01/12/2016

Rio de Janeiro, cidade gay friendly?

Foto de uma edição da Parada do Orgulho LGBT realizada na cidade do Rio de Janeiro. Repare na tradicional e gigantesca bandeira do arco-íris, simbolo do orgulho gay. Imagem: Reprodução.

       A Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro é uma das mais conhecidas do país e também uma das mais conhecidas do mundo. A já tradicional Parada do Orgulho LGBT, realizada anualmente em Copacabana, bairro nobre da cidade do Rio de Janeiro, atrai milhares de pessoas, contribuindo positivamente para a economia, o turismo e a indústria hoteleira da cidade. Este é um dos fatores que fazem com que o Rio de Janeiro seja considerada uma cidade gay friendly, mas será que a cidade merece mesmo este título?
       Em fins dos anos 1920, Frida Vingren, missionária evangélica e figura emblemática na história das Assembleias de Deus no Brasil, disse em uma pregação que o Rio de Janeiro era visto pelos estrangeiros como uma cidade "corrupta e sodomita". Mais ou menos nesta mesma época, Madame Satã (apelido de João Francisco dos Santos) já era figura conhecida na Lapa, berço da boemia carioca. Madame Satã é vista como uma personagem emblemática da vida noturna e marginal carioca na primeira metade do século XX. Negro, pobre e homossexual, Madame Satã teve várias fichas criminais em seu currículo. Além disso, a Lapa é conhecida também por historicamente ser um reduto frequentado por homossexuais, transexuais e prostitutas.
      Uma professora minha da licenciatura contou certa vez em sala de aula que estudou em um colégio religioso muito rigoroso em um estado do nordeste do Brasil que agora não lembro o nome. Ela contou que as freias que administravam o colégio viam a cidade do Rio de Janeiro como um local onde só existiam "malandros", prostitutas e homossexuais. Isso foi entre as décadas de 1950 e 1960. Dando um longo passo na história, desde 2007 pelo menos que a praia de Ipanema, na cidade do Rio, mais especificamente entre os postos 8 e 9, é frequentada majoritariamente pelo público LGBT. Este local é frequentado por LGBTs cariocas, de outros estados e até de outros países. Eles trocam olhares, carícias e marcam encontros. As várias bandeiras do arco-íris presentes no local mostram o perfil do público que frequenta a área. Com o histórico até aqui mostrado, se pode concluir que LGBTs sempre existiram na cidade do Rio de Janeiro, o que não é mentira. Agora, será mesmo que a cidade do Rio é um paraíso para os LGBTs?
       No Brasil e mais especificamente na cidade do Rio, os LGBTs estão em toda parte: nas escolas, nos bares, nas universidades, nos salões de beleza e nas empresas por exemplo. Entretanto, por medo do preconceito, muitos escondem sua orientação sexual até no local de trabalho para não perder o emprego. Fora do ambiente de trabalho, LGBTs evitam mandar de mãos dadas, beijar na boca ou fazer um gesto carinhoso no companheiro para não serem alvo de agressões verbais e até físicas. A situação é ainda mais delicada para as transexuais, que diante de tanto preconceito são obrigadas a saírem da escola e mergulharem na prostituição. Em junho de 2016, o portal G1 Rio de Janeiro publicou uma notícia  dizendo que em uma semana o estado do Rio de Janeiro teve seis homossexuais assassinados. Os crimes aconteceram nos municípios fluminenses de Petrópolis, Paracambi, Mesquita, Duque de Caxias e Nova Friburgo. As vítimas tinham sinais de apedrejamento, enforcamento e até tiros. Além disso, há claros indícios de homofobia em tais mortes. Em julho de 2016, o portal Catraca Livre publicou uma matéria dizendo que o Brasil lidera o ranking mundial de mortes de LGBTs. O portal destacou o caso de uma travesti morta com uma facada no pescoço em Manaus, o caso de dois professores gays carbonizados dentro de um carro na Bahia e o caso de jovem homossexual morto aos 24 anos de idade em Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro. Segundo pesquisa do Grupo Gay da Bahia, 1.600 pessoas foram mortas por crimes de ódio nos últimos quatro anos e meio. Também foi informado que quase todos os dias LGBTs são assassinados no Brasil. O jornal norte-americano The New York Times sugere que o combate às mortes de LGBTs no Brasil é impedido pela antiga e forte cultura machista, além da força da religião cristã no Brasil.
       O Brasil tem vivido nos últimos tempos um período de retrocessos e conservadorismo. Foi neste contexto que as Eleições 2016 foram realizadas no país, em especial na cidade do Rio de Janeiro, refletindo este período que o Brasil vive. Em entrevista a um jornal carioca, o então candidato de extrema-direita à Prefeitura do Rio Flávio Bolsonaro (PSC-RJ) disse que não acabaria com a Parada Gay organizada anualmente em Copacabana, mas que não destinaria dinheiro público para o evento, que é o que acontece todos os anos. O então candidato argumentou que o estado do Rio de Janeiro passa por uma grave crise econômica e que é preciso cortar gastos e dar prioridade a algumas áreas. Flávio Bolsonaro disse também que caso fosse eleito, iria acabar com a Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual, criada por Eduardo Paes (PMDB-RJ). No lugar deste órgão, seria criada uma Secretaria de Direitos Humanos que daria atenção, segundo Flávio, a vítimas de todo tipo de crime. Vale ressaltar que em fevereiro de 2015 Flávio Bolsonaro criticou por meio de uma nota em seu site o gasto da Secretaria Estadual de Direitos Humanos, que chamou de "superintendência LGBT", com a realização de um casamento gay coletivo realizado em dezembro de 2014. "Com o Estado numa grave crise financeira, atrasando salários de servidores, parcelando 13º, não pagando gratificações, cortando verbas da segurança pública e faltando tudo nos hospitais, vocês concordam que o dinheiro dos nossos impostos seja usado para isso?", questionou no post, com o título "Estado falido banca festança gay". No mesmo ano, em um debate com Marcelo Freixo (PSOL-RJ), Marcelo Crivella (PRB-RJ) admitiu cortar verba da Parada do Orgulho LGBT que acontece anualmente em Copacabana, Zona Sul da cidade do Rio. Crivella disse também que não cortaria gastos com o Carnaval por gerar receita com o turismo na cidade, coisa que a Parada do Orgulho LGBT também faz. Em tempos de grave crise política e econômica, políticos conservadores  usam o discurso da crise para atacar os poucos direitos conquistados pelos grupos marginalizados. Marcello Crivella e Flávio Bolsonaro são políticos conservadores que já atacaram os LGBTs em diversos momentos. Não há dúvidas de que há LGBTfobia nas falas dos políticos aqui citados.
 
Conclusão
 
       Homossexuais, bissexuais e transexuais sempre existiram e vão continuar existindo na cidade do Rio de Janeiro e em qualquer outro lugar do mundo. Entretanto, o fato deste grupo historicamente marginalizado existir não significa que a cidade do Rio seja um paraíso LGBT. Por mais que a cidade tenha o título de gay friendly (termo norte-americano usado para se referir a lugares públicos e/ou privados que são abertos e receptivos ao público LGBT), o fato é que a LGBTfobia é uma dura realidade na cidade do Rio de Janeiro e em tempos de retrocessos esta realidade tende a ser ainda mais cruel.

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