um curso pré-vestibular. Na época que eu procurei, quando queria fazer minha primeira graduação em História, entre os anos de 2007 e 2008, não tinha um curso pré-vestibular propriamente na comunidade. Tinha em uma paróquia local na subida do morro, próximo à subida na verdade, que era uma igreja católica e eu nunca soube da existência de um pré-vestibular aqui. Já teve até algumas oficinas de alfabetização, mas um cursinho não tinha. Então eu contei a ideia para amigos meus, inclusive o Marllon (sim, o autor deste blog também atua no cursinho citado), o Rhian e a Fernanda (que são sociólogos). Enfim, conversei com professores que são da mesma área que a minha e daí fomos conversando com outros professores, todos oriundos da rede pública de ensino e também moradores de comunidades que já tinham uma experiência anterior em cursinhos. O professor Marllon, inclusive, já vinha de uma experiência anterior de cursinhos e movimentos sociais pela educação na Maré. Então, decidimos nos reunir e vale destacar que tudo isso não foi uma ação só minha, me incomodou muito a ausência de um curso pré-vestibular, mas vale destacar que foi uma ideia coletiva. Eu contei muito com estes amigos para estabelecer este curso aqui.

AH: 5 - De uma forma ou de outra, sua família participou de eventos que entraram para a História, como o assassinato de John Kennedy (1917 - 1963), o assassinato de Aída Curi (1939 - 1958) e o naufrágio do Bateau Mouche, em 31 de dezembro de 1988. Fale um pouco sobre isso.

TCS: As histórias que a minha família presenciou no cenário político, cultural e nacional brasileiro começam com a minha bisavó. Ela era uma mulher matriarca, que liderou a família e é uma das primeiras a vir para o Morro do São Carlos depois que uma tia que já faleceu veio e a minha bisavó sempre contava fatos históricos que sempre me intrigaram. Na época eu até não dava muita importância, mas depois que eu passei a me interessar mais pelas ciências humanas, eu fui vendo que estes fatos eram interessantes e tinha curiosidade em saber mais. Mas as questões que mais me chamaram a atenção foram a da relação que os sertanejos que viviam não somente no sertão da zona oeste do estado do Rio de Janeiro, mas também no sertão mineiro, tinham com os indígenas. A minha bisavó contava muito dessa relação do encontro com o outro. Ela me falava muito do índio, que ela ridicularizava o fato da mulher ter um filho na cultura indígena e o homem ficar de resguardo. E depois que fui estudar Antropologia, eu vi mesmo que são práticas do Xingu e que não são disseminadas em toda tribo indígena, mas que são arranjos sociais possíveis. E ela contava também na década de 1940 sobre o estabelecimento dos japoneses e chineses em Santa Cruz, que fazia parte de uma política agrícola do governo Vargas (1930 - 1945) de criar colônias. As mesmas existiram em Caxias, em Santa Cruz e ela vivenciou isso, tanto é que tinha a reta do japonês, que hoje é reta de São Fernando. E ela contava muito estas histórias do encontro com o outro, que são fatos que estão marcados na história do Brasil. E ela também contava muito sobre o governo de Artur Bernardes (1875 - 1955), não situando o tempo porque minha bisavó era analfabeta, mas ela conseguia contar isso com uma proeza muito grande. A minha família tem até hoje essa habilidade de memorizar o fato oralmente como se eles tivessem sido vivenciados naquele momento presente, mesmo contado atualmente e mesmo eles não tendo uma precisão de datas, eu como historiador consigo ver a verdade dos fatos porque consigo situar os personagens. E ela contava também muitos detalhes sobre a Revolução Constitucionalista e foi daí que ela pegou "ranço" dos paulistas. 
A minha tia Teresa, filha mais velha de minha bisavó, que fala mesmo que presenciou os acontecimentos do Caso Aída Curi, ela chegou a ver o corpo da Aída caído em uma rua em Copacabana. A minha avó trabalhou na casa dos parentes de John Kennedy que viviam no Brasil. Ela conta que no dia que ele foi assassinado, em 1963, houve uma grande comoção nesta casa. Já o meu padrinho trabalhava na Praia Vermelha, ele era do Exército e no dia que o Bateau Mouche afundou, em 1988, ele estava de serviço e ajudou no resgate das pessoas. Então, eu sempre tive uma aproximação muito grande com a História, principalmente com os fatos históricos ocorridos entre os anos 1940 e 1950. A minha tia Teresa conta que certa feita viajou de barca com Dalva de Oliveira (1917 - 1972) e a Dalva e outros personagens foram presentes no imaginário da minha família. Mesmo eles tendo baixa escolaridade, é possível comprovar a veracidade dos fatos contados e identificá-los na História por conta da riqueza de detalhes com que eles contam os mesmos. 

AH: 6 - Você tem um vasta pesquisa nas áreas de gênero, sexualidade, tráfico de drogas, milícia e segurança pública. De que forma as relações homoafetivas são encaradas em um espaço tão machista que é o tráfico de drogas? É sabido que elas existem...

TCS: Bom, sobre a experiência na área de gênero, não é uma experiência que eu tenho pelo CNPq. É uma vivência olhada com o olhar investigativo do sociólogo e do historiador, mas não é meu campo de pesquisa. A minha pesquisa é letalidade, violência e juventude. A questão da homossexualidade no tráfico é que o tráfico está associado a uma cultura viril e masculina no sentido de comprar os estereótipos machistas, reproduzindo as heranças do patriarcado. Isso não significa que a existência da homossexualidade em qualquer um destes setores seja nula e isso é uma reprodução mais ampla do que acontece na sociedade. O crime não é um fato social isolado, ele está dialogando com o social e a sociedade é machista e patriarcal. Logo, o tráfico de drogas tende a reproduzir isso. A polícia e o Exército também veriam a questão da homossexualidade de uma forma não muito diferenciada do que é visto no tráfico de drogas.Eu acho que não é uma questão só de escandalizar ou criar um estereótipo para o crime: a questão do machismo e da homofobia é central na sociedade brasileira como um todo. Além disso, o que seria homossexualidade? Há uma confusão muito mal colocada entre prática sexual e gênero. Identidade de gênero é uma coisa e prática sexual é outra completamente diferente. A gente deveria aprender essa aulinha desde Roma, mas falta muito ainda. O que seria o homossexual? Por que chama a atenção um traficante ter uma relação de coito com outro homem? Porque foge ao discurso especialista. Não sei se seria elucidativo discutir esta temática sob o olhar de velhos clichês e temos de tomar cuidado para não reproduzir certas vulgarizações feitas sobre papel de gênero,  identidade de gênero e performances sexuais. Isso é muito mais complexo do que a gente imagina.

AH: 7 - Uma coisa que você gosta muito fazer é analisar novelas. Quando e porque você começou a fazer isso?

TCS: O que mais me espanta é que as pessoas, principalmente os intelectuais, acham que novela e futebol são coisas que alienam, que não devem ser discutidas, mas o fato é que de uma certa forma estão representando o social, nada escapa ao social. Não sei se isso é uma bizarrice da minha formação, pois eu tenho uma influência da formação francesa, uma herança da Escola dos Annales porque, por mais que se tente discutir micro-história, a gente não quebrou com certos paradigmas. Isso é na História. Nas Ciências Sociais, a gente tem a predominância da tradição sociológica francesa, que tem essa leitura do social muito forte. O social tem uma primazia fundamental que não deve ser descartada. O que que acontece? A novela, por mais que sua proposta seja  o entretenimento, é o social quem está falando ali o tempo inteiro, principalmente nas novelas do horário nobre. Então, negligenciar a novela é negligenciar o que está sendo reproduzido ali. A novela não é apolítica, ela tem um jogo de cintura que por mais que ela se mostre neutra, ela está dentro do seu formato colocando valores, expressões sociais e culturais. A novela  é fundamental para discutir o que a sociedade está pensando. A novela não foge ao seu tempo. Um exemplo: a novela Que Rei Sou Eu? (1989) foi uma novela voltada para as questões da Revolução Francesa (1789), mas que expressava problemas políticos da sociedade brasileira em 1989. E o que tínhamos em 1989? As eleições presidenciais, depois de um período ditatorial que durou mais de 20 anos cujo primeiro presidente do pós - Ditadura foi eleito de forma indireta (Tancredo Neves é eleito, mas morre e quem assumo é o vice José Sarney). Então, olhar a novela como algo isolado é impossível. Um dos artigos que escrevi em 2017 que falava da criminalização do pobre, a novela das nove colocava a questão da segurança pública, que é uma questão que está sendo alardeada na mídia e também foi apropriada pela novela. As novelas apropriam fenômenos sociais e colocam ali dentro de seu formato. Escamotear isso do debate social é muito complicado. 

AH: 8 - Você assistiu religiosamente a reprise de Explode Coração (1995), que acabou de ser reprisada há pouco tempo no Canal Viva. O que lhe chamou a atenção nesta novela?

TCS: Ao longo da minha curta carreira acadêmica, eu tenho discordado muito das visões da Glória Perez (autora de Explode Coração). Eu critico bastante o modo como o social é colocado ali. A Glória Perez é historiadora e então eu tenho umas críticas mais diretas a ela do que com outros autores, pois é uma questão do campo. E ela gosta muito de trabalhar a questão da alteridade, que é uma questão antropológica e como sou muito ligado à Antropologia, então eu sempre me volto. Além disso, eu sempre chamo a atenção ao modo como ela trabalha o outro, sempre com um olhar etnocentrista. Mas Explode Coração é uma novela que eu admiro por conta do trabalho que Glória Perez faz em torno da campanha sobre as crianças desaparecidas. Isso foi um impacto muito grande para a época e eu me lembro disso muito bem. Era uma época onde o desaparecimento de crianças alcançava altos índices. Haviam automóveis que circulavam pelas favelas a procura de crianças negras e pobres. E isso foi muito bem explorado na novela. Eu acho que assim como a gente tem que ter o bom senso acadêmico de saber reconhecer as críticas, o que é a favor também deve ser colocado. É isso o que me chama a atenção em Explode Coração e não é nem a história em si, mas esta campanha específica. 

AH: 9 - A Sarita (Floriano Peixoto), personagem de Explode Coração (1995), nasceu homem, mas se identifica como mulher. Na sua opinião, foi uma ousadia da Glória Perez, que em plena década de 1990, criou uma personagem como esta?

TCS: Olha, ao mesmo tempo que você me fez elogiar a Glória Perez, você está me fazendo voltar atrás (risos). A construção da Sarita funciona da seguinte forma: ao mesmo tempo que é uma ousadia, ainda que muito tímida por conta da época e isso não é culpa da Glória porque ela não podia fazer muita coisa. A Sarita é uma personagem que reproduz os machismos. Para ela, a mulher tem que ser contida sempre. Além disso, a Sarita criminaliza as mulheres que são ousadas, ela espera que a mulher seja do lar, que se ajuste ao machismo e à heteronormatividade. Eu não vejo avanços, mas para a época tocar minimamente no assunto, levando a possibilidade da existência de alguém como Sarita na vida real, pode ser visto como um grande mérito. Agora, achar que é revolução? Aí, não. E eu volto a falar:a questão das crianças desaparecidas me interessou muito mais que a Sarita (risos). 

AH: 10 - Na célebre cena da explosão do shopping Tropical Towers em Torre de Babel (1998), todos os personagens mortos eram estigmatizados pela sociedade. Qual o perfil destes personagens?

TCS: Vale lembrar que Torre de Babel era uma novela que me assustava muito (risos). É uma novela que trabalha com a violência em todos os sentidos, que é uma característica do Silvio de Abreu (autor da novela), trabalhar com questões policiais. Você falou em ousadia e eu acho que o Silvio tentou ousar muito mais que a Glória Perez porque foi colocada a questão da homossexualidade e as personagens (Rafaela e Leila, interpretadas respectivamente por Christiane Torloni e Silvia Pfeifer) não se reprimiam, mas havia uma diferença muito grande: elas eram lésbicas da alta elite paulistana. Então, elas poderiam optar por essa liberdade. Além disso, você tinha a questão do dependente químico (Guilherme, personagem interpretado por Marcello Antony), que era muito mal trabalhada, mas não era uma questão do autor: era uma questão do momento. Enfim, todos estes personagens tiveram uma aceitação muito negativa do público e na trajetória da novela todos estes personagens explodiram no shopping. Foi uma novela que tentou ousar, mas não conseguiu. 
Na questão do gênero, é muito importante destacar a Ângela Vidal (Cláudia Raia). Ela é uma mulher que comanda tudo. A Ângela era o espírito do Tropical Towers, mas o que acontece com ela? A Ângela Vidal é invejosa, ela não é realizada, é uma mulher que coloca o trabalho acima de tudo, ela é vista como "amigão", "parceirão" porque o Henrique (Edson Celulari) só via ela como amigo, ele não via ela como uma mulher que tinha sentimentos. A Ângela Vidal é colocada como uma personagem fria e a alma do shopping era ela. Então, ela teve um preço a pagar: ela sobreviveu a explosão, mas virou a vilã e se suicidou. A Marta (Glória Menezes) era o drama da burguesia. Ela me lembra muito a música do Chico Buarque chamada O Casamento dos Pequenos Burgueses e tem o César (Tarcísio Meira), que virou o "galãzão", que seu papel de gênero e poderoso propõe e todas as mulheres que querem ser bem aceitas, elas se enquadram. A Celeste (Letícia Sabatella) deixa de ser uma prostituta e passa a ser uma boa executiva, acolhedora, do lar e responsável com seu trabalho. Mas a Ângela, que era a mulher que conseguiu ser realizada profissionalmente, é demonizada e os outros morrem. Em 1998, era impossível que personagens como estes fossem até o último capítulo. Então, Torre de Babel é uma novela  muito boa para estudar esses leques. Vale lembrar que adoro os escritos do Silvio de Abreu. 

AH: 11 - Você mora perto do local onde a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram assassinados. Onde você estava quando Marielle e Anderson foram mortos?

TCS: Na casa de uma amiga e eu soube da notícia por lá. Coincidentemente, como eu moro no Estácio, passei e a rua estava fechada. Eu acabei vendo a cena, o Marcelo Freixo (PSOL) estava lá, havia também pessoas que militam comigo no movimento em prol da educação e eu acabei vendo tudo. O que mais me chocou nisso é como uma pessoa com uma expressividade tão grande só passa a ser reconhecida principalmente nos meios sociais e a sua repercussão como ícone depois de morta. Se ela não morresse, ela não seria lembrada e isso é o que mais me chocou. 

AH: 12 - Você discordava do discurso do empoderamento que Marielle pregava, preferindo a representatividade no lugar disso. Por quê?

TCS: Empoderar o outro é muito complicado para qualquer pessoa. E isso nada tem a ver com a questão do gênero, etnia ou qualquer outra coisa. Eu tento fugir da pegada marxista, mas às vezes acabo pegando. É muito complicado empoderar uma pessoa, um grupo e nós já vimos isso ao longo da História. Eu acho que a questão é a inclusão de todos. Agora, você empoderar um em detrimento de outro pode ser muito perigoso, por mais que você queira trabalhar reparações históricas, que eu sou totalmente a favor, como ao povo negro, que eu faço parte, devem realmente ser feitas e não são medidas paliativas que vão inserir a gente na sociedade. É só ver o genocídio nas favelas, onde quem mais morre são negros e a abolição da escravidão em 1888 não nos levou a nada, a não ser o mercado de trabalho barato e não nos inseriu na sociedade até hoje. Mas a questão do empoderar é muito complicada porque você vai empoderar quem? É sempre uma nata, uma oligarquia porque é isso o que se vê. Então, isso de uma certa forma não me atrai muito. Eu luto muito mais pela inclusão. 

AH: 13 - Tiago, para encerrar esta entrevista maravilhosa e enriquecedora, você pode deixar uma mensagem para os leitores do blog A Hora

TCS: Gente, leiam o blog A Hora. É bom que medidas como essa se popularizem porque é ate um meio de a gente estar transpondo as nossas ideias em canais assim, principalmente quem não consegue publicar nada em CNPq porque a gente sabe a dificuldade que é para ter as primeiras publicações e tudo mais. E a internet é uma forma de ser notado. Muitas coisas mais para contra do que para mais, mas se existem coisas que favoreçam, então façam. 


Errata 1: Tiago Crispim Salvador não é bolsista CNPq;

Errata 2: embora o texto possa sugerir tal coisa, o fato é que Tiago Crispim Salvador não testemunhou o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Ele chegou na cena do crime depois que o mesmo foi executado, encontrando vários militantes de esquerda no local que se direcionaram para lá depois do ocorrido. 

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