08/09/2016

Não force o menino a "falar grosso"

Pai e filho na Lagoa Rodrigo de Freitas, cidade do Rio de Janeiro. Imagem: Alessandro Buzas/Futura Press/Folhapress. 

     A heteronormatividade é imposta às pessoas quando os pais descobrem o sexo do bebê. Se for uma menina, os pais pintam as paredes do quarto de rosa, compram muitas roupas rosas e ganham roupas rosas também. Se for menino, os pais compram muitos macacões na cor azul, ganham roupas azuis e pintam o quarto do bebê também na cor azul. A heteronormatividade é imposta de modo tão sutil que é preciso uma observação atenta para perceber a mesma.
     A heteronormatividade vai acompanhando o ser humano ao longo de sua infância, mostrando a sua fase mais  latente. É tudo muito demarcado, não há um meio termo. Os professores reafirmam esta diferença ao pedirem para os meninos irem para um lado e as meninas irem para o outro. E as diferenças não param por aí: o material das meninas é sempre mais rico em detalhes e organizado, ao passo que o dos meninos é simples, bagunçado e sempre tem alguma coisa faltando. Na hora do intervalo, os meninos correm, suam e jogam bola, ao passo que as meninas ficam sentadas em um canto brincando. Tem algumas que até levam maquiagens para crianças e esmaltes.
     Na infância, meninos e meninas costumam ter voz parecida. Com a puberdade e devido também a produção de hormônios diferentes, a voz das mulheres tendem a ficar mais fina e a dos meninos mais grossa. Entretanto, o senso comum não pensa desta forma e ainda na infância o menino já é pressionado a "falar grosso", a "falar que nem homem". Desrespeitando o tempo da biologia, a sociedade pressiona o menino a "falar grosso". Isso acontece porque já na infância a diferença entre meninos e meninas é latente, ou é menino ou é menina. Não há um meio termo e um não pode em nada imitar o outro. Tais diferenças também devem ser evidentes na voz da criança. Se é menino, tem que ter voz grossa e se é menina, tem que ter voz fina. O que chama a atenção é que esta pressão é absorvida pelos próprios meninos. Eles mesmo se pressionam a "falar grosso" e quem não fala assim é chamado de "viado".
     Falando em "viado", chama a atenção também que os meninos já na infância  xinguem um ou outro usando estes termos e similares. Os meninos que não se encaixam nos rígios padrões heteronormativos impostos às crianças são chamados deste modo por outras crianças e em casos extremos até por alguns adultos. Mesmo sendo tão novos, os garotos já tem uma noção do que é ser gay. Como já dito aqui, as crianças são ensinadas a viver um rígido padrão heteronormativo que não dá espaço para o meio-termo: ou é menino ou é menina. É algo cruel. Homossexuais quase sempre sofrem muito nesta fase da vida. É neste período que eles começam a sofrer bullying pelo fato de serem gays, são zombados por serem algo que eles só vão descobrir mais adiante. 

Do oito ao oitenta

     Escrevendo esse texto, não tem como eu não contar minhas experiências com relação ao assunto. Quando criança e até o início de minha adolescência, eu tinha uma voz muito fina, além de não apresentar um comportamento esperado de um homem. Com isso, ainda na infância, eu conheci o bullying. Foi uma época cruel. Sempre quando eu falava "presente" quando a professora chamava o meu nome, eu ouvia risinhos ou sempre tinha alguém para me imitar. A pressão para "falar grosso" vinha de colegas, amigos e até da família. Era uma pressão tão grande que às vezes eu tinha medo até de falar, temendo ser recriminado. 
     Eu era muito pressionado a "falar direito", ou seja: a "falar grosso". Na mentalidade das pessoas que chamavam a minha atenção, eu não falava direito justamente por ter uma voz fina. Era uma anomalia, tinha algo de errado. É de extrema importância ressaltar a misoginia presente em tudo isso. Tudo que é associado ao sexo feminino é visto de forma ruim e pejorativa. Desta forma, "falar fino" não era algo bom. A repulsa à prática do "falar fino" se mostra presente na sociedade por meio de expressões populares: "falar grosso" significa falar firme, com atitude e determinação. Já "falar fino" significa falar sem imposição, sem atitude e esta prática mostra também um sinal de submissão. As mulheres são chamadas de "sexo frágil", mas esta é uma afirmação sem fundamento, basta ver os inúmeros exemplos de mulheres estão constantemente demonstrando força e determinação.
     Entretanto, quando cheguei à adolescência a coisa mudou. Se antes, minha voz era excessivamente afeminada, ela estava se tornando excessivamente alta e grave. Atualmente, tenho uma voz muito alta e muito grave, é um tom único e que chama muito a atenção, fato que me faz ficar constrangido às vezes. Na infância, minha voz era bem fina e a partir da adolescência ela foi ficando mais grossa e mais alta. Fui do oito ao oitenta.

Conclusão

     Pais, não forcem o filho varão a "falar grosso", isso é normal e natural. Na infância, meninos e meninas costumam ter voz fina. Isso muda a partir da adolescência. Com isso, deixe as coisas fluírem naturalmente e se a voz do seu filho não engrossar, não faz mal. Que problema tem no fato de um homem ter voz fina?

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