08/06/2017

Evangélicos pentecostais: um grupo que é vítima de preconceito dentro do próprio grupo

Imagem: Reprodução.

     Eles são vistos de forma pejorativa pelos cristãos de outras vertentes. Além disso, eles são o alvo preferido dos programas humorísticos. Tudo o que é relacionado aos pentecostais é alvo de deboche: o modo como se vestem, as gírias próprias deste segmento, a sua liturgia de culto e o modo como enxergam o mundo. Assim, se conclui que os pentecostais são perseguidos dentro e fora de seu grupo.

Templo da Assembleia de Deus que ficava em Joinville, Santa Catarina. A edificação foi demolida em 1984 para dar lugar a um templo maior e mais moderno. Imagem: Reprodução. 

     No Brasil, a denominação conhecida como representante máxima da doutrina pentecostal é a igreja Assembleia de Deus, que chegou ao país em 1911. Mundialmente, esta mesma igreja é conhecida como "mãe do pentecostalismo". Nos primeiros anos a então nova doutrina viu a resistência de cristãos e denominações, mas não demorou muito para que a mesma fosse aceita pela população, fazendo a Assembleia de Deus crescer vertiginosamente nos anos seguintes. A Assembleia de Deus cresceu e influenciou outras denominações, que deixaram de rejeitar a doutrina pentecostal. Além disso, ainda influenciados pela Assembleia de Deus, houve a criação de novas denominações pentecostais, como a Igreja Pentecostal Deus é Amor e a Igreja Pentecostal o Brasil Para Cristo por exemplo. Ainda hoje, milhares de igrejas pentecostais são criadas Brasil a fora.
      Antes de continuarmos é essencial entender que no Brasil não existe PENTECOSTALISMO, mas sim PENTECOSTALISMOS. Isso porque os cristãos pentecostais não são unidade no país. Eles possuem modos de vida variados, liturgias variadas e religiosidade também variadas. Eles podem até ter um ou outro ponto em comum, mas não há unidade entre os mesmos. A própria Assembleia de Deus não é diversa e o que existe na verdade são ASSEMBLEIAS DE DEUS. Isso porque, por mais que a denominação tenha um órgão central e alguns outros próprios de sua denominação, na prática a igreja não caminha em unidade. A Assembleia de Deus não tem um órgão que detenha seu nome ou coisa parecida, o que leva a possibilidade de qualquer pessoa abrir uma igreja denominada Assembleia de Deus. Além disso, a Assembleia de Deus possui costumes diferentes, liturgias diferentes e até doutrinas diferentes, uma vez que muitas denominações substituíram a doutrina pentecostal pela Teologia da Prosperidade. Mesmo com todas as especificidades aqui citadas, um estudo sobre o movimento pentecostal é possível.

Membros da Assembleia de Deus de Florianópolis em pose para foto. Repare na sobriedade das roupas. Imagem: Reprodução. 

      A Assembleia de Deus começou a se expandir e logo a sua identidade foi construída. As mulheres assembleianas não podiam cortar os cabelos, fazer as sobrancelhas, usar maquiagem, usar pendentes (com exceção do relógio de pulso e aliança), usar blusa sem manga, usar calça comprida, saia curta e pintar as unhas. Já os homens assembleianos não podiam usar blusa sem manga, usar bermuda, deixar os cabelos e as barbas crescerem. Repare que os costumes assembleianos são mais rígidos com as mulheres e eu já falei sobre isso aqui. Além disso, homens e mulheres assembleianos não podiam usar roupas de tecidos muito chamativos, ouvir música secular, assistir televisão e nem ouvir rádio. Estes costumes foram abolidos total ou parcialmente em algumas ADs. A Assembleia de Deus se expandiu rapidamente devido a uma estratégia de evangelização e também devido a assembleianos que, ao viajarem para outros lugares, se ofereciam voluntariamente para pregar a mensagem pentecostal no destino para onde estavam indo. Por conta disso, da mesma forma que a AD se popularizou rapidamente, seus costumes também se popularizaram da mesma forma.
      Os assembleianos e pentecostais (são termos similares, mas não sinônimos) costumam ser vistos pelos demais cristãos como pessoas com pouca ou nenhuma escolaridade e que usam o místico para tudo: eles pregam por revelação divina, ensinam por revelação divina e tomam atitudes por relevação divina. E é esta mesma falta de conhecimento que levam cristãos a reproduzirem de forma pejorativa o suposto modo errôneo como eles falam "glória", que no meio pentecostal seria "grôria". Além disso,  o modo como os crentes da AD se vestem é motivo de piada. Nem a doutrina pentecostal está isenta de perseguições. Há cristãos de outras denominações (e até mesmo da própria AD) que zombam da experiência do batismo no Espírito Santo, cuja evidência física é o falar em línguas estranhas. Façam uma busca e não terão dificuldade em encontrar cristãos que imitam crentes pentecostais quando os mesmos estão falando em outras línguas. Outra coisa que também é motivo de piada são os "corinhos" (conjunto de canções do cancioneiro popular que são comum entre as igrejas pentecostais de modo geral) e a liturgia pentecostal de forma geral. Tais costumam ser reproduzidos de forma jocosa e debochada.

A imagem mostra a pomba e o fogo, dois símbolos do Espírito Santo. No dia de Pentecostes, o Espírito Santo desceu como língua de fogo sobre os crentes. As ADs e as igrejas pentecostais em geral pregam a atualidade deste evento. Créditos na imagem. 

      Além de serem vítimas de preconceito dentro do meio evangélico, os pentecostais também são vítimas daqueles que não são evangélicos. Em filmes e novelas, os cristãos pentecostais são retratados de forma estereotipada já descrita neste texto. Além disso, programas humorísticos retratam os pentecostais desta mesma forma, além de debocharem dos mesmos. Isso acontece porque, para começo de conversa, a doutrina pentecostal não é unanimidade em muitas denominações. É fato que os crentes pentecostais são maioria no Brasil e é fato também que as igrejas pentecostais são populares no país, mas isso não significa que a rejeição que a doutrina pentecostal encontrou em seus primeiros anos no Brasil tenha desaparecido por completo. A doutrina pentecostal costuma "dar pano pra manga" porque não há consenso em torno do assunto. Isso pode ser explicado em parte pelo fato de uma vertente ter se sobressaído entre as demais. Os adeptos desta mesma vertente acreditam que o "mover do Espírito" só acontecerá se haver corinhos, pandeiros e bateria. Além disso, eles gostam de entoarem muitos louvores e é comum que seus cultos terminem tarde. Bem tarde.
      Ser pentecostal não tem nada a ver com o que foi descrito no parágrafo acima. Pentecostal vem de pentecostes, uma referência ao episódio descrito em Atos 2, onde línguas como de fogo desceram sobre os fiéis e os mesmos foram cheios do Espírito Santo. Além disso, a doutrina pentecostal acredita na atualidade dos dons espirituais que o apóstolo Paulo os descreve em suas cartas. Resumidamente falando, é esta a crença da doutrina pentecostal. Estas pessoas que falam em línguas desenfreadamente sem um intérprete e que cantam corinhos em seus cultos (como que somente desta forma Deus visitasse Sua igreja) vivem a doutrina pentecostal de forma distorcida. Isso porque as manifestações sobrenaturais da parte divina ocorrem de forma espontânea.
      É de extrema importância destacar que este texto não pretende colocar os crentes assembleianos ou da crença pentecostal em geral como vítimas. Isso porque, da mesma forma que os pentecostais são perseguidos, eles também perseguem. Os assembleianos se acham superiores por conta de seus rígidos costumes, em um pensamento prepotente de que só eles possuem doutrina. A prepotência se torna ainda maior porque eles acreditam que só eles possuem o Espírito Santo. Segundo eles, as denominações que não seguem seus costumes não tem em seu meio a terceira pessoa da Santíssima Trindade. A influência das Assembleias de Deus no Brasil é vista também nas instâncias legais de poder. A igreja em questão tem o maior número de políticos que compõem a Bancada Evangélica. Juntos dos demais políticos evangélicos (onde nem todos frequentam uma igreja pentecostal), estas pessoas barram pautas de caráter progressista e que vão de encontro aos seus dogmas. Criação de leis relacionadas à questões LGBT, ao aborto e à igualdade de gênero por exemplo não costumam ser aprovadas por políticos que fazem parte da Bancada da Bíblia. Esta prática consiste em uma perseguição aos grupos sociais historicamente marginalizados.

Conclusão

      Os pentecostais, não apenas aqueles que frequentam a Assembleia de Deus, sofrem preconceito dentro e fora de seu próprio grupo. Os cristãos de outras denominações zombam a liturgia e os costumes dos pentecostais. Já os programas televisivos retratam os mesmos de forma jocosa e estereotipada. Entretanto, isso não significa que os pentecostais são vítimas nesta história, pois eles também exercem o papel de perseguidor. Eles exercem este papel ao se julgarem superiores aos demais crentes e ao perseguirem grupos marginalizados, utilizando as esferas legais de poder para exercerem tais práticas. 

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