20/10/2016

O modo como os cristãos são retratados na televisão brasileira

Luma Costa na pele da religiosa Elisa, personagem que a atriz interpreta em Sol Nascente, novela das seis exibida na Rede Globo de Televisão. Imagem: Reprodução.

     Historicamente, a relação entre cristãos e TV no Brasil não é das melhores. Por muitos anos, alguns cristãos não viam a televisão com bons olhos, chamando a mesma de "caixinha do diabo" e a acusando de corromper a moral e os bons costumes. Nos últimos tempos, os cristãos tem aparecido de forma massiva na TV, seja em programas de auditório, comprando horários na TV aberta ou até mesmo criando um canal próprio. Entretanto, os mesmos ainda são mostrados de forma estereotipada na televisão.

Edson Celulari na pele do pastor Mariel, na minissérie Decadência, em 1995. Imagem: Reprodução.

      Em 1995, Edson Celulari interpretou Mariel, um menino que foi criado em uma família rica por uma criada que trabalhava na casa. Quando cresce, Mariel se torna motorista da família e se envolve com Carla, a caçula da família e é expulso da mansão acusado de estupro. O tempo passa e Mariel reencontra Jandira, a criada que cuidou dele enquanto ele morava na mansão, que nutre um amor pelo ex-motorista. Ela leva Mariel em uma igreja neopentecostal e o mesmo vê na religião a solução para seus problemas. Cinco anos depois, Mariel se torna milionário após fundar a sua própria igreja, o Templo da Cura Divina, enquanto seus antigos patrões empobrecem. A minissérie causou muita polêmica porque abordou fatos políticos até então muito recentes, como a morte do então presidente Tancredo Neves (1985) e a queda do então presidente Fernando Collor (1992). Mas o que causou polêmica mesmo foi o fato da minissérie fazer claras alusões à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e ao bispo Edir Macedo, onde o personagem de Edson Celulari citava frases do fundador da IURD. Além disso, em uma cena de sexo, um sutiã foi jogado em cima da Bíblia Sagrada. Os evangélicos acusaram a minissérie de blasfêmia. Quando a minissérie em questão foi ao ar, a Rede Globo de Televisão estava em "guerra" com a igreja, exibindo várias reportagens contra o líder da IURD semanas antes da estreia de Decadência.


Juliana Paes na pele da fogosa Creusa, um dos personagens mais populares da novela América (2005). Imagem: TV Globo. 

      Em 2005, a novela América foi ao ar no horário nobre da Rede Globo de Televisão. A novela abordou temas de interesse social e teve também personagens populares. Um destes personagens foi Creusa, papel interpretado por Juliana Paes. Creusa era uma mulher que se dizia religiosa e que usava roupas de manga longa até mesmo no calor. Além disso, Creusa se passava por uma pessoa exemplar nos quesitos postura e recato. Entretanto, quando ficava a sós com os peões, adorava provocar. Por baixo dos longos vestidos que usava, a personagem estava sempre usando uma lingerie de tirar o fôlego de quem a visse. Como já dito, Creusa fez um enorme sucesso e teve até música própria.

Christiana Kalache na pele da fervorosa Ivone de Cheias de Charme (2012). Imagem: Reprodução.

      Em Cheias de Charme (2012), há também uma personagem cristã. Ivone (Christiana Kalache) é uma religiosa fervorosa, de fala mansa, que usa roupas sóbrias e não usa pendentes. Acredita que a oração é a solução para tudo e sempre recomenda as pessoas a realizarem tal prática. É a vizinha de Penha (Taís Araújo), uma  das protagonistas da novela.

Elisa, personagem interpretada por Luma Costa em Sol Nascente (2016). Imagem: TV Globo/ Renato Rocha Miranda. 

     Elisa, personagem interpretada pela atriz Luma Costa na novela Sol Nascente (2016), tem um perfil similar ao de Ivone de Cheias de Charme: é contida, de fala mansa e usa roupas sóbrias. Além disso, Elisa ora e jejua com frequência. Em um episódio da novela, Elisa e Damasceno (Emílio Orciollo Netto) conversam com a dona de uma pousada. Nesta conversa, a dona da pousada pergunta se Elisa tem alguma experiência. Em resposta, a jovem diz que reza bastante e com fervor. A jovem também sugere cantar hinos religiosos na pousada de manhã bem cedo. A dona da pousa pergunta então se Elisa cozinha e em resposta ela disse que não, pois jejua muito. Damasceno fala que Elisa conversa muito e então a dona da pousada decide chamar Elisa para trabalhar na recepção da mesma.
       Não há uma resposta concreta acerca de quase sempre as novelas globais retratarem os cristãos desta forma. Uma hipótese é a de que, ao fazer isso, a Rede Globo estaria atacando a Rede Record, sua maior concorrente. Isso porque a Rede Record é da IURD e, atacando os evangélicos, a Rede Globo está direta ou indiretamente atacando a concorrente.

Novelas bíblicas


Logotipo da novela bíblica Os Dez Mandamentos (2015). Imagem: Reprodução.

      Não tem como falar neste assunto e não citar as novelas bíblicas, que já se tornaram uma tradição da Rede Record de Televisão e quase sempre são um sucesso de público e crítica. Algumas novelas do gênero que a Rede Record exibiu são: A História de Ester (2010), Sansão e Dalila (2011), Rei Davi (2012), José do Egito (2013), Milagres de Jesus (2014), Os Dez Mandamentos (2015), Os Dez Mandamentos 2 Temporada (2016) e A Bíblia (2013), que  é uma série norte-americana e que no Brasil é exibida pela Rede Record. Atualmente, a novela bíblica que a Rede Record está exibindo é A Terra Prometida (2016). Em linhas gerais, estes trabalhos são caracterizados por apresentar ao telespectador um bom texto, um bom elenco, uma boa cenografia e uma boa fotografia também. Tais trabalhos foram um sucesso de público, em especial Os Dez Mandamentos (2015) que, além de ter virado filme, ameaçou seriamente a hegemonia da Rede Globo, que se viu obrigada a apresentar a novela das nove cada vez mais tarde. Ainda assim, Os Dez Mandamentos foi um sucesso de público e audiência.
      É possível se converter assistindo estas novelas? Tais novelas passam ensinamentos bíblicos? Essas novelas contribuem para diminuir o preconceito que se tem contra os evangélicos? A resposta para todas estas perguntas é: pouco provável. Isso porque novelas do gênero não possuem a finalidade de passar ensinamentos bíblicos e nem catequizar o telespectador. Em trabalhos do tipo, as histórias bíblicas ganham um ar novelesco e falam de amores impossíveis, passando também mensagens de força, superação e determinação. A mensagem bíblica acaba ficando em segundo plano e quase sempre não é passada para o telespectador. Desta forma, é pouco provável também que tais novelas contribuem para desmistificar a visão que muita gente ainda tem sobre os cristãos.

Conclusão

       A grande mídia mostra os cristãos  como pessoas ignorantes, alienadas e despidas de qualquer vaidade. Os cristãos são no geral diversos no modo de pensar e agir. Com isso, os religiosos representados na mídia não necessariamente representam os cristãos de forma geral. 

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