04/04/2017

A censura moral executada pelo Golpe Civil-Militar de 1964

Uma das características do Golpe de 1964 foi a censura política e também moral. Imagem: Reprodução.

     Não sei se vocês já perceberam, mas sempre quando eu me refiro ao período ditatorial de 1964-1985, eu uso o termo "Golpe Civil-Militar". Uso este termo porque o Golpe de 1964 não foi somente um golpe dado por militares: foi um golpe dado por militares sim, mas que teve o apoio de alguns setores da sociedade civil, como por exemplo o empresariado, a imprensa (jornais, revistas e televisão), setores da Igreja Católica e de denominações protestantes também, além daquelas pessoas que viam no golpe uma "saída para o Brasil não cair no comunismo". Dito isso, vamos para o assunto deste texto. Muito se fala da censura política deste período, mas talvez algo que muita gente desconheça e/ou que não dê muita atenção é que, além de um golpe político, o Golpe de 1964 foi também um golpe moral. Desta forma, tudo aquilo que atentasse contra "a moral e os bons costumes" era censurado. Com isso, temas que abordassem divórcio, feminismo e homossexualidade eram barrados pelos radares da censura. O sociólogo inglês Crane Brinton observou que nos regimes ditatoriais de direita ou esquerda a repressão política vem sempre acompanhada da repressão moral. Assim sendo, este texto mostrará alguns casos em que o Golpe de 1964 praticou a censura moral.

Leila Diniz em pose para foto. Imagem: Reprodução.
 
      Leila Diniz (1945-1972) se formou para ser professora, mas se tornou conhecida em todo o país pelo seu ofício de atriz. Ao longo de sua curta e intensa carreira, Leila atuou em quatorze filmes, doze telenovelas e várias peças teatrais. Não foi somente o ofício da dramaturgia que fez Leila Diniz conhecida: seu comportamento polêmico contribuiu para sua popularidade. Leila foi uma feminista "sem querer querendo", pois mesmo a atriz não se dizendo feminista, a mesma falava abertamente de sua livre vida sexual sem pudor algum, ainda hoje uma das pautas do movimento de mulheres. Além disso, em uma época de extrema repressão e conservadorismo, Leila posou de biquíni em uma praia mostrando a sua barriga de grávida. Dona de declarações polêmicas, Leila disse coisas do tipo: "Transo de manhã, de tarde e de noite" e "Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo". Se ainda hoje estas declarações são polêmicas, imagina então como deveria ser dizer isso entre os anos 1960 e 1970. Leila não passou imune por tudo isso: a jovem passou a ser perseguida pela polícia política e se escondeu no sítio do então colega de trabalho Flávio Cavalcanti, se tornando jurada do programa do mesmo. Isso aconteceu em um momento em que Leila passava a ser acusada de ajudar militantes de esquerda. Alegando razões morais, a Rede Globo de Televisão não renovou o contrato com a atriz. A novelista Janete Clair (1925-1983) chegou a afirmar que não haveria papéis de prostitutas nas próximas novelas da emissora. Leila Diniz morreu em um acidente aéreo na Índia, em junho de 1972. Leila Diniz pagou o preço por ser uma mulher de um perfil que não era aquele defendido pela censura moral: submissa, doce, sensível e sem o direito de exercer a sua sexualidade.

Da esquerda para a direita: Sílvia (Bete Mendes), Cauê (Buza Ferraz, 1950-2010) e Conrad Mahler (Ziembinski, 1908-1978) em cena da novela O Rebu (1974). Imagem: Reprodução. 

     Um dos primeiros personagens gays de uma novela no Brasil foi Rodolfo Augusto (Ary Fontoura) de Assim na Terra Como no Céu (1970). Nesta novela, o ator Ary interpretava um costureiro afeminado e caricato. A censura praticada pela ditadura não permitia falar mais do que isso. Em 1974, a Rede Globo de Televisão exibiu a novela O Rebu, escrita por Bráulio Pedroso (1931-1990). A novela foi uma verdadeira coqueluche devido a complexidade de seu enredo, o fato de ser uma das primeiras novelas exibida a cores (antes era tudo preto e branco) e o fato também de ser uma novela que ia e voltava no tempo frequentemente, não apresentando uma história linear. O enredo da novela era desenrolado em apenas 24 horas. O enredo de O Rebu (1974) gira em torno de uma festa cujos convidados eram pessoas da alta sociedade, festa esta que foi na casa de Conrad Mahler (Ziembinski), o anfitrião. Enquanto todos confraternizavam, um corpo aparece boiando na piscina da mansão de Conrad. Passa-se um tempo e todos descobrem que o corpo era de  Silvia (o autor não revelou de cara quem era a pessoa morta na piscina. O telespectador tinha que descobrir quem era. Nem era possível saber se a pessoa morta era homem ou mulher, já que em dado momento da festa as mulheres em uma brincadeira resolvem cortar o cabelo e usar roupas masculinas. Com isso, o defunto poderia ser um homem de fato ou uma mulher travestida de homem). No fim, o real motivo do crime foi revelado: Conrad Mahler matou Sílvia (Bete Mendes) por conta dos ciúmes que sentia do filho adotivo Cauê (Buza Ferraz). Sílvia e Cauê eram apaixonados e Conrad era apaixonado por Cauê, mas a paixão não era correspondida. Eram tempos de extrema censura e por conta disso Cauê foi apresentado como filho adotivo de Conrad. Entretanto, a trama mostrou de forma sutil que o amor que Conrad Mahler sentia por Cauê ia muito além de um amor entre pai e filho.

Cláudia Celeste foi a primeira transexual a atuar em uma novela brasileira. Imagem: Reprodução.

     Além da proibição de personagens homossexuais, o regime autoritário de então proibia que personagens LGBTs atuassem em novelas. Entretanto, a atriz transexual Cláudia Celeste teve ousadia para driblar a censura. A atriz conseguiu um papel de dançarina na novela Espelho Mágico (1977), mas quando descobriram que ela era uma mulher trans, Cláudia foi obrigada a sair da novela. Pouco mais de dez anos depois, quando a ditadura havia chegado ao fim, Cláudia conseguiu um papel na novela Olho por Olho (1988), onde seu personagem era uma mulher transexual. Atualmente, Cláudia Celeste continua trabalhando com a dramaturgia, mas longe da televisão.

A novela Despedida de Casado deveria ir ao ar no começo de 1977, mas a censura praticada pela ditadura não permitiu tal coisa. Imagem: Reprodução. 

     Despedida de Casado (1977) foi uma novela produzida pela Rede Globo de Televisão que mostra casais com crises em seus respectivos casamentos que, cada um a sua maneira, procuram salvar a união. A sinopse da novela foi mandada para a censura a fim de ser analisada e foi aprovada, mas depois que os censores viram os cerca de 20 ou 30 capítulos já gravados e com as chamadas da novela já no ar, a mesma foi totalmente censurada. O argumento usado pela censura foi de que a novela era "atentatória aos bons costumes", alegando que o texto de Walter George Durst (1922-1997, autor da novela) prega o fim do casamento, o amor livre, a dissolução da família e as brigas entre gerações. Isso porque a novela mostrava uma heroína que, ao se separar, buscava os prazeres que uma vida de solteira pode proporcionar. A moral da ditadura não permitia que um casal se divorciasse, independente do motivo. A censura da novela causou um prejuízo financeiro a TV Globo e a solução encontrada foi apresentar um compacto de O Bem-Amado (1973).

Clodovil Hernandes (1937-2009) foi vitima da ditadura por conta de  sua orientação sexual. Imagem: Reprodução.


     A censura moral exercida pela ditadura não se limitou somente às produções televisivas: ela se estendeu também para as músicas. Em 1972, durante a ditadura de Médici, o Ministro das Comunicações Higyno Corsetti ditava as normas para a televisão e defendia a proibição de programas que exaltassem "direta ou indiretamente, o erotismo, o alcoolismo e as inversões sexuais". Enquadrado no último item, o costureiro Clodovil Hernandes foi afastado do júri do programa do Chacrinha, na Rede Globo de Televisão. Ainda nesse contexto, Luiz Ayrão compôs uma canção intitulada "Homossexual", que segundo o próprio foi inspirada em Clodovil: "Vejo no seu jeito triste que a revolta existe.../ Vejo no seu rosto bem traçado/ Que podia ser amado por qualquer mulher.../ Homossexual! Homossexual! Homossexual!.../ A sociedade precisa entender/ Que é possível se viver sem conviver/ Não aplaudir mas não crucificar/ Não reprimir". A música foi vetada sob o curto argumento de que "a divulgação do homossexualismo é proibida pela lei censória". Com isso, a música de Ayrão ficou fora de seu disco e permanece inédita até hoje. Destino idêntico teve a balada "Desespero", onde a sugestão homossexual é cantada em primeira pessoa por Odair José, censurada "pela razão óbvia, concludente o flagrante de uma anormalidade confessa e aceita, em difusão do homossexualismo, prática considerada antissocial". 
     É de extrema importância ressaltar que não foi somente entre a direita e aqueles que apoiaram o Golpe Civil-Militar de 1964 que os LGBTs eram rejeitados. Nem a esquerda aceitavam os LGBTs. Isso porque o homem e a sociedade são frutos de uma época e no período em que o Brasil vivia uma ditadura, o tabu em torno de questões LGBTs era grande. Movimentos pró-LGBT estavam surgindo em todo o mundo, mas era tudo muito novo. Além disso, regimes totalitários perseguiram homossexuais, lésbicas, transexuais e  todos aqueles que não se encaixavam no padrão não-binário. Em 2010, o ex-líder cubano Fidel Castro (1926-2016) admitiu que seu governo perseguiu homossexuais entre as décadas de 1960 e 1970. Nesta época, gays e lésbicas foram exonerados de cargos públicos, presos ou enviados a campos de trabalho forçado. Desta forma, se um LGBT quisesse fazer parte de um movimento de esquerda, ele era obrigado a esconder sua orientação sexual. Foi o que houve com Herber Daniel (Herbert Eustáquio de Carvalho), membro do COLINAS (Comando de Libertação Nacional), organização que também teve a ex-presidente Dilma Rousseff entre seus integrantes. O historiador James Green, brasilianista da Brown University, conta que por ser um homem gay, Herber Daniel teve que esconder sua sexualidade para poder pertencer ao coletivo de luta anti-golpe, uma vez que a figura do homossexual era tão desprezada que nem nos meios de esquerda eles eram aceitos. O homem gay não "combinava" com a revolução. Isso porque havia certamente um ideal de corpo revolucionário e este mesmo corpo era viril, forte, másculo, heterossexual e cisgênero; e não um corpo "degenerado", "perverso", "doentio" e "afeminado", como se entendia (e ainda se entende) ser o corpo de um LGBT. 

Conclusão

     Além de ser um golpe político, onde um regime foi colocado à força, o Golpe Civil-Militar de 1964 foi também um golpe moral. Com isso, produções artísticas e notícias relacionadas a assuntos como divórcio, feminismo e questões LGBT eram proibidos de serem circulados. Este fato fez com que estes grupos fossem marginalizados e silenciados. Entretanto, graças às releituras da história, as vozes destes mesmos grupos vem sendo ouvidas. 

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