15/02/2019

Direita brasileira: uma direita fascista

Militantes de esquerda pedem intervenção militar em manifestação. Imagem: Reprodução.


     Ao contrário dos movimentos políticos de direita espalhados pelo mundo, a direita brasileira é de cunho fascista. Este fato torna a mesma peculiar e ao mesmo tempo assustadora.
      Antes de dar continuidade ao assunto, convém primeiro explicar ao leitor o que é direita e o que é fascismo. O primeiro tem sua origem na Revolução Francesa (1789) e serve para classificar aquelas pessoas que defendem o Estado mínimo e são contra programas sociais. Já o fascismo é um regime político e uma filosofia que prega que os conceitos de raça e nação prevaleçam sobre valores individuais. Outra característica do fascismo é a extinção parcial ou total dos direitos de grupos historicamente marginalizados. 
     Por conta do cenário político brasileiro atual, muita gente acha que fascismo e direita são sinônimos, mas não são. Como dito no parágrafo anterior, uma característica do fascismo é a supressão de direitos de grupos historicamente marginalizados. A direita por via de regra não é assim. A Holanda é um país conhecido por ser liberal com relação a comportamento. Lá, as drogas, o aborto e o casamento gay são permitidos. Além disso, devido a uma série de medidas tomadas para ajudar a população carcerária, as prisões holandesas têm se tornado desérticas. E a Holanda não é e nunca foi um país comunista. Justin Trudeau, atual primeiro-ministro do Canadá, levanta a bandeira do feminismo, dos direitos dos LGBTs e legalizou as drogas em território canadense. Justin Trudeau nunca foi comunistae nem o Canadá tem o comunismo por regime político. Aliás, nunca teve.

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Justin Trudeau, atual primeiro-ministro do Canadá, durante parada LGBT no país. Foto: Associated Press.


     Entretanto, a direita brasileira não é como a direita de outros países do mundo. Além de serem nacionalistas ao extremo, a direita tupiniquim é contra as cotas raciais, direitos LGBTs, dsireitos das mulheres e dos povos indígenas. Se pautas como violência contra a mulher é uma pauta de esquerda, o que se pode esperar da direita brasileira? Que a mesma é a favor da violência doméstica? Por conta de tais pautas serem consideradas de esquerda, a pessoa que defende tais é chamada de esquerdista, mesmo que não tenha nenhuma afinidade com o socialismo. Existem bandeiras que independem de posicionamento político e as citadas neste parágrafo são um exemplo.
     As pautas citadas no parágrafo acima são consideradas de esquerda, mas nem sempre foi assim. No clássico Da Monarquia à República: momentos decisivos (1987), a historiadora Emília Viotti da Costa (1928 - 2017) afirma que o movimento operário que emergia no Brasil entre fins do século XIX e começo do século XX defendiam a igualdade de direitos entre homens e mulheres, mas as mulheres não eram vistas assinando programas e nem participando de Programas Operários. As mulheres também não eram vistas na liderança de partidos políticos. Durante a Ditadura Civil-Militar brasileira (1964 - 1985)houve grupos de resistência ao regime. Foi neste momento também que o movimento gay surgia no Brasil e no mundo. O preconceito era quase que generalizado e estava presente entre os militantes que faziam oposição ao regime então vigente. Em Cuba, um país socialista desde 1959, os homossexuais foram vítimas de preconceito, foram recusados em alguns empregos por conta da orientação sexual e teve alguns que foram parar em uma espécie de campos de concentração. E recentemente em Cuba foi tirado da nova constituição cubana um trecho que abria espaço para o casamento entre pessoas do mesmo sexo. 

Conclusão

     A direta brasileira é uma direita fascista porque os direitistas são contra a projetos que visam ajudar os grupos historicamente marginalizados. No Brasil, alguns temas são considerados de esquerda quando na verdade não deveriam ser. Isso porque são questões relacionadas à dignidade humana e, por conta disso, estão acima de qualquer posicionamento político. 

01/02/2019

Espiritualidade: uma arma usada por alguns cristãos para camuflar problemas sociais

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Ilustração acerca da multiplicação dos pães e peixes, uma das passagens mais conhecidas da Bíblia. Este fato mostra que Jesus não se preocupou somente com a alma do ser humano, mas também com o corpo do mesmo. Imagem: Reprodução.



     Os primeiros seguidores de Cristo viveram a máxima do amor ao próximo e em nome deste mesmo amor compartilhavam tudo entre si para que ninguém passasse necessidade. O tempo passou, o número de seguidores de Jesus aumentou e a prática do bem comum foi praticamente abandonada. É neste momento que entra a espiritualidade, usada por alguns ditos cristãos para camuflar as desigualdades sociais.
     Conforme a Bíblia relata no livro de Atos dos Apóstolos, os primeiros seguidores de Jesus compartilhavam do bem comum: os mais abastados ajudavam os mais necessitados. Porém, o tempo foi passando e o número de seguidores de Cristo aumentando. Com isso, a ideia do bem comum foi sendo deixada de lado. Em Socialismo e as igrejas (1905), Rosa Luxemburgo (1871 - 1915) analisa o modo como a Igreja deixa de ser simples e passa a ser grandiosa, influenciando a política de uma sociedade. Neste mesmo livro, Rosa afirma também que o fato de o cristianismo ter deixado de ser uma religião humilde e composta por pessoas também humildes para se transformar em um grandioso e influente império; fez com que a religião cristã deixasse para trás a ideia do bem comum e a substituísse por uma postura conivente com a exploração dos mais pobres. Rosa Luxemburgo (1871 - 1915) destaca também que o número de cristãos que pregavam o bem comum passou a ser muito pequeno. 
     Mesmo tenso sido publicado pela primeira vez em 1905, a obra Socialismo e as igrejas não perde a sua atualidade. Em tal livro, Rosa Luxemburgo (1871 - 1915) analisa a Igreja Católica, mas o mesmo livro serve perfeitamente para se compreender o protestantismo atual no Brasil. Igrejas cujos membros vivem na pobreza têm templos extremamente luxuosos, com direito a telão, estacionamento e até equipe de filmagem para transmitir as reuniões ao vivo pela internet da melhor forma possível. Pastores extorquem os fiéis com a justificativa de financiar infinitas campanhas e projetos sociais. Muita gente aceita esta situação porque acreditam que serão exaltadas e enriquecerão. É a chamada Teologia da Prosperidade, incompatível com os ensinamentos de Jesus e com o pensamento político de esquerda. Isso explica em parte a razão de tantos cristãos serem de direita. Voltando a falar dos pastores que extorquem as suas ovelhas, os mesmos costumam morar em bairros nobres, têm casas, fazendas, motoristas particulares e até helicópteros. Alguns cantores gospel seguem a mesma linha: cobram cachês absurdos para irem cantar, só aceitam hotel 5 estrelas, exigem em seus camarins frutas da estação, água e toalhas brancas. Estes mesmos cantores moram em bairros nobres e costumam viajar para o exterior com frequência. 

Presidente boliviano, Evo Morales, presenteou o Papa Francisco com um crucifixo de madeira com formato da cruz e machado, símbolo comunista da união de operários com camponeses, em La Paz, nesta quinta (9) (Foto: Osservatore Romano/Reuters)
Evo Morales, presidente da Bolívia, presenteia o Papa Francisco com um crucifixo no formato de foi e martelo, símbolo do comunismo. Cristo e as doutrinas sociais de esquerda combinam? Imagem: Observatore Romano/Reuters.


      A relação da Igreja com as doutrinas sociais de esquerda nunca foi das mais amigáveis. A Igreja já disse que os comunistas comem crianças, invadem propriedades e até impedem os cristãos de exercerem a sua religiosidade. Há aqueles que dizem também que o comunismo já matou mais do que todas as catástrofes naturais e não-naturais que o mundo já viu. Por mais absurdas que possam parecer (e de fato são), há muitas pessoas, inclusive cristãs, que acreditam nas mesmas. Além de usarem tais argumentos contra militantes de esquerda, alguns cristãos, na tentativa de desmerecer os mesmos, usam o argumento da espiritualidade. 
     Antes de dar continuidade a este assunto, convém lembrar que nem todo aquele que luta pela justiça social é de fato de esquerda. Dando continuidade ao texto, muitos cristãos usam como argumento para criticar as doutrinas sociais de esquerda (comunismo, socialismo e anarquismo por exemplo) e também a Teologia da Libertação (corrente teológica cristã nascida na América Latina que diz que o Evangelho deve ficar ao lado dos pobres e defender os mesmos) o suposto fato de que tais tiram o foco principal da mensagem de Cristo: a salvação do homem. Entretanto, se analisadas as visões político-ideológicas destas pessoas, as mesmas em sua grande maioria apoiam políticos que legitimam a desigualdade social e destroem o Meio Ambiente por exemplo. É a revisitação da concepção de que a pobreza é um desejo divino e que cabe ao pobre se conformar com a mesma. 

Pessoas marchando contra a LGBTfobia. É justamente pelo fato de Jesus ter me ensinado a amar o próximo que o combate a LGBTfobia é uma das minhas bandeiras políticas. Imagem: Paulo Whitaker/Reuteurs


     Durante muito tempo eu separava o que era espiritual e o que não era. Hoje eu não faço mais isso, pois acredito que glorificar a Deus não se limita a execução de atividades religiosas. Frequentei a Assembleia de Deus (veja aqui) por mais de dez anos e algo que me chamava a atenção era que alguns líderes não incentivavam os liderados de forma contundente a estudar mais, ler mais e buscar um aperfeiçoamento profissional por exemplo. Uma coisa que aprendi foi que Jesus não faz nada pela metade. NADA. Se a pessoa estiver com problemas psicológicos, Jesus vai tratar nesta área (isso não significa que a pessoa não deva procurar um psicólogo, pelo contrário); se a pessoa estiver com problemas na vida sentimental, Jesus vai tratar nesta área; e se a pessoa tiver alguma enfermidade no corpo, Jesus vai tratar nesta área também (isso não significa que a pessoa não deve buscar ajuda médica, muito pelo contrário). Vou citar outra coisa para vocês onde eu vou mostrar que a separação entre o espiritual e o não-espiritual não é tão clara assim, se é que essa separação de fato existe. Jesus falou para amarmos o nosso próximo como a nós mesmos (Mateus 22: 39) e é em nome desse amor que eu luto para combater a pobreza, a desigualdade de gênero, contra a LGBTfobia e contra o racismo. Uma coisa que me chama a atenção é o fato de a maioria das denominações cristãs colocarem Jesus como uma pessoa completamente indiferente às questões político-sociais de sua época. Uma leitura atenta dos Evangelhos mostra exatamente o contrário. Além disso, o escritor Reza Aslan analisa o assunto de modo magistral no livro Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré (2013).
     Muitos negam, mas o fato é que a concepção de que política não é algo para cristão ainda é forte dentro da crença cristã. Desenvolvi e aperfeiçoei (ainda estou aperfeiçoando, é um processo contínuo) minha veia política quando frequentava a Assembleia de Deus. Eles não falavam, mas meus posts politizados nas redes sociais incomodavam os cristãos mais conservadores. Eles me cobravam de forma indireta posts religiosos e dependendo deles eu não colocaria outra coisa em minhas redes sociais. Eu só escrevo tais mensagens quando me dá vontade e quando não dá vontade, eu não escrevo. E assim a vida segue. 
     Acredito que somos forasteiros e peregrinos neste mundo (2 Pe 2: 11), mas isso não significa que eu seja indiferente às coisas deste mundo. É como uma pessoa que mora de aluguel, realidade de tantos brasileiros. A casa não é sua e uma hora você vai ter que sair de lá, mas enquanto você estiver lá, é sua obrigação lavar o banheiro, passar uma cera no chão e tirar a poeira da casa. A relação com o mundo é a mesma coisa: enquanto estivermos neste mundo, que cuidemos das coisas deste mundo, lutando por uma sociedade justa e igualitária.

Conclusão

     A (falsa) espiritualidade é usada para mascarar as desigualdades sociais. Na prática, a separação entre o que é espiritual e o que não é não é muito definida. Além disso, um Evangelho que não é comprometido com a totalidade do homem e com as causas sociais é um Evangelho pela metade. 

25/01/2019

Coisas que a esquerda deve evitar

Manifestação organizada por centrais sindicais no dia 20/08/2015, em São Paulo. Foto: Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo.


Este texto é fruto de experiências vividas por mim e também por experiências que me foram contadas acerca da esquerda brasileira.

1 - Saia da bolha: a maioria dos movimentos de esquerda só falam para os seus. Eu já fui em inúmeros eventos organizados por pessoas de esquerda e o público presente eram basicamente militantes. Se estamos falando de favelas, cadê aquele senhor que praticamente viu a favela nascer? Cadê aquela mãe cujo filho foi assassinado pela PM? Cadê aquele jovem que é abordado pela polícia toda vez que sai de casa para trabalhar?

2 - Retome o trabalho de base: este tópico está relacionado ao primeiro. Ao longo da história o trabalho de base foi muito usado pela esquerda. Aliás, foi o trabalho de base que fez do PT (Partido dos Trabalhadores) no maior e mais importante partido de esquerda da América Latina. Nos últimos anos, a esquerda abandonou este trabalho e o que se vê é o avanço da extrema-direita no Brasil. Retomar o trabalho de base é algo de vital importância nestes tempos sombrios;

3 - Não trate o adversário político como inferior: vi muitas pessoas nas eleições presidenciais de 2018 tratando os eleitores do Bolsonaro como pessoas sem conhecimento e desprovidos de cultura política. Nem todos que votaram no Bolsonaro são alienados ou coisa parecida. Alguns tinham a plena consciência do que estavam fazendo. Pare de agir como um ser de luz que tem a missão de iluminar os demais;

4 - Ato por si só não resolve nada: nos últimos tempos a esquerda tem ido para as ruas com muita frequência para manifestar a insatisfação contra os desmandos do governo, algo legítimo e que tem o meu apoio. Fizeram a manifestação, mas e depois? O que fazer? Havia um trabalho sendo realizado antes da manifestação? Protesto por si só não resolve muita coisa.

02/10/2018

Pausa necessária

Imagem: Reprodução.

     Pessoal, estou passando aqui para avisar que durante o mês de outubro não haverá texto novo. Estou desde o ano passado me preparando para um longo, exaustivo e difícil processo seletivo. A etapa mais difícil deste processo ocorre no começo de novembro e eu preciso de todo o tempo e dedicação do mundo se eu quiser obter a desejada classificação. A partir do mês que vem eu volto a escrever aqui, mas será somente um texto por semana e não dois, como é o hábito. A normalidade da publicação de textos (dois por semana) só será restaurada ano que vem. Peço a compreensão de todos e também que torçam por mim, pois este é um importante passo em minha carreira. Por enquanto, não vou falar que concurso é esse, mas espero compartilhar a vitória com vocês, caso eu alcance a mesma. As páginas do blog no Facebook e no Twitter continuarão a ser atualizadas, só que em um ritmo menor. Já estou com saudades e espero voltar a escrever aqui logo e também comemorar, se Deus quiser. 

27/09/2018

Entrevista com Renato Drummond Tapioca Neto

Renato, o entrevistado do mês de setembro do blog A Hora. Imagem: Martharluam Silva. 

     O mês de setembro chega ao fim e, como acontece todo mês no blog, eu publico aqui uma entrevista. O entrevistado do mês de setembro é Renato Drummond Tapioca Neto. Renato é licenciado em História pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) (2014) e mestre em Memória: Linguagem e Sociedade pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) (2017). É o autor do blog Rainhas Trágicas e do livro Rainhas Trágicas: quinze mulheres que moldaram o destino da Europa (2016), publicado em Portugal. Atualmente, é professor de História no Colégio Estadual Lauro Farani Pedreira de Freitas (Iaçu - Bahia) e professor visitante na Escola de 1º Grau Pererê (EPGP).
     Dia 07 de setembro é o dia em que o Brasil se torna independente de Portugal, deixando de ser colônia  e se tornando um império. Por conta disso, convidei Renato para uma entrevista aqui a fim de falarmos sobre o período imperial brasileiro e também sobre algumas rainhas que deixaram seu nome na história. Confira:


1 - A Hora: Eu sempre começo minhas entrevistas perguntando sobre a infância do entrevistado. Me fale um pouco como foi a sua.

Renato Drummond Tapioca Neto: Para muitos, a infância se constitui numa das fases mais douradas da vida. Comigo não foi diferente. As crianças costumam observar o mundo através das lentes da fantasia e, assim, conseguem suportar melhor momentos difíceis. Meus pais se separaram quando eu tinha cinco anos de idade e minha mãe trabalhava em tempo integral para dar uma boa educação aos filhos. Desde então, fui criado por ela, minha avó e tia. Acredito que tenha sido por isso que eu me tornei um apaixonado pela história das mulheres, pois cresci cercado por mulheres fortes e independentes, que me ensinaram a ter respeito às diferenças, gentileza para com o próximo e me incutiram o valor do estudo.

2 - AH: O que o levou a cursar História?

RDTN: Essa pergunta é um pouco engraçada, pois a resposta está relacionada a da questão anterior. Quando eu era criança, minha avó comprava semanalmente para mim uma revista infantil cujo brinde era o similar de uma peça de arqueologia acompanhada de um folheto explicativo sobre a cultura a qual o item pertencia. Essa foi a porta de entrada para que eu me aprofundasse mais no assunto. Eu passava horas na biblioteca da escola a procura de livros sobre a Grécia Clássica e o Egito Antigo. Me tornei então um apaixonado pela história, mas não imaginava que pudesse viver disso. Meus professores do Ensino Médio me orientaram bastante na minha escolha profissional e eu percebi que meu trabalho não precisava ficar tão distante daquilo que eu amava. 

3 - AH: Em 2017, você defendeu a sua dissertação. Você pode falar um pouco sobre o que pesquisou no mestrado?

RDTN: Na minha dissertação de mestrado, defendida em 20 de fevereiro de 2017, sob orientação do Prof. Dr. Marcello Moreira, pesquisei a representação dos casamentos arranjados no romance Senhora (1875), de José de Alencar. O autor critica este tipo de matrimônio, comparando-o a uma transação comercial similar à escravidão, na qual a noiva, por meio do dote, compra o noivo que lhe convém. Para tanto, fiz um cruzamento de fontes, como relatos de cronistas estrangeiros e jornais do período com a determinada obra, no intuito de complementar e mesmo contrastar com a opinião do romancista sobre alguns aspectos da aristocracia imperial, especialmente no que concerne à questão da mulher economicamente emancipada. 

4 - AH: A Independência do Brasil foi proclamada há 196 anos atrás, dando início ao período conhecido como Brasil Imperial (1822 - 1889). Qual o legado que o Brasil monárquico nos deixou?

RDTN: Acredito que o maior legado do período imperial tenha sido a manutenção da unidade territorial brasileira, que poderia ter se esfacelado, como ocorreu com as vizinhas colônias espanholas. 

5 - AH: D. Amélia de Leuchtenberg (1812 - 1873) se casou com D. Pedro I (1798 - 1834) depois que este ficou viúvo. Entretanto, ao contrário do que acontece com D. Leopoldina (1797 - 1826), D. Amélia não é muito lembrada. Por que isso acontece?

RDTN: Dona Amélia viveu muito pouco no Brasil, de 1829 a 1831 e, portanto, não teve tempo suficiente para conquistar a devoção dos súditos de Dom Pedro I, como aconteceu com Dona Leopoldina. Além disso, não se envolveu em nenhum projeto político de destaque, ao contrário da primeira imperatriz. Talvez por isso ela não seja tão lembrada por nós, apesar de ter contribuído bastante para reabilitar a imagem do marido, desgastada desde a morte de Leopoldina. 

6 - AH: Nos últimos tempos, os movimentos de restauração monárquica têm crescido consideravelmente no Brasil. Qual a explicação para este fenômeno?

RDTN: Penso que isso se deve ao momento de instabilidade política ao qual nós vivemos. Muitas pessoas procuram saídas para a crise e algumas defendem a bandeira do antigo regime por acreditarem ser esta a solução para os problemas.

7 - AH: O que o levou a criar o blog Rainhas Trágicas?

RDTN: Criei o Rainhas Trágicas como uma forma de compartilhar com o público de leitores interessados as minhas pesquisas para o meu trabalho de conclusão de curso. Com o tempo, fui expandindo o espaço para abarcar outros temas. O número de acessos ao blog foi aumentando e, com eles, as sugestões dos seguidores. 

8 - AH: O seu livro intitulado Rainhas Trágicas: quinze mulheres que moldaram o destino da Europa (2016) foi publicado em Portugal. O que o levou a fazer isso? É muito difícil lançar livro no Brasil?

RDTN: A ideia de publicar um livro era algo que só ocorria uma vez terminada minha formação acadêmica. A proposta veio um pouco mais cedo, através do Guilherme Pires, que na época era editor na Vogais Editora, de Portugal. Trabalhei então no material publicado no blog, reescrevendo-o e compondo um material inédito para a publicação. Assim nasceu o Rainhas Trágicas: quinze mulheres que moldaram o destino da Europa (2016). 

9 - AH: Você já pesquisou e ainda pesquisa sobre diversas monarcas de diferentes épocas e lugares. Há uma que você considera a sua preferida e/ou que lhe serve de inspiração?

RDTN: Sem dúvidas, Ana Bolena (c. 1501/1507 - 1536) continua sendo a minha preferida. Foi ela a porta de entrada para que eu conhecesse a vida de outras soberanas trágicas, tais como Maria Antonieta (1755 - 1793) e Dona Leopoldina. 

10 - AH: Em 2018 faz 100 anos que a família Romanov, cuja integrante mais conhecida é Anastácia Nikolaevna (1901 - 1918), foi executada. Por conta deste fato, muitos textos têm sido publicados na internet sobre a família em questão e a Netflix anunciou em 2017 que vai fazer uma série documental sobre a família Romanov. Este interesse por tal família é algo que sempre esteve presente na sociedade ou só faz parte da lembrança dos 100 anos do brutal assassinato?

RDTN: Penso que esse crescente interesse se deva principalmente ao centenário do assassinato da família. Em 1918, eles não eram muito queridos na Rússia e não houve comoção popular ante a notícia da morte da família em questão. Em seguida, surgiram os impostores e então os Romanov voltaram a ser machete, especialmente o caso de Anna Anderson (1896 - 1984), que chegou a mover um processo judicial para ser reconhecida como Anastácia Nikolaevna. Essa afirmação caiu por terra quando os remanescentes humanos das vítimas de Ecatimburgo foram revelados, após a queda da União Soviética (URSS), em 1991. Muitos documentos relativos ao assassinato da família imperial, antes mantido sob sigilo, foram divulgados, oferecendo assim mais luz sob o que aconteceu na casa Ipatiev naquela madrugada de 17 de julho de 1918. 

11 - AH: No continente africano e também no Oriente Médio há regiões que são governadas por dinastias. Entretanto, eu nunca vi (pode ser que exista) um texto em seu blog sobre tais monarquias. As dinastias da África e do Oriente Médio não são o foco das suas pesquisas?

RDTN: Tenho começado a pesquisar mais sobre outras dinastias agora, como parte desse processo de expansão do escopo de temas publicados no Rainhas Trágicas. Tenho muito interesse por figuras como Cleópatra VII (69 a. C. - 30 a. C.) e a rainha Ginga (1583 - 1663). Pretendo escrever matérias sobre elas ainda este ano. 

12 - AH: Renato, foi um prazer muito grande entrevistar você e agradeço o carinho e a atenção com que você me tratou desde a primeira vez em que eu entrei em contato com você. Agora, para fechar esta entrevista maravilhosa, você pode deixar uma mensagem para os leitores do blog A Hora?

RDTN: Eu que agradeço pelo interesse e pela consideração. Aos leitores do blog A Hora que estiverem lendo essa entrevista, agradeço pela paciência e os convido a conhecer o Rainhas Trágicas. Suas opiniões serão muito bem vindas. Um abraço! 

20/09/2018

A necessidade da criação de um grande sistema de reciclagem de lixo

Separação do lixo para reciclagem. Imagem: Reprodução.

     Não é em todos os casos que aquilo que vai para o lixo é necessariamente sem utilidade. Aquilo que vai para a lata do lixo tem a sua utilidade e é aí que entra a reciclagem do lixo. Entretanto, os muitos locais de reciclagem do lixo não dão conta da imensa quantidade de lixo produzida pela sociedade. É por estas e outras que os índices de poluição continuam a subir sem parar. 
     Se tem por hábito mandar para a lata do lixo tudo aquilo que perdeu a sua utilidade. Restos de comida, comida estragada, potes vazios, vidros quebrados e garrafas pet são alguns dos muitos exemplos. Porém, nem tudo o que vai para o lixo tem a sua utilidade completamente descartada. Os restos de comida podem virar adubo, os potes vazios podem se usados como vaso para mudas de plantas e as garrafas pet podem ser usadas para os mais diversos fins. E é aí que entram em cena os centros de coleta de lixo. Tais centros separam o lixo de acordo com a definição do mesmo (vidro, plástico, papel e vidro por exemplo) e o vendem para empresas que usam produtos reciclados por exemplo. 
     O processo acima analisado é lindo e seria mais bonito ainda se a quantidade de lixo reciclado fosse ainda maior. A realidade é que os centros de reciclagem não dão conta de tratar as muitas toneladas de lixo produzidas pela sociedade em várias regiões do Brasil. Em 2017, a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro disse que apenas 1,9% do lixo produzido na cidade é destinado à reciclagem, em São Paulo tal número sobe para 2,5% e no Distrito Federal, 5,8% do lixo passam pela coleta seletiva. Além disso, somente 1.055 cidades brasileiras (o Brasil tem 5.570 municípios) realizam a coleta seletiva, o que significa que apenas 18% dos municípios brasileiros realizam a reciclagem de todo ou parte do lixo que produzem. A quantidade do lixo reciclado no Brasil pode ser grande, mas a de lixo não-reciclado é absurdamente maior. Vale citar neste contexto os lixões a céu aberto e aterros sanitários. De acordo com dados da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), 75% dos rejeitos produzidos nas regiões Norte e Nordeste do país são jogados em lixões e aterros onde o solo não é impermeabilizado. Este número cai para 45% na região sudeste. Os lixões a céu aberto deveriam ser sido extintos no país em 2014, mas os mesmos continuam firmes e fortes no Brasil.

Urso polar procura comida no lixo. Créditos na imagem.

     A coleta seletiva de lixo se faz necessária porque, além de gerar empregos (o que é essencial diante do período de recessão que o Brasil está vivendo), contribui para a preservação do Meio Ambiente. Na mente de muitos, há a crença de que o que vai para o lixo deixa de existir, o que não é verdade. O que vai para o lixo continua existindo em algum outro lugar, perto ou longe de você. O planeta Terra pode abrigar a vida humana, mas não consegue abrigar as muitas toneladas de lixo produzidas pelos humanos. Na falta de espaço e de reciclagem do lixo, o mesmo é despejado em mares, florestas e rios por exemplo. Isso contribui com o aquecimento global e também para a extinção de alguns animais. Notícias de aminais que ingeriram plástico e morreram por causa disso e/ou de animais com lixo preso em alguma parte de corpo têm se tornado cada vez comum. Se algo não for feito, a tendência é a situação piorar nos próximos anos. 

Conclusão

     O planeta Terra tem capacidade para abrigar a vida humana, mas não a imensa quantidade de lixo que a mesma produz. Por conta disso, o lixo produzido pelos humanos costuma ser despejado em rios, florestas e mares por exemplo. Isso coloca o Meio Ambiente em risco, bem como os animais. Os recursos naturais são renováveis, mas não inesgotáveis. Se o lixo não for tratado e continuar a ser jogado em tais lugares, o que veremos (ou melhor: estamos vendo) será a destruição crescente da natureza e a extinção dos animais. Além disso, a coleta seletiva do lixo pode gerar muitos empregos, principalmente no Brasil, onde tem muita gente precisando. 
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