17/08/2017

A narrativa dominante contada na grande mídia

Imagem: Reprodução.

     A História não é fechada, pelo contrário. Ela pode ser contada sob as mais diversas perspectivas, além de nunca se fechar. Entretanto, o que chama atenção é que séries e novelas históricas produzidos pelas emissoras de televisão contam a história a partir da ótica dos vencedores.
     Ao contrário do que alguns podem supor, a História não é um campo fechado que pode ser olhado apenas sob uma única perspectiva. Muito pelo contrário. Para começo de conversa, a História NUNCA se fecha. Os acontecimentos nacionais e internacionais da atualidade com certeza serão estudados no futuro. Além disso, há as leituras e também as releituras da História, cuja finalidade é rever o passado. A História pode e é lida de várias formas e as concepções político-ideológicas de uma pessoa e até mesmo a sua religião vão interferir no modo como o sujeito interpreta a História. Entretanto, as maiores emissoras de televisão do país contam a História a partir da ótica dos vencedores, praticamente ignorando os sujeitos historicamente silenciados como negros, mulheres e pobres por exemplo. 

Joaquim (Chay Suede) em cena da novela Novo Mundo (2017). Imagem: João Miguel Júnior/TV Globo. 

     Após quase morrer e aparecer boiando em uma praia, Joaquim (Chay Suede), um homem branco, é levado pelos índios para uma aldeia na novela Novo Mundo (2017), atual folhetim das seis da TV Globo. Após se recuperar, Joaquim se torna o líder indígena da tribo que o acolheu, conseguindo findar conflitos entre as tribos indígenas e servindo de intermediário em um conflito que envolveu os índios e o imperador D. Pedro I (Caio Castro). Este fato passou a ideia de que os índios são incapazes de se organizar e resolver seus problemas, precisando sempre de uma pessoa branca para tal. Vale ressaltar que o homem branco é associado à civilidade, educação, progresso e inteligência. Coisa semelhante acontece com os negros. Sempre que a escravidão é retratada na televisão, o protagonista é quase sempre o branco indignado com os horrores do regime escravista e que decide lutar pela abolição da escravatura. Os negros que lutam das mais diversas formas pelo fim da escravidão até estão presentes, mas eles quase sempre são os coadjuvantes. Os protagonistas mesmo são os brancos. Os romances A Escrava Isaura (1875) (já falei sobre isso aqui) e Sinhá Moça (1950), que já foram adaptados para a televisão, podem ser usados como exemplo. 

Logotipo de Liberdade, Liberdade (2016), exibida no horário das onde pela TV Globo. Imagem: Reprodução. 

     Liberdade, Liberdade, é uma telenovela produzida pela Rede Globo de Televisão. A "novela das onze", que entrou para a história da dramaturgia brasileira ao mostrar a primeira cena de sexo entre dois homens (assista aqui), tem por protagonista a jovem Joaquina (Andreia Horta), filha de Tiradentes e Antônia. É importante lembrar que o personagem interpretado por Andreia Horta na trama é fictício. Joaquina fica órfã e é levada por Raposo (Dalton Vigh) para Portugal, onde passa a se chamar Rosa. Voltando ao Brasil, Joaquina/Rosa encontra a então colônia de Portugal em um grande momento de efervescência política por conta dos desdobramentos da Inconfidência Mineira e de outros movimentos que resultaram na independência do país. Joaquina/Rosa se envolve em tais acontecimentos e acaba virando o símbolo da luta contra a Coroa Portuguesa. 
     Como vocês leram no parágrafo anterior, a Inconfidência Mineira virou até tema de minissérie da principal emissora de TV do país. Este acontecimento político-histórico é um dos episódios mais conhecidos da historia do Brasil. Há feriado para lembrar esta data e lugares públicos Brasil afora que são chamados de Tiradentes, que por sinal é considerado um herói nacional. O lema em latim "LIBERTAS QUÆ SERA TAMEN", que pode ser encontrado na bandeira do estado de Minas Gerais, teria sido cunhado pelo inconfidente Alvarenga Peixoto a partir de um verso das Bucólicas (1.27) do poeta latino Virgílio. A Inconfidência Mineira foi um movimento que ocorreu no Brasil em fins do século XVIII, cujas pautas reivindicadas eram a independência do país, a construção de uma universidade em Vila Rica (MG), a criação de uma casa da moeda e o desenvolvimento industrial, o que até então era proibido no Brasil-Colônia. Não havia consenso com relação ao fim do regime escravista, uma vez que muitos dos inconfidentes tinham escravos. Os revoltosos tinham o seguinte perfil: eram em sua maioria homens ricos que exerciam (não todos) cargos públicos. Alguns dos inconfidentes tinham ido para a Europa estudar e de lá trouxeram os ideais do Iluminismo e da Revolução Francesa (1789). Havia também religiosos e militares, como Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, símbolo máximo da Inconfidência Mineira. 
      A Inconfidência Mineira ocorreu em 1789 e não foi o único movimento a pedir a independência, o que aconteceria em 1822. No ano de 1798 ocorreu na cidade de Salvador (Bahia) a Conjuração Baiana. Os protagonistas deste movimento eram negros e pessoas das camadas mais pobres da sociedade que defendiam o fim da escravidão, a independência  e a criação de uma república, que só aconteceria em 1889. A Conjuração Baiana também é conhecida como Revolta dos Alfaiates, uma vez que parte dos manifestantes exerciam esta profissão. Mesmo ocorrendo no mesmo período em que houve a Inconfidência Mineira, a Conjuração Baiana não é tão conhecida pela maioria da população. Por que a Conjuração Baiana não é tão conhecida? Por que um movimento organizado por humildes e escravos que defendiam o fim da escravidão não é tão lembrando quanto a Inconfidência Mineira? Cadê os filmes e minisséries na grande mídia sobre a Revolta dos Alfaiates? Cadê feriado da Conjuração Baiana? Fica a reflexão. 

Logotipo da minissérie A Casa das Sete Mulheres (2003). Imagem: Reprodução. 

     Inspirada em livro homônimo da gaúcha Letícia Wierzchowski, a série A Casa das Sete Mulheres foi escrita por Maria Adelaide Amaral e Walter Negrão, tendo a colaboração de Lucio Manfredi e Vincent Villari. Foi exibida pela TV Globo entre os meses de janeiro e abril de 2003. Misturando ficção e realidade, bem como personagens reais e fictícios, a minissérie em questão conta os dramas e perspectivas de sete mulheres da família de Bento Gonçalves (1788-1847), líder da Revolução Farroupilha. Com personalidades diferentes, as sete mulheres se envolvem diretamente em episódios do movimento da qual Bento Gonçalves é o líder. 
     A Revolução Farroupilha (1835-1845) ocorreu no Rio Grande do Sul em um momento que o Brasil enfrentava uma série de movimentos que ameaçavam a fragmentação do extenso território brasileiro. D. Pedro I (1798-1834) havia renunciado ao Império do Brasil para ir para Portugal a fim de restituir o trono da filha D. Maria da Glória (1819-1853), que havia sido usurpado pelo tio D. Miguel (1802-1866). D. Pedro II (1825-1891), que chegaria ao trono por meio do famoso golpe da maioridade, era criança e por conta disso não podia ser coroado imperador. Foi um período em que o Brasil foi governado por regentes, cuja História denominou de Período Regencial (1831-1840). Foi um momento em que houve revoltas separatistas em todo o Brasil e a Revolução Farroupilha foi uma delas, não a única. Ela só é a mais conhecida. Aliás, é no mínimo curioso o fato de um movimento organizado por estancieiros, que não tinha um caráter popular e que não havia consenso com relação ao fim do regime escravista ser tão conhecido. Acho que o fato de ser um movimento organizado pela elite explica alguma coisa.
     A Cabanagem (1834-1840), a Balaiada (1838-1841), a Sabinada (1837-1838) e a Revolta dos Malês (1835) ocorreram no mesmo período em que houve a Revolução Farroupilha, mas por que só o movimento organizando pelos estancieiros gaúchos é o mais conhecido? O fato de terem sido movimentos protagonizados por pobres, índios, negros escravizados, negros libertos e quilombolas que exigiam o fim da escravidão, a redistribuição de terras, a proclamação da república e um governo de fato popular explica muita coisa.

Conclusão

     As grandes emissoras de televisão são de propriedade de uma elite e estão a serviço deste mesmo grupo. Logo, a História contada por tais emissoras é a história dos vencedores, cuja elite faz parte. Desta forma, não é interessante para este grupo contar uma história onde os protagonistas são negros, índios e pobres. Isso porque a dominação também é praticada por meio da educação.

15/08/2017

A falta de representatividade nos sindicatos

Imagem: Reprodução.

     A formação dos sindicatos remonta à Europa do século XVIII. No Brasil, o movimento sindical chegou entre fins do século XIX e começo do século XX, se consolidando neste mesmo século. Com o tempo, o sindicalismo no Brasil perdeu seu foco, levando muitas pessoas a desacreditarem no mesmo.
     Segundo o Wikipédia, "o sindicalismo tem origem nas corporações de ofício na Europa medieval. No século XVIII, durante a Revolução Industrial na Inglaterra, os trabalhadores, oriundos das indústrias têxteis, doentes e desempregados juntavam-se nas sociedades de socorro mútuos.". Ainda de acordo com o Wikipédia, o sindicalismo chegou no Brasil por meio de imigrantes europeus que estavam acostumados a receber um salário mínimo e a serem protegidos por uma legislação trabalhista, coisas que até então não existiam no Brasil. Por conta disso, estas pessoas passaram a se organizar no que mais tarde seriam os sindicatos. O movimento sindical brasileiro se consolidou no século XX e foi ligado a correntes político-ideológicas como o marxismo, o socialismo, o anarquismo e o anarcossindicalismo.

Milhares de pessoas reunidas para a celebradão do dia 1º de maio, no ano de 1943, que ocorreu no estádio de São Januário (RJ). Repare no grande retrato do então presidente Getúlio Vargas. Imagem: Reprodução. 

     No ano de 1930, Getúlio Vargas (1882-1934) chega ao poder, se tornando presidente do país. No ano de 1937, implanta a ditadura do Estado Novo, um dos tantos golpes que marcam a história da república brasileira. Vargas é uma figura complexa da história do país e que tentou agradar ao mesmo tempo os mais diversos setores da sociedade, como por exemplo os pobres e os ricos. Ainda nessa época, movimentos populares que seguiam diversas ideologias de esquerda se rebelavam com frequência contra o governo e as péssimas condições de trabalho da classe trabalhadora. Com a intenção de trazer este setor da sociedade para si, Vargas atendeu a algumas das reivindicações dos manifestantes e criou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que até hoje rege as leis trabalhistas no Brasil e que está seriamente ameaçada com a aprovação da Reforma Trabalhista. Atender as reivindicações dos trabalhadores não era suficiente: era preciso findar ou pelo menos controlar as manifestações contrárias ao governo. É neste contexto que surge o imposto sindical.
     O objetivo do imposto sindical era simples: dotar os sindicatos, as federações e as confederações de "empregados e empregadores" de fartos recursos orçamentários. Não só para garantir a manutenção interna, mas também para atrair muitos associados pela prestação de serviços básicos que não eram oferecidos pelo Estado, como por exemplo assistência jurídica e lazer. Uma vez que os sindicatos eram órgãos de colaboração do Estado, sendo por ele tutelados, houve fácil acordo para lhes garantir o "direito" de receber "contribuições", desde que controladas em sua gestão. Na prática, todo trabalhador, mesmo que não fosse membro de nenhum sindicato, era obrigado a contribuir para o mesmo. Além disso, o controle dos sindicatos por parte do Estado fez  com que a disputa por recursos/serviços oferecidos fosse cada vez maior, sem falar na competição política pelos cargos de direção, que se tornavam cada vez  mais atraentes.
   Além disso, o imposto sindical se tornou o principal responsável por um processo de burocratização dos sindicatos e também por seu forte assistencialismo, ainda que se reconheça o valor de tais serviços, em termos materiais e simbólicos. Alguns efeitos desta cobrança se tornaram bem conhecidos. Entre eles, o fortalecimento e perpetuação de líderes de sindicatos, durante décadas no controle das associações, passeando com desenvoltura pela burocracia dos governos de estados e da União. Mais do que interlocutores no debate de projetos que afetam os interesses de seus representados, essas figuras criaram evidentes oligarquias nos cargos de direção dos sindicatos de trabalhadores. São os chamados "pelegos": dirigentes que se aproveitam dos recursos que têm acesso para benefícios pessoais. Na liderança de federações e confederações, mostrando um estilo conciliador e pouco combativo, aliado a um modo de vida incompatível com o perfil de sua função, os pelegos se tornaram figuras lamentáveis e até comuns da política brasileira.

Bandeira da Central Única dos Trabalhadores (CUT) estendida durante manifestação. Imagem: Reprodução. 

     Outra consequência da contribuição sindical foi a multiplicação dos "sindicatos de carimbo", associações que se formam com a clara intenção de ter acesso aos recursos do imposto ou da "contribuição" sindical. A proliferação desse tipo de sindicato, junto da figura do pelego, só é compreensível se entendermos que a fiscalização do uso dos recursos do imposto, prevista na CLT, na prática nunca existiu ou nunca foi rigorosa. Este fato deu espaço para escândalos sucessivos e não esclarecidos ao longo da história.
     O fato de os sindicatos perderem o seu significado ao longo do tempo fez com que muita gente não se sentisse representada pelos mesmos. Esta situação chegou ao ápice nas manifestações de Junho de 2013 e em seus respectivos desdobramentos. Pedindo inicialmente a redução das tarifas do transporte público, estas manifestações trouxeram uma aguda crise de representatividade (crise esta que por sua vez se estende até os dias atuais) que atingiu governos municipais, estaduais, federais e sindicatos por exemplo. No Carnaval de 2014, garis da cidade do Rio de Janeiro paralisaram suas atividades durante os dias de folia a fim de lutarem por suas reivindicações. Tal ato foi realizado sem os sindicatos (que por sinal reprovou a greve) porque os garis que se manifestaram não se sentiam representados pelos mesmos. Após reunião com a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, os garis tiveram as suas reivindicações atendidas.

Foto de garis durante manifestação na cidade do Rio de Janeiro em 2014. Imagem: Mídia Ninja. 

     Outro fato que mostra que muitos trabalhadores não se sentem representados pelos sindicatos é a aprovação por parte deles do fim do imposto sindical, um dos pontos da Reforma Trabalhista, prevista para entrar em vigor ainda em 2017. A aprovação desta reforma não tem o apoio da maioria da sociedade. Entretanto, o fim da contribuição sindical foi aprovado pela maioria dos trabalhadores e o argumento é o mesmo: muitos não se sentem representados pelos sindicatos.

Conclusão

     A finalidade do sindicato é ser um instrumento da revolução proletária. Entretanto, mais especificamente no caso do Brasil, a partir do momento em que o Estado passou a controlar a atuação sindical, os sindicatos perderam o seu foco combativo para ser um mero conciliador entre patrão e empregado. Este fato fez com que os sindicatos perdessem sua popularidade diante dos trabalhadores. 

03/08/2017

O trabalho de base e a sua importância

Registro de uma greve geral ocorrida no Brasil no ano de 1917. A corrente anarquista foi a grande inspiração deste movimento. Imagem: Reprodução. 

"A luta popular não é um evento que nasce grande. Evento que não se torna fato político é vento. A luta que nasce monstra tende a morrer, assim como a luta que não cresce tende a desaparecer. A luta, como uma fonte de água, precisa virar riacho, tornar-se rio e chegar ao mar. A experiência local deve irradiar-se e alcançar a dimensão nacional e até internacional. Por isso, a luta popular que tem como horizonte a transformação prioriza a parte, como ponto de partida, porque seu objetivo é a inclusão do todo, como ponto de chegada." PELOSO, Ramulfo (org.). Trabalho de base

     Antes de falar em trabalho de base, é preciso dizer primeiramente o que é Educação Popular. Segundo o livro Trabalho de base, organizado por Ramulfo Peloso, cuja citação abre este texto, "Educação Popular é o esforço de mobilização, organização e capacitação das classes populares para o exercício do poder". Esta visão de formação escolhe por um dos lados da luta de classe, escolhe por quem se dispõe a um processo de transformar pela raiz a estrutura da sociedade capitalista. A Educação Popular contribui "na divulgação e recriação do conhecimento; na construção e implantação da estratégia de uma organização popular; na qualificação de militantes para a luta de classes; na elevação do nível de consciência da classe oprimida e na incorporação do povo como protagonista; na tradução das ideias e na aplicação da metodologia popular, com o compromisso da multiplicação criativa" (TRABALHO DE BASE, 2012: p. 9). 
    Ainda segundo o livro Trabalho de base, o "trabalho de base é parte indispensável da luta popular. O trabalho de base é a condição e o sustento do trabalho político e do trabalho de massa; o trabalho político e o trabalho de massa devem ser a expressão e a consequência do trabalho de base. O trabalho de base é a ação política transformadora, realizada por militantes de uma organização popular, que mete o corpo em uma realidade concreta, para despertar, organizar o povo na solução de problemas do cotidiano e ligar essa luta à luta geral contra a opressão. 
     O trabalho de base só pode ser feito por militantes. Militante é alguém nascido do povo, que coloca sua vida a serviço desse povo e une seu projeto de vida pessoal ao projeto da luta coletiva. Militante tem causa, projeto, estratégia, método e participa de uma organização. Militante não se elege; se reconhece pela sua entrega, disposição e preparo. Essa primazia não é o resultado de seus desejos, mas da confiança das pessoas em sua inteligência, energia e devotamento". (TRABALHO DE BASE, 2012: p. 10)

O trabalho de base foi um instrumento essencial que fez o Partido dos Trabalhadores (PT) ser o maior partido de esquerda da América Latina. Imagem: Reprodução. 

      Ao longo da história, o trabalho de base foi essencial para a esquerda mundo afora. Foi por meio do trabalho de base que a esquerda obteve popularidade e vitórias importantes. Além disso, foi através do trabalho de base que o Partido dos Trabalhadores (PT) se tornou o maior e mais importante partido de esquerda da América Latina. Independente do rumo que o PT tomou ao longo dos anos, o fato é que foi graças ao trabalho de base que o partido em questão chegou onde chegou. E é graças ao trabalho de base que o PT ainda é um partido bastante popular, em especial entre os mais pobres. O que comprova isso é a popularidade de Lula, considerado um dos presidentes mais populares desde Getúlio Vargas (1882-1954) e que aparece na liderança das pesquisas de intenções de voto para Presidente da República. A grande mídia tem consciência deste fato e é justamente por isso que Lula é constantemente massacrado pela mídia golpista. 

Marcelo Crivella (PRB, à esquerda) e Marcelo Freixo (PSOL, à direita). Ambos candidatos disputaram a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. A vitória ficou com o primeiro. Imagem: Reprodução. 

     Entretanto, nos últimos tempos o PT e a grande maioria dos partidos de esquerda brasileiros têm abandonado o trabalho de base e focando somente na política institucional, gastando tempo e energia em campanhas eleitoras. A política institucional é importante e em algum momento será preciso recorrer a ela. Porém, focar apenas a política institucional não é o caminho para o povo chegar ao poder. Além disso, os partidos de esquerda brasileiros nos últimos anos atuam basicamente na universidade. Seus militantes são universitários, que estão presentes nos Centros Acadêmicos realizando debates e saraus por exemplo. Além das universidades, outro campo de atuação da esquerda no Brasil é basicamente os bairros nobres do país. As favelas, periferias e áreas pobres de maneira geral são praticamente ignorados pela esquerda brasileira na atualidade. Estas mesmas áreas têm sido o campo de atuação das igrejas pentecostais e neo-pentecostais. Eles estão fazendo um trabalho que a esquerda deixou de fazer. É fato que o projeto político-ideológico deles é diferente do da esquerda, mas eles estão lá. Nas eleições de 2016, Marcelo Freixo (PSOL) e Marcelo Crivella (PRB) foram para o segundo turno a fim de disputar a Prefeitura do Rio. Me recordo que mal saiu o resultado de que os então dois candidatos em questão estariam no segundo turno, uma série de coisas absurdas e sem fundamento sobre o Freixo foram ditas aos "quatro ventos". Diziam que Marcelo Freixo iria liberar as drogas, o aborto, iria soltar todos os bandidos que estivessem presos, iria forçar as crianças a mudarem de sexo, iria transformar a cidade do Rio em uma nova Cuba e por aí vai. Sendo que, é importante frisar, Freixo estava se candidatando a Prefeitura da cidade do Rio e tais ações aqui citadas não podem ser realizadas por um prefeito. As responsabilidades de um prefeito são: cuidar do saneamento básico, cuidar das escolas municipais, dos hospitais municipais e do transporte municipal. Uma das razões que contribuíram para a derrota de Freixo foi o afastamento da esquerda das massas e a forte presença das igrejas evangélicas nas periferias, que foi fundamental para a vitória de Crivella. 
     Atualmente, a esquerda brasileira, além de atuar basicamente em universidades e bairros nobres, tem focado atos performáticos, que são showmícios, passeatas e manifestações por exemplo. A esquerda realiza atos de grande visibilidade, mas que não trazem nenhuma mudança política profunda. É como diz a citação que abre este texto: "A luta popular não é um evento que nasce grande. Evento que não se torna fato político é vento. A luta que nasce monstra tende a morrer (...)". Estes atos performáticos devem ser vistos como o fim, e não o começo de um longo processo. É preciso pensar o antes e o depois destes mesmos atos. Grandes manifestações por si só não são capazes de grandes efeitos. 

Conclusão

     O trabalho de base é uma ferramenta essencial e foi com este mesmo instrumento que movimentos populares mundo afora conquistaram vitórias importantes. Foi também graças ao trabalho de base que o PT se tornou no maior e mais importante partido de esquerda da América Latina. A esquerda brasileira deixou de usar esta ferramenta vital e agora está pagando o preço por isso. Se o desejo é uma mudança na estrutura social, é preciso começar junto daqueles que estão na base desta mesma estrutura: as massas. 

01/08/2017

Lima Barreto e Machado de Assis sob a perspectiva do racismo

Machado de Assis (à esquerda) e Lima Barreto (à direita). Imagem: Reprodução.

     Ambos são os maiores escritores do Brasil e viveram mais ou menos na mesma época. Pelo fato de Lima Barreto e Machado de Assis serem negros, o racismo refletiu na vida dos dois. O racismo tem muitas formas de ação e uma delas é o embranquecimento (na medida do possível) do negro. Quando este embranquecimento não é possível, a estratégia é o esquecimento.
     Vamos começar pelo mais velho. Machado de Assis nasceu no dia 21 de junho de 1839 e morreu no dia 29 de setembro de 1908. Nasceu um ano antes da coroação de D. Pedro II (que foi possível graças a um golpe da maioridade, levando Pedro II ao trono quando este tinha apenas 14 anos de idade). Por conta disso, Machado de Assis cresceu e amadureceu durante o reinado de D. Pedro II (1825-1891), que durou 49 anos. Quando faleceu, em 1908, um golpe militar republicano havia derrubado a monarquia no Brasil nove anos antes e a família imperial brasileira se encontrava em um exílio forçado. Morreu em 1908, quando o Brasil vivia os primeiros anos da experiência republicana. Morreu aos 69 anos de idade. Algumas das obras mais conhecidas de Machado são Helena (1876), Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Dom Casmurro (1899) e Esaú e Jacó (1904). Dom Casmurro, que foi adaptado pela Rede Globo em 2008 com o nome Capitu, em homenagem ao centenário da morte de Machado de Assis, talvez seja o romance mais conhecido de Machado. Nesta obra, o protagonista Bentinho é perseguido do começo ao fim do romance com a dúvida de que sua esposa Capitu o traía com o seu melhor amigo Escobar.

Bentinho (César Cardadeiro) e Capitu (Letícia Persilles) na versão jovens de seus respectivos personagens na minissérie Capitu (2008), uma minissérie produzida pela Rede Globo que foi inspirada no romance Dom Casmurro (1899). Imagem: TV Globo.


     Lima Barreto nasceu no dia 13 de maio de 1881 (a abolição da escravatura ocorreria nesse mesmo dia, em 1888) e morreu no dia 01 de novembro de 1922 (mesmo ano em que ocorreu a Semana de Arte Moderna). Foi um escritor que publicou romances, sátiras, contos, crônicas e uma grande obra em periódicos, em especial revistas populares e periódicos anarquistas do começo do século XX. É importante destacar que Lima Barreto publicou textos em alguns periódicos usando pseudônimos, fato que foi descoberto nos últimos anos. Assim como Machado de Assis, Lima Barreto também nasceu durante o reinado de D. Pedro II. A diferença é que Lima Barreto nasceu na última década desde mesmo reinado, quando o regime dava sinais cada vez mais constantes de seu fim. Lima Barreto também nasceu quando o regime escravista vivia seus últimos anos, findando em 1888. Além disso, o escritor viveu os primeiros anos da república no Brasil. Todo este cenário político-social influenciou as obras de Lima Barreto. A mãe do escritor em questão era professora primária e o pai era ligado ao Visconde de Ouro Preto (1836-1912), que seria padrinho do escritor, permitindo ao mesmo acesso a uma educação de qualidade. Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911) e Clara dos Anjos (1948), que foi publicado postumamente, são os romances mais conhecidos de Lima Barreto e leitura obrigatória em provas de vestibular. 
     Há um detalhe que faz toda a diferença (mas não deveria fazer) e que está presente em Machado de Assis e Lima Barreto: eles eram negros. Sim. Dois dos maiores escritores da literatura brasileira são negros. Por conta disso, o racismo se refletiu na vida de ambos de maneira diferente. Todo negro tem um caso de racismo para contar. Inteligência, fama, dinheiro e prestígio não são fatores que impeçam um negro de sofrer racismo em determinado momento de suas vidas. Alguns jogadores de futebol bastante populares já sofreram racismo, Taís Araújo já sofreu racismo e Cris Vianna, a cantora Ludmilla e Sheron Menezes também. Uma das formas de atuação do racismo é o embranquecimento do negro. Primeiro, o racismo tenta a todo instante invisibilizar o negro, mas ao não conseguir isso, passa a  branquear o mesmo. Foi o que houve com Machado de Assis. Ele era negro, mas em fotos e pinturas ele costumava ter a pele clareada. Não tem como negar a genialidade e o talento de Machado para a escrita. Partindo deste fato, Machado de Assis passou a ser clareado em pinturas e fotografias. Nilo Peçanha (1867-1924), Washington Luís (1869-1957) e Rodrigues Alves (1848-1919), ex-Presidentes da República, também eram negros e tinham suas peles clareadas em fotografias e pinturas. 

                         Elizabeth Taylor (1932-2011) em cena do clássico filme Cleópatra (1963), que quase levou a Fox à falência. Imagem: Reprodução. 


     O embranquecimento do negro é uma estratégia histórica e recorrente do racismo. Cantoras negras mundo afora, em especial as "divas popstar", têm a sua pele clareada e são vistas como morenas. A civilização egípcia é estudada há anos nos ensinos Fundamental e Médio. Entretanto, algo que me chamava a atenção era que em nenhum momento o Egito era associado à África. Era como se o Egito não fosse localizado nesse mesmo continente. Outra coisa que me chamava a atenção era que os egípcios, principalmente os faraós, eram colocados como brancos nos livros didáticos. Acredito que a popularização dessa ideia dos habitantes do Egito serem pessoas brancas se deve ao filme Cleópatra (1963). O filme narra a biografia da emblemática Cleópatra (69 a.C. - 30 a.C.), cujo papel no longa (põe longa nisso! O filme tem duração de 243 minutos, algo em torno de pouco mais de quatro horas) foi interpretado pela atriz branca Elizabeth Taylor (1932-2011). Os custos do filme foram altíssimos e quase levaram a Fox à falência. Mas o alto investimento não foi em vão: o longa teve nove indicações ao Oscar e foi vencedor em cinco categorias. Além disso, Cleópatra foi indicado em cinco categorias do Globo de Ouro e se tornou um clássico do cinema mundial. 
     Ao contrário do que houve com Machado de Assis, Lima Barreto não foi embranquecido: foi esquecido, outro instrumento do racismo. Isso porque, além de ser negro, Lima Barreto foi o crítico mais voraz da Primeira República no Brasil. Seus textos criticavam os privilégios das famílias aristocráticas e militares. Em sua obra, de temática social, Lima Barreto deu o protagonismo aos pobres, boêmios e arruinados. O escritor satirizava com humor e sagacidade os vícios e corrupções da sociedade e da política. Por conta disso, foi duramente criticado pelos escritores de seu tempo. Além disso, os textos de Lima Barreto causavam desconforto na sociedade, em especial na elite que ele criticava. Por isso, ainda em vida, Lima Barreto foi silenciado. Fazer o que ele fez era considerado um crime. As análises de Lima Barreto acerca do sistema republicano brasileiro, bem como da sociedade deste período, são consideradas profundas e atuais. A intenção do escritor era fazer uma "literatura militante". Ele usava a escrita para denunciar privilégios sociais e pensar em uma "sociedade alternativa". 
     Machado de Assis não era um escritor militante e por conta disso teve seu talento reconhecido, ainda que para isso a sua pele tenha sido clareada por muitos anos. Vale destacar esta crônica de Machado sobre a Abolição da Escravatura, onde o autor usa da ironia para criticar o modo como se deu tal processo. Destaque também para Esaú e Jacó (1904), onde os gêmeos Pedro e Paulo são os protagonistas, sendo que um é uma analogia à monarquia e o outro à república. São assuntos abordados neste livro: a abolição da escravatura, o encilhamento, o Estado de Sítio e a Proclamação da República. Mesmo não sendo necessariamente um escritor militante, Machado de Assis falou de política inúmeras vezes em seus textos. 
     Por outro lado, Lima Barreto teve a sua obra silenciada por muitos anos pelo fato de ser um escritor militante. É fato que há algum tempo Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911) e Clara dos Anjos (1948) são leituras obrigatórias em provas de vestibular. Entretanto, isso ainda está longe do reconhecimento que Lima Barreto merece. O escritor teve sua obra silenciada por muitos anos e só agora, com as releituras da história e de sua vida, é que seu talento tem sido devidamente reconhecido. 

Conclusão

     Machado de Assis e Lima Barreto foram vítimas de duas estratégias do racismo: o embranquecimento e o esquecimento. O primeiro é um escritor reconhecido e até mesmo considerado o rei da literatura nacional. E para não terem que admitir que o maior nome da literatura no Brasil era negro, a pele de Machado foi clareada por muitos anos. Nos últimos tempos isso está mudando e Machado de Assis é representado como era: negro. Já Lima Barreto tinha grande talento para a escrita e usava isso para criticar os privilégios e vícios da sociedade de seu tempo. Seus escritos incomodavam a classe abastada e política da época. Por conta disso, Lima Barreto foi silenciado por muito tempo, fato que tem mudado nos últimos tempos.

27/07/2017

A esquerda do asfalto e a esquerda da periferia

Morro do Vidigal visto do alto (no canto à esquerda). A favela está situada na Zona Sul, área nobre da cidade do Rio de Janeiro. A região faz fronteira com os bairros do Leblon, São Conrado, Gávea e Rocinha. Imagem: Reprodução. 

     Um defende as pautas da favela, como violência policial e ausência de serviços básicos que devem ser oferecidos pelo Estado. Já o outro costuma defender pautas que estão no campo da política nacional, como eleições diretas e denúncias ao golpe parlamentar de 2016 por exemplo. São grupos diferentes, mas que tem muita coisa em comum. Juntando, se tornam imbatíveis.
     A esquerda da periferia é composta por pessoas oriundas da favela e que chegaram ao ensino superior. Esta não é uma regra geral, visto que dentro da esquerda periférica há pessoas com baixo nível de escolaridade. Eles reivindicam saneamento básico, melhoria dos serviços de saúde e de educação. Denunciam também a violência policial, uma vez que a polícia costuma agir de modo arbitrário nas favelas e matando as pessoas, principalmente os jovens negros. Eles até costumam se manifestar sobre questões no campo da política nacional, mas este não costuma ser o foco deles.

Imagem: Reprodução.

     A esquerda do asfalto costuma defender pautas que estão no âmbito da política nacional, como por exemplo a reprovação da nomeação de algum político, a ação arbitrária de um juiz contra uma figura política e a reprovação de um plano orçamentário por exemplo. Golpe parlamentar de 2016, PEC do Fim do Mundo, condenação de Lula e Reforma Trabalhista são questões que foram alvos dos protestos desta mesma esquerda. 
     Parte da esquerda da periferia não se manifestou sobre o golpe parlamentar de 2016 sob a justificativa de que na favela o golpe acontece todos os dias, uma vez que as operações  policiais são uma realidade constante nas favelas. Ainda com relação às operações policiais, os militantes da esquerda periférica convidam de forma irônica os defensores de uma intervenção militar a morarem na  favela, uma vez que na mesma a polícia intervém com frequência e sempre de maneira arbitrária. Estas ações quase sempre resultam em mortos (em especial jovens negros), inocentes baleados e alterações na cena do crime realizada pela polícia. Isso sem contar nas vezes em que a polícia confundiu furadeira com metralhadora, saco de pipoca com saco de drogas e por aí vai.
     Por outro lado, a esquerda do asfalto critica a esquerda da periferia e os moradores da mesma em geral. Eles dizem que o povo está "anestesiado", "dormindo" e até dizem que o mesmo é "burro". Isso porque eles não entendem porque o povo está "adormecido" ante a tantas barbaridades que estão acontecendo no cenário nacional. Não. O povo não é burro. Eles podem até não saber o nome do juiz que condenou Lula, o nome do atual presidente da Câmara dos Deputados ou o nome daquele político e empresário que teve um helicóptero apreendido com quase meia tonelada de cocaína dentro. Entretanto, o fato de o povo não saber tais coisas não os tornam pessoas alienadas. Nos protestos de Junho de 2013, que no início era organizado pela esquerda e a pauta inicial era o protesto contra o aumento das passagens de ônibus, eu fui em alguns dos mesmos com o pessoal da universidade. No ônibus em que estávamos, assim que o mesmo passou pela concentração onde estavam os manifestantes, um motorista que era também cobrador, disse que tudo aumentava, menos o salário. Esta fala simples revela a insatisfação deste motorista com relação ao quadro político-social e a sua consciência política, uma vez que para ele dizer isso, ele sabia muito bem a quantidade de atividades que exercia ao mesmo tempo (e que mesmo assim ganhava pouco) e o preço das alimentos que consumia. Outra situação que vivenciei foi em 2014, durante as eleições presidenciais deste mesmo ano. Tenho um vizinho nordestino que há muitos anos vive na cidade do Rio de Janeiro. Como todo mundo sabe, Dilma Rousseff e Aécio Neves foram para o segundo turno. Esse mesmo vizinho iria votar no Aécio, mas ao conversar com os parentes que ainda moram no Nordeste, ele mudou de opinião e votou na Dilma. A então Presidente da República, que seria reeleita, bem como Lula e o governo do PT fizeram muitas ações que melhoraram a qualidade de vida daqueles que habitam a Região Nordeste do Brasil. A população humilde, sabendo disso, votou em peso em Dilma Rousseff. Tanto é que no nordeste do país Dilma foi absoluta. 

Mapa mostrando como cada região do Brasil votou no segundo turno das eleições presidenciais de 2014. Repare que as Regiões Norte (parte dela), Nordeste e parte da região Sudeste votaram em Dilma Rousseff. Imagem: Reprodução. 

     Apesar da esquerda da periferia e a do asfalto terem suas respectivas pautas, é possível o diálogo e a união das mesmas. Os moradores da periferia são os mais afetados com a Reforma Trabalhista, a PEC do Fim do Mundo e a Reforma Curricular por exemplo. Além disso, a mesma polícia que age de modo truculento com os moradores mais pobres, é a mesma que ataca de modo violento aquelas pessoas que vão para as manifestações. Apesar das diferenças, a esquerda da periferia  e do asfalto tem pontos em comum.

Conclusão

     A esquerda da periferia e a do asfalto possuem as suas respectivas pautas, mas também possuem pontos em comum pelo fato de terem o mesmo governo. Por conta disso, nada impede a união entre estas duas esquerdas, bem como entre os movimentos de esquerda em geral. No dia em que isso acontecer, a esquerda se tornará imbatível. 

25/07/2017

A injustiçada Marina de Oliveira

Marina de Oliveira em encarte do CD Coração Adorador (1999). Imagem: Reprodução. 

     Por muito tempo, ela era considerada (talvez ainda seja) uma cantora péssima que só lançava CDs porque seus pais eram donos da MK Music. Além disso, ela era acusada de "estragar" o grupo Voices, uma vez que as integrantes cantam bem e ela supostamente não teria o mesmo talento. Entretanto, depois que passei a ouvir suas músicas e atentar para a sua extensão vocal e, é claro, estudar sua vida, minha opinião em torno de Marina de Oliveira mudou completamente.
      Acho que a primeira vez que ouvi falar em Marina de Oliveira foi quando fui no Canta Zona Sul, em 2004. Nesse dia, estavam vários cantores de renome como Fernanda Brum, Novo Som, Oficina G3 e o grupo Voices. Marina de Oliveira estava presente e eu vi a apresentação dela. Eu e o pessoal da igreja achamos ela "estranha". Nos anos seguintes, eu passei a acompanhar Marina de Oliveira e as músicas evangélicas que eram lançadas no momento. Eu considerava a Marina uma mulher sem talento musical e que a todo instante cortava o cabelo de um jeito diferente (se você analisar os CDs de Marina de Oliveira, bem como os vídeos dela em diferentes épocas, verá que em todos eles ela está com um cabelo diferente). Na minha visão, a única explicação que fazia ela continuar gravando CDs era o fato dela ser filha dos donos da MK Music.

Na Extremidade (2010) é o último CD de Marina de Oliveira. Imagem: Reprodução. 

     A minha opinião que até então tinha a respeito de Marina de Oliveira era compartilhada por muitas pessoas. Percebia isso quando falava dela com alguns amigos cristãos, quando lia os comentários dos vídeos dela no Youtube ou quando visitava sites de humor cristão e/ou voltado para a música gospel. Minha opinião em torno de Marina foi mudando na medida que ia ouvindo suas músicas. Ouvindo seus primeiros CDs, percebi a sua bela e doce voz. Como já conhecia algumas de suas músicas atuais, percebi a diferença. Particularmente, acho que ela deveria continuar cantando no estilo de seus primeiros CDs, pois com o passar do tempo ela foi adotando estilos de música que não valorizam a sua potência vocal. Mesmo cantando bem e tendo músicas de sucesso no currículo, Marina de Oliveira nunca ganhou individualmente discos de ouro, platina ou diamante. Os que ela ganhou foram junto com grupo Voices (2 discos de ouro), a coleção Geração de Adoradores (3 discos de ouro) e a coleção Amo Você (4 discos de ouro). O fato de Marina de Oliveira nunca ter sido premiada individualmente com premiações aqui citadas não faz dela uma cantora sem talento. Há muitos cantores mundo afora de muito talento que nunca foram premiados individual ou coletivamente com discos de ouro, platina ou diamante. Indo mais além, há no mundo inúmeros cantores muito talentosos que nunca nem chegaram ao estrelato. Ao longo de seu ministério, Marina de Oliveira já foi indicada nove vezes ao extinto Troféu Talento e ganhou três vezes (em 1995, 2001 e 2003), ganhou o Troféu Achou Gospel em 2010 e foi indicada duas vezes ao Grammy Latino (em 2009 e em 2010), vencendo em 2010.



     O primeiro disco de Marina de Oliveira foi Imenso Amor (1986), cujo hit foi o dançante Faça um Teste. Com este disco, Marina marcou época e, como a mesma já disse, foi ousada e pagou o preço. Quando Marina de Oliveira surgiu no cenário musical gospel, os cantores cristãos eram sóbrios no vestir e contidos em suas gesticulações. Marina chegou e rompeu com isso. Quem já viu uma apresentação de Marina de Oliveira, sabe que ela é expansiva e se movimenta o tempo todo. Além disso, foi graças a Marina, que introduziu a dança dentro da igreja, que as coreografias são comuns em muitas denominações cristãs. É importante ressaltar que quando Marina de Oliveira adentrou a cena musical gospel, nos anos 1980, este mesmo gênero estava vivendo um momento de profundas transformações. Estas transformações contaram com a ajuda de grupos como Novo Som, Oficina G3, banda Catedral e Rebanhão por exemplo. Estes grupos inovaram ao usarem instrumentos musicais até então proibidos dentro das igrejas e mudaram para sempre o jeito de fazer música gospel no Brasil.
     Como já dito no parágrafo anterior, foi Marina de Oliveira quem introduziu a dança dentro da igreja. No videoclipe Procure Por Mim na Glória, colocado neste texto, ela praticamente dança do começo ao fim. Se ainda hoje o modo como Marina dança e se expressa no clipe causa espanto, imagina então como deveria ser nos anos 1980 e começo dos anos 1990. O clipe em questão tem uma pegada cômica e descontraída, onde Marina usa milhares de figurinos e perucas diferentes. À primeira vista, uma pessoa pode achar tudo sem nexo, mas o clipe e a música seguem em perfeita sintonia. Procure Por Mim na Glória é uma música que fala sobre a vida no porvir e, ao trocar de figurinos e perucas enquanto canta, Marina de Oliveira está dizendo que no céu todos, independente de cor, raça, gênero ou etnia, serão visto como iguais. Não é preciso dizer que o videoclipe em questão enfrentou a resistência de muitos cristãos pelo fato da música ser dançante e a Marina dançar alegremente o tempo todo. Gente, se a Bíblia fala que o porvir é um lugar onde não haverá dor, nem choro e nem tristeza, porque então não dançar e louvar alegremente ao Senhor, principalmente quando o assunto é a vida eterna?
     No ano de 1995, Marina de Oliveira lançou os CDs Momentos Vol. 1 e Vol. 2. Estes discos eram para ser um só. Entretanto, Marina gostou de todas as composições que recebeu e não queria se desfazer de nenhuma delas. Assim, um disco que a princípio seria um só, acabou se tornando dois. Estes trabalhos musicais entraram na 52ª posição dos 100 maiores álbuns da música cristã brasileira. Além destes discos, outro álbum de Marina que entrou para esta mesma lista é o Por Toda Vida (2000), que ela lançou quando integrava o extinto grupo Voices. Tal álbum está na 88ª posição.

Aviva (2000) é o décimo primeiro álbum de Marina de Oliveira. Imagem: Reprodução. 

     No ano de 1997, Marina de Oliveira lançou o CD Special Edition, álbum totalmente voltado para o mercado norte-americano, sendo gravado praticamente todo em inglês. Dois anos depois, Marina lançou o CD Coração Adorador, cuja capa é a imagem que "abre" este texto. Em 2000, Marina presenteia o público com o CD Aviva, seu décimo primeiro álbum e que é considerado uma "pérola" de seu ministério. De fato, Aviva é um CD muito bom e a canção que dá título ao mesmo dispensa comentários. A canção Aviva foi muito executada nas rádios quando foi lançada e hoje é considerada uma das mais conhecidas músicas de Marina de Oliveira. Eu só acho uma pena a Marina não ter seguido nos álbuns posteriores a fórmula que deu tão certo em Aviva. Se ela tivesse feito isso, talvez hoje ela seria uma das cantoras mais populares do país.
   Outro álbum de destaque de Marina de Oliveira é o Remix 17 (2003), que é um CD em comemoração aos seus 17 anos de ministério. Neste trabalho, Marina reúne seus maiores sucessos, que no CD em questão ganharam uma versão remixada. Inicialmente, tal trabalho seria lançado em 2001, quando Marina completou 15 anos de ministério, mas a presidência da MK Music (que na época se chamava MK Publicitá) barrou o projeto por considerá-lo excessivamente ousado (como se ousadia não fosse a marca da Marina) para uma cantora que ainda estava consolidando sua carreira. Um tempo depois, a gravadora que Marina faz parte lançou o CD Arrebatados, que reunia canções remixadas de vários cantores renomados da MK. O disco teve boa repercussão e a gravadora liberou Marina de Oliveira para fazer um disco remix só seu. Foi daí que veio o Remix 17.
     Marina de Oliveira ficou quase cinco anos sem gravar um CD com músicas inéditas, até que em 2006 lançou o Meu Silêncio: Ministração Profética entre Amigos e Irmãos - Ao Vivo. Este disco é fruto das experiências que Marina viveu durante o período em que esteve na "caverna". Dois anos depois, Marina lança o Permitéme, seu segundo disco solo voltado para o mercado estrangeiro e que foi gravado inteiramente em espanhol. Ainda em 2008, Marina lança o CD Eu Não Vou Parar. Este CD rendeu a Marina de Oliveira uma indicação ao Grammy Latino 2009 na categoria Melhor Álbum de Música Cristã em Língua Portuguesa. Entretanto, foi só no ano seguinte que Marina ganharia nesta mesma categoria com o álbum Na Extremidade.

Registro do momento em que Marina de Oliveira ganha o Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Música Cristã em Língua Portuguesa pelo CD Na Extremidade (2010). Imagem: Reprodução. 

     Na Extremidade (2010) é um CD que expressa o momento que Marina de Oliveira passava até então. Em fevereiro de 2010, Marina perde o irmão Benoni e o marido Sérgio Menezes em um acidente de ultraleve que ocorreu no bairro de Jacarepaguá (RJ). Tal tragédia foi notícia até fora do meio evangélico e abalou Marina e sua família (poucos meses depois desta fatalidade, Luiza Gerk, filha do primeiro casamento de Marina, perderia o marido em um acidente de moto). Inicialmente, o repertório de Na Extremidade foi rejeitado por Marina. Entretanto, meses após a tragédia, Marina se lembrou do CD com o repertório que havia ficado guardado em seu carro. Ela o ouviu novamente e teve a certeza de que de fato o repertório para seu então novo CD deveria ser o que ela havia rejeitado de início. Além das músicas, as fotos para o encarte do CD em questão retratam o momento que Marina vivia: nas fotos, Marina está séria e usando roupas pretas, ao contrário do que o público viu em Eu Não Vou Parar (2008), que eram fotos solares que mostravam uma Marina alegre e sorridente. Na Extremidade é o último álbum de Marina. Não entendo porque Marina de Oliveira parou de gravar, principalmente depois de ter ganhado um Grammy Latino, uma vez que o mais lógico seria ela continuar gravando.
     Além de cantora, Marina de Oliveira também é compositora, empresária, artista plástica, coreógrafa, roteirista, diretora e apresentadora. Marina abriu as portas para a música gospel ao se apresentar em casas de shows como Canecão, Imperator e Metropolitan (hoje Citbank Hall) . Além disso, Marina produziu eventos como o Canta Rio, que reuniu mais de 200 mil pessoas na Quinta da Boa Vista (RJ) em 1995. Já o Canta Rio 99 reuniu mais de 120 mil pessoas na Praça da Apoteose (RJ). Marina  de Oliveira assinou a direção artística do Canta Brasil 500 (21/04/2000), o Canta Rio 2002 e o Canta Zona Sul, em 2004 (eu estava lá), que reuniu mais 160 mil pessoas nas areias de Copacabana. Marina assinou também a direção artística de todos os grandes eventos do Grupo MK e os DVDs da empresa.
     Marina de Oliveira é a Diretora Artística da MK Music. Isso quer dizer que os encartes dos CDs e DVDs produzidos pela gravadora tem a contribuição de Marina, que por sinal faz um excelente trabalho. É fato que às vezes Marina acaba exagerando, coisa que ela fez nos seus próprios álbuns Um Novo Cântico (2002) e Na Extremidade (2010), onde tentou fazer algo extremamente bem feito e acabou passando da conta, dando a impressão de que estava fantasiada. Entretanto, tais fatos não foram suficientes para contestar a competência de Marina de Oliveira enquanto diretora artística. Vale destacar que Marina de Oliveira é uma das poucas pessoas a ouvir os CDs dos artistas da MK Music antes de todo mundo.

Conclusão

     Marina de Oliveira sabe cantar, sim. Além de cantar, Marina também cria roteiros, coreografias, organiza eventos de grande porte, compõe músicas e é apresentadora. Desta forma, se conclui que Marina de Oliveira é uma artista completa e de múltiplos talentos. Além disso, ela deixou sua contribuição para a música gospel brasileira, de modo que não tem como falar de uma sem citar a outra. 
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