16/06/2016

Porquê me desliguei da Assembleia de Deus

Eu entoando um hino da harpa durante culto de jovens na Assembleia de Deus onde congregava. Foto: Arquivo Pessoal. 

     Definitivamente este não é o meu assunto predileto e não é com qualquer pessoa com quem eu falo sobre isso. Entretanto, eu não devo ficar guardando as coisas só para mim. Por conta do aniversário de fundação da Assembleia de Deus no Brasil (que ocorre no dia 18 de junho), eu resolvi explicar com clareza os motivos que me levaram ao desligamento da maior denominação evangélica e pentecostal do Brasil.
     Hoje, olhando para trás, eu entendo que os motivos que me levaram a me desligar da AD são muitos e o caminho que me levou a tal atitude é longo. Entrei para a AD quando tinha 13 anos de idade. Antes disso, eu havia sido batizado na Igreja Católica, frequentado a AD quando criança com a minha mãe (depois que meus pais se divorciaram, minha mãe havia se tornado uma assembleiana fervorosa. Já tem mais de 10 anos que ela está desligada da denominação) e deixei de frequentar a mesma quando minha mãe tomou tal atitude. Frequentei por um breve período de tempo o espiritismo, mas por pressão dos parentes (que são majoritariamente assembleianos), acabei deixando de frequentar (não culpo minha família por ter largado o kardecismo. Já os enfrentei em diversos momentos) o centro espírita que até hoje tem aqui perto de casa. Passei um tempo sem frequentar religião alguma, até que em janeiro de 2004 (nasci em novembro de 1990, então quando entrei para a AD, eu tinha 13 anos de idade) aceitei o convite de uma prima para integrar um conjunto de adolescentes da Assembleia de Deus. Esta mesma AD é uma congregação onde a maioria dos meus parentes congregam. Os pastores são meus parentes, o secretário da igreja é meu parente, uma das dirigentes do círculo de oração é minha parente, no conjunto jovem havia parentes meus, havia parentes minhas no conjunto das irmãs e até no conjunto de adolescentes havia primos meus. Aliás, a regente que me chamou para fazer parte do conjunto de adolescentes é uma prima minha. Enfim, era uma igreja familiar, onde os meus parentes surgiam de todos os lados. Sem dúvidas, a minha filiação à Assembleia de Deus marcou uma nova fase em minha vida.
     Eu gostava de cantar nos adolescentes, estava em todas as saídas (quando o conjunto era convidado para cantar em alguma igreja), não faltava um ensaio e era assíduo na escola bíblica. Eu era considerado também um cristão exemplar, sempre calmo, dedicado e presente nas tarefas da igreja. Ensaio? Lá estava o Marllon. Culto de Adolescentes? Lá estava o Marllon. Culto de senhroas? Lá estava o Marllon. Oração? Lá estava o Marllon. Monte? Lá estava o Marllon. Entretanto, nem tudo eram flores. Tinha muitas críticas com relação ao modo como o pastor conduzia a igreja. Na verdade, acho que nem ele e o vice sabiam fazer isso. Além disso, neste mesmo ministério eu me senti jogado e ainda por cima tive a minha vida exposta no púlpito da igreja, em um culto de domingo (a AD que eu congregava era tradicional - hoje não mais. Na época que eu fiz luzes no cabelo, eu estava indo contra um regulamento da igreja que não permitia tal coisa. Entretanto, outros jovens haviam feito o mesmo penteado e nada havia acontecido. Porém, eu não saí ileso depois que fiz o penteado em questão. Para piorar a situação, em um culto de Santa Ceia, a minha vida foi exposta e, mesmo sem meu nome ser citado, eu me senti mal e constrangido. Todos que sabiam do ocorrido perceberam que era de mim que o pastor falava). Por estas e outras razões eu resolvi me desligar da AD familiar, indo para uma outra Assembleia de Deus que tem aqui perto de casa.
     Esta Assembleia de Deus que eu passei a frequentar (inicialmente, eu frequentava apenas a escola bíblica, pois na AD que fazia parte a mesma era na sexta e eu não podia ir. Foi tudo aos poucos e quando me dei conta, eu estava mais nesta AD do que a AD pastoreada por meus parentes) era o oposto da AD que era composta por minha família. Ela foi uma das primeiras igrejas a serem fundadas aqui na favela, abrindo espaço para outras ADs e igrejas de outras denominações (aliás, a igreja que eu entrei quando tinha 13 anos era composta por dissidentes desta mesma igreja). É uma igreja antiga (com mais de 50 anos de atuação) e experiente. Foi uma igreja que me acolheu desde o primeiro instante e os membros nunca me trataram mal. Quando entrei para esta AD, foi tudo muito rápido também. Eu estava em processo de transição de ministério quando participei da festividade dos jovens, comecei a pregar, dirigir cultos e dar aulas na escola bíblica. Eu continuava sendo um cristão fervoroso e envolvido com as  atividades da igreja. Ia nos cultos da semana, ia para a oração dos jovens, cantava no conjunto jovem e dava aulas para a mocidade. Foi neste momento que começou também uma verdadeira perseguição perpetrada por minha família. 
     Mesmo eu sendo cristão e ainda estando na AD pastoreada por minha família, eu já apoiava a causa LGBT. O motivo que levou a apoiar a mesma foi a grande quantidade de gays que haviam no colégio onde fiz o Ensino Médio e com quem eu fiz amizade também. Declarava o meu apoio sem medo algum. Isso me custou um preço: amigos e até parentes me excluíram de suas respectivas redes sociais (os que não me excluíram, me bloquearam). Entretanto, nenhuma liderança da igreja vinha falar comigo. Por enquanto. Na primeira semana após a festividade dos jovens (que ocorreu em 2015), os líderes do conjunto me falaram que pessoas haviam ido até eles e lhes mostrado as minhas postagens, onde eu mostrava o meu apoio aos gays. Os até então meus líderes me recomendaram que eu apagasse ou deixasse de postar fatos relacionados ao assunto. Acatei em parte o conselho. Eu sempre estava comentando em minhas redes sociais algo relacionado aos LGBTs, seja a morte de um gay por homofobia, seja uma conquista alcançada ou algo do tipo. Entretanto, este meu gesto foi entendido como um "incentivo à prática homossexual".
     O meu apoio a causa LGBT não foi a razão do meu desligamento da AD, mas sim "a cereja do bolo". Eu criticava (e critico) abertamente o pastor Silas Malafaia, o "muso dos evangélicos"; critico também o Feliciano e toda essa corja que se diz cristã. Como pode um cristão criticar outro cristão e mais do que isso: expor estas críticas publicamente? Como pode um cristão se posicionar contra a bancada evangélica? Como pode um assembleiano criticar abertamente a Assembleia de Deus? Era um paradoxo total. Tudo isso, mais o meu apoio aberto a causa LGBT me fizeram sair da AD. Eu dava aulas para os jovens na escola bíblica e após isso tive uma conversa acalorada com meus líderes e uma integrante do conjunto (não vale a pena entrar em detalhes acerca desta discussão). Nesta mesma conversa, um dos líderes da mocidade confessou que não estava mais aguentando "tomar paulada" por minha causa. Isso porque, embora ninguém me falasse nada, ele estava sendo mega pressionado por conta de meus posicionamentos (aliás, o pastor foi conversar com meus líderes no gabinete por minha causa. Entendam a que nível chegou a situação). O meu líder me falou também que as críticas (que na verdade eram perseguições) vinham principalmente do ministério pastoreado por minha família. E ele foi irônico, dizendo que se colocasse minha cabeça a prêmio, ele ia ganhar um dinheiro bom e o pessoal do ministério cujos meu familiares são os pastores iriam querer a mesma. No fim desta mesma conversa, eu entreguei tudo. Disse que não sentaria mais na mocidade, que não daria mais aulas para os jovens e que me desligaria da igreja. Isso foi no dia 12 de julho de 2015.
     Cerca de quatro ou cinco dias depois do ocorrido eu encontrei um dos líderes da mocidade. Ele voltou atrás com relação às "pauladas" e disse que eu poderia permanecer na igreja, mesmo sem estar na mocidade ou dar aulas na escola bíblica. Entretanto, eu não quis. Eu era uma pessoa ativa na igreja e não queria "ficar no banco". Além disso, eu já estava muito chateado com tudo o que havia acontecido. Eu suportei as críticas até onde deu para suportar. Entretanto, chegou uma hora que não deu mais. A situação havia chegado no limite. Quando me desliguei da AD, o templo ia fazer seu aniversário no fim do mês. Uma irmã me chamou para fazer parte de um coral composto por membros da igreja que cantaria nos dias de festa. Eu aceitei e estava participando dos ensaios e até cheguei a comprar a gravata para ser usada no dia, só faltava o blusão. Eu não participei do coral. Todos os anos os jovens do campo se reúnem em uma confraternização. Eu planejava participar, mas não participei. 
     Como a igreja estava se preparando para uma festa, eu esperei tudo passar para comunicar ao pastor o meu desligamento. Passou-se a festa e eu anunciei ao pastor que não queria mais congregar na igreja. Isso aconteceu após uma escola bíblica. Foi uma conversa rápida (mais rápida do que pensei). Não havia o que conversar, ele só ouviu e concordou. A única coisa que ele pediu foi que eu voltasse a igreja para visitar a todos. Isso foi no começo de agosto de 2015. Ainda não voltei lá. 
       O meu líder de mocidade ficou um tanto quanto frustrado, pois a intenção dele era me deixar como professor e me colocar modo líder e regente musical da mocidade. Os planos foram frustrados. Eu me desliguei da AD no dia 12 de julho de 2015, dia em que entrei meu cargo como professor da escola bíblica, que deixei de sentar na mocidade e cancelei a minha participação nos futuros eventos da igreja.
     Confesso que tudo isso me feriu demais. Até hoje eu não gosto muito de falar sobre o assunto. Na verdade, eu não gosto de falar deste assunto com qualquer pessoa, pois não sei como elas irão reagir. A última coisa que eu quero é "levar pauladas". Foi por causa disso também que eu até evitei pessoas cristãs que gosto para não ter que falar sobre este assunto. Só Deus sabe o que passei e o que senti durante este processo. Eu ouvi de forma pejorativa que "tinha opinião formada", que tinha uma "mente cauterizada", e que "não queria mudar". O meu líder chegou a me dizer que se eu pensasse bem, eu veria que nem tudo ia poder colocar no Facebook. Me recomendou a pensar bem e aí chegaria a conclusão de que nem tudo eu poderia falar. Mas falou que caso eu não quisesse mudar, que eu deveria sair da igreja. Ouvi também que por supostamente ter me afastado de Deus, que O mesmo me daria uma rasteira. Uma pessoa tão ferida não poderia ouvir algo melhor (irônico)!
      Além disso, eu ainda estou bastante chateado por tudo isso ter sido perpetrado em grande parte pela igreja pastoreada por minha família. Mas é como sempre dizem: o perseguidor vem de dentro de sua própria casa. Além disso, não é preciso dizer que esta não é uma atitude sábia para uma pessoa que se diz cristã.

Pontos negativos e positivos da Assembleia de Deus

     Convivi por muitos anos na Assembleia de Deus. Além disso, eu estudo a história desta mesma denominação. Com isso, modéstia parte, eu tenho respaldo para dizer os pontos positivos e os pontos negativos desta mesma denominação. A AD é uma igreja autoritária, centralizadora e personalista (culto ao líder). A AD também é uma igreja feminina, mas ao mesmo tempo machista. Isso porque, embora a quantidade de assembleianas seja superior ao de assembleianos, quem toda a decisão final é o homem, que é minoria. O ministério feminino é extremamente limitado na Assembleia de Deus. A Assembleia de Deus é também uma igreja popular, mas ao mesmo tempo hierárquica. Isso porque, mesmo os membros em sua maioria sendo de origem humilde, a AD adota um modelo hierárquico de organização, onde a palavra de um obreiro não tem o mesmo peso que a palavra de um diácono, onde a palavra de um diácono não tem o mesmo peso que a palavra de um presbítero e onde a palavra de um presbítero não tem o mesmo peso que a palavra de um pastor. Aliás, a palavra de um pastor não tem o mesmo peso que a palavra de um pastor-presidente, líder máximo de um ministério assembleiano. De uma forma ou de outra, este modelo acaba indo contra os princípios bíblicos. Não foi o apóstolo Paulo quem disse que a igreja é como o corpo humano, onde um não é mais importante que o outro, mas sim complementar? Segundo este mesmo apóstolo, Cristo é a cabeça, que comanda todo o corpo, que no caso é a igreja.
     Neste mundo, nada é 100% ruim ou 100% bom. Logo, se a Assembleia de Deus tem pontos negativos, ela também tem pontos positivos. Se você for em uma favela, verá que em praticamente cada esquina tem uma Assembleia de Deus. Faça a prova você mesmo e verás que não estou exagerando. Além disso, os assembleianos são muito corajosos. Eles não tem medo de abrir um templo perto de uma boca de fumo ou em uma área de conflito constante. Nas duas ADs em que congreguei, eu testemunhei tiroteios quando estava dentro do templo. Eles fazem isso porque confiam que o Espírito Santo é quem os guia e guarda. Logo, não há o que temer. Foi com base nesta mesma lógica que muitas mães foram consoladas, foi nesta lógica que muitos traficantes se livraram da morte e foi com base nesta lógica também que muitos bandidos se converteram. De fato, a Assembleia de Deus é uma igreja que adentrou no mais profundo das favelas do Rio de Janeiro e do Brasil. Em uma favela pode não ter segurança, saneamento, água encanada e até uma escola funcionando. Mas ali há uma Assembleia de Deus. Sem dúvidas, as demais denominações não tem um apelo popular tão forte como a Assembleia de Deus tem.
      A AD é organizada por departamentos, onde há o departamento de crianças, de adolescentes, de jovens e das senhoras. É tudo muito bem organizado de acordo com a faixa etária de cada um. Em dia de culto, principalmente os de domingo, todos os conjuntos cantam e no fim ninguém fica de fora. Foi nessa que sem dúvidas eu peguei gosto pela música. No começo, eu só ouvia gospel, mas com o tempo eu passei a ouvir de tudo um pouco. Não me preocupo em definir meu gosto musical, pois música boa não tem ritmo e nem idade.

Conclusão

    Entre as razões de eu ter entrado para a Assembleia de Deus foi o fato de eu ter passar por determinadas situações em minha vida. Entrei para esta denominação porque naquele momento da minha vida foi o que me ajudou a passar por vários momentos difíceis, me orientando na tomada de decisões certas. Hoje, quando olho para trás, eu vejo que nunca fui um assembleiano dentro dos padrões. Gostava de Rebelde, gosto de Harry Potter (ambos reprovados pelos cristãos) e sempre tive um ritmo intenso de estudos, o que dificultava a minha presença nos cultos durante a semana. Aliás, foi por este fato que ganhei a alcunha de "crente domingueiro". As pessoas só passaram a me olhar diferente depois que entrei para a UERJ. Todos me olhavam com admiração. Em uma terra onde as pessoas tem no máximo o ensino médio, quem tem ensino superior é rei.
      Sai da AD, mas não larguei a minha fé. Eu sempre faço minhas orações e leio a Bíblia, mesmo sem visitar uma igreja  evangélica há quase um ano. Eu até pensei em procurar uma nova igreja, mas fiz. Não descarto a possibilidade de entrar em uma nova denominação, mas não é este o meu desejo. Estou bem onde estou. Depois que saí da AD, eu passei e estou passando por uma mudança muito grande. Às vezes eu percebo isso, às vezes não. Posso não saber o que sou, mas já sei o que não sou. É fato que eu guardo comigo muitas coisas boas da AD (até hoje eu compro a revista da escola bíblica da CPAD, órgão da Assembleia de Deus), mas aquilo que acho ruim e/ou não concordo, eu deixo de lado. A única certeza que tenho é que não sou mais assembleiano. 

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