18/05/2017

A persistente invisibilidade sofrida pelo futebol feminino

A seleção brasileira de futebol em pose para foto antes de partida. Foto: Ricardo Stuckert/CBF. 


     Praticamente todos (ou pelo menos a maioria) os clubes de futebol do país e do exterior possuem a categoria feminina de futebol. As futebolistas são dedicadas e estão organizadas em categorias que jogam regularmente. Entretanto, pouco ou nada se falam sobre elas. Os diversos sites e programas de TV de cunho esportivo dedicam parte considerável do horário para falarem de futebol, mas somente a categoria masculina. É como se a categoria feminina não existisse. Mesmo sendo tão boas ou melhores que muitos jogadores, as jogadoras não recebem o devido reconhecimento.
      Clubes de pequeno, médio e grande porte mundo a fora possuem a categoria feminina de futebol. Elas até viraram jogos de Playstation. Programas esportivos da televisão e páginas virtuais dedicadas ao esporte dedicam parte considerável de seu tempo para falarem de futebol, mas apenas sobre a categoria masculina. Emissoras de televisão disputam horários de partidas de futebol masculino, mas o mesmo não acontece com o futebol feminino. Páginas virtuais que se dedicam inteiramente ao futebol nem sequer citam o futebol feminino, é como se ele não existisse. No ano de 2015 houve a Copa do Mundo de Futebol Feminino, cujo anfitrião foi o Canadá. A seleção feminina chegou às oitavas de final, não se classificando para a próxima fase. Durante o período da Copa em questão não teve feriados em dias de jogo do Brasil, não se viu pessoas em frente a TV torcendo para as meninas, não se viu pessoas andando nas ruas com a blusa da seleção brasileira e nem se viu também manifestações de orgulho nacional. A grande mídia praticamente não falou sobre o assunto. Era como se nada estivesse acontecendo.

Marta em pose para a foto. Imagem: Getty Images

      Esta pessoa é considerada a maior artilheira da seleção brasileira, título que até então pertencia a Pelé. O rei do futebol se consagrou como o maior artilheiro da seleção com 95 gols em seu 114º jogo. Esta pessoa se consagrou como a maior artilheira com 98 gols em seu 100º jogo. Esta mesma pessoa foi eleita a melhor do mundo em 2006, 2007, 2008 e 2009 pela FIFA. Foi também pela FIFA que ela ganhou o prêmio Bola de Ouro, em 2010. Ela ganhou o prêmio Bola de Ouro em 2004, uma Bola de Ouro e uma Chuteira de Ouro no ano de 2007. Se você acha que a pessoa em questão é um homem, se enganou. Todos os prêmios aqui citados pertencem a Marta, maior artilheira da seleção brasileira de futebol e também capitã da mesma. Entretanto, Marta não tem o reconhecimento que merece. Se Marta fosse um homem, será que teria mais visibilidade? Será que teria milhões de seguidores nas redes sociais? Será que teria um salário milionário? Será que faria milhares de campanhas publicitárias? Será que teria seu nome dito incansavelmente em jornais esportivos e programas especializados em celebridades? Será que torcidas inteiras gritariam seu nome durante as partidas?

Formiga é uma futebolista brasileira que já jogou pela seleção em seis edições dos Jogos Olímpicos. Imagem: Reprodução.

     Já está outra pessoa é nascida em 1978 e está em plena atividade. Em seu currículo constam seis Copas do Mundo: 1995, 1999, 2003, 2007, 2011 e 2015. Ela também participou de seis Jogos Olímpicos, a saber: Atlanta 1996, Sydney 2000, Atenas 2004, Pequim 2008, Londres 2012 e Rio 2016. Desta forma, esta pessoa é, ao lado da japonesa Homare Sawa, recordista em participações em Copas do Mundo: 6. Além disso, esta mesma pessoa é a única futebolista do mundo a ter participado de seis Jogos Olímpicos desde que o futebol feminino se tornou um esporte olímpico. Segundo dados da CBF, esta pessoa até o momento já jogou 151 partidas pelo Brasil, ultrapassando o lateral Cafu, que até então detinha esse recorde. Como você já pode ter percebido, não estamos falando de nenhum homem, mas sim de uma mulher. A dona dos recordes aqui citado é Formiga, jogadora de futebol brasileira que atua como meia. Você costuma ver a Formiga com frequência na televisão? Costuma ver o nome dela em jornais e revistas? Os programas esportivos falam dela com frequência? Se fosse por qualidade de jogo, o futebol feminino há muito tempo já teria a visibilidade que merece.

Fernando Colombo Uliana durante trabalho em campo. Ela tem seu corpo objetificado com frequência pela mídia esportiva. Imagem: Getty Images.

      As jogadoras acima citadas e tantas outras mundo a fora, assim como o futebol feminino de modo geral, não recebem a visibilidade que merecem porque a lógica de que futebol não é esporte para mulher ainda se faz arraigada na mente de milhões de pessoas. O futebol é um esporte onde a presença de homens é predominante e todo espaço com este perfil tende a ser machista. Apenas lembrando que, salvo algumas exceções, o esporte não é visto como algo para mulheres porque vai de encontro a feminilidade e sensibilidade associada ao sexo feminino. Mas foquemos no futebol. Em tal esporte a mulher é objetificada e xingada. Quando o jogador não é negro, sempre quando o mesmo é xingado, quem recebe os xingamentos de fato é a mulher. São xingamentos que por bom gosto não irei reproduzir aqui. Em 2014, após uma partida entre o Cruzeiro e o Atlético Mineiro (cuja vitória foi do segundo), a bandeirinha Fernanda Colombo Uliana viu seu nome em vários sites e na boca de muitos homens. "Bandeirinha gata é clicada em pose indiscreta" ou "conheça a linda e polêmica bandeirinha" são apenas algumas reportagens feitas sobre Fernanda. "Se ela é bonitinha, que vá posar na Playboy. No futebol tem que ser boa de serviço", disse o então diretor de futebol do Cruzeiro Alexandre Mattos após o clássico mineiro. Não se viu reportagens analisando o trabalho de Fernanda em campo, somente aquelas que objetificavam seu corpo.
     Como já dito no parágrafo acima, a mulher no futebol é objetificada. Em partidas, câmeras procuram mulheres com a blusa do time decotada para focar. Se tiver um celular guardado no meio dos seios, melhor. Aliás, as camisas femininas de times de futebol costumam ser no estilo baby look, ondo a cintura da moça é definida e os seios destacados, com direito a decote. Jornais populares publicam com frequência fotos de mulheres em poses sensuais e com pouca roupa junto do time do coração. O objetivo é eleger a musa de cada time. Os jogadores de futebol costumam ser heterossexuais e casados. Se são homossexuais, para não ver a carreira afundar, escondem a orientação sexual debaixo de sete chaves e enterram sob sete palmos de terra. As esposas dos jogadores estão sempre a sombra de seus maridos, que de fato são a estrela. Elas são sempre lindas (algumas aderiram a cirurgia plástica), bem arrumadas e deslumbrantes. Elas são como um enfeite para seus maridos, seguindo-os aonde eles forem e dispostas a largarem a carreira (caso tenham uma) se for necessário. Estas mulheres na maioria dos casos são brancas. O fato destas mulheres serem casadas não as livra da objetificação. Façam uma busca por aqui e verão que existem páginas virtuais que se dedicam a eleger a mais bela esposa de um jogador de futebol. Vale ressaltar que o futebol, assim como a maioria dos esportes, é um dos poucos espaços que permitem ao negro a ascensão social. Desta forma, a presença de jogadores negros é considerável, mas isso não significa que um futebolista negro não sofre racismo. Alguns conseguem fazer fortuna com o esporte e escolhem uma mulher branca como esposa. É o famoso palmiteiro. E eles não são poucos. Caso queiram aprofundar seus estudos sobre a relação entre racismo e futebol, recomendo o clássico O Negro no Futebol Brasileiro, livro do jornalista Mário Filho (1908-1966), que dá nome ao estádio Maracanã, no Rio de Janeiro. Além disso, blogs e demais páginas feministas e ligadas ao movimento negro já escreveram muitos textos sobre o tema. É só procurar.
       Além de casados, estes mesmos jogadores tem filhos. Se observar, verá que quando o filho é varão, ele vai nos treinos do pai, ele ganha brinquedos relacionados ao futebol, em alguns casos ele é incentivado a jogar futebol e até segue os passos do pai. Entretanto, o mesmo tratamento não é dado quando a filha é uma menina. Com a exceção dos dias de jogos e estando na arquibancada, não é muito comum ver um futebolista levar sua filha menina para os treinos e nem a incentivando a jogar futebol. O que se vê é o reforço de características consideradas condizentes com a de uma menina. As filhas destes jogadores vivem cercadas de todos os elementos culturalmente associados ao sexo feminino. O futebol não é um destes elementos.

Conclusão

      O futebol feminino não tem o devido reconhecimento porque a lógica de que futebol não é coisa de mulher está fortemente arraigada na sociedade. Só é permitido o ingresso da mulher no mundo futebolístico quando ela é a bela esposa de um jogador e que viva a sombra dele. Além disso, para entrar neste mundo, a mulher deve ser vista como um objeto sexual que mexa com o imaginário dos homens. Fora das condições aqui citadas, o acesso da mulher no mundo da bola é negado. 

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