11/05/2017

Novelas: um fenômeno que deve ser estudado pela academia

Logotipo das novelas de diferentes época da Rede Globo. Tradicionalmente, as novelas globais são as melhores, marcaram gerações e fizeram história na televisão brasileira. Imagem: Reprodução. 

     Novela, ou melhor: telenovela, é uma narrativa contada na televisão por meio de capítulos onde há várias histórias relacionadas a uma história principal, a dos protagonistas. No Brasil, as novelas são extremamente populares e fazem sucesso também no exterior. Como qualquer produto de seu tempo, as novelas carregam características da época em que foram produzidas.
      É impossível citar novelas no Brasil e não falar daquelas que foram produzidas pela Rede Globo de Televisão. A emissora de TV que nasceu em 1965 começou a produzir novelas e não demorou muito para que se tornasse hegemônica neste setor. Até hoje as novelas da Rede Globo são as melhores. As demais emissoras tentam, mas elas não conseguem quebrar a longa tradição e a liderança da TV Globo na área. O Rebu (1974), Pecado Capital (1975), A Escrava Isaura (1976), Dancin Days (1978), Guerra dos Sexos (1983), Roque Santeiro (1985), Vale Tudo (1988), Barriga de Aluguel (1990), A Próxima Vítima (1995), Explode Coração (1995), O Rei do Gado (1996), A Indomada (1997), Por Amor (1997), Torre de Babel (1998), Terra Nostra (1999), Laços de Família (2000), O Clone (2002), Chocolate Com Pimenta (2003), Senhora do Destino (2004), Alma Gêmea (2005), Duas Caras (2007), A Favorita (2008), Caminho das Índias (2009) e Avenida Brasil (2012) são apenas algumas das muitas novelas da Rede Globo que foram sucesso de audiência.
      Como já dito aqui, as novelas são produtos da época a qual foram produzidas. Desta forma, a mesma reproduz preconceitos e práticas vigentes de sua época. Com isso, uma novela não está isolada de seu contexto histórico. Pelo contrário. Além disso, uma novela ou qualquer outra história transmite mensagens que vão muito além daquilo que está sendo visto. Tais transmitem mensagens sutis, não necessariamente subliminares. Aliás, algumas produções já foram analisadas aqui neste blog, como por exemplo a saga Harry Potter (leia aqui) e o seriado Chaves (leia aqui). Analisar as mensagens que uma novela está passando é um exercício interessante e que ajuda a compreender a sociedade da época em que foi produzida. É fato que a novela é uma obra de ficção e por conta disso exige cuidados ao serem usadas como objeto histórico porque nem tudo o que está ali é real, mas nada impede que uma novela seja usada como objeto de pesquisa.

Da esquerda para a direita: Sílvia (Bete Mendes), Cauê (Buza Ferraz, 1950-2010) e Conrad Mahler (Ziembinski, 1908-1978) em cena da novela O Rebu (1974). Imagem: Reprodução.


     Um senhor de idade muito rico apaixonado por um jovem que era como seu filho adotado, uma festa que reunia a nata da alta sociedade e um corpo que aparece boiando na piscina. É este o enredo da novela O Rebu (1974). No fim, é descoberto que Conrad Mahler (Ziembinski) matou Sílvia por ciúme do filho adotivo Cauê (Buza Ferraz), já que era apaixonado pelo mesmo. Entretanto, um golpe civil-militar havia sido imposto no Brasil 10 anos antes e o mesmo não foi somente um golpe político: foi também um golpe moral. Assim, assuntos que tratavam sobre divórcio, homossexualidade ou que colocassem uma mulher fora do ambiente doméstico eram censurados. É por essa razão que a homossexualidade na novela em questão foi mostrada de forma velada, onde o telespectador podia perceber a mesma. Notemos que a medida que os anos vão passando, os personagens homossexuais e a temática LGBT vem sendo abordada com mais frequência nas telenovelas brasileiras. Isso acontece porque a ditadura chegou ao fim e porque, a pequenos passos, a sociedade vai se tornando gradativamente mais tolerante com relação ao assunto. Entretanto, há um longo caminho a ser percorrido. Os personagens homossexuais são mostrados de forma extremamente cômica e afeminada. Já os casais homossexuais parecem na verdade dois amigos, pois eles não se tocam, não se abraçam ou demonstram afeto. Quando se beijam, são beijos sempre discretos e nada calorosos, ao contrário do que acontece quando um casal hétero se beija. Lembrando que em 2016 a novela Liberdade, Liberdade exibiu uma cena de sexo entre dois homens interpretado pelos atores Caio Blat e Ricardo Pereira. É cena é muito bonita, bem dirigida e movimentou a web. A mesma pode ser vista aqui. O fato da pauta LGBT ser abordada com frequência em telenovelas não significa necessariamente que a LGBTfobia esteja chegando ao fim no país. 

Leôncio (Rubens de Falco) e Rosa (Léa Garcia) em cena da novela A Escrava Isaura (1976). Imagem: Acervo/Globo. 


      Em 1976, o romance de Bernardo Guimarães intitulado A Escrava Isaura ganha a sua primeira adaptação para a televisão. O responsável por fazer isso foi o consagrado novelista Gilberto Braga e a atriz escalada para viver Isaura foi Lucélia Santos, personagem que é lembrado até hoje. Aliás, não é somente Lucélia que é lembrada por este papel, mas a novela de forma de geral. O folhetim em questão foi um sucesso absoluto e exibido em dezenas de países. Na década de 1970, quando a novela foi exibida, o Brasil vivia um período ditatorial e toda produção cultural deveria passar pela censura do regime. Com A Escrava Isaura não foi diferente: a novela foi proibida de exibir cenas de escravos sendo torturados, chicoteados ou coisas do tipo. A ditadura reforçou o mito da democracia racial, onde supostamente o racismo não existe. Assim, mostrar uma novela onde há negros sendo torturados ia de encontro com essa imagem forjada do país. Este fato é no mínimo contraditório, pois quando Bernardo Guimarães escreveu A Escrava Isaura (1875), ele o fez com a finalidade de criticar e denunciar o regime abolicionista que chegaria ao fim em 1888. 
     Aliás, vale destacar o modo como os negros são retratados em novelas. Quase sempre eles são empregados, escravos ou bandidos por exemplo. Vale destacar aqui a atriz Zezé Motta. Ela é uma excelente atriz, experiente e pioneira na história da televisão brasileira. Zezé já mostrou seu talento inúmeras vezes na televisão. Entretanto, se analisar os papéis que a atriz em questão já interpretou, verá que muitos são de escravas ou empregadas. Quando um ator negro não interpreta um personagem com o perfil neste parágrafo descrito, ele também não tem uma história própria, está sempre a sombra de alguém. Ou ele é o melhor amigo do protagonista ou seu personagem serve de "trampolim" para outro personagem. O caso mais recente de personagem com este perfil é o de Marilda, interpretada pela atriz Dandara Mariana em A Força do Querer (2017). Ela não tem história na trama, a sua função é apenas ajudar Ritinha (Ísis Valverde), a protagonista, em suas armações. O modo como o negro é retratado na televisão vem mudando a passos curtos e nesse contexto vale destacar o seriado Malhação, no ar desde 1995. A temporada anterior teve na primeira vez em sua história uma protagonista negra que não rompia totalmente com o modo como o negro historicamente é retratado na televisão. Na já temporada atual uma das cinco protagonistas também é negra. Além disso, a música de abertura da atual temporada é de Karol Conka, cantora conhecida por abordar em suas músicas temas relacionados ao feminismo e ao racismo. A tentativa dos responsáveis pelo seriado em questão é fazer com que o mesmo seja popular. Isso acontece em um momento onde o seriado não dá mais tanta audiência quanto outrora e onde também a discussão em torno do racismo é vista com frequência nos grandes meios de comunicação.
      As novelas acima citadas mostram brevemente que é possível utilizar as mesmas para entender o período em que foram escritas. De fato, são análises superficiais porque se fosse analisar uma novela a fundo, seriam necessários muito mais que um post de um blog

A resistência que as novelas enfrentam no meio acadêmico

      Para estudar as novelas no ambiente acadêmico é preciso enfrentar a barreira da resistência. Isso porque a universidade ainda é um espaço muito elitista e repudia tudo aquilo que vem do povo e como a novela é uma cultura popular, logo ela não é bem vista. Me lembro que sempre quando eu e alguns amigos universitários falamos sobre novela, os demais ficavam incomodados com o assunto porque não gostavam daquilo. Comentando sobre novelas em minha conta pessoal no Facebook, uma amiga universitário perguntou de forma pejorativa se eu havia virado crítico de novelas e terminou dizendo que eu tinha "potencial para coisas mais úteis". Em um seminário de uma disciplina eletiva da universidade, eu citei uma novela que estava sendo exibida na época como exemplo para ilustrar minha fala. Me lembro que vi risos desconcertantes e discretos, tantos dos meus colegas que estavam apresentando junto comigo, como da própria professora. Ela complementou minha fala e finalizou dizendo que o exemplo que usei foi incomum, já que a maioria dos presentes não assistiam novela.
      Tudo isso acontece porque, além do que foi dito acima, não é cult no ambiente acadêmico você dizer que assiste novela. Cult é você dizer que assiste Narcos (2015), Grey's Anatomy (2005), Sense 8 (2015), 13 Reasons Why (2017), The Crown (2016), Orange Is The New Black (2013) ou qualquer outra série que seja exibida na Netflix ou em uma TV por assinatura. Novelas não são bem recebidas no meio acadêmico. 

Conclusão

      As novelas são produtos da época a qual foram produzidas. Por conta disso, elas refletem aspectos da mesma. Desta forma, é válido usar as novelas como objeto histórico, devendo ressaltar que uma novela é uma obra de  ficção e que nem sempre possuem um compromisso com a realidade, salvo algumas exceções. Entretanto, as novelas enfrentam resistência no meio acadêmico, assim como tudo aquilo que tem origem popular. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Leia também:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...