15/06/2017

O crescente número de pessoas que estão abandonando a fé cristã no Brasil

Imagem: Reprodução.

     Templos evangélicos surgem a cada dia mais e mais, praticamente em cada esquina há uma igreja evangélica. Cantores gospel já são presença carimbada em programas de televisão e o número de jogadores evangélicos é cada vez maior. Além disso, o número de cristãos que fazem parte da Bancada Evangélica e/ou que são evangélicos cresce constantemente também. Uma pessoa que olha por este viés pode acreditar que o número de cristãos evangélicos está crescendo constantemente no país. Entretanto, basta uma análise mais ampla para perceber que a situação não é bem esta.
      A cada dia surgem templos evangélicos Brasil afora. Esse fenômeno pode ser explicado em parte pelo fato das igrejas possuírem imunidade tributária, reduzindo consideravelmente os custos para manter um templo e, desta forma, facilitando a construção de mais e mais templos. A presença de cantores gospel em programas de televisão é um reflexo do crescimento do número de evangélicos no país, uma vez que há pesquisas que comprovam que os religiosos são consumidores vorazes e fiéis. Cassiane, Bruna Karla, Aline Barros, Damares e Fernanda Brum são apenas alguns dos cantores evangélicos renomados que aparecem com frequência em programas de televisão. Desta forma, a presença de uma personalidade gospel na TV é sinônimo de audiência garantida.

Jogadores da seleção brasileira oram em campo após partida. Imagem: Reprodução.

      Algo que têm me chamado a atenção é o crescimento de jogadores evangélicos de uns tempos para cá. Este fato me chama a atenção por dois fatores. O primeiro é que historicamente a relação entre evangélicos (em especial os pertencentes a Assembleia de Deus) e futebol nunca foi amistosa. Se um cristão jogasse futebol, ele poderia ser excluído do rol de membros da denominação. Atualmente, esta relação não é completamente amigável, mas é bem mais tranquila. O segundo fator é que, como vocês já sabem, eu frequentei a Assembleia de Deus por mais de dez anos (leia sobre o assunto aqui). As lideranças que tive ao longo desse período não proibiam os membros de jogarem futebol, desde que se fosse jogado apenas com cristãos. Isso porque uma pessoa não cristã poderia xingar e agredir a todos, manchando a reputação de um cristão, que não deve se envolver em tais coisas. Observações à parte, o fato é que a presença de jogadores evangélicos é cada vez maior no futebol. Eles oram antes e depois de entrarem em campo, agradecem a Deus quando faz gol e/ou quando o time vence e adoram postar versículos bíblicos e mensagens religiosas nas redes sociais. É fato que nem todas estas pessoas são evangélicas praticantes, mas falaremos sobre isso mais adiante.
      O reflexo do crescimento do número de evangélicos no Brasil pode ser visto também na política. Ano a ano a presença de políticos evangélicos nas esferas legais de poder aumenta. Além de ignorarem o fato de que o Estado é laico, os mesmos se acham perseguidos e a presença de cristãos na política seria uma forma de evitar essa suposta perseguição. É a lógica do irmão vota em irmão.
      Entretanto, da mesma forma que há um crescimento do número de cristãos evangélicos (cujos reflexos foram mostrados acima) no país, o número de pessoas que largam tal fé também cresce igualmente. Vim de uma família cujos parentes são em grande maioria assembleianos e, da mesma forma que há familiares que são da Assembleia de Deus, há também familiares que não mais fazem parte desta denominação. Conheço jovens que vi no conjunto de crianças da igreja e que agora estão no tráfico (este fato é um dos fatores que estreitam as ligações entre igrejas evangélicas e tráfico de drogas) e alguns dos mesmos são filhos de pessoas com cargos na igreja e consequentemente foram criados em um lar cristão. Provavelmente, os pais destas crianças se preocuparam em ganhar o mundo e esqueceram de ganhar a própria família.

Imagem: Reprodução. 

      Como já dito, da mesma forma que há pessoas se convertendo a fé evangélica, há pessoas que a  rejeitam. Em 2009, o blog MP VIDA publicou na íntegra uma reportagem da revista Enfoque acerca da grande quantidade de pessoas afastadas do Evangelho, fato que já chamava a atenção há oito anos atrás (leia aqui). Segundo esta mesma reportagem, o número de pessoas que deixaram de ser evangélicas era em torno de 30 a 40 milhões. A matéria afirma também que, se essa grande quantidade de pessoas não tivessem largado a religião, a crença evangélica contaria com 70 milhões de adeptos, quase metade da população brasileira, que na época era de 180 milhões de pessoas. É bom frisar que esta matéria é de 2009. Com isso, provavelmente o número de afastados aumentou e a população brasileira também. O blog em questão destaca  que os motivos para tal fato são variados, como por exemplo: mudança de situação de vida, desencantamento com membros e pastores e entre outros. Já segundo a matéria reproduzida, os motivos podem ser: brigas internas, legalismos, decepções com a liderança, sensação de abandono e falsas profecias e promessas de prosperidade não concretizadas são os principais motivos de uma lista grande que levam as pessoas a abandonarem a fé. A reportagem destaca também o descaso com que alguns pastores lidam com a questão, uma vez que o trabalho de resgatar as pessoas afastadas praticamente desapareceu em muitas igrejas. Isto contribui para que o número de pessoas que deixam de ser evangélicas aumente. Além disso, um pastorado que não se preocupa com as almas perdidas é um pastorado incompleto.
      Outro fator que contribui também para que o número de pessoas afastadas da fé evangélica seja tão grande é o modo arcaico com que as igrejas se organizam e agem, em especial as tradicionais. Certa feita, em uma reunião do grupo jovens que eu fazia parte, um dos líderes se queixou por conta da dificuldade de achar um horário para que toda a mocidade estivesse reunida. Ele complementou sua fala dizendo que em sua época os ensaios do grupo musical começavam às duas tarde e iam até às seis porque eles de fato gostavam daquilo, algo que ele julgava não estar acontecendo no conjunto que ele liderava. Entretanto, uma coisa que ele parecia não entender é que na época dele as pessoas pobres chegavam no máximo no Ensino Médio (hoje a situação é um pouco melhor. Um pouco) e olhe lá. Atualmente a situação é outra. Os jovens estão estudando mais, se qualificando mais, aprendendo outros idiomas e tirando carteira de motorista por exemplo. Não só os jovens, mas os evangélicos de modo geral costumam viajar, ir ao cinema e ir a estádios de futebol. Foi-se o tempo em que os cristãos não se preocupavam com a vida terrena. Além disso, os congressos de jovens do campo da Assembleia de Deus que fazia parte às vezes começavam as festas na segunda-feira ou na quarta e iam até domingo. Para uma pessoa que trabalha e estuda, como é a realidade de muitos jovens, uma festa com uma duração dessas é um prejuízo enorme. Quem, por inúmeras razões, deixou de ficar dias sem ir à universidade sabe do que estou falando.
      Um termo que tende a se tornar cada vez  mais popular é o "evangélico não praticante". Este termo tem o mesmo significado que o "católico não praticante": são pessoas que se declaram evangélicas e que em algum momento praticaram os ritos desta crença. Entretanto, por inúmeras razões, estas pessoas não são adeptas desta religião, mas possuem a fé baseada nesta mesma crença. Este mesmo termo já é usado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os jogadores de futebol que costumam orar em campo, agradecer a Deus por cada vitória e escrever versículos bíblicos nas redes sociais, mas que na prática  não vivem de acordo com a fé evangélica podem ser encaixados nesta categoria.

Conclusão

      O grande número de não evangélicos pode ser explicado por vários fatores, tais como: brigas internas, legalismo, calúnias, profecias e promessas não cumpridas, decepções com a liderança e um discurso que não condiz com a realidade são parte de uma lista de vários motivos que podem levar uma pessoa a abandonar sua fé. Este é um fenômeno cuja tendência é só aumentar e é fundamental as lideranças religiosas lidarem com tal.

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