01/02/2017

O atraente e aparente discurso antipolítico

João Doria e Donald Trump. Ambos fizeram suas respectivas campanhas enfatizando que não são políticos. Imagem: Marcelo Brammer/Ag. News - Reuters.

      A campanha de João Doria e Donald Trump, em seus devidos contextos (Doria foi eleito prefeito da cidade de São Paulo e Donald Trump foi eleito presidente dos EUA, a maior potência econômica do mundo), foram marcadas pelo discurso antipolítico: ambos fizeram questão de enfatizar que não eram políticos (a campanha de João Doria teve o slogan: "eu não sou um político, sou um homem de negócios"). A vitória dos dois candidatos em questão mostra a descrença da população com relação aos políticos tradicionais. João Doria e Donald Trump representam o desejo de novo, que de novo não tem nada. Pelo contrário.
     O ano de 2016 foi ano de eleições no Brasil e também nos EUA. A diferença é que no Brasil as eleições foram para prefeito e vereador e nos Estados Unidos foram para a Presidência da República. Desde 2013 que o Brasil vive uma crise política sem precedentes na história  do país, onde a maioria da população está descrente com relação a políticos tradicionais e onde também o discurso fascista encontra eco. A seletiva Operação Lava-Jato denuncia com barulho os políticos do Partido dos Trabalhadores (PT), ao contrário do que acontece com os políticos dos outros partidos, em especial PSDB e PMDB. Tantos escândalos envolvendo o PT fizeram parte da população perder a fé no partido. É neste contexto que o empresário João Doria surge como candidato a prefeitura da cidade de São Paulo pelo PSDB. Doria sempre dizia que não era político e esta era a primeira vez que ocuparia um cargo na política. O adversário de Doria nas urnas era o então prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), que estava concorrendo a reeleição. A indignação seletiva da maioria da população fez com que Haddad (PT) perdesse ainda no primeiro turno as eleições para João Doria. Fernando Haddad obteve 16,70% dos votos e Doria 53,29%. É importante ressaltar que o massacre perpetrado pela Operação Lava-Jato e pela mídia golpista em cima do PT fez com que o mesmo perdesse muitas prefeituras em várias regiões do Brasil. Em 2016, o PT elegeu 256 prefeitos no primeiro turno e em 2012 o partido havia elegido 638 candidaturas. Foi uma queda de 60% em comparação a 2012.
     2016 foi ano de eleições presidenciais nos Estados Unidos, a maior potência econômica do mundo. Hillary Clinton (Partido Democrata), Bernie Sanders (político sem partido e que possui afinidade com o socialismo) e Donald Trump (Partido Republicano) eram os candidatos mais votados. Bernie Sanders perdeu a disputa pela presidência dos EUA, que ficou entre Hillary Clinton e Donald Trump. Hillary aparecia na liderança na maioria das pesquisas de intenções de voto e de fato ganhou a maioria dos votos populares. Entretanto, Trump recebeu a maioria dos votos dos delegados (voto indireto) e por isso foi eleito presidente dos Estados Unidos, fato que surpreendeu metade  do planeta. O que chama a atenção é que tanto Trump como Doria disputaram as eleições com políticos experientes. Fernando Haddad é graduado em Direito, mestre em Economia e doutor em Filosofia. Foi também Ministro da Educação nos governos Lula e Dilma. Haddad foi Subsecretário de Finanças e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de São Paulo na administração de Marta Suplicy. Além disso, Fernando Haddad integrou o Ministério do Planejamento do governo Lula durante a gestão de Guido Mantega. Já Hillary Clinton foi Secretária de Estado dos Estados Unidos, Senadora por Nova Iorque, primeira-dama de 1993 a 2001 (Hillary é casada com Bill Clinton, ex-presidente dos EUA) e se candidatou às eleições  presidenciais dos Estados Unidos em 2016.

Donald Trump e Hillary Clinton durante debate. Hillary ganhou a maioria dos votos populares, mas não foi votada pela maioria dos delegados. Imagem: Reprodução. 

       O fato de duas pessoas sem nenhuma experiência política anterior trouxe, ainda que aparente, um ar de renovação e esperança para a população. Em especial no Brasil, que vive uma crise política, moral e econômica sem precedentes em sua história. Entretanto, o discurso antipolítico revela na prática o que há de pior na política. Desde que chegou ao poder, Donald Trump tem sido alvo de protestos, barrou imigrantes de sete países de maioria muçulmana e até a entrada de brasileiros no país foi dificultada pelo atual presidente. Além disso, Trump proibiu o governo dos EUA de financiar grupos pró-aborto no exterior. Já João Doria é filiado ao PSDB, um dos partidos responsáveis pelo impeachment golpe que afastou a presidente eleita democraticamente Dilma Rousseff. Além disso, Doria tem causado polêmica ao apagar grafites em diversos muros da cidade de São Paulo e por aumentar a velocidade nas marginais da cidade, fato que tem gerado muita polêmica. Doria e Trump não trazem nada de novo para a política. Pelo contrário. A "nova política" destes políticos é uma falácia. Aliás, o termo "nova política" não vem de hoje.

A "nova política" de Marina Silva


A "nova política" tanto pregada por Marina  Silva durante sua campanha presidencial de 2014 não tinha nada de nova. Imagem: Reprodução.

      
Em 2014 aconteceu algo na política brasileira que parecia digno de uma série escrita pela roteirista Shonda Rhimes. Eduardo Campos era um dos candidatos à Presidência da República pelo PSB e Marina Silva era a sua vice. Em agosto de 2014, dois meses antes das eleições, o avião em que se encontrava Eduardo Campos cai em São Paulo. Ninguém sobreviveu. O acidente fatal causou comoção em todo o Brasil, em especial em Pernambuco, onde Eduardo havia sido eleito governador duas vezes. Alguém precisava substituí-lo e quem fez tal coisa foi Marina Silva. A ambientalista mudou as peças do xadrez eleitoral. Se Eduardo Campos não ia muito bem nas pesquisas de intenção de voto, Marina Silva apareceu na liderança isolada. A morte de Eduardo Campos e a consequente comoção, bem como a "nova política" pregada por Marina fizeram muita gente querer votar nela. Entretanto, o programa de governo de Marina era vago e incoerente. Além disso, a "nova política" pregada por Marina não tinha nada de nova. Para começar, Marina se filiou ao PSB apenas para se candidatar à Presidência da República e não ficar de fora das Eleições 2014, foi uma aliança de ocasião, sem propostas ou ideologia. O PSB, partido até então de esquerda, apoiou em São Paulo a reeleição de Geraldo Alckmin (PSDB) em São Paulo e de Beto Richa (PSDB) no Paraná (PSDB). Além disso, Beto Albuquerque, seu então vice, é historicamente ligado ao agronegócio. Algo contraditório para uma mulher que historicamente luta em defesa do Meio Ambiente e que durante muito tempo foi filiada ao PT, um partido de esquerda. O plano de governo de Marina Silva foi feito por megaempresários bilionários. Sua coordenadora de programa de governo e principal arrecadadora de fundos foi Maria Alice Setúbal, filha de Olavo Setúbal e acionista do Itaú. Outro parceiro antigo foi Guilherme Leal, sócio da Natura e que foi seu candidato a vice e um grande doador financeiro individual em 2010. Durante sua campanha presidencial de 2014, Marina Silva defendeu abertamente a independência do Banco Central. Na prática, isso significa deixar o mercado regular a si próprio, deixando a política econômica nas mãos dos banqueiros e não com o governo eleito democraticamente. Os mentores de sua política econômica foram duas pessoas ligadas a FHC, ex-presidente do Brasil: Eduardo Gianetti da Fonseca e André Lara Resende, ex-presidente do BNDES e um dos líderes da política de privatizações de Fernando Henrique Cardoso.
         Marina Silva possui posições conservadoras com relação às drogas, aborto e questões LGBTT. Quando seu plano de governo foi divulgado, estava lá escrito que os LGBTTs receberiam a atenção de Marina. Entretanto, após alguns tweets do pastor Silas Malafaia a ameaçando, Marina Silva mudou seu plano de governo e seu apoio a população LGBTT ficou incerto. Tal fato gerou muita polêmica e memes intermináveis na rede. Vale lembrar que Marina Silva é uma evangélica que frequenta a Assembleia de Deus. Desta forma, a morte inesperada de Eduardo Campos e a candidatura de Marina foram encarados como um sinal divino e que ela teria sido escolhida para ser a próxima presidente e salvar o Brasil.
         Conforme o tempo ia passando, a população ia percebendo as contradições de Marina Silva. Com isso, a ambientalista começou a cair nas pesquisas de intenções de voto. Quando estava perto das eleições para o primeiro turno, já era claro que Marina não chegaria no segundo turno, que foi disputado entre Dilma Rousseff e Aécio Neves. O resto da história todo mundo já sabe.

Conclusão

     João Doria e Donald Trump não representam nada de novo na política, muito pelo contrário. Eles representam o retrocesso e tudo o que há de pior. Além disso, o discurso antipolítico é político, sim. A questão é se o mesmo é excludente ou não. 

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