09/05/2017

O elitismo (não só) do novelista Manoel Carlos

Manoel Carlos é um renomado novelista brasileiro. Imagem: Reprodução.

     Manoel Carlos é um consagrado novelista brasileiro que já deixou sua marca na história da televisão brasileira. Em seu currículo constam novelas de sucesso que emocionaram o país e levantaram importantes debates. Uma característica marcante deste autor é o fato de suas produções serem ambientadas no bairro onde mora: Leblon.

Regina Duarte e a filha Gabriela. Ambas foram mãe e filha na novela Por Amor (1997). Regina Duarte deu vida a três Helenas de Manoel Carlos. Imagem: Reprodução. 

      As novelas de Manoel Carlos tem sempre uma protagonista cujo nome é Helena. Elas geralmente são mulheres maduras, com filhos e às vezes até avó. Elas vivem uma relação de amor e conflito com seus filhos e estão dispostas a se sacrificar pelos mesmos. Foi o que houve em Por Amor (1997), onde Helena (Regina Duarte) troca o seu filho saudável pelo filho natimorto da filha Maria Eduarda (Gabriela Duarte), uma vez que ela não mais poderia engravidar. Outro ato de sacrifício e abnegação foi cometido pela Helena (Vera Fisher) de Laços de Família (2000). Ela começa a namorar Edu (Reynaldo Gianecchini, até então estreante em novelas), mas ao perceber que ele e a filha Camila (Carolina Dieckmann) estavam se apaixonados, ela deixa o caminho livre para ambos viverem juntos. Este ato não foi fácil para Helena, que sofreu bastante com isso. Quando a mesma já havia superado a situação e estava em uma relação estável com Miguel (Tony Ramos), a filha Camila descobre que tem leucemia e só poder ser salva por um transplante de medula de alguém que seja compatível. Como o Fred (Luigi Baricelli) é o seu meio-irmão, logo ele não é compatível. Com isso, Helena sacrifica sua relação com Miguel e se deita com Pedro (José Mayer) para engravidar dele e assim salvar a filha. Tudo isso é feito sem que ele soubesse. No fim, Miguel compreende o ato de Helena e ambos terminam juntos.

Marieta Severo deu vida a Alma, uma das personagens principais de Laços de Família (2000). Foi seu último trabalho antes de interpretar por 14 anos a cômica Nenê de A Grande Família (2001-2014). Imagem: Divulgação/TV Globo. 

     As novelas de Manoel Carlos costumam ser ambientadas no Leblon, bairro nobre e tradicional da cidade do Rio de Janeiro. Os personagens costumam tomar café em uma mesa farta e falta de dinheiro não parece ser a grande preocupação da maioria dos personagens. Eles até trabalham, mas as novelas parecem não focar muito isso. A qualquer hora do dia, mesmo sendo dia de semana, eles interrompem o trabalho e vão para a beira da praia chorar e pensar na vida. Além disso, a estratificação social é visível na novela. As Helenas de Maneco costumam ser de classe média. Elas tem um bom emprego, um bom salário e às vezes viajam para o exterior. Elas costumam ter uma amiga da mesma classe social ou inferior a delas, como é o caso de Yvete (Soraya Ravenle) de Laços de Família. Ela era a melhor amiga de Helena e era de origem humilde. Se Helena era filha de um homem que havia sido prefeito e fazendeiro em uma cidade do Rio Grande do Sul e, além disso, podia fazer viagens para o exterior e mandar a filha estudar um período fora, o mesmo não se podia dizer de Yvete. Nas novelas de Manoel Carlos há também os ricos, eles estão sempre lá. Quem já ocupou o topo da pirâmide social das novelas do Maneco foi a Branca (Susana Vieira) em Por Amor (1997). Branca era uma mulher que achava que dinheiro estava acima de tudo e que desprezava os próprios filhos, com exceção de Marcelo (Fábio Assunção), o filho que ela achava que o pai era o homem que amava, mas na verdade esse filho era o Léo (Murilo Benício). Já em Laços de Família (2000), a ricaça da vez era Alma (Marieta Severo), uma mulher estéril que criou os sobrinhos Estela (Júlia Almeida) e Edu (Reynaldo Gianecchini) como seus filhos depois que os mesmos ficaram órfãos. Alma, ao contrário de Branca, vestia a capa da cordialidade e educação (fazendo com que muitos a vissem como falsa), mas na prática ela era uma mulher extremamente seletiva, que acreditava que a alta posição social estava acima de tudo. Alma e Branca eram mulheres ricas e que não trabalhavam, já que tinham muito dinheiro. Ser rico não é ter muito dinheiro, é mais do que isso: ser rico é você não trabalhar e viver maravilhosamente bem com seu dinheiro.

Branca (Susana Vieira) em cena da novela Por Amor (1997).  Ela e a Alma (Marieta Severo) apresentam algumas similaridades. Imagem: Globo/Nelson di Rago. 

     Outra característica entre Alma e Branca é a importância que ambas dão aos filhos. Em Por Amor, Branca chega a discutir com Helena sobre a saúde de Maria Eduarda, uma vez que a mesma tinha uma saúde frágil e chegou a perder o bebê que esperava de Marcelo, que era filho de Branca. A ricaça deixou claro que não queria "netos postiços", ou seja: ela era contra a adoção. Preocupação semelhante é partilhada por Alma em Laços de Família. Camila perde o bebê que esperava de Edu e em seguida descobre que tem leucemia. Quando Camila perde o bebê, a tia de Edu se mostrava mais preocupada com o bebê que Camila perdeu do que com a saúde da jovem. Além disso, Alma queria que Camila tivesse logo outro filho. Quando a esposa de Edu descobre que tem leucemia e consequentemente fica com a saúde fica abalada, a tia do jovem o recomenda a se separar da esposa e casar com uma que mulher que fosse saudável. A preocupação em ter filhos não era a toa: as personagens em questão eram mulheres muito ricas e precisavam de descendentes para administrar a grande fortuna que possuíam. Estes descendentes deveriam ser preferencialmente filhos que não fossem adotados. Se a pessoa morresse sem descendentes, logo aquela fortuna iria parar nas mãos de uma pessoa que não fosse da família. É este o temor de um rico.
     Manoel Carlos é extremamente criticado pelo fato de suas novelas serem ambientadas no Leblon e pelo fato de seus personagens na maioria dos casos ocuparem altas posições na pirâmide social. Entretanto, este elitismo não é uma característica exclusiva do Manoel Carlos. A grande maioria das produções televisivas são contadas a partir de uma ótica elitista. Algumas produções tem mudado este perfil aos poucos, mas há um longo caminho a ser percorrido. Além disso, aqueles novelistas que retratam a favela em seus trabalhos são tão ou pior que Maneco. Isso porque, ao fazerem isso, eles mostram a periferia a partir de seus preconceitos. Os personagens pobres da também novelista Glória Perez são escandalosos, desinibidos e quase sempre possuem um bordão que cai na boca do povo, como o "não é brinquedo, não!" de D. Jura (Solange Couto) em O Clone (2001) ou o "cada mergulho é um flash" de Odete (Mara Manzan) também de O Clone. João Emanuel Carneiro estereotipou a periferia ao retratá-la em Avenida Brasil (2012). Os moradores do fictício bairro do Divino eram escandalosos, gostavam de roupas que chamassem a atenção e gostavam também de músicas popularescas, como o pagode e o funk. O autor repetiu tal coisa ao escrever A Regra do Jogo (2015). Os moradores da periferia tinham perfil semelhante dos de Avenida Brasil. Além disso, na novela havia um MC que só se apresentava descamisado e duas dançarinas que disputavam a atenção dele. Aliás, uma das dançarinas só sabia roubar comida. Isso sem contar com os apelidos e nomes esdrúxulos de alguns personagens: Romerito (Alexandre Nero), Tóia (Vanessa Giácomo), Adisabeba (Susana Vieira) e Ninfa (Roberta Rodrigues) são apenas alguns exemplos.

Mansão de Tufão (Murilo Benício) em Avenida Brasil (2012). Mesmo enriquecido, o ex-jogador de futebol se recusava a sair do humilde bairro do Divino. Imagem: Reprodução. 

     Retornando para a novela Avenida Brasil (2012), há um fato que deve ser observado neste novela. Tufão (Murilo Benício) foi um ex-jogador de futebol que jogou pelo Flamengo. Graças a isso, o personagem enriqueceu o pôde construir uma grande mansão. A mesma ficava no humilde Divino, bairro da qual se recusava a sair. Já Monalisa (Heloísa Perissé) era uma mulher também de origem humilde que enriqueceu graças ao alisamento progressivo que fazia nos cabelos das clientes. Por insistência do filho, ela se muda para um bairro nobre da cidade do Rio de Janeiro. Entretanto, ela não se adapta ao mesmo e volta a residir no Divino. Estaria a novela dizendo sutilmente para o telespectador pobre que ele pode enriquecer, desde que  não saia da periferia?
     O humorístico Zorra Total (1999-2017) é especialista em mostrar os moradores pobres de modo estereotipado. O exemplo máximo disso é a Adelaide, personagem que pedia esmola no "metrô do Zorra". Ela xingava quando lhe davam pouco dinheiro e levava um tablet escondido. Além disso, ela era uma personagem negra completamente estereotipada: sem os dentes da frente, com nariz e boca exageradamente grandes. Quem a fazia era Rodrigo Santana, que pintava a sua pele para a personagem, em uma espécie de Black Face. Outro exemplo é a Lady Kate, interpretada pela humorista Katiuscia Canoro. Lady Kate era uma nova rica e que não sabia se comportar como tal. Ela se comportava de modo espalhafatoso e usava roupa de cores que chamavam a atenção. Ela tinha um amigo que estava com ela o tempo todo (que por sinal era extremamente afeminado) que tinha a missão de lhe ensinar regras de etiqueta. Antes de sair de cena, ela dizia o seguinte bordão: "grana eu tenho, só me falta-me o 'gramour'. Que que é? Tô pagaaando".

Conclusão

     Manoel Carlos é criticado pelo elitismo latente em suas novelas, mas essa é uma característica da maioria das pessoas que escrevem histórias para a televisão. Estas pessoas talvez sejam ainda piores porque ao retratarem o morador humilde, elas o retratam de forma extremamente estereotipada e jocosa. 

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