04/08/2016

Os fetiches que se encontram por trás do moralismo seletivo

Cena da novela global Liberdade Liberdade, em que André (Caio Blat, à esquerda) e Tolentino (Ricardo Pereira, à direita) protagonizam uma cena de sexo, a primeira da história da televisão brasileira que é protagonizada por dois homens. Imagem: Reprodução, Rede Globo de Televisão.

     O beijo (que na verdade foi um selinho) entre duas senhoras idosas foi motivo de repúdio e até de boicote a uma novela da Rede Globo. Já o caso da modelo menor de idade que se envolve com o padrasto teve relativa aceitação popular. Já em outra novela, o romance de duas jovens lésbicas teve grande aceitação popular, com direito a hashtag e tudo. A crente popstar organizou uma campanha de boicote a uma marca de roupas pelo fato de supostamente a mesma estar propagando a chamada "ideologia de gênero", mas não disse uma única palavra sobre a acusação de que a loja em questão estava usando mão de obra escrava. O que há por trás de tudo isso?
     Jogando a palavra moralismo no Google, se encontram os seguintes resultados: "doutrina ou comportamento filosófico ou religioso que elege a moral como valor universal, em detrimento de outros valores existentes." e "consideração moral inconsistente por estar separada do sentimento moral, por ser baseada em preceitos tradicionais irrefletidos ou por ignorar a particularidade e a complexidade da situação julgada." Moralismo e legalismo podem ter significados parecidos, mas não iguais. Jogando legalismo no Google, um dos resultados encontrados é o seguinte: "atitude que consiste em considerar apenas as exigências do direito positivo, sem levar em conta o direito natural." O moralismo é algo muito comum no meio cristão e Gutierres Fernandes Siqueira, editor do blog Teologia Pentecostal, escreveu o texto Legalismo: o refúgio da perversidade, em que fala sobre o assunto. Gutierres critica o legalismo, dizendo que o problema dos programas de militância pela castidade e pecados sexuais (leia-se homossexualidade) é que o foco sai da graça divina para atos humanos. O autor afirma também que o "legalismo é o refúgio natural dos pervertidos, pois esses tentam esconder o tamanho e a força de seu pecado." Ninguém consegue esconder seu pecado durante muito tempo e quando os mesmos vem à tona, se percebe que os protagonistas dos mesmos são pessoas que militavam em grupos a favor da família, da castidade e contra a homossexualidade. Tais movimentos não produzem pervertidos sexuais, mas as pessoas que fazem parte destes movimentos encontram nestes espaços um refúgio para o próprio pecado.
      Como visto no parágrafo acima, um legalista se preocupa com questões relacionadas à vida privada de uma pessoa, ignorando coisas que de fato possuem relevância para a sociedade. Em maio deste ano, a pastora e cantora gospel popstar Ana Paula Valadão organizou um boicote à C&A pelo fato da mesma supostamente estar divulgando a dita "ideologia de gênero". Cada um cuida de si e parece que a Ana não sabe disso. Ana Paula Valadão se preocupou com os valores contrários à sua fé que a C&A estava disseminando, mas em nenhum momento a cantora e pastora mencionou o escândalo em que a loja se envolveu relacionado ao uso de mão de obra escrava. Em sua visão religiosa mesquinha, Ana Paula Valadão acha que a loja deve ser boicotada por incentivar a permissividade, a sem-vergonhice e a nudez despudorada. Por que se importar com o trabalho escravo? Por que se chocar com pessoas amontoadas em oficinas clandestinas, incluindo imigrantes ilegais e até crianças? A julgar pelo perfil de Jesus, figura central do cristianismo, com o que Ele realmente se importaria? De acordo com algumas páginas virtuais voltadas para o público evangélico, o que teria motivado Ana Paula Valadão a encabeçar um boicote contra a C&A foi o fato da marca se recusar a contratá-la como garota-propaganda após ela pedir a bagatela de três milhões de reais como cachê. Assim, a vingança teria sido o motivo que levou a cantora a boicotar a marca de roupas em questão. Em nota: a campanha encabeçada por Ana Paula Valadão foi um fracasso, a cantora foi dura e extremamente criticada e a C&A ganhou ainda mais visibilidade após o episódio, inspirando a marca a fazer outra campanha semelhante.

Clara (Giovanna Antonelli, à esquerda) e Marina (Tainá Müller, à direita) em cena de beijo da novela Em Família, exibida em 2014. Imagem: Divulgação. 

     Em 2014, a Rede Globo de Televisão exibiu a novela Em Família, de autoria de Manoel Carlos. Mal escrita e mal dirigida, os destaques da novela em questão foram as personagens de Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Müller), que se envolvem amorosamente ao longo da trama. O casal não foi apresentado ao público de imediato. Pelo contrário. Clara e Marina foram apresentadas ao telespectador e depois de alguns meses de exibição, as mulheres se beijaram. O romance teve uma ótima receptividade por parte do público, que torceu pela união do casal. Esta aceitação por parte do público aconteceu por duas razões: 1 - Os personagens de Giovanna Antonelli e Tainá Müller foram apresentados para o público calmamente. Desta forma, o telespectador conheceu as personagens e assim torceu pelos mesmos. Se desde o início, o público soubesse que Clara e Marina eram um casal de lésbicas, a receptividade poderia ser negativa. Foi o que houve com Rafaela/ Clara (Christiane Torloni) e Leila (Silvia Pfeifer) em Torre de Babel (1998). Desde o começo da novela que ficou claro que Rafaela e Leira eram um casal de lésbicas. A repulsa por parte do público foi tão grande que ambas as personagens morreram na famosa explosão do shopping. 2 - A sociedade brasileira é uma sociedade que repudia um casal de homens, mas que erotiza um casal de mulheres. Ainda neste parágrafo, vale destacar um filme francês que foi lançado no mesmo ano em que a novela Em Família foi exibida. Azul é a Cor Mais Quente foi lançado no Brasil em 2014. O filme conta a história de Adèle, uma adolescente em busca do auto-conhecimento. Nesta busca, ela se envolve amorosa e sexualmente com Emma, uma graduanda em Artes. O filme tem uma história, mas o que o público guardou mesmo foram as sequências reais de sexo entre as protagonistas, onde uma cena tem seis minutos de duração. Por mais realista que possa parecer, uma cena de sexo que é exibida na televisão ou no cinema não é real: é ficção, onde os atores recebem uma preparação específica para cenas do tipo. Entretanto, em nome do realismo, alguns diretores preferem que os atores façam sexo de fato diante das câmeras (pesquisem por aqui e verão que não foram poucas as vezes que os atores fizeram sexo diante das lentes). Abdellatif Kechiche, o diretor de Azul é a Cor Mais Quente, preferiu que os atos sexuais do filme em questão fossem reais.

Nathália Timberg (à esquerda) e Fernanda Montenegro (à direita): o beijo das duas atrizes no primeiro capítulo da novela Babilônia causou revolta na população. Imagem: Reprodução.

     Se o casal gay da novela Em Família caiu no gosto do público, o mesmo não pode ser dito do casal lésbico da novela Babilônia. Em março de 2015, ia ao ar o primeiro capítulo da novela. Nesta trama, as atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg interpretam um casal de lésbicas e já no primeiro episódio, as atrizes deram um longo e caprichado selinho. A reação da maioria das pessoas foi de repulsa e "nojo", "credo" e "agora o mundo acabou" foram apenas algumas das expressões de desaprovação. Esta reprovação aconteceu porque logo no primeiro capítulo os telespectadores foram informados de que as senhoras idosas eram um casal de lésbicas, ao contrário do que houve com o casal lésbico da novela Em Família, em que as personagens homossexuais foram apresentadas ao público. Embora a expectativa de vida da população brasileira esteja aumentando lenta e gradativamente, o fato é que boa parte da população acredita que uma pessoa idosa não deve sentir prazer, se divertir e viver de uma maneira geral. Além disso, o corpo enrugado de uma pessoa não excita esta mesma população, ao contrário de um corpo jovem e bonito. Com isso, o casal lésbico de Babilônia foi rejeitado porque o telespectador não foi avisado previamente de que seria um casal homossexual e também por se tratar de duas idosas, pessoas que não incendeiam o imaginário alheio.
      Salvo algumas exceções já expostas aqui, um casal de mulheres é aceito pela sociedade, mas o mesmo não acontece com um casal comporto por homens. A imagem que abre este post é uma cena da novela Liberdade Liberdade, exibida pela Rede Globo de Televisão. A imagem é uma das cenas do folhetim que foi exibida recentemente, onde André (Caio Blat) e Tolentino (Ricardo Pereira), protagonizam uma cena de sexo, a primeira na história da televisão brasileira a ser protagonizada por dois homens. Se por um lado, a cena foi elogiada por ter sido muito bem executada, além de ser considerada um marco na história do movimento LGBT brasileiro, por outro, muita gente reprovou a cena. Ao contrário de um casal composto por mulheres, um casal composto por homens não tem a mesma receptividade. A masculinidade é uma virtude extremamente frágil. Demonstrar afeto, emoções e achar outro homem bonito quebram a virtude chamada masculinidade. A figura do homossexual quebra uma ordem pré-estabelecida, onde o homem fica em posição superior e a mulher em posição inferior. Logo, todo elemento que quebre esta ordem precisa ser imediatamente eliminado.

Arlete/Angel (Camila Queiroz) e Alex (Rodrigo Lombardi) em cena da novela Verdades Secretas. Imagem: Reprodução.

      A novela global Verdades Secretas foi exibida na faixa das onze da Rede Globo de Televisão entre os meses de junho e setembro de 2015, no mesmo período em que a novela Babilônia era exibida no horário das nove. Se você acha que o público que reprovou o beijo entre duas idosas reprovaria o folhetim das onze, está redondamente enganado. A novela Verdades Secretas mostra o submundo da moda, onde modelos se prostituem e se drogam. Arlete/Angel (Camila Queiroz) é uma menina que vem do interior para a capital de São Paulo com a mãe após o divórcio dos pais. Sonhando em ser modelo, entra para uma agência de modelos que aparentemente organiza desfiles, mas que, além disso, funciona como uma agência de prostituição, onde modelos trabalham como acompanhantes de luxo. De início, Angel relutou, mas diante da grave situação financeira da avó, Angel aceita se prostituir. É no mundo da prostituição que conhece Alex Ticiano (Rodrigo Lombardi), um bilionário que sente uma forte atração por Angel. Diante das muitas negativas de Angel, Alex, para se envolver com a jovem, se casa com a mãe da mesma e passa a ser o padrasto de Angel. A modelo cede às investidas de Alex e passa a ter relações com o mesmo, embora Alex seja casado com a mãe. Carolina (Drica Moraes), a mãe de Angel, fica sabendo de tudo e se suicida. Angel mata o padrasto e ninguém nunca descobriu que foi a modelo quem matou Alex Ticiano.
      Mesmo mostrando a história de uma menor de idade que se envolve com o padrasto, Verdades Secretas não sofreu nenhum boicote. Isso porque a nossa sociedade na prática permite a relação heterossexual sem exceção, mesmo que a mesma aconteça no ambiente familiar. Me lembro que certa feita meu antigo líder de mocidade me disse que se um pregador renomado cair em adultério com uma mulher é natural, pois esta seria a natureza dele. Porém, a homossexualidade não deve ser encarada da mesma forma, já que é algo "antinatural". Uma relação homossexual, por mais honesta que possa ser, não é tolerada pela sociedade. É por isso que Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso), o casal gay da novela Amor à Vida (2014) teve certa rejeição popular. O beijo gay protagonizado pelos atores no último capítulo da novela repercutiu nas redes sociais e dividiu opiniões, que foram de aprovação e reprovação.

Alex Ticiano: o personagem que tinha o perfil de um estuprador


Rodrigo Lombardi interpretou Alexandre Ticiano (ou simplesmente Alex) em Verdades Secretas. Imagem: Reprodução.

     É no mínimo inadmissível falar de Verdades Secretas e não falar de Alex Ticiano, um dos personagens mais populares do folhetim. Inspirado em Christian Grey, personagem da série literária bem sucedida 50 Tons de Cinza (que inclusive rendeu ao personagem o apelido de RajGrey. O Raj era o nome do personagem de Rodrigo em Caminho das Índias e Grey é o nome de um dos protagonistas do livro em questão), Alex era um bilionário e dono de uma holding. Na trama, Alex se envolve com Angel quando ela começa a se prostituir, rendendo muitas cenas de sexo e sendo assunto nas redes sociais.
       É neste ponto em que há a problemática. Embora estivesse noivo, Alex, em total falta de respeito à futura esposa, se envolve com muitas garotas de programa. Homens que pagam por sexo possuem um perfil semelhante ao de um estuprador. A conclusão é de um estudo norte-americano publicado no Journal of Interpersonal Violence. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA), avaliaram 202 homens na região de Boston e metade deles tinha o hábito de pagar por sexo. O que se percebeu foi que os consumidores de prostituição são mais propensos a admitir que tinham estuprado ou cometido outras formas de agressão contra mulheres anteriormente. Os autores do estudo afirmam que os homens que procuram prostitutas possuem características que são comuns em indivíduos condenados por violência sexual: preferência por relações sem afeto ou intimidade, medo da rejeição feminina e auto-identificação masculina hostil. Este último termo tem a ver com uma personalidade mais narcisista e o desejo de ter poder sobre as mulheres.
      Alex Ticiano tinha o perfil de um homem que paga por prostituição descrito acima. Quando era casado com Pia Lovatelli (Guilhermina Guinle), Alex a traía com várias mulheres, levando a então esposa a pedir o divórcio. Mesmo noivo de Samia (Alessandra Ambrosio), Alex a trai quando a mesma está viajando. As mulheres por quem o bilionário se envolve são sempre prostitutas (em sua maioria, elas eram menores de idade), nunca tendo um envolvimento afetivo com as mesmas. Ele só rompe com Samia depois que a sua obsessão por Angel estava chegando ao extremo. Giovanna (Agatha Moreira), a filha de Alex e Pia, começa a se prostituir e por ironia do destino, a adolescente vai fazer programa e quando chega ao local, descobre que o cliente é o seu próprio pai. Ambos começam a discutir e no meio da discussão, Giovanna reclama, dizendo que para o filho Bruno (João Vitor Silva), o pai trazia camisinha, mas com relação a ela, ele não perguntava nem se ela tinha namorado. Por quê? Porque ele era homem? Bruno era o filho de Alex e Pia. Era um jovem calmo, responsável e estudioso, o oposto da irmã. Romântico, o menino queria perder a virgindade com uma mulher por quem realmente estivesse apaixonado. A atitude do garoto incomodava a irmã, que tinha um "irmão na castidade". Entretanto, Alex Ticiano foi muito mais longe. Incomodado com o fato de ter um filho virgem e temendo a possibilidade de que o mesmo fosse gay, Alex contrata uma garota de programa para tirar a virgindade do jovem, mas sem ele saber. Se fazendo de jovem estudante, Stephanie (Yasmin Brunet) conquista Bruno, fazendo com que o jovem se apaixone perdidamente, tendo inclusive relações sexuais com ela. Alex revela para o filho que Stephanie é uma prostituta e o garoto fica arrasado. Ao ver o filho em tal estado, Alex diz que "romantismo é coisa de mulher, ok?" e que "(...) amor pra homem é sexo, é fogo, é tesão (...) Romantismo é coisa de mulher. Mulher se apaixona pelo que ouve, tá? Homem se apaixona quando o pau fala mais que a cabeça." Pensamento extremamente machista. Bruno fica extremamente arrasado, se envolve com outro homem e mergulha no mundo das drogas, precisando se internar em uma clínica de reabilitação. No âmbito familiar, Alex era um homem que não dava atenção para os filhos, acreditando que sua única função era suprir as necessidades financeiras dos mesmos, ao passo que a educação das crianças era responsabilidade da ex-esposa.
      Mesmo com o repugnante perfil acima descrito, o personagem interpretado por Rodrigo Lombardi teve grande popularidade. Sempre que o bumbum de Alex Ticiano aparecia, a internet ia à loucura. Além disso, muitas meninas (e meninos também) desejaram estar no lugar das mulheres com quem Alex se envolvia e tinha gente que até cogitava a possibilidade de fazer book rosa só para ter relações com Alex! Totalmente sem noção! É assustador que um personagem como o Alex Ticiano tenha feito tanto sucesso. Muito assustador.
      Não foi somente o personagem de Rodrigo Lombardi que teve alta popularidade, mas sim a novela Verdades Secretas. Isso aconteceu porque nenhum autor até então havia falado da prostituição no mundo da moda. Além disso, o texto, os personagens e a direção eram excelentes e andavam em perfeita sintonia, resultando em um magnífico trabalho.

Conclusão

       A sociedade brasileira é uma sociedade moralista. Falsamente moralista. Estas pessoas (não todas) que pregam a moral e os bons costumes na verdade usam tal discurso como uma válvula de escape para os seus mais sórdidos desejos e fantasias. Esta mesma sociedade é uma sociedade que tem os seus fetiches e tolera os mesmos. Entretanto, quando algo não mexe com seu imaginário e/ou abala a sua estrutura sócio-econômica, é duramente reprimido.

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