21/02/2017

O racismo vivido na prática por um homem negro

Imagem: Nanuk_JF (Tumblr)

     Muito se fala sobre o racismo no Brasil, o que é uma realidade no país. Entretanto, vale analisar como o racismo é vivenciado na prática. A fim de fazer esta análise, será feita uma comparação entre o racismo vivenciado por um homem negro e por uma mulher negra.
    O homem negro está presente em sua maioria na posição mais baixa da sociedade. Eles são motoristas, frentistas, vendedores ambulantes, faxineiros, atendente de lojas e cozinheiros por exemplo. O homem negro é visto como bandido, traficante, viciado, morador de rua e tudo de ruim que há na sociedade e é por esta razão que ele é o alvo número um da Polícia Militar. Já a mulher negra sofre tudo isso e muito mais porque ela carrega dois estigmas sociais: o fato de ser mulher e o fato de ser negra. Além de sofrer por conta do racismo, a mulher negra sofre por ser mulher. Por causa disso, a mulher negra é vítima de assédio sexual, objetificada, veem as oportunidades profissionais reduzidas para menos da metade por conta destes dois estigmas sociais e ainda por cima ganha menos do que a mulher branca. Além disso, a mulher negra não é vista como um referencial de beleza. Ela praticamente não é vista em desfiles de moda, campanhas publicitárias, propagandas de cosméticos e raramente é a protagonista de uma novela ou série. Falta representatividade para a mulher negra.

Michael Sam (à esquerda) ao lado do então namorado. Imagem: Reprodução.

     Assim como a mulher negra, o homem negro também é objetificado. Ele é visto como um homem forte, viril, com órgãos sexuais bem dotados e que faz um serviço excepcional na cama. Ele é o único capaz de satisfazer sexualmente a mulher branca. A expressão "toda loira gosta de um negão e todo negão gosta de uma loira" exemplifica bem este fato. Esta mesma expressão reforça estereótipos e preconceitos. Isso porque é a junção de dois seres (a mulher loira e o homem negro) hipersexualidados pela sociedade. Revistas masculinas, propagandas de cerveja, novelas e alguns estilos musicais colocam a mulher loira como a mulher de seios fartos, lábios carnudos e um corpo definido que pode satisfazer sexualmente qualquer homem. Esta hipersexualização é reproduzida em vídeos adultos. Alguns sites de conteúdo erótico apresentam a categoria "interracial" e o que se vê na maioria dos casos são homens negros fazendo sexo selvagem com mulheres loiras e ambos se enquadram nos estereótipos aqui citados. O fato de o homem negro ser hipersexualizado não significa necessariamente que ele esteja no topo da lista quando o assunto é casamento. O homem negro, assim como a mulher negra, também é preterido e estão em maior número na lista de solteiros. 
     A situação  não é muito diferente dentro da comunidade LGBT. A imagem do homem másculo, viril e que não "dá pinta" é idolatrada, mas o gay afeminado é visto com preconceito e deboche dentro da comunidade que deveria acolhê-lo. O gay loiro, alto, forte, de olhos azuis e que tem relativo poder aquisitivo é o sonho da maioria dos LGBTs, mas o homossexual negro, afeminado e que mora na periferia não é visto como "gay padrão". É também dentro da comunidade LGBT que o negro é objetificado e ao mesmo tempo preterido. Todos querem o homossexual negro para transar, mas não o querem para casar. Mais uma vez a indústria pornográfica entra em cena e reproduz tal preconceito para lucrar. Na categoria "gay" de alguns sites eróticos, o homem negro e viril é quase sempre colocado como o ativo da relação, ao passo que o homem branco e franzino faz o papel do passivo. A imagem postada acima é a de Michael Sam, primeiro jogador de futebol americano a declarar publicamente ser homossexual. O rapaz ao lado dele é o seu ex-namorado Vito Cammisano. Quando fotos e vídeos do casal foram lançados na rede e consequentemente visto por um grande número de pessoas, logo veio a dúvida: "quem come quem?". Talvez a pergunta mais feita a um homem homossexual é acerca do papel que desempenha na hora do ato sexual. No caso do ex-casal em questão não foi diferente e a dúvida se tornou ainda mais instigante porque Michael Sam é um homem musculoso e tem 1.88m de altura. Para muita gente, era mais que óbvio que Michael fosse o ativo da relação, uma vez que algumas pessoas acham inconcebível a possibilidade de um homem negro, alto, forte, musculoso e com cara de mau (pelo menos em campo) ser penetrado por outro homem; homem esse que é muito menor que Michael e que nem é tão musculoso quanto o mesmo. Porque um negro não pode ser o passivo da relação? Porque um homem de estatura mediana e nem muito musculoso (como é o caso do Vito Cammisano) não pode ser o ativo da relação? 

Palmiteiro

Na maioria dos casos o homem negro prefere a mulher branca. Imagem: Reprodução.

     A mulher negra é preterida pelos homens brancos e pelos homens negros também. Na maioria dos casos, o homem negro deseja se satisfazer sexualmente com uma mulher branca. Ao fazerem isso, eles reproduzem o racismo e o modelo de beleza hegemônico que coloca a mulher branca como referência. Além disso, a união com uma mulher branca acontece quando o homem negro ascende socialmente. O esporte, em especial o futebol, é um dos poucos meios que permitem ao negro ascender na sociedade. É graças ao futebol que muitos negros de origem humilde enriquecem. Ao fazerem isso, eles se casam (ou ao menos se envolvem) com uma modelo ou uma mulher do anonimato mesmo, mas que na maioria dos casos é branca. É óbvio que nomes não serão citados aqui, mas façam uma pesquisa rápida e verão que a maioria dos futebolistas negros são casados com mulheres brancas. Vale lembrar que não é só o homem negro rico que se casa com uma mulher branca. Os homens negros pobres também costumam fazer isso. Conheço vários. É importante lembrar também que, além da  ascensão social, o envolvimento com mulheres brancas é visto como uma possibilidade de clarear a família, livrar os futuros descendentes da possibilidade de nascerem com a pele negra. Os nomes não serão citados aqui, mas façam uma pesquisa e veja o tom de pele dos filhos dos  jogadores de futebol negros que se casaram com mulheres brancas. Eles são loiros e em nada puxaram o pai, embora haja exceções. Há também aquelas crianças que nasceram com os cabelos loiros e crespos. 
     Não vamos cair no discurso equivocado de que as pessoas negras só devem se relacionar entre si. Não há nada de errado no fato de uma pessoa branca e uma pessoa negra se interessarem uma pela outra. "É uma questão de gosto". Mas que gosto é esse? Até que ponto a pessoa não está reproduzindo preconceitos e padrões de beleza? O gosto é socialmente construído. Digo e repito: não há nada de errado em uma relação interracial. Entretanto, é curioso perceber que a maioria dos homens negros preferem se envolver com mulheres brancas. 

Conclusão

     Os efeitos práticos do racismo na vida cotidiana do homem negro são a violência policial, as posições mais baixa nos postos de trabalho, na sociedade e a objetificação de seus corpos pelos heterossexuais e também pelos homossexuais. Por outro lado, o homem negro reproduz o racismo ao preferir mulheres brancas para se relacionar. É o racismo internalizado. 

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