15/02/2017

O início da associação entre a mulher negra e o Carnaval

Valéria Valenssa foi a mulher que mais tempo permaneceu no posto de Globeleza. Foram mais de 10 anos em que Valéria emprestou seu corpo para anunciar as chamadas pré-carnavalescas da Rede Globo de Televisão. Imagem: Reprodução.

     A mulher negra tem espaço negado em desfiles de moda, campanhas publicitárias e em novelas dificilmente é a protagonista. Além disso, elas não estão na lista dos homens quando o assunto é casamento. Entretanto, em tempos de Carnaval, a mulher negra é a protagonista: é ela quem sabe sambar, é ela quem é a rainha de bateria, é ela quem é admirada e desejada. O samba é um dos poucos lugares onde a mulher negra é a protagonista.
     Não há uma precisão sobre quando começou a relacionar mulher negra e Carnaval. O samba (o Carnaval não) tem suas origens nos morros e periferias, onde moram majoritariamente pessoas negras que não são incluídas na sociedade. Pelo fato de sua origem popular e negra, o samba foi bastante criminalizado pela sociedade elitista branca. Desta forma, antes de relacionar mulher negra e samba, as mulheres negras tinham um vínculo com este estilo musical. Já a origem do Carnaval não é brasileira, mas ele foi abrasileirado e o samba faz parte deste processo.
      Como já dito nos parágrafos anteriores, não há uma data precisa acerca de quando começaram a associar mulher negra e Carnaval. Entretanto, essa associação se mostrou tão forte que até o governo teria se aproveitado da mesma. A Embratur (Empresa Brasileira de Turismo) foi criada no ano de 1966, quando o país vivia uma ditadura civil-militar cujo presidente ditador era Castelo Branco, com a finalidade de promover o turismo no Brasil. Neste período, o Brasil vivia uma intensa luta política, com a imposição de uma ditadura que oprimia política e economicamente a população de um lado e com a forte resistência popular do outro. O objetivo era criar uma imagem do país que escondesse todos estes problemas e atraísse turistas de todo o mundo, em especial dos EUA e da Europa, aquecendo um mercado até então pouco investido no país. O governo cria uma estratégia de marketing baseada no tripé "Samba - Mulata - Futebol", tendo as belezas naturais do país como plano de fundo. A "mulata" era a mulher negra e sua beleza, oferecida em propagandas e nas imagens dos desfiles das escolas de samba como mais um dos "serviços" que poderiam ser encontrados no Brasil. A partir daí, a imagem da mulher negra, bem como sua nudez, sua beleza e sua dança passaram a ser exploradas ostensivamente pelos grandes meios de comunicação. A propaganda usada pela Embratur nos anos 1970 e 1980 exaltava a sexualidade da mulher negra, que sempre vestia pouca ou nenhuma roupa. 

Na vinheta de Carnaval da Rede Globo de 2017, Érika Moura, a atual Globeleza, aparece vestida de acordo com os costumes de cada região do Brasil. A intenção seria reformular a imagem da Globeleza. Imagem: Rede Globo.

     A popularidade da relação entre mulher negra e Carnaval atingiu seu auge graças a Rede Globo de Televisão, que se aproveitou desse imaginário popular. No começo da década de 1990 surgiu a Globeleza, uma mulher negra que samba nas vinhetas da emissora, indicando que o Carnaval está chegando e com ele os desfiles das escolas de samba. Valéria Valenssa foi a Globeleza mais popular e a que ficou mais tempo no posto. Foram mais de 10 anos. Na vinheta do Carnaval 2017, a Rede Globo surpreendeu ao colocar uma Globeleza vestida com os trajes de cada região do Brasil. Este fato foi uma surpresa porque há mais de duas décadas que a mesma aparecia nua nas telinhas a qualquer hora do dia. O objetivo desta inovação seria fazer com que todos os brasileiros se sentissem representados, o que resultaria em uma popularidade maior para a emissora, que vem se tornando cada dia mais impopular. 
     É de extrema importância ressaltar que, mesmo a mulher negra sendo a protagonista do Carnaval, ela continua sendo vítima de preconceito. Isso porque a mulher negra é vista meramente como um objeto sexual. Esta visão persegue a mulher negra o tempo todo, mas no Carnaval, época em que se permite liberar toda forma de desejo e fantasia, este estigma tende a ser mais forte. Essa mistura de desejo e preconceito, onde a mulher negra é ao mesmo tempo desejada e rejeitada, é cantado até em marchinhas de Carnaval. Observem a seguinte letra: "O teu cabelo não nega, mulata/ Porque és mulata na cor/ Mas como a cor não pega, mulata/ Mulata, eu quero o teu amor". Esta letra é uma tradicional marchinha de Carnaval. O eu-lírico é ao mesmo tempo preconceituoso e desejoso da mulher negra. Preconceituoso porque ele fala que a cor não pega e é justamente pelo fato da cor não pegar que ele quer o amor (ou o corpo, melhor dizendo) da mulher negra. Em outras palavras, ele só quer a mulher negra porque a cor de sua pele não vai passar para ele. Se passasse, ele não a desejaria. Historicamente, a mulher negra é vista como um objeto que serve  somente para satisfazer os desejos sexuais de um homem. Nos tempos da escravidão, era comum os senhores manterem relações consensuais ou não com as escravas. Na maioria dos casos, o dono de uma escrava não se casava com a mesma e quando a relação dava filhos, eles não eram reconhecidos. Alguns senhores até ajudavam financeiramente seus filhos que tiveram com escravas, mas raramente assumiam os mesmos publicamente. 

Vera Holtz e Taiguara Nazareth em cena da minissérie Presença de Anita (2001). Os atores protagonizaram momentos quentes no folhetim. Imagem: Reprodução.

     É importante ressaltar que, assim como a mulher negra, o homem negro também é objetificado. Ele é visto como um ser com órgãos sexuais avantajados e que é capaz de fazer coisas incríveis na hora do ato sexual. A mídia, mais especificamente os folhetins, acabam absorvendo esta visão acerca do homem negro. A trama central de Presença de Anita (2001) girava em torno de um casal em crise conjugal que viaja para o interior da cidade a fim de salvar o casamento. Entretanto, a ideia de reconciliação é abalada com a chegada de Anita (Mel Lisboa). Marta (Vera Holtz) era uma mulher rica e um dos personagens principais da trama. André (Taiguara Nazareth) é um empregado que chega para trabalhar na casa onde Marta mora. André é negro e Marta possuía um racismo velado. André, que além de negro, era jovem e forte, logo mexe com os desejos de Marta. Com isso, em um dia em que estavam somente a dona da casa e o empregado, ambos resolvem se entregar ao desejo. A sequência mostra cenas quentes e espetaculares. Mesmo racista, Marta transa com o empregado. Não havia amor: só desejo. Era o homem negro proporcionando momentos de intenso prazer para a mulher branca. O também ator negro Ailton Graça já fez mais de um personagem em que não conseguia ser homem de uma mulher só. O mais recente foi na novela Totalmente Demais (2015), onde deu vida a Florisval, um homem apaixonado por sua esposa, mas que costumava se envolver com mais de uma mulher ao mesmo tempo. Na dramaturgia, o homem negro é representado como empregado, traficante, mendigo e mulherengo, fazendo com que as mulheres (em especial mulheres brancas) não resistam ao seu charme.

Conclusão

     Pelo fato de o samba ser um estilo musical que tem sua origem na periferia (que é habitada em sua maioria por negros), provavelmente foi daí que o mesmo foi associado a mulher negra, dando origem a mistura "samba - Carnaval - mulher negra", mexendo com o imaginário de muitos homens e reforçando o racismo. Assim como a mulher negra, o homem negro também é objetificado, mas a objetificação do homem negro acontece de outra maneira. Mas isso é assunto para outro post. 

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