23/04/2015

Brasil, um estranho no ninho

Mapa da América Latina que identifica os países de acordo com suas respectivas bandeiras. Foto: Blog do Meireles.

     O Brasil é um país da América do Sul. A Colômbia também. O Brasil está situado no território compreendido como América Latina. O México e a Venezuela também. Apesar de ser um país situado no continente latino-americano, o Brasil não possui uma identidade ante os países vizinhos. A questão não é meramente linguística (já que o Brasil é o único país de toda a América Latina que usa a língua portuguesa para se comunicar. Os demais países usam o espanhol): é uma questão histórica.

Resumo da História da América Latina

     O ano de 1492 foi um marco para as civilizações que habitavam o continente americano, como também foi um marco para a civilização europeia. O navegador genovês Cristóvão Colombo foi financiado pelos reis da recém-unificada Espanha Fernando de Aragão e Isabel de Castela para navegar o Oceano Atlântico e chegar às Índias, estabelecendo assim uma nova rota comercial. Com esta nova rota, Colombo encontrou um novo continente, chamado na época de "Novo Mundo". Os povos que os europeus tiveram contato e conquistou posteriormente foram os maias, incas e astecas.
     A colonização espanhola foi a primeira a ser efetivada em solo americano. A montagem de seu sistema colonial contou com instrumentos como a hacienda, a encomienda e o repartimiento. A extração de metais preciosos e a implantação da agricultura com base na plantation foram fundamentais na colonização espanhola. O colonização portuguesa também se deu no século XVI, mas com nítidas diferenças em relação ao sistema colonial espanhol. Veremos isto no tópico seguinte.
     Após o período colonial da América Espanhola há os processos de independência. Estes processos aconteceram entre a segunda metade do século XVIII e a primeira  metade do século XIX, sendo incitados pelas revoluções burguesas da Europa, como a Revolução Inglesa, a Revolução Francesa e os movimentos nacionalistas que culminaram na unificação da Itália e da Alemanha. Personagens como Simon Bolívar e José Martí foram essenciais no processo de independência da América Hispânica. O estabelecimento de instituições políticas tipicamente norte-americanas ocorreu em um contexto onde houve uma onda nacionalista global. Além disso, este momento foi fundamental para a integração do globo terrestre por meio da Segunda Revolução Industrial e da união entre o Capitalismo Financeiro e o Capitalismo Industrial (fenômeno chamado pelos estudiosos de Imperialismo). A partir deste momento a História da América ficou completamente inserida  na História Geral.
     Vários fenômenos se destacam ao estudarmos a História da América durante o século XX, tais como a Revolução Mexicana, a entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial, a penetração dos ideais fascistas, anarquistas e comunistas em território americano (o momento significativo é a Revolução Cubana); o populismo latino-americano, as ditaduras civis/militares durante a Guerra Fria e o processo de redemocratização em um período em que a União Soviética  dava sinais de crise.

Resumo da História  do Brasil

      A partir de 1500, sobretudo a partir de 1530, é iniciado o período chamado de Brasil Colonial. Isso porque Cabral chegou onde mais tarde seria Brasil em 1500, porém os europeus não tiveram interesse imediato pelo Brasil. Este fato aconteceu porque não foi encontrado metais preciosos de início no Brasil (isso só aconteceria no século XVIII, período denominado de 'Século do ouro'), ao contrário do que aconteceu nas colônias espanholas. Uma vez que os metais preciosos tinham grande valor comercial na época (como tem até hoje), os portugueses não se  preocuparam em colonizar de imediato o Brasil. A colônia portuguesa na América só seria de fato colonizada por conta da grande quantidade de pau-brasil (árvore utilizada para tingir tecidos) encontrada no país. Outro motivo que contribuiu pela efetivação da colonização portuguesa no continente americano foi a preocupação de Portugal com relação as ameaças de invasões das terras brasileiras por outras nações. O primeiro sistema de ocupação e administração colonial foi o das Capitanias Hereditárias (este sistema não deu certo porque a colônia portuguesa na América era muito grande. Além disso, os constantes conflitos com as tribos  indígenas dificultavam tal processo), que foi regido posteriormente pelo Governo Geral, cuja finalidade era  organizar melhor a ocupação do território, bem como desenvolvê-lo.
    O período colonial do Brasil durou até o ano de 1822, quando a independência do país foi proclamada. Em 1808, fugindo do exército de Napoleão Bonaparte, a Família Real bem como a sua corte vem para o Brasil e eleva o país a categoria de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Foi no período colonial que se desenvolveu a economia e a sociedade açucareira e depois a economia e a sociedade mineradora (fato este que fez com que a capital do país mudasse de Salvador para Rio de Janeiro). Datam também do período colonial as muitas rebeliões nativistas e separatistas, com destaque para a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana.
      Em 1822 iniciou o período do Brasil Imperial. Desde a vinda da Família Real ao país até 1822 houve  intensas transformações no Brasil e em Portugal, transformações estas que levaram as elites brasileiras e D. Pedro I a declararem o Brasil um país independente de Portugal.  D. Pedro I reinou até 1831, quando retornou a Portugal por conta da usurpação do trono de sua filha Maria da Glória por parte de seu irmão D. Miguel, que era  casado com a sobrinha. Segue-se o Período Regencial, tempo em que o Brasil foi governado por regentes, já que D. Pedro II não tinha idade  para ser o imperador do país. O Período Regencial foi um período de incertezas, já que não se sabia ao certo o que iria acontecer com relação a política do país. Além disso, neste período, rebeliões de cunho separatista ocorreram por todo o país, ameaçando fragmentar o território brasileiro.
      Através do Golpe da Maioridade, D. Pedro II assume o trono em 1840, iniciando assim o Segundo Reinado. Este período da História do Brasil durou até 1889, quando foi proclamada a República. Uma vez sendo o Imperador do Brasil, D. Pedro II garantiu a unidade territorial e incentivou no país a pesquisa, a cultura e a tecnologia. Foi neste período também que a escravidão foi abolida, em 1888.
       A partir do dia 15 de novembro de 1889 por meio de um golpe militar, a República foi proclamada no Brasil. Os anos iniciais da República foram caracterizados por uma estruturação política completamente diferente daquela do Império. A busca pelos ideais republicanos, influenciados pelo positivismo (o lema "ordem e progresso" tem sua inspiração no pensamento positivista), guiou a formação da República no Brasil, que é dividida esquematicamente em República Velha (1889-1930), Era Vargas (1930-1945), período em que o Presidente Getúlio Vargas governou o Brasil; República Populista (1945-1964)  e por fim a fase dos Governos Militares (1964-1985), marcado pelo Golpe Militar de 01 de abril de 1964. A ditadura militar no Brasil durou 21 anos.

A ausência de uma identidade por parte do Brasil para com a América Latina

        O meu objetivo ao fazer aqui um breve resumo da história do Brasil e um breve resumo da história da América Hispânica tem por finalidade mostrar que as origens das diferenças culturas entre o Brasil e a América Latina são muito antigas, tendo suas respectivas origens na colonização de ambos os territórios.
            A colonização hispânica na América começou após a chegada dos europeus às novas terras. O mesmo não aconteceu com relação às colônias portuguesas no continente americano. Isso aconteceu porque não foram encontrados de imediato ouro e metais preciosos no Brasil (isso só viria a acontecer no século XVIII), ao contrário do que houve nas colônias hispânicas.  Os meios utilizados para a colonização do Brasil foram as Capitanias Hereditárias (que não deram certo, como já falei acima) e o Governo Geral. Já na América Espanhola os meios  utilizados para o mesmo fim foram a hacienda, a encomienda e o repartimiento.
          O Processo de Independência das colônias espanholas na América  começou entre a segunda metade do século XVIII e a primeira metade do século XIX. Após este processo, as colônias espanholas foram fragmentadas e deram origem a muitos países e, além disso, estes países "recém nascidos" adotaram a República como forma de governo. No Brasil, a  situação foi bem diferente. A Independência do país foi proclamada por D. Pedro I e pela elite da época e uma vez que o Brasil se tornou independente de Portugal, a  forma de governo adotada foi a monarquia, cujo trono foi ocupado por um português! Na prática, a Independência do Brasil nada mais foi do que um processo de modernização onde o mesmo grupo continuou exercendo o poder, mas de uma outra forma. Se as colônias espanholas foram divididas em vários países, a colônia portuguesa manteve a sua unidade territorial. Assim como na América Espanhola, na América Portuguesa também houve rebeliões de cunho separatista que ameaçaram a unidade territorial do país. A unidade territorial do país só foi mantida porque as rebeliões separatistas foram duramente reprimidas. Vale lembrar que o Brasil foi o último país do continente a abolir a escravidão, em 1888, um ano antes da queda da Monarquia.
      Se os países americanos de língua espanhola viram duas revoluções (a saber, a Revolução Mexicana  e a Revolução Cubana), o Brasil ainda não viu nenhuma. O que o país viu ao longo de toda a sua história foram processos de modernização cuja finalidade era o exercício do poder por parte de um mesmo grupo, mas de outro modo. A Independência do Brasil foi proclamada para este fim, a República foi proclamada para este fim e a Ditadura Civil Militar foi imposta com este fim também. Nos processos de modernização aqui citados não houve uma mudança profunda na política e na sociedade. Houve uma mudança aparente, mas nada que mudasse completamente a  estrutura.
          Uma vez que o Brasil é um país latino-americano, o mesmo está inserido na geo política do continente. A Crise de 1929 fez com que emergissem governos populistas nos países periféricos. O Brasil viu a chegada de Getúlio Vargas ao poder, bem como o conceito de populismo. No mesmo período, algo similar aconteceu na Argentina. O pensamento populista foi representado na figura do Presidente Juan Domingo Perón por meio do conceito de peronismo. No período da Guerra Fria, não foi apenas o Brasil que viveu uma ditadura civil militar. Países como Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai viveram experiências similares. Nos últimos anos governos populares chegaram ao poder em alguns países da América Latina. No Brasil, este fenômeno foi personificado na figura do ex-Presidente Luíz Inácio Lula da Silva; Na Venezuela, o poder popular chegou ao governo por meio de Hugo Chavéz; Na Bolívia, tal fato de seu por meio do indígena Evo Morales. Além disso, nos  últimos anos também alguns países latino-americanos passaram a ser chefiados por mulheres. O governo da Argentina está sob a responsabilidade de Cristina Kirchner (viúva de Néstor Kirchner, substituiu o marido no cargo presidencial), ao passo que o cargo de presidente da política Chilena é ocupado por Michelee Bachelet. Em 2010, Dilma Rousseff foi eleita Presidente do Brasil. Em 2014, na eleição presidencial mais acirrada da história do país, foi reeleita por mais quatro anos de mandato. Porém, o fato de o Brasil estar inserido na geo política da América  Latina não faz com que o mesmo tenha uma identidade cultural para com seus hermanos.
            Esta ausência  de  uma identidade cultural com relação a América Latina é manifestada em situações do cotidiano. Tradicionalmente, o SBT exibe muitas novelas mexicanas em sua programação. Confesso que gosto muito das mesmas (gosto em especial de A Usurpadora, Marimar,  Maria do Bairro, Rebelde e Carrossel) e, quando as via, via sobretudo os costumes dos povos mexicanos, eu não me via como parte daquilo. Acreditava que aquilo estava acontecendo em qualquer lugar do planeta, menos na América Latina. Quando estava lendo o clássico As Veias Abertas da América Latina de Eduardo Galeano, algo semelhante aconteceu. Para quem ainda não leu esta obra, o autor faz um histórico da colonização da América Latina, principalmente da exploração dos abundantes recursos naturais presentes no continente americano. Eduardo Galeano constantemente vai e volta no tempo e mostra com dados precisos os altos números relacionados a exploração dos  recursos existentes no países latino-americanos. Como era de se esperar, o autor também cita o Brasil nesse livro, bem como os recursos naturais explorados aqui. Confesso que quando isto acontecia, eu tinha um certo estranhamento, me perguntava porque que o Brasil estava sendo citado, já que o Brasil não faz  parte disso. Outra situação  semelhante foi durante o ENEH 2013 (a sigla significa Encontro Nacional dos Estudantes de História). Neste evento, eu trabalhei como monitor e pessoas de vários  estados do país foram para a UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) a fim de participar do mesmo. Veio também pessoas de outros países para participar do evento e uma destas pessoas foi uma venezuelana. Conversamos por alguns minutos (eu falando o meu português e ela falando o espanhol dela) e nessa conversa ela me contou que a pesquisa dela consistia em fazer um comparativo entre a produção de café na Venezuela e no Brasil. Este fato me causou um certo estranhamento, mas o estranhamento maior foi ela me contar que lá, na grade de História da América Latina, ela também estuda História do Brasil. Este mesmo estranhamento é o reflexo da ausência de identidade do Brasil para com os países latinos.
               Se você acha que eu era o único que enquanto brasileiro não se  identificava  com a América  Latina, está enganado (a). Em 2010, o cantor gospel André Valadão usou o Twitter ao criticar a  edição 2010 do Grammy Latino. Segundo o cantor, "São culturas completamente diferentes e musicalidades muito distintas... de latino americano o Brasil só tem o mapa". Para André Valadão, a música brasileira precisa de uma premiação exclusiva, que atenda as expectativas e entenda o trabalho dos artistas nacionais. Ainda no microblog, André Valadão foi mais severo quanto a relação entre os artistas. Segundo ele, o Grammy "é repleto de artistas hispânicos que não estão nem aí para o Brasil e brasileiros que não estão nem aí para hispânicos". Para esta edição do Grammy Latino foram indicados  artistas como Marina de Oliveira, Kleber Lucas, Paulo Cesar Baruk e Bruna Karla. Marina de Oliveira ganhou uma estatueta na categoria 'Melhor albúm de música cristã em língua portuguesa'.

Conclusão

          Não há uma identidade por parte do Brasil para com a América Latina. Esta questão é antiga e um estudo comparativo entre o Brasil e a América Espanhola pode nos ajudar a entender as origens da não-identificação do Brasil com relação ao continente latino-americano. Superar isto é possível e a barreira não se limita apenas ao idioma.


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