03/04/2015

Os dilemas de um universitário nos momentos finais da faculdade

Ampulheta: simbolo do curso de História. Imagem: Álvaro Pereira Advogados Associados

     A vida do ser humano é formada de desafios, bem como é feita também da abertura e do final de ciclos. Quando tinha só o Ensino Médio, eu me preocupava em entrar na faculdade e agora que estou terminando a faculdade , eu me preocupo com o que vou fazer depois que me formar.
     A primeira vez que fiz um cursinho foi no ano de 2008, ano em que terminava o meu último ano no Colégio Estadual Antônio Houaiss, no Méier, Rio de Janeiro. Estudar no Antônio Houaiss foi uma experiência maravilhosa, pois conheci pessoas com gostos diferentes, vindas de bairros que conhecia só de nome (e as vezes nem de nome tinha ouvido falar do bairro), com orientações sexuais diferentes, adeptas de outras crenças, ... Estudar neste colégio foi maravilhoso porque foi um período mágico, de descobertas e de novas experiências. Era um ciclo que estava se iniciando na minha vida e muitas experiências esperavam por mim. Como todo ciclo, uma hora tem de fechar. Este ciclo se iniciou em 2006 e estava findando em 2008. Agora que terminava o Ensino Médio, eu deveria estudar para entrar em um curso superior. Eu sempre gostei muito de História, mas não havia pensado em fazer um curso superior na área. Além disso, eu tinha vontade também de fazer jornalismo, pois gosto muito de ler e escrevo bem. Eu deveria escolher entre um curso ou o outro. No fim das contas, eu não fiz foi nada. Isso porque eu tinha 17 para 18 anos e não sabia bem o que queria da vida e, além disso, eu não sabia conciliar o último ano do colégio com o cursinho. No fim das contas, acabei me dedicando a escola e terminei o Ensino Médio.
     O ano de 2009 chegou e eu já havia decidido que queria cursar História. O desejo em cursar Jornalismo ainda estava lá, eu tentava estudar para os dois cursos ao mesmo tempo. Em umas universidades em escolhi História e em outras eu escolhi Jornalismo. Fiquei na História. Em 2009, eu já havia terminado o Ensino Médio e poderia me dedicar exclusivamente ao cursinho. O lugar onde eu fazia o cursinho foi um lugar de muito aprendizado. Estudei em um cursinho comunitário, o CEASM (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, onde eu retornaria mais tarde para dar aulas e coordenar o curso pré-vestibular, onde anos antes eu havia sido aluno) e lá me deu as bases do que sou hoje, muito da concepção de mundo que carrego começou neste espaço, onde durante as aulas os professores sempre davam uma nova visão aos fatos e discutia os acontecimentos da atualidade sob a ótica dos excluídos. Constantemente estamos revendo e amadurecendo nossas visões e sem sombra de dúvidas tudo isso começou no CEASM.
    Batalhei e colhi o fruto. Estudei todo o ano de 2009 para entrar em uma faculdade e, graças sobretudo ao meu esforço, eu havia conquistado uma vaga na UERJ no curso de História. A entrada na universidade não foi fácil, pois era uma rotina que eu até então não conhecia. A minha principal dificuldade era com relação aos textos, pois por mais que eu gostasse de ler e já tivesse o hábito da leitura antes de adentrar a faculdade, a leitura da universidade era uma leitura que eu não estava acostumado, leitura essa sempre densa e em uma linguagem difícil. O que também fez os meus primeiros momentos na faculdade serem difíceis foram as provas. Em provas na área de Humanas (principalmente na História) a gente escreve bastante e lê também e eu ainda não havia aprendido a escrever muito em pouco mais de duas horas de prova. Com isso, os meus três primeiros períodos foram bem difíceis, mas nada que eu não viesse a me acostumar com o tempo.
     De fato, o tempo passa e parece que foi ontem que eu conversava no extinto MSN enquanto via a reclassificação da UERJ (eu entrei na reclassificação, na segunda mais especificamente falando). Quando vi que tinha uma vaga garantida, vibrava de alegria eu e meu amigo lá do Paraná. Foi um dos dias mais felizes da minha vida, mas não. Isso não foi ontem, dia 02 de abril de 2015: isso foi em março de 2010. Nesse momento, a minha luta para garantir uma vaga na universidade estava finda e eu saía vitorioso. Agora, estou prestes a me formar e o dilema está sendo outro: o que fazer?
     Antes de continuar o assunto, eu quero esclarecer duas coisas. A primeira é que eu gosto muito de ler e já pensei em cursar Jornalismo enquanto segunda graduação, mas como quero fazer mestrado e doutorado em História e como tenho que dar aulas também, encaixar uma segunda graduação no meio de tudo isso fica complicado. A outra coisa também é que o que vou falar de agora em diante não acontece apenas no curso de História, mas como é o curso de História onde estou inserido, eu vou partir das vivências dentro do meu curso.
     Eu sempre soube que o curso de História  no Brasil traz pouco retorno financeiro e, ainda assim, eu escolhi fazer este curso. Agora, que estou prestes a me formar, eu me preocupo com a inserção no mercado de trabalho. Concursos para o magistério não abrem constantemente e, mesmo sendo aprovado, demoram a chamar. Dar aulas em cursinhos e colégios particulares (dependendo do colégio) é uma luta, pois você tem que dar aulas em vários lugares, uma vez que a hora/aula é uma miséria. Ser aprovado em um concurso público para o magistério não é tarefa fácil, pois a prova é relativamente difícil e muito dificilmente você é aprovado na primeira prova que faz. Isso até que é possível, desde que estude muito. Muito mesmo.
     O escape de muitos graduados em História para se livrar da vida dura do magistério está sendo o mestrado. É cada vez mais comum e maior a quantidade de pessoas que terminam a monografia e ingressam em um mestrado. Conheço de perto casos de historiadores que entregaram correndo a monografia para não perder a vaga conquistada no mestrado e isso sem contar com aqueles casos em que está no mestrado e ainda preso a graduação, uma vez que não terminaram de fazer as disciplinas da licenciatura. Eu não acho legal esse movimento, de emendar o mestrado assim que termina a graduação. Isso porque quando se chega no mestrado, você tem que ter uma bagagem mínima de leitura e de estudo dentro do tema que escolheu para pesquisar. Isso sem contar com o fato de ter também produzido minimamente (escrever artigos, apresentar trabalhos, participar de eventos, cursos, ...) dentro daquilo que escolheu para pesquisar. Uma pessoa vai para o mestrado assim que termina a graduação dificilmente consegue fazer isso. Além disso, antes de entrar em um mestrado, porque não vai ter uma experiência, como dar aulas por exemplo?; é um absurdo uma pessoa que ainda está na metade da graduação se preocupar com um mestrado, vai ter um pouco de experiência na sua área primeiro!! Vou falar uma coisa para vocês: todo esse ingresso precoce no mestrado e a pressão dos órgãos financiadores a fim de ver resultado nas pesquisas que estão sendo financiadas faz com que a qualidade das produções, bem como a sua densidade e reflexão (próprios da área de humanas) fazem com que sejam sensivelmente diminuídas. Outra coisa que devo falar com vocês: quando você faz uma graduação (sobretudo a monografia), o mestrado e o doutorado, se parte do pressuposto que você vem estudando o mesmo assunto da graduação ao doutorado. Com essa entrada precoce no mestrado, o que vejo é a pessoa pesquisando uma coisa na monografia, outra no mestrado e outra completamente diferente no doutorado. Isso é mais uma crítica que faço a todo este movimento.
     Outra coisa precisa ser dita aqui. Fui incentivado a emendar um mestrado assim que terminasse a graduação. Um dos argumentos para isso estaria no fato de eu ainda ter contato com meu orientador na graduação. Isso porque se eu demorar a entrar no mestrado, eu posso não mais ter contato com ele, o que dificultaria o meu ingresso no mestrado.  Este fato mostra que nas muitas universidades o ingresso no mestrado não depende única e exclusivamente do esforço da pessoa em passar nas etapas (prova escrita, avaliação do projeto, entrevista e prova de língua estrangeira), mas depende também de um professor que possa orientar a pessoa na pesquisa. E se esse professor for alguém que você conhece e que já te orientou antes, melhor ainda.
     O mestrado hoje em dia está tão banal quanto a graduação, quando não deveria ser. O mestrado deve ser um aprofundamento maior do seu objeto de pesquisa e/ou daquilo que pesquisou na graduação. Eu não julgo ninguém, pois muitos dos que emendam um mestrado querem se livrar da dura vida do magistério.
     Além disso, a função do historiador precisa ser revista o quanto antes. Um historiador pode muito bem ter um blog (como é o meu caso), ter colunas em revistas (como a Mary Del Priore), escrever livros para o grande público (como a Mary Del Priore), servir de consultor histórico para autores de novelas, carnavalescos e organizar arquivos em empresas. História dá dinheiro (a biografia é o gênero histórico mais vendido e usando mais uma vez a Mary como exemplo, os livros dela são verdadeiros sucessos e a Aventuras na História é a revista mais vendida da Editora Abril, perdendo somente para a Revista Veja. Isso sem citar Laurentino Gomes), só basta a gente saber explorar. 

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