18/04/2015

Cristianismo: uma instituição mutável

Imagem retratando o Gólgota, lugar onde Jesus e mais dois homens foram crucificados. Imagem: FondEcranHD.
 Introdução
     
     O cristianismo é uma instituição milenar e tradicional. Para que possa sobreviver ao longo dos séculos e sobretudo manter a sua hegemonia, a Igreja está sempre tentando se adequar aos  tempos e a sociedade. Desta forma, aquilo que antes era condenado pela Igreja pode não mais ser condenado por esta mesma Igreja atualmente.

Definição de Cristianismo

      Segundo o site Wiipédia, o Cristianismo "é uma religião abraâmica monoteísta centrada na vida e nos ensinamentos de Jesus de Nazaré (...) A fé cristã acredita essencialmente em Jesus como o Cristo, Filho de Deus, Salvador e Senhor. A religião cristã tem três vertentes principais: o Catolicismo Romano (subordinado ao bispo romano), a Ortodoxia Oriental (se dividiu de Roma em 1054 após o Grande Cisma) e o Protestantismo (que surgiu durante a Reforma do século XVI). O protestantismo é dividido em grupos menores chamados de denominações." Como a definição aqui citada mostrou, a religião cristã é milenar. Para que chegasse até o segundo milênio da era cristã enquanto uma instituição tradicional e principalmente hegemônica, o cristianismo precisou de adaptar a outras sociedades e assimilar elementos de outras culturas, elementos esses que em alguns casos tem suas origens no paganismo, como por exemplo a celebração do Natal que conhecemos hoje.

As origens do Natal

     A comemoração do Natal é mais antiga do que o próprio Jesus. Tudo começou com um antigo festival mesopotâmico que representava a passagem de um ano para o outro, o chamado Zagmuk. Para os  nascidos  na Mesopotâmia, o Ano Novo representava uma grande crise, pois devido a chegada do inverno (que em algumas regiões do globo começa em dezembro), se acreditava que os monstros do caos se enfureciam e Marduk, o deus principal, precisava derrotar estes  monstros a fim de que a vida na terra fosse preservada. A tradição dizia que o rei devia morrer para ajudar Marduk em sua batalha. A fim de preservar a vida do rei, um criminoso era escolhido e tinha todos os privilégios de um monarca; sendo morto e levando todos os pecados do mundo consigo. Desta forma, a ordem era restabelecida. Esta comemoração originada  na Mesopotâmia inspirou a outros povos, como por exemplo a Grécia, que também em dezembro comemorava a Saturnália (uma homenagem a Saturno), período em que o sol ficava fraco, mas pronto para recomeçar a crescer e trazer vida ao planeta terra. Nesta época do ano as pessoas não trabalhavam e nem estudavam e, além disso, eram realizadas festas nas ruas, grandes jantares e árvores verdes ornamentadas com galhos de loureiros e iluminada com muitas velas eram postas nas salas para espantar os maus espíritos.  Qualquer semelhança com a árvore de natal que conhecemos e que está presente em fins de ano nos shoppings, lojas e lares não é mera coincidência. 

A chegada das Assembleias de Deus  no Brasil

     Agora vamos dar um longo salto espacial e temporal na história. Saímos da Antiguidade Clássica e agora vamos para a História Contemporânea. Os missionários Daniel Berg e Gunnar Vingrem chegaram ao Brasil no dia 19 de novembro de 1910, no Pará (mais especificamente falando na cidade de Belém). A cidade de Belém deste período vivia dias de glória por conta do latéx extraído em larga escala nas muitas seringueiras que se encontravam na região norte do país, atraindo brasileiros de vários estados do Brasil para a região. Este produto da natureza trouxe muito lucro para o país, sobretudo para a região norte. Belas edificações foram construídas nesse período, as ruas eram belíssimas e inspiradas no estilo francês (por mais de um século foi a França quem ditou as regras no mundo ocidental. Em proporções diferentes, a França ocupava um papel que hoje é dos Estados Unidos da América) e as pessoas ricas andavam muito bem vestidas. Foi nesse contexto que os missionários suecos que mais tarde fundariam a Assembleia de Deus chegaram ao Brasil. Os missionários, que até então frequentavam a Igreja Batista, traziam consigo a doutrina do Batismo no Espírito Santo e o falar em outras línguas como prova de que a pessoa foi batizada. As manifestações deste fenômeno já vinham acontecendo em muitas regiões dos Estados Unidos, mas teve seu apogeu com William Joseph Seymour, na rua Azusa, Los Angeles, 1906. 
     Se um grupo aderiu ao novo movimento, um outro grupo o rejeitou, causando muitas divergências. Desta forma, como relatam as atas das sessões, os adeptos do pentecostalismo foram desligados da igreja onde congregavam. Assim, em 18 de junho de 1911, juntamente com outros missionários estrangeiros, fundaram a igreja "Missão de Fé Apostólica", nome empregado pelo movimento pentecostal em Los Angeles, mas sem qualquer vínculo com William Joseph Seymour. Em janeiro de 1918, por sugestão de Gunnar Vingren, a igreja  passou a ser chamada de "Assembleia de Deus", pelo fato de igrejas de mesmo nome terem sido fundada em 1914, na cidade de Hot Springs, Arkansas, EUA. Mais  uma vez, não havia  nenhuma ligação entre as igrejas norte americanas e brasileiras.  Através de viagens missionárias e também com a ajuda de retirantes, a Assembleia de Deus se espalhou rapidamente pelo país, conquistando anos mais tarde o posto de maior denominação  evangélica  do país e o de maior denominação pentecostal do país.

Usos e costumes e o abandono de tais

     À medida que a Assembleia de Deus foi se espalhando pelo Brasil, houve a necessidade de criar um regulamento que regeria a crescente denominação. Desta forma e através de muitas orações e reuniões, um regulamento que regeria as Assembleias de Deus no Brasil foi elaborado. Para quem fizesse parte da Assembleia de Deus não lhes  era permitido cortar o cabelo (no caso das mulheres), ter cabelos longos (no caso dos homens), nada de pendentes, maquiagens, esmaltes, a mulher não poderia usar roupas do vestuário masculino e vice versa. Também não era permitido aos membros da denominação em questão fazer as sobrancelhas. É fato que havia muitas outras proibições aos assembleianos, mas o pouco que foi citado aqui já mostra o quão rígida era (e ainda é) esta denominação pentecostal.
     Antes de dar prosseguimento ao assunto, se deve deixar bem claro que a Assembleia de Deus no Brasil não é um ministério único. Pelo contrário. A assembleia de Deus no Brasil é uma denominação fragmentada em muitos ministérios, como por exemplo: Assembleia de Deus Ministério da Proclamação e Assembleia de Deus Ministério Rocha Miranda. Embora ambas as igrejas fictícias aqui citadas usem o nome 'Assembleia de Deus', uma não tem relação com a outra. O Ministério da Proclamação não tem relação com o Ministério Rocha Miranda. Além disso, quando se fala em Assembleia de Deus, é complicado dar uma clara definição da mesma. Isso acontece porque justamente por não ser um ministério único, acaba que umas igrejas são mais rígidas e outras mais liberais. Somando-se a isto, muitos templos nascem com o nome 'Assembleia de Deus', mas não tem nenhum vínculo com a CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus) ou com uma convenção regional, sendo assim templos independentes.
     Retornando o raciocínio, é cada vez mais comum encontrar uma AD que abandonou parcial ou completamente os costumes que durante tantos anos marcaram (e ainda marcam) a denominação. Atualmente, há líderes que deixam as mulheres usarem com moderação maquiagem, esmaltes e pendentes. Já outras abandonaram completamente este costume, sendo conhecidas como as Assembleias de Deus renovadas. Cantoras pentecostais como Rose Nascimento, Lauriete e Cassiane abandonaram completamente estes costumes. É importante ressaltar que os costumes da Assembleia de Deus tem uma forte tradição no Brasil. Por conta disso, cantoras desta denominação que abandonaram tais costumes  são duramente criticadas. Desta forma, para evitar atritos, muitas cantoras que não vivem esta tradição agem com prudência na hora de tirar fotos para seus respectivos CDs a fim de evitar polêmicas.
     Algo que já foi liberado a muito tempos dentro das Assembleias de Deus é a prática do futebol. Durante muito tempo jovens assembleianos eram proibidos de jogar futebol e quem praticasse tal esporte poderia ser expulso da denominação. Hoje em dia, pouquíssimos ou nenhum líder faz isso. Pelo contrário. Os pastores deixam suas ovelhas jogarem futebol livremente, desde que jogue com pessoas também cristãs. A justificativa para isso consiste no fato de em um jogo de futebol as pessoas xingarem umas às outras e daí, para um cristão não entrar em confusão, bom é que ele não jogue futebol com pessoas não cristãs. Não para por aí. Meu antigo pastor, que está na faixa dos 39 anos de idade, assumiu várias vezes que era  flamenguista. Na Copa do Mundo de 2014 ele vestiu a camisa da seleção brasileira e assistiu aos jogos com a família. Ele nasceu em meados da década  de 1970 e, se na época em que ele nasceu, alguém fizesse isso, seria excluído da denominação sem sombra de dúvidas.

Assimilação e "satisfação da carne"

     Uma coisa é a assimilação de práticas de uma sociedade a fim de se comunicar em determinados povos. Outra coisa completamente diferente é aderir a certas práticas com a finalidade única de satisfazer desejos  carnais. Como já vemos, a assimilação é uma constante no cristianismo desde que o mesmo surgiu. Porém, até que ponto as coisas devem ser adotadas pelas igrejas? Há um limite para isso?
     Um dos argumentos para a gospel night estaria na evangelização de pessoas não cristãs. Porém, se você for em uma destas festas, verá que 90% ou mais das pessoas que ali estão são cristãs. Além disso, a Palavra pouco é falada nestes lugares. O que se vê mesmo são músicas sem muitas letras e pouco conteúdo bíblico que são tocadas em um ritmo extremamente dançante e envolvente. As coisas não param por aí. Funks que tem um forte apelo sexual foram adaptadas ao discurso cristão, mas sem uma mudança de fato no ritmo como o funk é tocado. Por exemplo: na época em que a Dança do Créu era tocada incansavelmente nas rádios do país, houve uma versão gospel desta mesma música. A Dança do Créu começa da seguinte forma: "Pra dançar créu tem que ter disposição/ Pra dançar créu tem que ter habilidade/ Eu venho te lembrar que ela não é mole não/ Eu venho te falar que são cinco velocidades" A versão gospel desta música ficou da seguinte forma: "Pra ir pro céu tem que ter muita oração/ Pra ir pro céu tem que ter é santidade/ Porque o inimigo, ele não dá mole não/ Porque só Jesus Cristo é quem salva de verdade" 
     Nestas festas, a Palavra pouco é pregada e nenhum jovem vai ali para conhecer a Bíblia ou evangelizar. Os jovens vão a festas festas para dançar. Apenas isso.

Conclusão

     A Palavra de Deus é válida para qualquer ano, época ou sociedade. Tudo pode passar, mas a Palavra não passa (Mateus 24. 35). O cristianismo é uma instituição criada por homens e, como a palavra do homem passa, aquilo que o cristianismo condenava ontem; hoje este mesmo cristianismo não condena hoje. 


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