23/01/2017

Assuntos mal abordados em Malhação

Joana (Aline Dias), protagonista da atual temporada de Malhação. Imagem: Reprodução. 

     O seriado jovem Malhação está no ar desde 1995. De lá para cá o mesmo marcou gerações e alguns personagens até hoje são lembrados pelo público. Entretanto, há um tempo considerável  que o folhetim em questão não vem atingindo a mesma audiência de outrora. O folhetim jovem não atrai mais aqueles que assistiram as primeiras temporadas e nem as novas gerações. É sempre a mesma história: uma protagonista, um galã que se apaixona pela protagonista e ambos se tornam o casal principal. Tem a vilã que se apaixona pelo galã e faz de tudo para ficar com ele. Essa mesma vilã pode ser a melhor amiga ou até mesmo irmã da protagonista. Passam-se os anos, mas a fórmula é basicamente esta.  A questão é que esta fórmula está esgotada e os escritores que escrevem Malhação estão começando a se dar conta disso. Assim, novos temas tem sido abordados em Malhação. Entretanto, estes novos temas não são bem desenvolvidos e os preconceitos acabam sendo ainda mais reforçados. Veja três casos em que os escritores de Malhação "pisaram na bola":

1 - Joana, a protagonista vítima de racismo:


Joana (Aline Dias, à esquerda) e Bárbara (Barbara França, à direita) em uma cena de Malhação. Imagem: Divulgação/TV Globo/Isabella Pinheiro/Gshow. 

     O seriado jovem Malhação é exibido desde 1995 e somente em 2016 que o mesmo foi protagonizado por uma jovem negra. Este é um fato curioso, já que mais da metade da população brasileira é negra. Sem dúvidas, este fato é um marco na história do seriado, mas há pouco o que comemorar. O folhetim em questão tem a maior parte dos acontecimentos ambientado em uma escola e, desta forma, os protagonistas e a maior parte dos coadjuvantes são estudantes. Entretanto, Joana (Aline Dias), a protagonista negra, não é uma estudante como as protagonistas anteriores. Joana é uma faxineira que trabalha na academia (assumindo um posto mais alto com o passar da história) daquele que descobre ser seu pai, já que a jovem foi fruto de um caso extraconjugal e por isso não conheceu o pai. Joana é negra, mas a sua família por parte de mãe e a família por parte do pai são brancos. A moça não teve o direito de ter uma família negra. Além disso, Joana é vítima de racismo a todo instante ao longo da história. Parte considerável dos ataques racistas partem de Bárbara (Barbara França), a meia-irmã de Joana. Bárbara não perdoa o pai pelo fato dele ter traído a mãe e por isso desconta tudo em Joana. A questão é que estes ataques contém um cunho racista. Barbara sonha em ver a meia-irmã voltando para Morro Branco (Ceará), onde Joana vivia. A loira sempre se refere a Morro Branco de forma pejorativa, revelando seu preconceito com os nordestinos.

2 - BB, o homossexual vítima de homofobia:


Rômulo (Juliano Laham, à esquerda) e BB (Paulo Hebrom, à direita) em Malhação. Após a briga vem a reconciliação. Imagem: Divulgação/Malhação/TV Globo. 
     Rômulo (Juliano Laham) é um jovem vindo do interior, sem família e que foi criado em um orfanato. Possui pouquíssima instrução e sonha em ser um lutador profissional. O jovem se apaixona por Nanda (Amanda de Godoi), que até então vivia em um período de luto por conta da morte do então namorado Felipe (Francisco Vitti). A vida amorosa de Nanda parecia estar seguindo em frente. Tudo mudou com a chegada de BB (Paulo Hebrom), irmão de Nanda. BB é homossexual, fato que deixou o machista Rômulo bastante incomodado. A situação chega em seu ápice quando Rômulo não se deixa ser tocado por BB, relevando a sua homofobia até então velada. Tudo foi feito em uma sequência maravilhosa e os três atores envolvidos (Amanda de Godoi, Paulo Hebrom e Juliano Laham) estão excelentes (veja aqui). O problema é o que vem depois. Percebendo que seu preconceito causou uma aguda crise em seu relacionamento com Nanda, Rômulo por conta própria decide ir atrás do cunhado e pedir perdão a ele. BB fica na defensiva, mas logo relaxa. Em dado momento, BB fala para Rômulo não se preocupar porque o lutador não faz o tipo dele. Se os autores quiseram quebrar preconceitos, eles acabaram fazendo o contrário. Um heterossexual não deve ser homofóbico por temer ser assediado por um homossexual. Um LGBT deve ser respeitado porque ele é um ser humano como qualquer outra pessoa. "Abra sua mente, gay também é gente", já diziam os saudosos meninos da banda Mamonas Assassinas.
      Além disso, é tudo muito mal construído em toda essa história. Do nada, como em um passe de mágica e da forma mais clichê possível, Rômulo deixa de ser homofóbico e chega até a defender o cunhado diante dos pais, que não aceitavam a sexualidade do filho. É fato que nenhum militante nasce pronto: a militância é construída. Desta forma, um militante LGBT antes de se tornar tal, reproduz muitas práticas homofóbicas e mudar essa consciência é um caminho longo. Entretanto, no caso de Rômulo tudo aconteceu praticamente de uma hora para outra.

3 - Belloto, o professor vítima de racismo:


Alisson (Gabriel Mandergan, à esquerda) e Belloto (Sérgio Malheiros, à direita). O desentendimento entre ambos os professores chegou às vias de fato. Imagem: Reprodução.
     O desentendimento entre os profissionais começou quando Belloto (Sérgio Malheiros) passou a criticar o personal Alisson (Gabriel Mandergan) pela série excessiva de exercícios físicos que estava passando para o adolescente Artur (Gabriel Kaufmann). Em um momento da discussão, Alisson diz para Belloto que a Joana só está na gerência da academia porque ela é filha do patrão (Marcos Pasquim) e o Belloto só está defendendo ela porque ela é negra, assim como ele. Belloto chama Alisson de ignorante, que responde com um soco no rapaz. A situação não para por aí. Alisson e mais algumas pessoas começam a jogar na rede memes de cunho racista envolvendo Joana e Belloto. Jéssica (Laryssa Ayres) e Nanda (Amanda de Godoy) percebem o racismo em toda esta situação e incentivam Belloto a denunciar Alisson. Se as amigas se mostram muito incomodadas com tudo isso, o mesmo não se pode dizer de Belloto. O rapaz diz não ver o racismo na história e acredita que as meninas estão exagerando. Além disso, o rapaz diz que sempre estudou, trabalhou e que a cor de sua pele nunca o impediu de correr atrás de seus sonhos. Em uma situação mais do que óbvia de racismo, é no mínimo tendencioso um negro dizer que não existe racismo na situação em questão.

O lugar de fala

     Algumas pessoas que lerão este texto podem acreditar que as gafes dadas pelos autores de Malhação ao abordarem tais temas está no fato de os mesmos não pertencerem aos seus devidos lugares de fala. Provavelmente, os autores de Malhação são pessoas de relativo poder aquisitivo e não sofrem nenhuma das opressões aqui citadas e, portanto, não sabem o que é sofrer preconceito. Entretanto, esta questão é muito delicada porque, da mesma forma que um não oprimido conhece as causas do oprimido e as defende, existem não oprimidos que levantam determinadas bandeiras e acabam falando besteiras. Um caso clássico e que uso com frequência é o do deputado federal Jean Wyllys (PSOL - RJ). A série Sexo e as Negas (2014) foi extremamente criticada por associar a imagem da mulher negra a lascividade, imagem esta que os movimentos feministas, em especial os movimentos de mulheres negras, tentam há muito tempo quebrar. Em meio a esta polêmica, o deputado em questão disse que Miguel Falabella não é racista. Independente de Falabella ser racista ou não, o fato é que a série em questão reforça o racismo há tantos séculos arraigados na sociedade brasileira.
      A questão do lugar de fala é complexa e polêmica e o caso envolvendo Jean Wyllys não deve ser tomado como exemplo. Na universidade, a minha professora de História da África era uma loira de ascendência italiana, a Angela Roberti. Ela é uma professora competente, profissional e durante muito tempo foi a única professora de África da universidade, até a mesma abrir concurso e novos professores entrarem. Marina dos Santos Correa, uma católica praticante, é uma das maiores estudiosas da história das Assembleias de Deus no Brasil. Isael de Araújo, Maxwell Fajardo e Gedeon Freire de Alencar, que também estudam a história da Assembleia de Deus no Brasil, estão na lista de amigos de Marina. Gedeon a chama de a "católica mais assembleiana do Brasil". Este que vos escreve também pode ser tomado como exemplo. Desde pelo menos 2012 que me dedico a estudar as questões de gênero, inclusive a história das mulheres no Brasil. Em minha monografia eu faço uma análise do discurso do romance A Escrava Isaura, focando no modo como a moça Isaura é representada no romance. Aliás, eu já falei sobre isso aqui no blog (leia aqui). Além disso, eu não me considero monarquista, mas há um tempo que eu venho lendo sobre as monarquaias que existem ou já existiram.

Conclusão

      O seriado Malhação há um tempo que não vem dando a mesma audiência de outrora e este fato faz com que os autores procurem abordar outros temas afim de modernizar a trama e consequentemente aumentar a audiência. Entretanto, os assuntos abordados e aqui citados não foram bem trabalhados e o resultado final foi o reforço de preconceitos e estereótipos. 

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