08/12/2016

O lado político-social da saga Harry Potter

Foto de alguns membros da Armada de Dumbledore, grupo que tinha aulas práticas de magia com Harry Potter. A ideia do grupo surgiu depois que aulas práticas de Defesa Contra as Artes das Trevas foram proibidas em Hogwarts. O grupo agia na clandestinidade. Imagem: Reprodução.

     A saga literária Harry Potter dispensa apresentações. A saga de sete livros que virou uma saga de oito filmes conta a história de um bruxo, Harry Potter, predestinado a matar Lord Voldemort, um poderoso bruxo das trevas. Com uma forte ênfase no mundo da magia, Harry Potter ganhou milhões de fãs em todo o planeta e impactou a vida de milhões de jovens em todo o mundo. Por estas e outras razões, a saga do bruxinho mais famoso do planeta é mal visto por ser um "livro da moda", uma febre juvenil e vazia de mensagens e significados. Entretanto, com o passar do tempo e com as releituras dos livros e dos filmes, tal concepção em torno da saga Harry Potter tem caído por terra.
     Harry é um menino bruxo que perdeu os pais quando ainda era bebê. O poderoso Lorde das Trevas matou os pais do menino e tentou matar o mesmo, mas inexplicavelmente a Maldição da Morte bate no menino e retorna para Lord Voldemort, levando o mesmo a sumir por muitos anos, fato que levou muitos a acreditarem que ele tinha morrido, só que não. Com isso, Dumbledore, a professora Minerva e Hagrid levam Harry para a casa da irmã da mãe de Harry. Nesta casa, Harry é humilhado, dorme embaixo da escada e sempre é preterido em detrimento de Duda Dursley, filho de Petúnia (irmã de Lílian Potter, mãe do Harry), recebendo as roupas velhas do mesmo e sendo muito injustiçado também. Depois de descobrir que era um bruxo, Harry Potter vai estudar em  Hogwarts, onde conhece Rony Weasley e Hermione Granger, seus melhores amigos.
     Uma vez que conhece Rony Weasley, Harry conhece também a família do mesmo. A família de Rony é numerosa, composta  de sete filhos, incluindo Rony e a caçula Gina (que anos mais tarde se casa com Harry). Além de numerosa, a família de Rony é muito simples e também muito acolhedora, fazendo com que Harry passe a preferir ficar na na casa do melhor amigo do que na casa dos tios. Pelo fato de a família de Rony ser muito humilde, o mesmo tem de usar com frequência roupas e livros de segunda mão. Mesmo em meio a estes percalços, a família de Rony é amorosa, unida e acolhedora. Vale lembrar que, além de acolher Potter, a família Weasley acolhe também Hermione, uma bruxa que é filha única de pais trouxas (não bruxos). É importante lembrar também que, se parar para analisar, percebe-se que alguns dos personagens da saga em questão se completam e/ou não possuem uma família completa. Harry, um menino órfão, como já dito, mesmo tendo tios de sangue, se sente de fato acolhido junto do melhor amigo e o mesmo acontece com Hermione, sendo que os pais desta são muito amorosos. Neville Longbottom, colega de quarto de Harry e Rony, é um menino de bom coração e também muito desajeitado. É cuidado pela avó porque Belatriz Lestrange e outros Comensais da Morte (seguidores do Lorde das Trevas) torturam os pais do garoto com a maldição Cruciatos, fato que fez com que os pais do menino enlouquecessem. Desde então, Neville é criado pela avó e visita os pais regularmente no Hospital St. Mungos, centro médico que trata das doenças e acidentes mágicos. Outra que não possui família completa é a excêntrica Luna Lovegood, que perdeu a mãe quando tinha apenas nove anos de idade. A mãe de Luna faleceu ao fazer um experimento mal sucedido. Quem também não possui família é Rúbeo Hagrid, um meio-gigante que guarda as chaves e os terrenos de Hogwarts. Hagrid é órfão e ao longo da saga descobre que tem um irmão. A saga Harry Potter passa lições de amor e de importância  da amizade e da família. Não poderia terminar este parágrafo sem citar este caso emblemático. No segundo filme do último livro da saga Harry Potter (que foi dividido em duas partes), Narcisa Malfoy, mãe de Draco Malfoy, vai averiguar se Harry está morto. Ela percebe que ele está vivo e pergunta se o filho também está. Harry mexe discreta e positivamente a cabeça e então Narcisa mente, dizendo que Harry está morto, poupando a vida do garoto. Tal episódio mostra o amor de uma mãe para com o filho.

Da esquerda para a direita: Harry, Rony e Hermione. Ambos estão de frente para o Largo Grimmauld, casarão que em outras épocas era propriedade dos parentes de Draco Malfoy. Imagem: Reprodução.

     Se a família de Rony era humilde, a de Draco Malfoy era o extremo oposto. Draco Malfoy foi um grande desafeto de Harry nos tempos em que estudaram em Hogwarts. Draco Malfoy era filho do Comensal da Morte Lúcio Malfoy, um homem rico, arrogante, que se achava superior e que tinha amigos influentes nos circuitos político e social do mundo bruxo. Um fato que prova que Lúcio Malfoy era um homem rico, é quando, nos primeiros livros da série, ele dá para cada jogador do time de quadribol da Sonserina vassouras de última geração. Draco Malfoy pensava e agia tal como seu pai. A mansão que ficava no Largo Grimmauld era propriedade da família Black, uma família antiga, tradicional, rica e que se orgulhava de ter em sua árvore genealógica somente sangue-puro (bruxos que se relacionavam somente com bruxos). Malfoy era filho de Narcisa Black e, portanto, fazia parte desta mesma família. Uma vez que era herdeiro da mansão, Sirius Black cede a mesma para ser a Ordem da Fênix, organização criada por Alvo Dumbledore para derrotar Lord Voldemort e os Comensais da Morte. Um fato curioso: Sirius Black e Malfoy eram parentes porque Narcisa Malfoy e Belatriz eram primas legítimas de Sirius. Narcisa era também irmã de Andrômeda Tonks, mãe de Ninfadora Tonks, que se casa com Lupin e tem um filho com o mesmo. Siris foi morto por Belatriz, sua própria prima. Pelo fato de se envolverem com sangue-ruins (bruxos não puros), Sirius, Andrômeda e Ninfadora foram renegados pela família Black e tiveram seus rostos queimados na árvore genealógica dos Black.
     Talvez um dos primeiros temas abordados em Harry Potter é a questão da diversidade. Um bruxo sangue-puro era aquele que só se casava com bruxos e que tinha somente bruxos em sua árvore genealógica. Quem não se encaixava neste perfil era chamado pejorativamente de sangue-ruim. Draco Malfoy já usou este termo para se referir a Hermione, que era filha de pais trouxas. Lílian Potter, mãe de Harry, também foi chamada de sangue-ruim, mas por Severo Snape. Vale lembrar que bruxo mestiço era aquele que era filho de de um "sangue ruim" com um "sangue bom" e bruxo abortado era aquele que era filho de pais bruxos sem poderes. Neville Longbottom era um menino bondoso e desajeitado, fato que levava os demais estudantes, em especial os da Sonserina, a zombarem dele. Pelo fato de ter um comportamento excêntrico, os demais estudantes com frequência sumiam com as coisas de Luna Lovegood. Remo Lupin foi um dos muitos professores de Defesa Contra as Artes das Trevas que lecionaram em Hogwarts (nenhum professor ficava na cadeira por mais de um ano letivo, uma  vez que Lord Voldemort havia amaldiçoado o cargo, não deixando ninguém ficar no mesmo por muito tempo) e é considerado o melhor professor da disciplina. Entretanto, depois que descobriram que era um lobisomem, Lupin renuncia ao cargo porque sabia que seria rejeitado pelos pais dos estudantes, que não queriam ver um lobisomem perto de seus filhos. Sem dúvidas, Harry Potter abordou o modo com as minorias são discriminadas em uma sociedade. Em resposta a um seguidor no Twitter, J. K. Rowling disse que, se Harry Potter ensinou algo, é que ninguém deve viver em um armário.

Alvo Dumbledore e Dolores Umbridge em cena de Harry Potter e a Ordem da Fênix. Imagem: Reprodução.

    Em Harry Potter e a Ordem da Fênix, Harry, Rony e Hermione estavam no quinto ano de Hogwarts, período em que houve extrema repressão. Sem exageros. O Ministério da Magia não acreditava no retorno de Lord Voldemort, que havia ocorrido no ano anterior. Além disso, o mesmo ministério afirmava enfaticamente que Cedrico Diggory foi morto por um acidente e não assassinado pelo Lorde das Trevas. Tal versão dos fatos era largamente corroborada pelo jornal Profeta Diário. Seria este mesmo jornal uma alusão a mídia hegemônica golpista? O Ministério da Magia envia Dolores Umbridge para ministrar a disciplina de Defesa Contra as Artes das Trevas em Hogwarts. Na prática, Dolores era os olhos de Cornélio Fudge (então Ministro da Magia) na instituição. Ela foi enviada à escola pelo então Ministro da Magia para impedir uma suposta conspiração onde Dumbledore estaria levantando um exército para derrubar o ministério. Dolores se tornou a Alta Inquisidora de Hogwarts, fato que lhe dava poderes extraordinário sobre os estudantes. Enquanto exerceu tal cargo, Dolores proibiu reunião de estudantes e condenou as "más ações" dos mesmos. Como já dito, Dolores Umbridge foi professora de Defesa Contra as Artes das Trevas em Hogwarts e enquanto a mesma esteve neste cargo, as aulas práticas da disciplina foram canceladas. Ao invés disso, os estudantes ficavam lendo um livro durante a aula de Dolores. O objetivo era impedir que Dumbledore criasse um suposto exército para derrubar o Ministério da Magia. Percebendo que a guerra era mais que iminente e que precisavam estar preparados para isso, alguns estudantes de Hogwarts resolvem criar a Armada de Dumbledore, onde eles teriam aulas práticas de magia com Harry Potter. O grupo funciono na clandestinidade, até que um dia Marieta Edgecombe, amiga de Cho Chang, contou para Dolores sobre a existência do grupo (no filme, dá a entender que quem fez tal coisa foi Cho Chang). Entretanto, Marieta não passou imune: Hermione havia enfeitiçado o pergaminho onde os estudantes interessados em ter aulas com Harry escreveram seus nomes. Com isso, quando Marieta contou tudo para Dolores, furúnculos horríveis e cheios de pus se formaram em seu rosto formando a expressão "dedo-duro". O feitiço de Hermione foi tão  potente que até Dolores Umbridge teve dificuldade de desfazer o mesmo. Tal feitiço foi desfeito em parte, uma vez que Marieta permaneceu com as cicatrizes. Além disso, Cornélio Fudge e o Ministério da Magia só passaram a acreditar no retorno do Lorde das Trevas após um épico duelo na sede do ministério entre Lord Voldemort e Dumbledore.

Fred e Jorge em despedida épica de Hogwarts. Imagem: Reprodução.
   
     Vale destacar aqui um fato curioso. Era também no quinto ano de Harry e seus amigos em Hogwarts que os estudantes deveriam prestar os N.O.M.'s (Níveis Ordinários em Magia), onde, após o resultado dos mesmos, os estudantes deveriam escolher para cursar as matérias obrigatórias e as matérias que tinham afinidade. Fred e Jorge (ou George no original) eram os irmãos gêmeos de Rony Weasley. Eram brilhantes, mas não usavam a inteligência para o meio acadêmico, mas sim para fazer travessuras. Cansados da vida acadêmica e não suportando mais a presença de Dolores Umbridge no colégio, os gêmeos realizam uma despedia épica justamente no momento em que os N.O.M.'s eram executados. Os meninos abandonaram a escola em seu último ano e abriram um negócio próprio, a loja Gemialidades Weasley. No último livro, Jorge Weasley morre durante a batalha de Hogwarts. Os gêmeos podem ser interpretados como pessoas que não se encaixavam em um modelo tradicional de educação, que avalia somente um determinado saber.

Lord Voldemort durante a batalha de Hogwarts. Imagem: Reprodução.
   
     Quando eu li os três últimos livros da saga Harry Potter(a saber: Harry Potter e a Ordem da Fênix, Harry Potter e o Enigma do Príncipe e Harry Potter e as Relíquias  da Morte) eu estava entre o segundo e o terceiro ano do Ensino Médio e, portanto, já havia estudado os regimes nazi-fascistas e as ditaduras que ocorreram na América Latina na segunda metade do século XIX. Com isso, quando li estes livros, a primeira coisa que me chamou a atenção era que Voldemort me lembrava o nazismo. Isso porque o discurso de que os bruxos são uma raça superior é uma clara alusão a teoria de raça ariana defendida pelos nazistas. Foi neste período também em que houve grande censura por parte do governo, fato que me lembrou os regimes ditatoriais que os países da América Latina experimentaram no século passado. Em outubro de 2015, o site Fatos Desconhecidos publicou um texto mostrando cinco fatos que mostram que Adolf Hitler inspirou Lord Voldemort (Leia aqui). Entretanto, não é somente Lord Voldemort que faz uma alusão ao nazismo de Hitler. Grindelwald é lembrado como o mais terrível bruxo da história da magia, que aterrorizou o mundo bruxo entre as décadas de 1930 e 1940. Mesmo empunhando a Varinha das Varinhas, Grindelwald foi derrotado pelo mega respeitado bruxo Alvo Dumbledore em um duelo que, segundo Elifas Doge, inspirou "terror e admiração" a todos que presenciaram o embate. Grindelwald esteve no poder e foi derrotado no mesmo período em que Hitler governava a Alemanha e que posteriormente foi derrotado, findando a Segunda Guerra Mundial. Grindelwald adotou como seu um símbolo muito antigo, o das Relíquias da Morte. Da mesma forma, Hitler adotou a suástica. Além disso, a prisão de Nurmengard tem um nome semelhante à cidade de Nurembergue, onde ocorreram o julgamento de ex-nazistas. O papel de Nurmengard como prisão tanto de apoiadores como para o próprio Grindelwald pode ser uma alusão ao significado de Nurembergue na Segunda Guerra, onde, para além de ser o local dos Julgamentos de Nurembergue, ocorreu também a proposta das Leis de Nurembergue, que discriminava os judeus. A inscrição "Para um Bem Maior" em Nurmengard parece ser um  paralelismo às placas que diziam "Arbeit Macht Frei" ("O Trabalho Liberta", em alemão), que ficavam na entrada do campo de concentração de Auschwitz. Grindelwald é um lugar na Suíça que o artista Richard Wagner (a quem Hitler admirava) vivia. J.K. Rowling admitiu que gosta da ideia de que enquanto acontecia a Segunda Guerra Mundial no mundo dos trouxas, a comunidade mágica também estava em guerra e que uma alimentava a outra.

Imagem que circulou nas redes sociais a umas semanas atrás, fazendo uma comparação entre a batalha de Hogwarts e o movimento estudantil que ocupou (e ainda ocupa) escolas Brasil a fora. Imagem: Reprodução. 

     Em Harry Potter e as Relíquias da Morte, sétimo e último livro da saga Harry Potter, acontece o episódio conhecido como Batalha  de Hogwarts, quando a guerra contra Lord Voldemort acontece, deixando um considerável número de mortos. Neste mesmo período, a guerra era mais que certa e o colégio de Hogwarts estava sendo rigidamente protegido e vigiado e, além disso, havia estudantes que estavam lutando bravamente em Hogwarts. Harry e seus amigos foram ao castelo procurar o diadema de Ravenclaw, objeto que Voldemort transformou em horcrux (objeto onde a pessoa corta parte da alma e a deposita em tal coisa). Voldemort sabe que Harry está no castelo, mas ninguém o entrega. A guerra eclode, deixando um grande número de mortos e o castelo de Hogwarts quase destruído. Professores e membros  da Ordem da Fênix lutaram bravamente contra Lord Voldemort e os Comensais da Morte. Não se pode ignorar a atuação dos estudantes da escola, que lutaram bravamente contra o mal, pagando, em alguns casos, com a própria vida. Desde 2015 que escolas de todo o Brasil vem sendo ocupadas como forma de protesto contra os desmandos do governo. É neste contexto que a saga Harry Potter é relembrada. Algumas pessoas, em especial aquelas que são a favor da ocupação das escolas, lembraram que na saga em questão o Lorde das Trevas foi derrotado por estudantes de uma escola ocupada, que no caso é Hogwarts. Talvez muita gente pode não ter percebido, mas o fato é que a luta dos estudantes de Hogwarts foi essencial para a derrota de Lord Voldemort.

Conclusão

     Harry Potter não é rico somente pelo seu foco no mundo da magia. J. K. Rowling, autora da saga, criou um mundo novo onde Harry vive. Neste mesmo mundo há um contexto mágico, social e político, onde as alusões com o mundo dos trouxas são mais frequentes do que se imagina. 

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