14/06/2018

O estigma carregado por jogadores homossexuais

Justin Fashanu (1961 - 1998) foi um jogador que revelou ser homossexual no ano de 1990. Se hoje é extremamente difícil um jogador de futebol revelar ser gay, imagina como deveria ser há mais de 25 anos atrás. Imagem: Reprodução.

     O futebol é extremamente machista. Minto. O futebol não é machista, mas sim as pessoas que praticam o mesmo. Tais pessoas na maioria dos casos são homens, que não apenas praticam o esporte, mas são dirigentes de clube, presidentes, técnicos, membros e líderes de torcida organizada por exemplo. Entretanto, mesmo sendo um espaço extremamente machista, o mundo do futebol há casos onde, querendo ou não, as regras foram quebradas. Entretanto, aqueles que ousaram quebrar tais regras foram estigmatizados para o resto da vida. E mesmo que a pessoa tenha morrido, o estigma persiste.
      Não tem como iniciar este assunto sem falar do jogador brasileiro Richarlyson. O futebolista nunca falou abertamente sobre sua sexualidade, mas somente a suspeita de que o mesmo é homossexual fez com que o jogador pagasse um preço alto. Richarlyson chegou a ter uma boa fase no São Paulo, entre os anos de 2005 e 2010. O jogador mostrou seu talento e seu futuro no esporte parecia promissor. Entretanto, não demorou muito para que as especulações sobre a sua sexualidade viessem à tona, acompanhada da rejeição dos torcedores. Richarlyson ouviu (e ainda ouve) inúmeras barbaridades que eu prefiro não escrever aqui. A rejeição chegou a um ponto tão grande que o jogador não consegue mais mostrar seu bom futebol como outrora e, além disso, ele não consegue ficar em um clube por muito tempo. Se no passado, o jogador chegou a integrar o clube do São Paulo e até mesmo ser convocado para amistosos da seleção brasileira em 2008, o que resta agora são os times de segunda divisão. Aliás, Richarlyson não consegue ficar em um clube por muito tempo. Além disso, não resta outra coisa a Richarlyson, a não ser o silenciamento. Se no passado, o futebolista era assediado pela mídia, atualmente não resta outra coisa, a não ser o silêncio sistemático. Os jornais esportivos simplesmente o ignoram e os clubes por onde ele passou não costumam falar o nome dele. O mais lógico seria a pessoa ser cobrada pelo seu rendimento em campo e não pela sua orientação sexual.

Mesmo não revelando sua orientação sexual, Richarlyson sofre severas penalidades por suspeitarem de sua sexualidade. Imagem: Guarani Press. 

     Se na atualidade, é impensável para um jogador de futebol revelar sua homossexualidade para o público, imagina então como deveria ser em 1990. Foi neste mesmo ano que Justin Fashanu (1961 - 1998), cuja foto abre texto, revelou para todos que era homossexual. Vale lembrar também que na época que Justin revelou para todos que era gay, a AIDS era (ainda é) um tabu muito grande e fortemente associada ao público LGBT. Isso porque os primeiros casos de AIDS surgiram em pessoas deste segmento. Era o chamado "câncer gay". Justin foi um jogador de futebol inglês filho de uma mãe enfermeira guianesa e de um advogado nigeriano. Chegou a fazer sucesso graças ao futebol, além de ganhar um bom dinheiro também. Porém, tudo mudou quando, em 1990, o jogador deu uma entrevista para o The Sun onde revelava para o público que era homossexual. Justin pagou um alto preço por ter feito tal coisa. A reprovação foi generalizada, inclusive de companheiros de equipe, que reagiram mal à publicação. O futebolista revelou também que, embora alguns de seus colegas de trabalho tenham lhe acolhido, o mesmo ouvia constantes piadas maliciosas sobre sua orientação sexual e foi alvo de ofensas pelo fato de ser gay. Além disso, Justin viu sua carreira entrar em declínio depois de revelar para todos que era homossexual. Tentou se reerguer em clubes de baixíssima expressão e se via obrigado a mudar de clube a cada seis meses. Os constantes e cruéis ataques por conta de sua sexualidade, bem como uma falsa acusação de estupro vinda de um adolescente fizeram com que Justin se suicidasse no dia 03 de maio de 1998.

Conclusão

     O jogador que se assume homossexual, independente de ser bom no que faz ou não, paga um preço alto por causa disso. Ele sofre rejeição da torcida, sofre pressão da mídia e se vê obrigado a jogar em clubes sem muita visibilidade. E isso sem contar com o fato dele ter que ficar trocando de clubes com frequência por conta de sua orientação sexual, lhe tirando a possibilidade de mostrar o seu talento como jogador. No futebol, a homossexualidade não é tolerada em hipótese alguma, não há exceções. Entretanto, mesmo o machismo sendo extremamente forte no mundo do futebol, há casos de jogadores mundo afora que revelaram para o público que são gays. Além de Justin Fashanu, Thomas Hitzlsperger, Robbie Rogers, David Testo, Anton Hysén, Thomas Berling, Jonathan De Falco e Marcus Urban são alguns dos jogadores que revelaram para o mundo que são homossexuais. Isso prova que, embora a heterossexualidade seja uma regra no futebol, há pontos fora da curva. Isso mostra também que as coisas estão mudando. Bem devagarzinho, mas está mudando. 

12/06/2018

Futebol: o reduto do racismo

Aranha é um goleiro que atualmente joga pelo Avaí. Assim como muitos jogadores negros mundo afora, Aranha também já foi vítima de ofensas raciais. Imagem: Reprodução.

     O racismo é uma realidade no futebol brasileiro e também no futebol mundial. Em diversos países do mundo, há casos de jogadores negros que foram vítimas de injúrias raciais. E o mais contraditório e irônico em tudo isso é que parte considerável dos jogadores que jogam em times de todo o mundo são negros. Isso acontece porque o fato de um determinado espaço ser ocupado por uma parcela relevante de negros não significa que o racismo esteja automaticamente eliminado deste mesmo espaço.
      Antes de continuar com o texto, eu quero fazer duas observações. Na verdade, eu só quero fazer uma. Todo mundo sabe o que é futebol, até a pessoa mais leiga, embora possa não conhecer a fundo as leis deste esporte, sabe o que é o mesmo. Bem, antes de continuar com o texto, eu quero definir para vocês o que é o racismo. "Ah, o racismo é o preconceito com pessoas negras" é uma resposta superficial e, por conta disso, não abrange a totalidade da definição deste preconceito. O racismo é uma das estruturas do mundo ocidental que classifica as pessoas negras como pessoas "inferiores" e que, por isso, devem ficar na base da pirâmide, à margem da sociedade. O negro não é visto como uma pessoa bonita, o cabelo do negro não é digno de elogios (embora nos últimos tempos isso possa estar mudando, já falei sobre isso aqui) e seus modos de vida são vistos como "inferiores". O racismo é uma estrutura do mundo ocidental e pode ser vista na moda, nas artes, na economia, na política e em espaços acadêmicos. A quantidade de modelos negros ainda é inferior a de brancos, embora isso possa estar mudando nos últimos anos; e a quantidade de negros nas artes, em especial na dramaturgia, em papéis de destaque ainda é pequena e a representação dos negros nas mesmas ainda é problemática; já na esfera econômica, os negros estão na base da pirâmide. São eles que estão em maior número nos serviços braçais, informais e também desempregados. Na política, em especial, na política brasileira, o Congresso Nacional ainda é branco, masculino, heterossexual, cristão e conservador. E nas universidades, embora as cotas raciais têm contribuído significativamente para mudar isso, o número negros cursando ou que já tenham cursado um curso superior ainda é pequeno. Entende agora porque dizemos que o racismo é estrutural?

Mesmo tendo sido lançado pela primeira vez no ano de 1947, O Negro no Futebol Brasileiro continua sendo a obra mais completa e uma verdadeira referência quando o assunto é racismo no futebol. Imagem: Reprodução. 

     Como já foi dito nos parágrafos anteriores, o racismo no futebol não é uma exclusividade do Brasil. Entretanto, neste texto eu vou especificar o país. Para entender o racismo no futebol brasileiro, é preciso olhar para a História e entender como o mesmo foi inserido na sociedade brasileira. No clássico livro O Negro no Futebol Brasileiro (1947), o jornalista Mário Filho (1908 - 1966) analisa as origens elitistas e também racistas do futebol. Mário Filho afirma na obra em questão que o futebol teve origem na Inglaterra e era praticado pela aristocracia, mas que com o tempo foi se tornando popular entre o trabalhador operário. No Brasil não era diferente. Nos primeiros anos do futebol em terras brasileiras, o mesmo era praticado por homens da elite. E, além disso, as regras e os nomes dos jogadores por exemplo, eram em inglês. Enquanto o esporte estava se consolidando no país, era preciso entender o inglês para praticar o mesmo. Os moços pobres e negros não tinham permissão para jogar futebol. O máximo que podiam fazer era assistir a tudo de longe, do lado de fora da grade. Se a bola caísse do lado de fora, eles podiam chutar a mesma, mas não podiam demorar muito. Estes moços podiam também carregar as malas dos jogadores até o bonde.
      Ainda em O Negro no Futebol Brasileiro, Mário Filho analisa também o começo da popularização deste esporte, bem como a inserção gradual e definitiva do negro neste esporte. O jornalista narra casos verídicos de jogadores negros que tinham que passar uma grande quantidade de pó-de-arroz no rosto para esconder a pele negra, bem como de jogadores que tinham de passar uma grande quantidade de brilhantina para amassar os cabelos crespos, bem como ficar com uma toalha enrolada na cabeça para garantir que os fios não iam sair do lugar. Isso durava no mínimo uns trinta minutos. O futebol estava começando a se popularizar e o autor do clássico em questão analisa o fenômeno no mesmo livro. Na ausência e na impossibilidade de comprarem uma bola de couro, os meninos pobres perceberam que podiam fazer uma bola de futebol com meias. Elas ficam mais tempo no chão por serem mais pesadas, ideais para praticar o esporte. Estes mesmos meninos perceberam também que para jogar futebol não era preciso ter uma grande estrutura. Meias todo mundo tem e, além disso, o futebol pode ser jogado em qualquer rua, terreno baldio, locais onde o lixo é despejado ou capinzais por exemplo. E qualquer objeto firme pode servir para sinalizar o gol, como por exemplo duas maletas de colégio, dois paletós bem dobrados, dois paralelepípedos ou dois pedaços de pau. Era a irreversível popularização de um esporte cujas origens são elitistas.

Gabriel Jesus é um dos convocados da seleção brasileira para a  Copa do Mundo de 2018, que vai ser realizada na Rússia. Gabriel Jesus não é o único negro que joga futebol, muito pelo contrário. Imagem: Pedro Martins/MoWa Press. 

     A quantidade de negros no futebol brasileiro é imensa e isso não vem de hoje, pois, como foi visto brevemente no parágrafo acima, a inserção do negro e dos pobres no futebol foi algo gradual. Gabriel Jesus, Neymar, Pelé, Willian Arão, Aranha, Dadá Maravilha, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldinho Fenômeno, Cafu, Mazinho, Vinícius Júnior, Jefferson, Marlon Santos, Felipe Melo, Vampeta, Sassá, Léo Moura e muitos outros são alguns jogadores de futebol que são negros. E este são somente os jogadores e ex-jogadores brasileiros. Se os jogadores estrangeiros fossem incluídos, o número seria muito maior. Uma pessoa desavisada e/ou o senso comum pode achar que, pelo fato de haver muitos negros no futebol, o racismo é algo que não existe neste esporte. Ledo engano. Volta e meia notícias de jogadores que sofreram injúrias raciais aparecem na mídia. Em 2014, Daniel Alves, que na época integrava o time do Barcelona, foi vítima de racismo ao ver uma banana ser atirada em sua direção. Em resposta ao ato, o jogador comeu a mesma e o gesto viralizou. Em junho de 2011, o ex-jogador Roberto Carlos passou por situação parecida. Após a vitória do time do qual fazia parte, Roberto Carlos viu uma banana ser atirada em sua direção. O agora ex-jogador havia passado por situação semelhante em março do mesmo ano. Em agosto de 2014, quando fazia parte do Santos, o goleiro Aranha foi vítima de ofensas raciais durante partida contra o Grêmio. "Preto fedido" e "macaco" foram alguns dos muitos xingamentos que Aranha ouviu da torcida do Grêmio no dia desta partida. E em fevereiro de 2017, o jogador Everton Luiz, que na época jogava em um time da primeira divisão da Sérvia, o Partizan Belgrado, ouviu insultos raciais durante toda a partida dos torcedores do time adversário Rad Belgrado. Integrantes da torcida rival emitiam gritos imitando macacos toda vez que Everton tinha a posse da bola. Além disso, a partida precisou ser interrompida depois que torcedores rivais exibiram um cartaz com frases racistas contra o jogador. Everton saiu de campo chorando e foi consolado pelo goleiro Filip Kljajic, goleiro do Partizan Belgrado na época. E estes foram somente os casos recentes de jogadores de futebol que foram vítimas de ofensas raciais. Se os demais casos, bem como os que ocorreram no passado e os que não tiveram destaque na mídia, fossem incluídos aqui, este parágrafo seria muito maior.

Everton Luiz é consolado pelo goleiro Filip Kljajic após ouvir insultos raciais e sair de campo aos prantos. Imagem: AFP. 

     O racismo no futebol acontece porque, embora um espaço seja ocupado consideravelmente por negros, não significa necessariamente que o racismo seja inexistente no mesmo. Ao contrário do que acontecia no passado, o negro atualmente pode jogar futebol, mas a partir do momento em que ele comete uma falta e/ou tem um rendimento ruim, o racismo até então velado vem à tona. Se bem que em alguns casos, mesmo o jogador vivendo uma boa fase, ele é vítima de insultos raciais. Enfim, nada justifica o racismo. O negro na sociedade racista tem que servir para o entretenimento. Enquanto ele estiver fazendo gols, fazendo dribles incríveis e principalmente dando muito lucro ao clube, está tudo certo. Entretanto, quando isso não acontece, o que resta ao jogador negro são os insultos raciais. E se, além de jogar bem, o jogador negro não falar de política e/ou defender causas sociais, melhor ainda. A elite dirigente do futebol, a elite torcedora e os patrocinadores não querem se sentir incomodados com um jogador que tenha um discurso que questione os seus privilégios.
     As coisas podem estar mudando, mas o fato é que o negro só é inserido na sociedade por meio do esporte e/ou entretenimento. A sociedade racista tolera o negro se ele fizer rir, cantar, dançar ou praticar algum esporte. Fora isso, a ascensão social do negro é negada. A sociedade nega a ascensão social do negro se ele quiser ser um telejornalista, um apresentador, engenheiro, médico, advogado, professor ou empresário. Não estou dizendo que não há negros nas áreas citadas.

Conclusão

     Embora o número de jogadores negros mundo afora não seja pequeno, o fato é que o racismo ainda é uma realidade no futebol. Isso se deve às origens elitistas e racistas do esporte em questão, bem como a estrutura racial que serve de base para a sociedade ocidental. O futebol é o esporte mais popular do mundo e ele reflete o perfil da sociedade onde está inserido e como o racismo está presente na sociedade, o futebol acaba refletindo o mesmo. 

07/06/2018

Futebol: o reduto do machismo

Futebol é coisa para mulher? Imagem: Reprodução.

     O futebol é o esporte mais popular do mundo. Ele é tão popular que há um evento mundial que ocorre de quatro em quatro anos dedicado ao mesmo e que reúne vários países. Embora existam inúmeras reportagens mostrando que há mulheres que gostam de futebol, o fato é que o mesmo é um esporte predominantemente masculino e também um verdadeiro reduto do machismo.
     O futebol é um esporte que dispensa apresentações, consiste basicamente em um monte de pessoas correndo atrás de uma bola, procurando fazer o gol. E só vale usar os pés. Pode-se usar as mãos em poucas exceções e pode também cabecear a bola. Fora isso, só pode usar os pés. No futebol, há o zagueiro, goleiro, lateral e meio-campo por exemplo. Bem, um técnico e/ou uma pessoa com um conhecimento mais aprofundado do esporte pode explicar isso muito melhor do que eu. O futebol é um esporte tão popular que de quatro em quatro anos há um evento mundial de grandes proporções dedicado ao esporte. Mas não é essa a questão. Eu vim falar de outra coisa.
     Símbolo de masculinidade, o futebol é um dos elementos mais conhecidos da heterossexualidade masculina. Um "macho que se preze" gosta de cerveja, sente atração somente por mulheres e gosta de futebol. Tal esporte é um verdadeiro reduto do machismo, que nesta modalidade esportiva é muito maior do que se pode imaginar. O machismo no futebol está em todos os elementos do mesmo e às vezes a pessoa nem percebe o machismo, de tão impregnado que ele está no esporte em questão e também na sociedade. É um grande equívoco colocar o futebol como a origem de todos os males presentes na sociedade. O futebol é um esporte como outro qualquer está sujeito às influências da sociedade no qual está inserido. Dada esta observação, vamos continuar com o texto. No futebol, o machismo é visto quando a camisa do clube voltada para o público feminino é mais ajustada para sensualizar o corpo da mulher, o machismo é visto também quando uma bandeirinha ganha visibilidade por seu corpo e não pela sua competência em campo. E o machismo é visto também quando esta mesma bandeirinha é recomendada a posar para uma revista de nudez. Em nossa sociedade patriarcal, a mulher é sinônimo de inferioridade, é misoginia o nome. E isso é algo tão forte que, quando se querem xingar um homem, acabam xingando a mulher no fim das contas. Vejamos alguns exemplos: "corno" é um termo coloquial para se referir ao homem que foi traído pela esposa e "filho da puta" (que tem infinitas variações) na verdade é um xingamento referente à mãe do homem xingado; uma "puta" é uma prostituta, mulher que se envolve com vários homens, de categoria "inferior" e que deve ficar à margem da sociedade. Dentro do futebol, os homens, principalmente aqueles que estão em campo (jogando ou não) são xingados de todos estes termos e muitos outros. O xingamento só é voltado diretamente para o homem quando o mesmo é negro, mas isso é assunto para o próximo texto.

Jogadoras da seleção brasileira de futebol feminino comemoram gol durante as Olimpíadas de 2016. Imagem: Reprodução. 

      Apesar de muita gente ainda achar o contrário, há mulheres torcedoras, que entendem de futebol e que também praticam o esporte profissionalmente. Entretanto, elas não têm o devido reconhecimento por que acreditam que futebol não é coisa para elas. A coluna de esportes dos jornais e revistas só falam do futebol masculino, os programas esportivos ignoram o assunto e a maioria dos torcedores só se importam com o futebol praticado pelos homens, mesmo que seus respectivos clubes tenham um time de futebol composto por mulheres. Muita gente não sabe, mas há uma Copa do Mundo de futebol feminino. Porém, ela é ignorada por muita gente. Quando as meninas da seleção estão em campo, não há a decretação de feriados, não se vê brasileiros orgulhosos grudados na televisão e nem há o sentimento de orgulho nacional pairando no ar. Isso acontece porque se entende que futebol não é coisa para mulher e, por mais competentes que elas sejam, o futebol jogado pelas mesmas não deve ser reconhecido.
     Não se enganem: o silenciamento do futebol feminino é sistemático. Não é uma lógica de que o esporte não é coisa para mulher, é uma lógica de que o futebol especificamente não é coisa para mulher. Se o futebol feminino não costuma ser exibido na televisão, o mesmo não se pode dizer das demais categorias esportivas praticadas por mulheres. O vôlei de quadra feminino e também o vôlei de praia feminino costumam ser reprisados na televisão, assim como os demais esportes que a sociedade permite que as mulheres pratiquem e os enxerguem como "femininos". A ginástica olímpica, a ginástica rítmica, o vôlei e o nado sincronizado são alguns destes esportes.

Richarlyson é um jogador de futebol cuja orientação sexual com frequência vira alvo de notícias e também de cruéis agressões verbais. Imagem: Edu Moraes/Record TV. 

     O machismo é uma concepção de que o homem é superior a mulher. Um dos elementos do machismo é a heterossexualidade, não tolerando nada além desta orientação sexual. Sendo assim, todo machista também é LGBTfóbico. E, da mesma forma que os machistas de plantão não toleram mulheres no futebol, eles também não toleram homossexuais. Ao menor sinal de suspeita, gesto ou qualquer outra atitude onde a orientação de um jogador é colocada em dúvida, a reação é imediata e cruel. Agressões físicas, ameaças de morte e o silenciamento da instituição são alguns exemplos. Richarlyson é um caso emblemático. O jogador de futebol, que nunca falou abertamente de sua orientação sexual, é alvo de constantes e incontáveis ataques de ódio apenas por ser considerado homossexual. O jogador é constantemente agredido verbalmente, já recebeu ameaças de morte e em 2017, quando foi contratado pelo Guarani, dois torcedores com a blusa do clube em questão jogaram bombas em frente ao estádio Brinco de Ouro como protesto pela contratação do atleta. Foi um ato de LGBTfobia. Em 2013, Emerson Sheik, que na época jogava no Corinthians, foi alvo de protestos que reprovavam a atitude do jogador, que havia publicado uma foto em sua conta no Instagram onde dava um "selinho" em um amigo. Se os colegas que trabalhavam ao lado de Sheik na época apoiaram o gesto do jogador, o mesmo não se pode dizer dos torcedores. Empunhando faixas com dizeres que não vou reproduzir aqui, corinthianos exigiram que Emerson pedisse desculpas pelo ato cometido (?) e que ele saísse do Cortinhians se fosse preciso, pois os mesmos não iriam aceitar atitudes como esta. No ano de 2017, uma sex tape de uma masturbação coletiva ocorrida nas dependências do Sport Clube Gaúcho caiu na rede e teve grande repercussão. Os jogadores envolvidos foram dispensados do clube. Entretanto, há um fato que deve ser destacado. Não é a primeira vez que futebolistas têm vídeo íntimo vazado, mas é o primeiro cujos envolvidos são homens. Nas vezes em que veio a público vídeos de conteúdo sexual, os protogonistas eram pessoas de sexos diferentes. Porém, nestes casos o atleta não foi alvo de reprovação pública e nem tiveram seus contratos rescindidos, muito pelo contrário. O clube até ofereceu apoio jurídico ao atleta. Diante de tudo isso, fica o questionamento: os atletas que foram filmados se masturbando foram dispensados do clube por supostamente trazerem escândalos para o time ou a dispensa foi movida por homofobia mesmo?

Conclusão

     O futebol é o esporte mais popular do planeta e ele acaba reproduzindo a sociedade na qual está inserido, incluindo os preconceitos da mesma. E no Brasil não é diferente. O Brasil é um país machista e o futebol reflete isso. Neste esporte, a mulher só é tolerada quando objetificada sexualmente. Do contrário, o que lhe resta é o descrédito e o silenciamento. E a presença de LGBTs no futebol não é tolerada porque a masculinidade é frágil e qualquer ameaça a mesma deve ser combatida energicamente, nem que se tenha que recorrer a bombas e ameaças de morte.

05/06/2018

Sócrates: o futebolista politizado

Sócrates (1954 - 2011) na Copa do Mundo de 1986. Imagem: Reprodução. 

     Sócrates (1954 - 2011), também conhecido pelos apelidos de "Doutor Sócrates", "Calcanhar de Ouro" e "Magrão", foi um jogador que fez história no futebol brasileiro e também no futebol mundial. Se formou em medicina, mas se consagrou como futebolista. Entretanto, o Calcanhar de Ouro não é conhecido somente pelo seu talento com a bola: não tem como falar em Sócrates e não citar a sua atividade política.

Raí ao lado de Sócrates. Assim como o irmão, Raí fez carreira no futebol. Imagem: Reprodução.

     Sócrates foi um jogador de  futebol nascido no Brasil que deixou sua marca no futebol brasileiro e também no futebol mundial. Sócrates é considerado um dos maiores ídolos do Corinthians, ao lado de Luisinho (1930 - 1998), Claudio (1922 - 2000), Roberto Rivelino, Marcelinho Carioca, Neto e Baltazar (1926 - 1997). Sócrates é considerado também, ao lado do irmão Raí e de Zé Mário (1957 - 1978), um dos maiores ídolos do Botafogo de Ribeirão Preto. Foi eleito no ano de 1983 o melhor jogador sul-americano do ano e incluído na FIFA, no ano de 2004, na lista dos 125 melhores jogadores vivos da história. Além disso, Sócrates já foi considerado pela mídia especializada como um dos grandes jogadores de todos os tempos. Em 2015, o jornal britânico The Guardian elegeu Sócrates como um dos seis esportistas mais inteligentes da história. E detalhe: Sócrates é o único jogador de futebol da lista. Para entrar na lista em questão, o jornal levou em consideração os currículos que extrapolaram campos e quadras, tendo uma atuação notória em suas respectivas áreas e fora delas. Vale destacar também que, além de jogador de futebol, Sócrates se formou em medicina, já foi técnico de futebol, articulista, comentarista esportivo, escritor, cantor e ator.

Sócrates (á direita, com microfone em punho) participando do movimento político chamado Diretas Já, no ano de 1984, em São Paulo (SP). Imagem: Reprodução. 

     Entretanto, a forte militância política de Sócrates marcou a trajetória do mesmo, dentro e fora dos campos. Se Sócrates é conhecido por sua clara militância política de esquerda, fique sabendo que nem sempre foi assim. Os colegas de Sócrates dos tempos em que o mesmo cursava Medicina afirmam que no período em que se preparava para ser médico, Sócrates não mostrava interesse quando o assunto era política. Em parte, isso se explica pelo fato de Sócrates vim de uma família conservadora, do interior, já era jogador de futebol, era casado e tinha um filho. Desta forma, não sobrava muito tempo para estudar sobre política. Entretanto, as coisas começaram a mudar quando o jogador veio para São Paulo. São Paulo era (e ainda é) uma cidade grande, onde Sócrates pôde conhecer a política de modo mais profundo, além de ter mais tempo livre. Assim como com qualquer militante de esquerda, Sócrates não adquiriu a visão de mundo que todos conheceram de uma hora para outra, muito pelo contrário. Pode parecer contraditório e até mesmo inimaginável, mas nos anos 1970, Sócrates chegou a dar algumas declarações onde elogiava o regime militar então vigente no Brasil. Além disso, o jogador chegou a declarar em 1976 que futebol e política nunca deveriam se misturar. Ainda neste contexto, o Doutor, em 1979, quando jogava no Corinthians, deu nota 10 ao general Figueiredo (1918 - 1999), último militar a governar o Brasil no período ditatorial de 1964 - 1985. Porém, a mudança no pensamento político de Sócrates foi acontecendo aos poucos. Neste longo percurso, o jogador leu muito, estudou bastante, conversou com várias pessoas e fez amizade com o jornalista Juca Kfouri e com Adilson Monteiro Alves, que foi um dos criadores da Democracia Corintiana. Juca e Adilson ajudaram Sócrates a aprofundar a sua visão política.

Sócrates nos tempos em que era jogador do Corinthians. Na foto, ele aparece com o punho erguido, sinal que ele fazia sempre quando fazia um gol. Imagem: Reprodução. 

     Foi na década de 1980, quando Sócrates já tinha uma forte veia política de esquerda e quanto também manifestações pedindo o fim da ditadura tomaram conta do país que surgiu a chamada Democracia Corinthiana. Tal movimento surgiu no ano de 1982 e foi liderada por Sócrates, Casagrande, Wladimir, Zenon e Adilson Monteiro Alves. É considerado o maior movimento ideológico da história do futebol brasileiro. Foi um período na história do Corinthians onde as contratações, regras de concentração, direito ao consumo de bebida alcoólica em público e liberdade para expressar opiniões sobre política por exemplo, eram decididas através do voto igualitário dos membros do clube. O voto do técnico, por exemplo, tinha o mesmo peso que o voto de um funcionário e/ou jogador. Os frutos desta autogestão foram muito bons. O Corinthians conquistou o campeonato paulista em 1982 e em 1983. Além disso, neste mesmo período, o clube quitou todas as suas dívidas, deixando para o próximo período uma boa quantia em dinheiro. Entretanto, o movimento em questão chegou ao fim em 1984. Os maus resultados obtidos pelo Corinthians em 1984, o "futebol moderno" vindo da Europa, trazendo consigo meios privados e gerenciais de gestão de clubes fizeram com que a Democracia Corinthiana chegasse ao fim. Tentaram voltar com o movimento no fim dos anos 1980, mas o mesmo não tinha a força de outrora. Além disso, o futebol estava mudando. A FIFA (Federação Internacional de Futebol ou Federação Internacional de Futebol Associação), a UEFA (União das Federações Europeias de Futebol) e a Copa do Mundo de 1990 ditavam as regras (e ainda ditam, pelos menos a FIFA e a UEFA) do "novo futebol mundial". Vale citar também que Sócrates, um dos fundadores da Democracia Corinthiana e que na época já era um nome forte no futebol, saiu do Brasil para jogar no Fiorentina, principal clube de futebol da cidade italiana de Florença. Devido a tudo isso, as possibilidades de retomarem com a Democracia Corinthiana foram descartadas.
     Sócrates foi um jogador de futebol que usava sua fama e influência para defender abertamente as pautas políticas na qual acreditava. Entretanto, Sócrates foi praticamente uma exceção. Em livro autobiográfico, o futebolista criticou a postura apolítica da geração de Pelé no auge da Ditadura Civil-Militar Brasileira, nos anos 1960. Ainda em sua autobiografia, Sócrates disse que o futebol não poderia passar indiferente acerca do que acontecia no mundo, pois o país estava em "uma situação de guerra civil em busca da derrocada do regime que nos sufocava", diz trecho da autobiografia do jogador. O exemplo positivo citado por Sócrates em seu livro autobiográfico é João Saldanha (1917 - 1990), comunista convicto que treinava a seleção brasileira até 1969, quando deixou o comando técnico por conta de uma divergência com Emílio Médici (1905 - 1985), então Presidente da República. "Imaginem se no momento de sua derrubada seus comandados tivessem reagido e afrontado a decisão que veio de cima? Ou mesmo se um único atleta como Pelé houvesse se manifestado de forma clara contra todos os desmandos que atacavam a nossa juventude?", escreve Sócrates, indagando como teria sido se os jogadores se opusessem à ordem de Médici. Para quem não sabe, João Saldanha (também conhecido como João Sem Medo) era um comunista declarado no auge da ditadura. Os militares que estavam no poder achavam uma afronta uma pessoa de esquerda estar em um posto tão importante. Para piorar ainda mais a situação, João Saldanha não aceitou a interferência do governo militar em sua escalação, fato que resultou em sua demissão às vésperas da Copa do Mundo de 1970. Quem o substituiu foi Zagallo, recordista de títulos das Copas do Mundo em geral. "Ele (Médici) escala o ministério, eu convoco a seleção", respondeu Saldanha a uma pergunta de um repórter sobre o pedido de Médici, que assim como João Saldanha, era gremista, para convocar o atacante Dario, o Dadá Maravilha, que na época jogava no Atlético Mineiro. Duas semanas depois de ter dado esta resposta atrevida, João foi demitido da seleção e foi substituído por Zagallo.

Neymar comemora com a medalha de ouro na boca depois da vitória do Brasil sobre a Alemanha, nas Olimpíadas de 2016. Reparem no que está escrito na faixa: "100% Jesus". Imagem: Reprodução. 

     Se nos tempos em que Sócrates era jogador, já era difícil encontrar uma pessoa como ele, que não tinha medo de expor suas convicções políticas, hoje isso é algo ainda mais difícil. Nos últimos tempos, o jogador de futebol se tornou uma verdadeira celebridade. Ele empresta seu nome e imagem para marcas gigantes de roupas, calçados, cremes de beleza e automóveis por exemplo. Além disso, estes atletas recebem salários milionários de seus clubes. Por conta disso, falar abertamente de política, independente da visão ideológica que se tenha, se torna uma hipótese descartada. Isso porque política é um assunto delicado e isso pode causar polêmica, desagradando os patrocinadores e até mesmo o próprio clube. Por outro lado, se tem uma coisa que os jogadores de futebol não têm medo de esconder é a sua religiosidade. Eles oram diversos momentos dentro e fora de campo e agradecem a Deus caso obtenham vitória em uma partida. A quantidade de jogadores evangélicos (praticantes ou não) cresceu muito desde 2000 para cá. Entretanto, os futebolistas só manifestam a sua fé se a entidade na qual acreditam é o Deus do cristianismo. Pouco ou nada se vê de jogadores que atribuem a sua vitória dentro de campo a Alá, a Oxalá ou a Xangô por exemplo. Só vale agradecer publicamente a uma entidade superior se a mesma for uma figura central do cristianismo?

Conclusão

     Sócrates foi um jogador de futebol fenomenal que fez história, dentro e fora de campo. Ele usou sua influência para defender abertamente as pautas que ele considerava justas. Atualmente, poucos são os jogadores de futebol que se atrevem a fazer isso, pois os mesmos estão presos a inúmeros contratos publicitários e patrocinadores, que não querem ver suas marcas envolvidas em polêmicas. Com isso, muitos acabam escolhendo o silêncio. 

29/05/2018

O praticamente desaparecimento da malha ferroviária no Brasil

Trem de passageiros que liga Belo Horizonte (MG) a Vitória (ES). Imagem: VALE/Divulgação. 

     Pode não parecer, mas em um passado muito distante as ferrovias já foram predominantes no Brasil. Elas eram o símbolo da modernidade e marcaram uma época. Esta época é o período imperial brasileiro, mais precisamente o Segundo Reinado (1840 - 1889). Porém, vários presidentes da República que o Brasil teve ao longo de sua história republicana priorizaram as rodovias em detrimento das ferrovias e o resultado é um país com dimensões continentais dependendo quase que praticamente do transporte rodoviário.

D. Pedro II (1825 - 1891) foi o segundo e último imperador do Brasil. Seu reinado durou quase uma década. Imagem: Mathew Brady, 1876. 

     O contexto histórico em que as ferrovias surgiram é o período imperial brasileiro (1822 - 1889), mais precisamente o Segundo Reinado (1840 - 1889). D. Pedro II (1825 - 1891) foi o segundo e último imperador do Brasil. Seu governo foi marcado pela grande modernização ocorrida no país. A fotografia chegou com força nesse período, a liberdade de imprensa concedida pelo imperador permitiu a veiculação de diversos jornais sobre vários temas, o telégrafo passou a ser usado, o saneamento básico passou a funcionar em parte do país e surgiram também as ferrovias. Estes foram alguns dos muitos feitos ocorridos durante o período em que D. Pedro II era imperador do Brasil, mas vamos nos ater a última: as ferrovias. As mesmas surgiram em um momento onde o café era o produto mais lucrativo do momento. Muitas famílias fizeram fortuna graças ao café. Foi neste período também que o Brasil passava por um profundo processo de industrialização, cuja figura central, da qual não pode ser esquecida, é o Barão de Mauá (1813 - 1889).
     A primeira ferrovia foi inaugurada no Brasil em 1854, ligando o porto de Mauá, na Baía de Guanabara, à Serra da Estrela, cuja finalidade era chegar a Petrópolis e ao Vale do Paraíba. Esta foi uma das iniciativas de Barão de Mauá. O objetivo da construção de ferrovias era agilizar o escoamento da produção de café, diminuindo o tempo entre o local onde o café era plantado e os pontos onde a mercadoria era exportada. As ferrovias eram uma das condições gerais de produção necessárias para o crescimento da economia brasileira. Em 1864, foi inaugurada a ferrovia Pedro II, depois chamada de Central do Brasil, que pretendia ligar o Rio de Janeiro a São Paulo, através do Vale do Paraíba. O maior número de ferrovias construídas no país foi no estado de São Paulo, por conta da expansão da lavoura cafeeira em direção ao Oeste Paulista. A primeira ferrovia paulista foi a Santos-Jundiaí, também conhecida como São Paulo Railway, inaugurada em 1867. A partir de 1870, outras ferrovias surgiram em São Paulo, como a Paulista, a Mogiana e a Sorocabana, sendo boa parte delas financiada pelos grandes fazendeiros de café. As ferrovias impactaram não somente a economia, mas também mudaram paisagens, arquiteturas e diminuíram o tempo de viagens. Não havia nada mais moderno.

Juscelino Kubitschek (1902 - 1976) foi presidente do Brasil entre 1956 e 1961. Seu governo foi marcado por um acelerado processo de industrialização e modernização do Brasil, além da construção de Brasília. Imagem: Reprodução. 

     O império chegou ao fim no Brasil em 1889 por meio do golpe militar republicano. O transporte ferroviário ainda era bastante usado neste período, mas gradativamente os sucessivos presidente do país foram substituindo o transporte em questão pelo rodoviário. Isso aconteceu em parte porque o trem não mais era visto como o símbolo da modernidade, mas sim os automóveis e como carro não anda em trilhos, foi necessário construir rodovias. Washington Luís (1869 - 1957), foi o presidente do Brasil entre 1926 e 1930. Washington era rodoviarista e alguns historiadores atribuem a ele a seguinte frase: "governar é abrir estradas". O então Presidente da República priorizou a construção de rodovias para o transporte de passageiros. Em 1930, Getúlio Vargas (1882 - 1954) assume a Presidência da República, permanecendo na mesma até 1945. Ele voltaria em 1950, governando o Brasil durante quatro anos, findando seu mandato ao se suicidar. Quando Vargas se tornou presidente pela primeira vez, o Brasil era um país fortemente agrário. As indústrias existiam, mas o que predominava era a economia agrária. Vargas procurou acelerar a industrialização do Brasil com a finalidade para que o país não dependesse somente da economia agrária.  Foi neste contexto que várias rodovias foram construídas. Em 1956, Juscelino Kubitschek (1902 - 1976) é eleito Presidente da República. Seu governo foi marcado pelo acelerado processo de industrialização do Brasil. Neste contexto, houve a construção massiva de rodovias e a indústria automobilística foi bastante beneficiada neste período. As empreiteiras também fizeram a festa no governo JK. Já durante a Ditadura Civil-Militar Brasileira (1964 - 1985), o transporte rodoviário continuou sendo o preferencial e o ferroviário foi deixado de lado. O número de pessoas que trabalhavam na área foi cortado e ficou somente os ramais mais lucrativos para o transporte de cargas.
     Na década de 1990, o transporte de passageiros por meio de ferrovias era algo raro. Atualmente, só há apenas três linhas de trem de longa distância que transportam passageiros. Duas são administradas pela mineradora Vale: uma liga Belo Horizonte (MG) à Vitória (ES), com 664 quilômetros, e a outra, a São Luís (MA) a Parauapebas (PA), com 870 quilômetros. O transporte de passageiros nestas linhas é uma obrigação assumida pela mineradora em um contrato de concessão assinado com o governo no ano de 1997. Há também uma outra linha que liga Curitiba (PR) a Paranaguá (PR), com 110 quilômetros, também concedida a uma empresa privada. Vale citar também as 24 linhas turísticas e comemorativas. Elas são em grande maioria de curta distância e são preservadas por conta de seu valor histórico, não operando diariamente. A linha que liga São João Del Rey (MG) a Tiradantes (MG), por exemplo, tem 12 quilômetros e funciona de sexta a domingo.

Estação ferroviária em Americana, interior de São Paulo, em 1916. Imagem: Reprodução/Estações ferroviárias do Brasil. 

     O transporte ferroviário praticamente desapareceu no Brasil e o pouco que sobrou dele é voltado para o transporte de cargas, mais vantajoso do ponto de vista econômico. Transportar pessoas em ferrovias não é vantajoso do ponto de vista econômico, embora seja possível transportar um grande número de pessoas pelas mesmas. Administrar uma ferrovia não é uma tarefa barata, além de ser um investimento a médio e longo prazo; ao contrário das rodovias, que são fáceis e baratas de construir, além de apresentarem um retorno imediato. É por causa disso que em muitos países do mundo, onde o governante pensa  no bem estar dos cidadãos, as ferrovias recebem um subsídio do Estado para serem administradas. Isso porque o transporte ferroviário é seguro, eficiente, não depende de gasolina e se o mesmo for elétrio, ele não polui o Meio Ambiente.

Conclusão

     Um país com dimensões continentais como o Brasil não pode depender somente do transporte rodoviário (praticamente nenhum país do mundo faz isso). Muito pelo contrário. Os transportes ferroviário, hidroviário e rodoviário deveriam  ser tratados de forma igual. Entretanto, historicamente as rodovias recebem tratamento preferencial de inúmeros governantes. E o resultado é um país com rodovias por todos os lados. Foi por essas e outras que um grupo de caminhoneiros conseguiu parar o país. 

24/05/2018

O modo peculiar como James Franco olha para sua sexualidade

James Franco (à esquerda) e Sean Penn em cena do filme Milk: A Voz da Igualdade (2008). Se tem uma coisa que James Franco gosta de fazer é personagens homossexuais. Imagem: Reprodução. 

     James Franco é um ator norte-americano muito talentoso, respeitado e premiado também. Construiu (e ainda está construindo) uma carreira de sucesso na dramaturgia. No meio de tantos papéis que James interpretou ao longo de sua carreira, há um fato que chama a atenção: a quantidade notória de personagens homossexuais que James já interpretou.

James Franco como Aron Ralston em 127 Horas (2010). O filme, baseado em uma história real, teve seis indicações  ao Oscar, três indicações ao Globo de Ouro e oito indicações ao BAFTA. Imagem: Reprodução.

     James Franco é um ator que nasceu na Califórnia (EUA) e que já chegou nos "enta" (ele completou 40 anos de vida em abril). James já interpretou dezenas de papéis na televisão e também nos cinemas, com destaque para a trilogia de filmes do Homem-Aranha, o filme biográfico James Dean (2001), onde Franco deu vida ao protagonista; O Amor não Tira Férias (2006), Ligeiramente Grávidos (2007), Comer, Rezar, Amar (2010) e 127 Horas (2010). O último conta a história  real de Aron Ralston, um alpinista que fica preso em uma pedra quando a mesma cai. O filme é dramático e mostra todo o sofrimento de Aron ao tentar sair daquela situação. O filme recebeu inúmeras indicações ao Oscar, ao Globo de Ouro e ao BAFTA, apenas para citar alguns. James Franco também foi indicado em diversas premiações por conta deste filme. Aliás, James também tem inúmeros prêmios e indicações ao longo da carreira. Em 2011, ele foi indicado ao Oscar por sua atuação em 127 Horas. Além disso, o ator ganhou um Globo de Ouro em 2002 na categoria Melhor ator em minissérie ou filme por sua atuação como James Dean (1931 - 1955) e no ano de 2018, James ganhou outro Globo de Ouro na categoria Melhor ator em comédia ou musical por sua atuação em Artista do Desastre (2017). Além de bons papéis, boas atuações e inúmeros prêmios e indicações, há outro fato que chama a atenção no vasto currículo de James Franco: a quantidade de homossexuais que James já interpretou.

James Franco e Zachary Quinto se beijam em cena de Eu Sou Michael (2015). Imagem: Reprodução. 

     James Franco já atuou em diversos filmes onde interpretou um homossexual ou que abordam a questão LGBT. Milk: A Voz da Igualdade (2008), Uivo (2010), The Broken Tower (2011), Interior. Leather Bar (2013), Eu Sou Michael (2015) e King Cobra (2016) são os filmes de temática LGBT onde James atuou. Cada um dos filmes aborda a questão LGBT sob diferentes olhares e épocas. Milk: A Voz da Igualdade (2008), conta a história de Harvey Milk (Sean Penn) e Scott Smith (James Franco), um casal gay que está disposto a fazer algo em prol da comunidade LGBT. Já o filme Uivo (2010) conta a história de Allen Gisberg, homem que lança o livro de poesias mais vendido da história nos EUA. Porém, na época em que o livro foi lançado, o mesmo foi visto como obsceno pela sociedade. O filme The Broken Tower (2011) tem uma história semelhante. O longa conta a história de Hart Crane, um poeta que abre seu coração para a homossexualidade e passa a escrever poesias sobre o assunto. Porém, o escritor acaba sucumbindo por conta das pressões sociais e por causa da instabilidade de suas emoções. Já o Interior. Leather Bar (2013) reinventa as supostas cenas explícitas de sexo excluídas do filme Parceiros da Noite (1980). Em Eu Sou Michael (2015), a história é de um homossexual que deixa de se envolver com homens ao se converter ao cristianismo. E, por fim, King Cobra (2016) é sobre o real assassinato de Bryan Kocis, que lucrou milhões com a pornografia gay ao colocar jovens garotos em cena. Vale citar também a versão bem humorada que James e Seth Rogen fizeram do clipe Bound 2, de Kanye West, com direito a beijo na boca e tudo. O vídeo pode ser visto aqui. Tem também quando James Franco beijou na boca dois atores diferentes no programa Saturday Night Live. O registro deste momento pode ser visto aqui e também aqui. Além disso, James já postou em sua conta no Instagram uma foto onde aparece beijando outro homem.

James Franco e Seth Rogen em Bound 3. O clipe é marcado pelo bom humor e também pelo beijo protagonizado pelos atores. Imagem: Reprodução. 

     Em parte, o fato de James Franco ter tantos personagens homossexuais no currículo se explica pelo fato dele ser defensor da causa LGBT, conhecendo o que é a homofobia desde criança, já que sofria bullying por parte dos "machões" pelo fato de ser considerado "mariquinha" pelos mesmos. Entretanto, um outro fato, muito mais complexo, explica o porque de James Franco ter interpretado tantos personagens gays ao longo de sua longa trajetória na dramaturgia. Volta e meia aparece na mídia notícias questionando a sexualidade de Franco. Isso porque James Franco tem 40 anos de vida, não é feio, é um ator famoso e reconhecido, já foi indicado a muitos prêmios e ganhou alguns e também é rico. Estes são os supostos requisitos para que um homem encontre e se case com uma mulher. Porém, James tem tudo isso e não é casado e nem tem filhos. Daí, os questionamentos sobre a sexualidade do ator em questão. James Franco diz que é gay, mas até a hora da penetração. Ou seja: James é homossexual na vida, mas na hora do sexo, ele é heterossexual, uma vez que prefere ter relações com mulheres. O ator já disse também que é gay na arte e hétero na vida, mas ressaltando que a sua homossexualidade no cotidiano vai somente até a cama. Daí em diante, quem assume o comando é a versão hétero de James. O premiado ator disse também que classificá-lo como homossexual ou heterossexual depende do modo como a pessoa entende o que é ser gay e o que é ser hétero. Se a definição que a pessoa  tem de ser hétero ou homossexual é com quem se vai para cama, logo James é hétero, já que ele só transa com mulheres. Entretanto, segundo James, nos anos 1920 e 1930, a classificação de gay ou hétero era feita com base no comportamento da pessoa e não com quem se transava. O ator disse também que marinheiros transavam com outros homens o tempo todo, mas eles tinham um comportamento viril e por conta disso não eram considerados gays. Lembrando que James Franco disse certa feita que um dos arrependimentos que leva consigo é o fato de não ser homossexual.
     Como já foi dito no parágrafo acima, a mídia com frequência especula acerca da sexualidade de James Franco e o ator disse que isso funciona como uma espécie de cortina, ajudando a manter no animato os eventuais casos amorosos que venha ter. James já teve várias namoradas ao longo da vida, com destaque para Marla Sokoloff, com quem atuou no filme Correndo Atrás (2000). Os atores permaneceram juntos de 1999 a 2004. Além disso, James já se envolveu em algumas polêmicas por conta de seus casos. Neste ano, voltou à tona uma história onde James flerta com uma adolescente de 17 anos, chegando a convidá-la para ir a um hotel. A polêmica foi grande e James se manifestou sobre o caso. O ator falou em sua conta no Twitter e também em programas de televisão que não sabia que a jovem flertada era uma adolescente. Isso aconteceu em 2014. Tal polêmica voltou à tona em um contexto onde James Franco foi acusado de assediar sexualmente pelo menos cinco mulheres. A polêmica foi tão grande que o ator foi excluído digitalmente da capa da revista Vanity Fair  e ignorado em eventos como o Oscar. James nega as acusações e afirma que não há clareza nas mesmas. É importante lembrar que, embora seja contraditório, é perfeitamente possível um homem ser homossexual e também machista. Denúncias de machismo aparecem com frequência na comunidade LGBT. A existência do homossexual por si só coloca em jogo a regra heteronormativa da sociedade, mas isso não significa necessariamente que o homossexual levanta a bandeira do feminismo. Isso porque o homem gay, embora sinta atração por outros homens, foi criado em uma sociedade machista e vive usufruindo de seus privilégios de macho. Se isso não for desconstruído, a tendência é o gay ser machista, algo muito mais comum do que se imagina.

Conclusão

     Classificar James Franco como hétero ou homossexual vai depender do modo como você entende a homossexualidade e a heterossexualidade. James tem um olhar próprio acerca de sua sexualidade e convive bem com isso. Para quem não entende, fica difícil de entender, mas para o ator tudo funciona na mais perfeita  normalidade. Por uma questão de moralismo e também por falta de informação, tudo foi simplificado entre a homossexualidade e a heterossexualidade. Porém, entre o preto e o branco há uma gama infinita de tons. 
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