15/09/2016

O batismo no Espírito Santo e o ministério feminino


Primeira Escola Bíblica da Assembleia de Deus no Rio de Janeiro, realizada por Gunnar Vingren em 1929. Frida e Gunnar Vingren estão na primeira fileira, sentados ao centro. Os dois últimos da primeira fileira, sentados à direita, são os jovens obreiros Sylvio Brito e Paulo Leivas Macalão. Imagem: Reprodução. 

"As irmãs das Assembleias de Deus que igualmente como os irmãos têm recebido o Espírito Santo e, portanto, possuem a mesma responsabilidade de levar a mensagem aos pecadores precisam convencer-se de que podem fazer mais do que tratar dos deveres domésticos. Sim, podem também quando chamadas pelo Espírito Santo sair e anunciar o evangelho."

Frida Vingren no artigo "Deus mobilizando suas tropas", publicado em 1931 no jornal Mensageiro da paz


     O batismo no Espírito Santo é uma obra realizada pelo Espírito Santo que tem por finalidade revestir o cristão de poder a fim de testificar com autoridade o Evangelho de Cristo. A prova física do batismo no Espírito Santo é o falar em outras línguas (ou línguas estranhas), que pode ser uma língua conhecida na terra ou não, onde uma coisa é certa: a pessoa que recebe este batismo começa a falar uma língua que não havia aprendido. É por meio do batismo no Espírito Santo também que o cristão começa a exercer os dons espirituais, que são: dom de revelação, dom da fé, dom da cura, operação de maravilhas, dom de profecia, discernimento de espíritos, falar em outras línguas e interpretação de línguas. Ao contrário do que algumas pessoas acreditam, o batismo no Espírito Santo é uma promessa para os cristãos de todas as eras, concedido homens e mulheres. Com isso, o que se conclui é que a pessoa que foi batizada no ES não deve simplesmente ficar falando em línguas durante o culto: elas tem uma tarefa a fazer, que é sair e anunciar o Evangelho com poder e autoridade.
        Jesus foi um homem que andou com as minorias de sua época. Por onde passava, uma multidão composta de leprosos (nos tempos de Cristo, ser leproso era como ter o vírus da AIDS), paralíticos, cegos, deficientes físicos em geral, endemoninhados, pobres, crianças e mulheres acompanhava o Mestre. Nos tempos de Jesus, a mulher não tinha voz na sociedade e a sua vida se resumia ao casamento, aos filhos e ao trabalho doméstico. Se uma mulher ficasse viúva, a sua vida estava acabada e, quando isso acontecia, as mulheres quase sempre tinham seus filhos escravizados e/ou entrava para a prostituição. Entretanto, Jesus se compadeceu delas e elas estavam o tempo todo ao redor de Cristo, sendo fundamentais no ministério de Jesus. Inclusive, as primeiras pessoas que viram Jesus após a Sua ressurreição foram as mulheres. Isso aconteceu em uma época em que o testemunho de uma mulher não valia nada.
         Jesus tinha um projeto político-social extremamente radical e foi justamente por isso que Ele foi crucificado. O "projeto original" de Jesus foi para a cruz junto com Ele (Jesus ressuscitou, mas Seu projeto não). Com isso, aquelas pessoas que estavam seguindo os passos de Jesus não foram tão radicais como Cristo foi. Uma destas pessoas é o apóstolo Paulo, um judeu de seu tempo que decidiu seguir a Cristo. Em 1 Coríntios 14: 34, Paulo afirma que a mulher deveria ficar calada nas igrejas, porque as mesmas não podiam falar. Em Efésios 5: 22-33, o apóstolo recomenda às mulheres a serem submissas a seus maridos, pois o mesmo seria a cabeça da mulher, assim como Cristo é a cabeça da Igreja. Conselho semelhante também pode ser encontrado em 1 Pedro 3: 1-7. Estas pessoas aqui citadas foram homens de seu tempo que absorveram a cultura da época em que viveram. Em tal período, as mulheres eram extremamente silenciadas e esta prática foi absorvida por aqueles que estavam seguindo a Cristo. Isto acontece porque a pessoa que se torna cristã é uma pessoa pensante, com práticas culturais e que pensa de acordo com a sociedade na qual está inserida. Na hora de exercer a fé, todos os conceitos que o homem adquiriu ao longo da vida se refletirão na hora de praticar a sua fé.
        Na prática, o que acontece é que a maioria das pessoas não levam em consideração o que foi observado no parágrafo anterior. Ainda hoje, muitas igrejas usam as cartas paulinas para limitar o ministério feminino, dizendo que a liderança da Igreja foi conferida aos homens e que isso seria uma ordem divina. Tais pessoas se esquecem de que as mulheres tiveram uma ação fundamental no ministério de Jesus, mostrando claramente que o desejo de Cristo não é silenciar as mulheres, muito pelo contrário. Com base em passagens bíblicas usadas fora de contexto, líderes limitam ao máximo o ministério feminino. Vendo o exemplo das Assembleias de Deus, o que se vê é uma igreja com um alto número de mulheres, mas cuja liderança é composta majoritariamente por homens, homens este que por sua vez limitam a atuação das mulheres. As mulheres estão a todo o tempo presente nas Assembleias de Deus, mas elas não são reconhecidas. Elas possuem um conjunto próprio, estão cuidando das crianças, estão na portaria, estão na cantina, estão em maioria no conjunto jovem, estão em maioria no conjunto de adolescentes, são maioria na escola bíblica e ainda assim não são reconhecidas. Aliás, dentro das Assembleias de Deus são em tais áreas que as mulheres possuem liberdade para atuar, mesmo que sem o devido reconhecimento. Existem mulheres que são excelentes pregadoras e professoras, mas não são reconhecidas. São raras as vezes em que as mulheres são chamadas para pregar. Isso costuma acontecer durante o congresso das irmãs, o aniversário do círculo de oração ou algum encontro de mulheres. Fora destas épocas, dificilmente é dada a oportunidade para uma mulher pregar ou ensinar. Além disso, existem mulheres que procuram viver uma vida irrepreensível e possuem íntima comunhão com Deus. Há mulheres que são usadas com autoridade para entregar revelações, profecias e/ou exercem com autoridade os demais dons espirituais, mas ainda assim não possuem a devida visibilidade.
         Mesmo com o silenciamento histórico que as mulheres sofrem dentro das Assembleias de Deus, não há como ignorar a presença das mesmas, bem como os atos destas. Não somente a história das ADs, mas a história do cristianismo em si mostra que as mulheres estão presentes a todo instante. Algumas destas mulheres são Maria Madalena (difamada e silenciada pela historiografia oficial cristã. Escreveu o Evangelho de Maria Madalena, que não entrou para o Cânon oficial da Bíblia) e a apóstola Tecla (que está em pé de igualdade com o apóstolo Paulo), que atuaram nos primeiros anos do paleocristianismo. Dando um salto para o Brasil do século XX, destaca-se a atuação da musicista, instrumentista, pregadora, professora e escritora Frida Vingren (é dela a citação que abre este texto), reconhecida hoje como a primeira pastora das Assembleias de Deus no Brasil. Destaque também para a irmã Emília Costa, uma assembleiana do ministério de São Cristóvão (Rio de Janeiro - RJ) que foi separada por Gunnar Vingren para o diaconato. Se deve destacar também a irmã Élida Andrioli Vieira, uma das primeiras crentes da AD no estado de Santa Catarina que, assim como a irmã Emília, foi separada para o diaconato por Gunnar Vingren. O missionário era favorável ao ministério feminino e a Convenção Geral de 1930, onde decidiram limitar a atuação da mulher dentro das ADs, acabou com um projeto de igreja de  Vingren, onde homens e mulheres exerceriam seus ministérios em plena igualdade. Ester Ungur e Dulci Rute são filhas do já falecido pastor João Ungur. As irmãs, que hoje são idosas, tiveram um ministério onde pregavam, ensinavam, organizavam congressos e até lideravam conjuntos. Muitas são as mulheres pregadoras e ensinadoras que se destacam nas ADs, apesar da forte oposição. Algumas são conhecidas em algumas regiões e outras são conhecidas em todo o país. Helena Raquel é uma pregadora e pastora da Assembleia de Deus de Vila Pacaembu, em Queimados, Rio de Janeiro. Helena Raquel pastoreia a igreja junto com seu marido, o pastor Eleomar Dionel. Camila Barros é uma pregadora e casada com o pastor Eduardo Gonçalves, irmão da também pastora Helena Raquel. Suas pregações quase sempre duram mais de uma hora e já somam milhares de visualizações no Youtube. Camila Barros e Helena Raquel são duas pregadoras muito conhecidas no Brasil.
        A atuação das mulheres na AD é notória e um texto de blog não é suficiente para falar sobre o assunto. Além disso, tem mulheres que deixaram e deixam a sua contribuição para as ADs a qual você nunca vai nem saber o nome. Vale aqui citar o livro 100 Mulheres que Fizeram a História das Assembleias de Deus no Brasil de Isael de Araújo. De narrativa fácil (e até um pouco repetitiva), o livro descreve 100 mulheres de diferentes épocas que contribuíram para o crescimento das Assembleias de Deus no Brasil. Frida Vingren, Zélia Brito Macalão (esposa de Paulo Leivas Macalão) e Sara Berg (esposa de Daniel Berg, um dos fundadores das ADs no Brasil) são citadas no livro. Outro livro escrito por Isael de Araújo é a obra Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Tal livro conta a vida de Frida Vingren, missionária de ministério polêmico, contestador e silenciado por muitos anos, mas que hoje é reconhecida como a primeira pastora das Assembleias de Deus no Brasil. Os livros aqui citados tem por objetivo dar visibilidade ao ministério feminino dentro das Assembleias de Deus.

Conclusão

         O batismo no Espírito Santo é a prova máxima de que o ministério feminino não é anti-bíblico. Isso porque Cristo, a cabeça da Igreja, batiza as mulheres no ES, revestindo-as de poder para que as mesmas testifiquem com poder e autoridade a Sua palavra. Se o ministério feminino não fosse bíblico, as mulheres estariam sendo batizadas no Espírito Santo?

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