25/01/2017

Cida, a 'empreguete' que se achava "da família"

Cida (Isabelle Drummond) em cena da novela Cheias de Charme. Imagem: Cheias de Charme/TV Globo. 

     A novela Cheias de Charme (2012) é uma novela "das sete" exibida pela Rede Globo de Televisão entre os meses de abril e setembro de 2012. Desde setembro de 2016 que a novela está sendo reprisada no Vale a Pena Ver de Novo. O folhetim conta a história de três marias (a novela chegou a ter o nome provisório de As Três Marias e Marias do Lar): Maria da Penha (Taís Araújo), Maria do Rosário (Leandra Leal) e Maria Aparecida (Isabelle Drummond). Logo de inicio, o que chama a atenção é que as protagonistas possuem algo em comum: nenhuma delas possui uma "família normal". Penha (Taís Araújo) não convive com o pai e a mãe a abandonou junto Alana (Sylvia Nazareth) e Elano (Humberto Carrão), seus irmãos mais novos. Com isso, Penha teve um amadurecimento precoce e se viu como responsável pelos irmãos. Rosário (Leandra Leal) vivia em um orfanato até ser adotada por Sidney (Daniel Dantas), um homossexual que é viúvo há muitos anos. Cida (Isabelle Drummond) não tem pais, sendo sempre amparada por sua madrinha Valda (Dhu Moraes).

Da esquerda para a direita: Penha (Taís Araújo), Rosário (Leandra Leal) e Cida (Isabelle Drummond). Empreguetes que alcançaram o estrelato. Imagem: Reprodução. 

     Dolores (Cláudia Paiva) era uma empregada doméstica e Santos era motorista. Ambos trabalhavam na casa do Tubarão (Tato Gabus Mendes). Eles se apaixonam e desse amor nasce Cida. Santos falece primeiro e passa-se um tempo e Dolores falece também. Com isso, Cida se torna uma menina órfã e passa a ser cuidada por sua madrinha Valda (Dhu Moraes). Cida, até então uma criança, não tinha nenhum parente próximo e seus pais trabalhavam (e provavelmente dormiam também) na casa da família Sarmento. O que era um problema logo se tornou uma solução: ainda muito nova, Cida passou a trabalhar como empregada  doméstica para os Sarmento. A então menina possuía mais ou menos a mesma idade de Ariela (Simone Gutierrez) e Isadora (Giselle Batista), filhas de Ernani Sarmento (Tato Gabus Mendes) e Sônia Sarmento (Alexandra Richter). Com isso, a menina costumava se divertir com as filhas do patrão, mas o estigma de empregada era lembrado a todo instante: era Cida quem arrumava a bagunça, era a Cida quem guardava os brinquedos e as roupas que a jovem vestia eram peças que as filhas do patrão não queriam mais. O estigma de doméstica se mostrou de forma latente quando Conrado (Jonatas Faro) rompeu com Cida ao descobrir que ela não era da família Sarmento e sim uma empregada doméstica. Vale lembrar que Cida tinha pouquíssima instrução.
     O caso de Cida é uma realidade na vida de muitos brasileiros. Brasil afora, muitos trabalham desde a mais tenra idade na casa de uma família. Não estudam, não ganham salário, não possuem carteira assinada e trabalham exaustivamente de manhã até a noite. Quando os patrões são questionados sobre tal fato, eles logo soltam um "é da família", só que não. Se de fato eles fossem da família, estas pessoas estariam estudando e sendo tratados da mesma forma como são tratados os filhos do patrão. E o mais absurdo de tudo isso é que quando estas pessoas são questionadas, elas acreditam estar fazendo um favor e que o "da família" é um ingrato. Eles costumam falar coisas do tipo: "você teve sorte de vim morar aqui", "aqui você tem tudo: comida, roupa, cama. Está reclamando do quê?" e coisas parecidas. Não é preciso dizer que esta relação servil beira a escravidão.
       Vou contar um caso pessoal para vocês. Uma parente paterna minha tem origem humilde. A mãe dela largou a vida na roça nordestina para vim morar na cidade do Rio de Janeiro. Eram todos muito humildes e praticamente sem instrução. Com muito esforço, a mãe passou a receber pensão do falecido marido, mas ainda era insuficiente para sustentar a família. Uma família de relativo poder aquisitivo se ofereceu para levar uma das meninas para "cuidar dela". A mãe, vendo no fato a possibilidade de a filha ter uma vida melhor, permite tal coisa e a menina passa a morar com esta família. A moça, que tinha menos de 18 anos (uma adolescente), passa a trabalhar como empregada doméstica  na casa da família, era uma  espécie de "faz tudo": dava faxina, limpava a piscina, alimentava os cachorros, lavava, passava e cozinhava. Ela tinha horário para começar, mas não tinha horário para terminar. Não tinha férias, salário e nem décimo terceiro. Aliás, ela nem tinha carteira assinada. As roupas que usava eram as que os patrões não queriam mais e seu quarto ficava nos fundos da casa. Ela não estudou e/ou fez algum curso. Se pensam que os patrões tinham algum afeto por ela, está enganado. A mulher que a levou para sua casa a queria por perto, mas seus filhos estavam loucos para que ela morresse para que assim essa minha parente fosse embora  da casa. Hoje ela não trabalha mais para esta família. Pelo fato de ter pouquíssima instrução, teve uma dificuldade tremenda para arrumar um emprego. Vale destacar que, assim como essa minha parente, a personagem Cida não tinha carteira assinada. Isso só foi cogitado depois que a jovem completou 18 anos.

Questão racial


Na TV, no teatro ou cinema os negros em grande maioria interpretam personagens serviçais. Imagem: Filme Histórias Cruzadas (2011). 

     Na dramaturgia em geral, os negros quase sempre são representados como serviçais. Entretanto, quando este serviçal é importante para a trama, este papel não é representado por um negro. A própria  Cida pode ser tomada como exemplo. A maioria das pessoas vítimas da relação de trabalho aqui analisada são negras e os brancos são minoria. Entretanto, pelo fato de a doméstica ser uma das protagonistas, ela não é interpretada por uma negra. Vale destacar que Taís Araújo, atriz negra e militante, é uma das protagonistas da novela.
      Outra novela que pode ser tomada como exemplo é Laços de Família (2000), que em 2016 foi reprisada no Canal Viva. Zilda (Thalma de Freitas) era a empregada de Helena (Vera Fischer). Ela não tinha história, trabalhava dia e noite, "puxava o saco" dos patrões e sempre defendia os mesmos. Thalma de Freitas é uma atriz negra que estava interpretando uma serviçal. Na mesma novela, Rita (Juliana Paes) era uma das empregadas que trabalhava na mansão de Alma (Marieta Severo). Ao longo da trama, Rita se envolve com Danilo (Alexandre Borges), marido de alma e engravida do mesmo, dando à luz a gêmeos. Rita morre após o parto. A personagem de Rita era uma empregada doméstica que tinha sua importância na trama e por isso a mesma não foi interpretada por uma negra. A mesma se envolve com o marido da patroa, relevando assim mais uma característica das relações servis de trabalho no Brasil: a empregada que engravida do patrão, que pode ou não assumir a paternidade da criança. Entretanto, há outro fator que chama a atenção aqui. Rita era uma empregada morena e sensual, fato que encantou o Danilo e metade dos brasileiros. A mulher negra não é vista como uma mulher bonita.

Felipe (Marcos Pitombo) e Shirlei (Sabrina Petraglia) em Haja Coração: romance no estilo Cinderela. Imagem: Reprodução. 
 
      Em 2016, a Rede Globo de Televisão exibiu a novela Haja Coração. Sabrina Petraglia, uma atriz branca, interpretou a empregada doméstica Shirlei, que era manca por conta de um acidente na infância. Ao longo da trama, ela se apaixona por Felipe (Marcos Pitombo), que era noivo de Jéssica (Karen Junqueira), que larga tudo para ficar com Shirlei. A história de Shirlei é despretensiosa e bem no estilo Cinderela, onde a gata borralheira e o príncipe se apaixonam um pelo outro. E no caso de Shirlei há um fator a mais: ela é manca, fazendo com que a auto-estima da mesma fosse baixa. Uma branca interpretou o papel que na maioria dos casos é interpretado por uma negra, pois a personagem em questão tem história. Isso porque o negro na dramaturgia interpreta na maioria dos casos papéis serviçais ou que não possuem vida própria, voz e visibilidade.

Conclusão

     Independente do foco da novela, o fato é que a relação serviçal de trabalho vivida por Cida em Cheias de Charme é comum em muitas regiões do Brasil. Os resquícios da escravidão ainda se fazem presentes e é esta a estrutura sócio-econômica da sociedade brasileira. Os negros estão em número considerável neste mesmo tipo de trabalho e é desta maneira que são retratados na dramaturgia. Entretanto, a partir do momento em que tal personagem tem um propósito na história, o mesmo é interpretado por um ator branco.

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