11/07/2017

Sobre pessoas negras que só se envolvem com pessoas brancas

Cena do filme Advinha Quem Vem para Jantar (1967), cujo assunto central é uma história de amor inter-racial. Joey Drayton (Katharine Houghton) e John Prentice (Sidney Poitier) estão apaixonados, mas terão de enfrentar a resistência dos pais da moça, que não querem vê-la casada com um homem negro. Imagem: Reprodução.



     Esse texto vai falar de um assunto que é motivo de discussões intermináveis dentro do movimento negro: pessoas negras que só se envolvem com pessoas brancas. Desde já, eu deixo claro que, por mais que eu use o termo "pessoas", o foco aqui vai ser nas relações entre homens e mulheres. É fato que existe racismo dentro do movimento LGBT e abordar esse assunto seria necessário, no mínimo, mais um texto para apenas falar sobre isso. Recomendo a vocês a leitura dos textos Como é ser um gay negro que só saiu com brancos e 28 Questões Para Negros que só se relacionam com Brancos, que, em minha opinião abordam muito bem a questão do racismo dentro do movimento LGBT. Dadas as devidas observações, vamos agora para o assunto que dá título ao texto.



Pintura mostrando São Pedro de Claver evangelizando africanos nos mercados escravistas da América do Sul. Imagem: Reprodução. 


     Por mais de três séculos os negros foram escravizados no Brasil. Eles foram tirados de sua terra, de sua cultura, de suas origens, de sua família e das pessoas que amava. Na diáspora, eles foram impedidos de falarem sua língua, exercerem a sua cultura, a sua religiosidade e tiveram seus nomes trocados. Além disso, eles foram reduzidos a algo pior que nada. Não tinha lei que os amparasse e não tinha quem os defendesse. Eram tratados como objetos, podendo ser usados a bel prazer por seu dono. É de extrema importância destacar a atuação da Igreja nesse contexto. Aliada ao Estado, ela legitimou a escravidão, dando um "ar espiritual" a mesma. Essa roupagem espiritual inclui um Jesus com traços europeus (o que não condiz com a realidade) e o discurso de que a escravidão serviria para redimir os negros do pecado, uma vez que eles seriam descendentes de Cam, o filho de Noé que zombou do mesmo ao vê-lo embriagado e nu. Até hoje, há quem diga que a maioria dos africanos vivem na miséria por conta do "misticismo" em que baseiam a sua fé. 



"Abolição da Escravatura", quadro de Victor Meirelles. Imagem: Reprodução/Victor Meirelles/Wikimedia Commors.


     Em 1888, um ano antes do fim do regime monárquico e da Proclamação da República no Brasil, a Lei Áurea é assinada pela Princesa Isabel (1846-1921), pondo fim ao regime escravista então vigente no país. Entretanto, a Lei Áurea não trouxe efeitos práticos para os escravos do período. As estruturas de poder e sociais continuaram sendo as mesmas e os negros continuaram na base da pirâmide social. Não houve nenhum programa ou coisa parecida para acolher os escravos que foram libertos. O escravo passou a vida toda com seu senhor exercendo determinado ofício. Com a Lei Áurea, ele estava livre. Porém, o que ele ia  fazer? Ele não sabia ler, não sabia escrever e não tinha uma profissão formal. Isso sem contar com o racismo, uma vez que a Lei Áurea não mudou a mentalidade de ninguém. Desta forma, não tendo para onde ir, muitos escravos continuaram sendo escravizados, mesmo com o fim do regime escravista.
     Se os negros não foram amparados no processo que culminou na abolição da escravatura e até mesmo após a mesma, o mesmo não aconteceu com os brancos ricos. Ao invés de doarem terras e tornar o então escravo um trabalhador assalariado, foi incentivada a vinda massiva de imigrantes europeus ao Brasil. A ideia era embranquecer a população, além da concepção da época acreditar que o branco era o símbolo do progresso. 



Pintura mostrando escravos praticando a capoeira. Repare no homem fardado pulando a barreira. Estaria ele com a intenção de coibir a  prática? Imagem: Reprodução. 

     No ano de 1889, um golpe militar republicano põe fim ao regime monárquico vigente e manda a família imperial para um exílio forçado, proibindo seus membros de voltarem ao país. República é uma palavra de origem latina, res publica, que significa "coisa pública". Ou seja: um governo republicano é um governo do povo. Entretanto, não é isso o que se vê. Mudou a forma de governo, mas a estrutura social continuou sendo a mesma. Desta forma, com a Proclamação da República os privilegiados continuaram com seus privilégios e os explorados (em especial os negros) continuaram sendo explorados. Mesmo com o regime escravista findado no século XIX, ao longo do século XX muitos negros continuaram vivendo em situações análogas a escravidão e ocupando os postos de trabalho mais precários. Além disso, o samba, ritmo originário da cultura negra, assim como a capoeira, foram duramente perseguidos pelos governos vigentes. 
     O Golpe Civil-Militar de 1964 proibiu que a temática racial fosse abordada em novelas, filmes e músicas. O golpe reforçou o mito da democracia racial. Com o fim da ditadura, a temática racial voltou a ser abordada. Porém, os negros ainda continuam nas posições mais baixas no mercado de trabalho e na pirâmide social. Deve-se reconhecer a importância das cotas raciais, do ensino de História da África e do movimento negro (que agora tem a sua voz ampliada devido as redes sociais) na mudança desse quadro, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Isso sem contar com a matança de negros em larga escala realizada pela polícia militar e a criminalização do funk, ritmo criado pelos negros. 

Branquitude e padrões de beleza



Deise Nunes foi eleita Miss Brasil no ano de 1986, sendo a primeira mulher negra a ocupar tal cargo. Imagem: Reprodução. 

     O racismo no Brasil é estrutural e abrange todas as esferas da sociedade. Nos comerciais relacionados a beleza, as modelos na maioria das vezes são brancas. Nos comerciais relacionados a cremes para os cabelos, a maioria dos cabelos representados são lisos ou no máximo cacheados. Cabelos crespos aparecem pouco. O padrão de beleza do Brasil é o branco e isso é evidente em concursos de Miss Brasil, onde a maioria das mulheres que ocuparam este posto são brancas. O concurso existe desde 1954 e até o ano de 2016, apenas duas mulheres negras foram eleitas miss. Em novelas, a maioria dos atores e atrizes que ocupam os papéis centrais são brancos. Voltadas especialmente para o público feminino, a maioria das atrizes que aparecem em novelas são brancas. Desta forma, se um homem negro não se sente representado ao assistir uma  telenovela, imagine então como deve ser para uma mulher negra. 

A idealização do amor romântico



Cena do filme Romeu e Julieta (1968). O longa foi baseado no romance homônimo de William Shakespeare (1564-1616). Romeu e Julieta pode ser considerado o "pai" dos romances onde o amor romântico, capaz de superar a mais profunda das diferenças, é idealizado. Imagem: Reprodução. 


     O amor, em especial o amor romântico, é larga e incansavelmente difundido em novelas, séries, filmes e livros como um sentimento que é superior a classe social, posições políticas, raças e rivalidades familiares. Entretanto, na vida real não é assim que a coisa funciona. Para começo de conversa, o amor é uma construção social, onde é incutido na pessoa um perfil que ela considera como ideal para se casar. Com isso, dificilmente uma pessoa se casará com alguém de fora do seu meio social. Além disso, o amor não é apenas um sentimento, ou melhor: o amor é um sentimento que gera atitudes e que, por maior que ele seja, ele não é capaz de sanar profundas diferenças de objetivos na vida, sonhos e opiniões religiosas. Assim, por mais que duas pessoas se amem, se há entre elas profundas diferenças de pensamento e modos de vida, dificilmente elas ficarão juntas. 

As relações inter-raciais

     Enfim, entremos no assunto que dá título ao texto. Achei importante fazer uma análise de como o povo negro é tratado ao longo da história, bem como acerca dos padrões de beleza e do amor romântico difundidos pela mídia antes de entrar no assunto. A pessoa negra que se relaciona com pessoas brancas acha que faz isso por gosto, mas será mesmo? Gosto é uma construção social e não algo inato. Um torcedor de futebol ensina a criança desde o berço por meio de roupinhas do clube o time que ele deve torcer. Quando a criança cresce, ela passa a torcer por aquele time. Pode ser que quando crescer, ela passe a torcer para outro clube, os chamados "vira-casacas", mas são exceções. Assim sendo, até que ponto o homem que prefere mulheres brancas não estaria reproduzindo um padrão social? Isso porque a mulher negra não costuma ser representada na mídia em geral. Aquela pessoa negra que vai a uma festa e só procura beijar pessoas brancas, ela não estaria adotando uma postura racista? A mulher branca é o símbolo da ascensão social. É por esta razão que muitos negros que ascendem socialmente procuram se unir a uma mulher branca. Os jogadores de futebol são o exemplo máximo disso. É exorbitante a quantidade de homens negros que enriqueceram graças ao futebol e se casaram com mulheres brancas. É óbvio que não citarei nomes aqui, mas convido vocês a fazerem a seguinte pesquisa: veja quantos jogadores negros há nos times de futebol e depois veja a cor da da pele de suas respectivas esposas. Já vou adiantando que você vai ter que procurar com uma lupa o jogador negro que é casado com uma mulher negra.
      "O amor é livre" é a expressão usada por algumas pessoas para findar este debate ainda muito polêmico em movimentos negros mundo a fora. O curioso é que a mesma é usada por homens negros que são casadas com mulheres brancas. As mulheres negras, que são a todo instante silenciadas e estão na base da pirâmide social, não costumam ser consultadas sobre o assunto. Além disso, com base na explicação acima, será mesmo que o amor é livre, superior a mais profunda das questões? Será que existe mesmo livre-arbítrio com relação ao amor? O que chama a atenção também é que estas pessoas negras que defendem o "amor livre" só se envolve com pessoas brancas. Ninguém as vê se envolvendo com negras, indígenas, indianas e asiáticas por exemplo. É de extrema importância ressaltar que não vai ser se envolvendo com uma pessoa negra que você vai se livrar do estigma de "palmiteiro". As relações sociais e afetivas no Brasil são complexas e um pouco veladas. Assim, um homem pode muito bem dormir com uma mulher negra e ter um pensamento racista, que pode ser manifestado no modo como ele hipersexualiza a mulher negra, o modo como debocha de seus tracos e a possibilidade dele não querer assumi-la publicamente por exemplo. 
     Será que a pessoa negra que se envolve com pessoas brancas não estaria reproduzindo o racismo institucionalizado? Os meios de comunicação e os órgãos do Estado ensinam a todo momento que o negro é feio, seus traços são feios, sua religião é demoníaca e sua cultura é inferior. É por essas e outras que o negro não é representado na mídia e é assassinado pela polícia, um braço do Estado. Vivemos em uma sociedade onde o negro é ensinado a odiar outro negro em todos os seus aspectos. 
     Como já dito acima, os europeus vieram ao Brasil com a finalidade de embranquecer a população brasileira, que no século XIX já era composta majoritariamente por negros. Desta forma, consciente ou inconscientemente, uma pessoa negra ao se envolver com uma pessoa branca, não estaria pensando em ter filhos com a pele mais clara? É importante ressaltar que em comerciais cujos bebês e crianças pequenas são protagonistas, as mesmas costumam ser em sua maioria brancas. O bebê que muita gente acha fofo costuma ser na maioria das vezes brancos, loiros e dos olhos claros. Vim de uma família cuja grande maioria dos membros são negros. Alguns deles se envolveram com pessoas brancas e tiveram filhos com elas. Me lembro que ouvi diversas vezes (e de parentes negros) que o bebê "tinha o cabelo bom, não puxou a família". Essa expressão revela o desejo velado de embranquecimento de uma família de negros. 
     Não tem como abordar este assunto e não falar dos romances afrocentrados, onde os envolvidos são pessoas negras. São romances onde duas pessoas negras se unem com a intenção de terem filhos negros  e manterem vivas as suas práticas, culturas e tradições. Esta não é uma prática exclusiva dos negros, pelo contrário. Os judeus só se casam com judeus, os muçulmanos só se casam com muçulmanos e cristãos só se casam com cristãos. Se um cristão se casa com alguém que seja de outra religião ou que não compartilha da fé cristã, acontece o chamado jugo desigual. E mais: dentro da fé evangélica "o buraco costuma ser ainda mais embaixo" por conta das muitas correntes desta fé. Assim, um casamento entre um assembleiano e um presbiteriano não é recomendado, pois tenderia a acabar antes de começar por conta do modo como olham para a fé cristã. Além disso, pessoas que vivem fora de seus países de origem costumam falar em casa o idioma natal, bem como ensiná-los para seus filhos. Talvez o exemplo mais popular disso é daqueles chineses donos de pastelaria. Eles se direcionam aos clientes falando português, ainda que incorretamente, mas conversam entre si e na frente de seus clientes em mandarim, deixando o freguês intrigado. São famílias e grupos em geral que procuram manter suas tradições e ninguém fica questionando isso e/ou os chamando de sectários, preconceituosos ou coisa parecida. Entretanto, com relação ao negro a situação é diferente. Aqueles negros que procuram vivem um romance afrocentrado e os movimentos negros que enfatizam tal relação são chamados de sectários, radicais, exagerados e preconceituosos.

Conclusão

     Não estou dizendo aqui que uma pessoa negra e outra branca não podem viver juntas. As relações inter-raciais são uma realidade e não há nada de errado nisso. Entretanto, ao se sentir atraído por uma pessoa branca, faça uma auto-análise e se pergunte se você não está reproduzindo padrões de beleza e o racismo institucionalizado, que tanto matam os negros. Se pergunte também se ao se casar com uma pessoa branca, você não está negando a sua identidade e origens negras. Se pergunte se, ao fazer isso, você não está desejando o embranquecimento de seus descendentes. Se quer uma pessoa branca para viver ao seu lado, que seja uma que entende a sua condição de negro e que esteja disposta a estar ao seu lado na luta contra o racismo. 

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