01/06/2016

O sempre presente fantasma do comunismo

A foice e o martelo, símbolos do comunismo. A foice e o martelo entrelaçados ou cruzados são símbolos que representam a classe trabalhadora - o trabalho agrícola e o industrial, respectivamente. Em geral, este mesmo símbolo representa o comunismo e os partidos políticos comunistas. Imagem: Reprodução. 

     A esquerda é diversa, sendo muitas as correntes de pensamento. As correntes político-ideológicas que norteiam os militantes de esquerda são três: anarquismo, socialismo e comunismo. Basicamente falando, o anarquismo defende o fim do Estado, acreditando que a gestão deve ficar nas mãos do povo. O anarquismo defende também a liberdade e a igualdade. O socialismo é uma transição para o comunismo, o que diferencia o socialismo do anarquismo é que o mesmo defende a presença do Estado, onde o povo é quem deve assumir o mesmo. Por fim, o comunismo é o último estágio do socialismo, onde o Estado já não existe mais. O que diferencia o comunismo do anarquismo é que o primeiro não defende o fim imediato do Estado, ao contrário do pensamento anarquista, que acredita que o Estado governa apenas para um seleto grupo de pessoas. Ao escreverem o Manifesto do Partido Comunista, em 1848, Karl Marx e Friedrich Engels deram a medida do que estava para chegar: "Um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo". Este mesmo fantasma rompeu fronteiras, cruzou o Atlântico e chegou ao Brasil, se fazendo presente nos dias atuais.


O esposo conde d'Eu (1842-1922) à esquerda, a princesa Isabel (1846-9121) à direita e os três filhos do casal. A princesa se interessava por assuntos domésticos e também assuntos ligados ao catolicismo, a sua religião.  Suceder D. Pedro II (1825-1891) no trono foi uma possibilidade que nunca atraiu D. Isabel. Foto: MUSEU IMPERIAL/IBRAM/MINC. 

     A princesa Isabel (1846-1921) era filha de D. Pedro II (1825-1891), o segundo e último imperador do Brasil. A morte de D Leopoldina, a sua única irmã viva que havia chegado a idade adulta e os sucessivos abortos e partos malsucedidos fizeram com que a monarca se tornasse uma católica fervorosa. Este fato marcou a vida pessoal de D. Isabel e também a história do Brasil. A princesa Isabel viveu em um período em que o chamado catolicismo romano era predominante. Nesse contexto, ao perceber que perdia espaço e influência na vida social, política e cultural, a Igreja passou a combater o avanço de ideias que negavam ou diminuíam seu papel de orientadora da ação humana. Esta corrente do catolicismo reprovava várias afirmações cientificistas, liberais e socialistas que se opunham aos dogmas da Igreja e tentavam relegar a religião ao campo privado das escolhas individuais. Entre as estratégias usadas pela Igreja neste período se destacam a obediência inquestionável ao papa, a formação de um clero afastado das tendências liberais e obedientes aos preceitos de Roma e a subordinação da razão à fé. Diante da desigualdade social existente no século XIX, o catolicismo romano investia no assistencialismo, fazendo do mesmo uma alternativa à distribuição de riquezas defendidas pelos socialistas e à expansão da noção liberal de direito à assistência pública estatal.
     D. Isabel usava sua posição privilegiada para ajudar os necessitados. A monarca promovia concertos, bazares e leilões, mobilizando colaboradores no Brasil e também no exterior. Os recursos obtidos eram destinados aos necessitados em maior evidência em cada momento: os refugiados da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) na Inglaterra, as vítimas da Grande Seca do Nordeste brasileiro (1877-1879) e os feridos nas batalhas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). No Brasil, a princesa abraçou com fervor religioso ainda maior a causa da abolição. A monarca acolheu e alimentou escravos fugitivos em seu palácio. Além disso, fomentou campanhas e criou livros de ouro para a subscrição de doações, cuja finalidade era angariar fundos para a compra de alforrias. Sua motivação cresceu a partir de 1887, quando o episcopado brasileiro, alinhado com as orientações papais, promoveu intensa campanha abolicionista. Através de cartas pastorais, os bispos convocaram os católicos do país a  promover a libertação dos escravos em honra ao jubileu sacerdotal do papa. Como católica fiel às orientações papais, a princesa regente atendeu às suas súplicas. Com isso, após uma tensão que envolveu a demissão do Gabinete Cotegipe, a Lei Áurea foi assinada no dia 13 de maio de 1888. Dias depois, ainda como princesa regente, ajudou a organizar uma grande missa campal em agradecimento pelo fim da escravidão. A vitória da abolição da escravatura marcou o fim do interesse da princesa Isabel e também do seu envolvimento em questões do Estado. Satisfeita, retornou à vida privada, podendo assim se dedicar aos assuntos domésticos, à sua fé, à sua coleção de orquídeas e ás suas pinturas. O golpe militar republicano de 15 de novembro de 1889 forçou a princesa Isabel e toda a sua família a se exilarem no exterior, mas por outro lado liberou a monarca de ter que exercer uma função para a qual tinha pouquíssima aptidão.
     O anarquismo é uma corrente político-ideológica que surgiu na Europa e chegou ao Brasil por volta de 1850 por meio dos imigrantes europeus que chegavam ao país. A ideologia anarquista defendeu a organização sindical autônoma, a extinção do Estado, da Igreja e da propriedade privada. Esta mesma ideologia se posicionou contra a organização dos partidos políticos, divulgando suas ideias em jornais, revistas, livros e panfletos, por exemplo. Foi no final do século XIX e início do século XX que o movimento anarquista teve o seu auge no Brasil, sendo uma das tendências políticas majoritárias entre os movimentos operários, causando grandes greves operárias de 1917 em São Paulo e de 1918 e 1919 no Rio de Janeiro. Foi neste mesmo período também que foram criadas escolas para trabalhadores que eram comandadas de acordo os ideais do anarquismo.

Foto registra grande manifestação de operários. A Greve Geral de 1917 é considerada uma das mais abrangentes e longas da história do Brasil. A adesão ao movimento foi grande. Igualmente grande foi a forma como o governo reprimiu o movimento. Imagem: Reprodução. 

     É importante frisar que estas greves foram fortemente reprimidas pelo Estado, principalmente a Greve Geral de 1917, ocorrida no mesmo ano em que houve a Revolução Russa. A resposta do Estado, controlado pelas elites, foi impressionante. A legislação criminalizava a ação anarquista. Estrangeiros envolvidos com a ideologia eram extraditados. Além disso, brasileiros envolvidos no movimento eram presos e em ambos os casos eram comumente humilhados em público. Durante o governo de Artur Bernardes (1922-1926) a repressão se tornou aberta. Houve censura à imprensa, torturas e assassinatos de anarquistas. No fim do governo de Artur Bernardes, o movimento se encontrava desorganizado. As lideranças políticas radicais passaram a comandar o enfraquecido movimento, que foi praticamente extinto pela ditadura do Estado Novo (1937-1945). Além disso, a fundação do Partido Comunista do Brasil (que mais tarde passou a se chamar Partido Comunista Brasileiro), no ano de 1922, contribuiu para o enfraquecimento deste mesmo movimento.
     Em 1935, houve a revolta da ANL (Aliança Nacional Libertadora), reprimida com facilidade pelo governo. Em 1937, o então Presidente da República Getúlio Vargas usou o pretexto da "preservação da democracia ameaçada pelos comunistas em 1935" para ir fechando o regime cada vez mais. Houve prisões arbitrárias (inclusive de deputados) e invasão a sindicatos. Pedro Ernesto, então prefeito da cidade do Rio de Janeiro e o primeiro do cargo a ser eleito pelo povo, foi acusado de ligações com a ANL. Pedro Ernesto foi destituído e preso. Foi criado um Tribunal de Segurança Nacional que tinha plenos poderes para prender as pessoas que eram contra o presidente Vargas. Em 1937, foi anunciada a descoberta do Plano Cohen pelo rádio. Segundo a polícia, era um plano de tomada de poder pelos comunistas. Este mesmo plano incluía o assassinato de autoridades, a invasão de residências, o assassinato de pais de família, o incêndio de escolas com crianças dentro e outras barbaridades. O plano era falso, pois os comunistas jamais tentaram tomar o poder por meio do crime. Além disso, Marx e Lênin eram contra o terrorismo. É importante lembrar também quase todos os dirigentes comunistas estavam presos. Vargas sabia que o plano era falso, mas fingiu que o Plano Cohen era verídico e denunciou o "complô vermelho" nas rádios. Na verdade, o então presidente Getúlio Vargas aproveitou este pretexto para dar um golpe de Estado. Apoiado pelas Forças Armadas e pela maioria dos governos estaduais, Vargas ordenou que a polícia militar fechasse o Congresso Nacional e cancelou as eleições presidenciais. Estava dado o golpe que implantava a Ditadura do Estado Novo (1937-1945).
     Entretanto, dominar somente pela força não bastava, era preciso "agradar" o povo, "oferecer um cala boca" para as pessoas. Enquanto esteve na presidência, Getúlio Vargas criou leis trabalhistas notáveis. O mesmo garantiu as férias remuneradas, proibiu o trabalho de crianças nas fábricas, criou a aposentadoria para os operários e fez hospitais públicos. A Constituição de 1934 já tinha previsto a criação de uma lei de salário-mínimo. Entretanto, a mesma só foi aprovada em maio de 1940. Estas leis trabalhistas estão encaixadas dentro da famosa CLT - Consolidação das Leis de Trabalho (1943). Esta lei existe até hoje e rege as leis trabalhistas no Brasil. É de extrema importância ressaltar que algumas leis trabalhistas já haviam sido conquistadas nas memoráveis greves de 1917, 1918 e 1919, durante a República Velha.
     Desta forma, quando a Guerra Fria começou, após o fim da Segunda Guerra Mundial, já existia uma tradição anticomunista no Brasil. Esta tradição existia no imaginário, nas leis e nas estruturas repressivas. O esforço contrarrevolucionário dos EUA trouxe um novo ânimo à direita brasileira, mas não foi uma reprodução dos modelos estrangeiros e sim uma recepção seletiva. Os argumentos anticomunistas de inspiração liberal não foram bem aceitos, ao passo que os valores católicos mantiveram posição dominante. Além disso, a apropriação de princípios liberais-democráticos ocorreu de modo superficial, com o sentido de "democracia" se resumindo à mera oposição ao comunismo. A prova disso é que "democratas" não hesitavam em tomar medidas autoritárias. Durante a redemocratização posterior à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a conjuntura era de início favorável aos grupos de esquerda e ao Partido Comunista do Brasil (PCB), que obteve votações expressivas e conquistou grande influência no movimento sindical e nos meios intelectuais. Com medo, os grupos de direita responderam com intensa campanha anticomunista. Em 1947, o PCB foi banido pela justiça e retornou à  clandestinidade e o governo de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) rompeu relações diplomáticas com a União Soviética. Estas mesmas relações só seriam retomadas em 1961.

O então Presidente da República Jânio Quadros (à direita, usando óculos) recebe o revolucionário Che Guevara (à direita, usando boina), em 19 de agosto de 1961. Guevara foi condecorado pelo então presidente e isso desagradou a elite, pois simbolizava uma  aproximação com Cuba, que havia passado por uma revolução socialista em 1959. Imagem: CPDOC. 

     No governo de Jânio Quadros ( janeiro de 1961 a agosto do mesmo ano), o líder revolucionário Ernesto "Che" Guevara (1928-1967) foi condecorado com a "Grã Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul" pelo então Presidente da República. A condecoração visava a aproximação econômica e cultural entre os cubanos e os brasileiros. A Revolução Cubana havia acontecido em 1959 e a elite brasileira temeu que uma revolução de cunho socialista também ocorresse no Brasil. Desta forma, a atitude de Jânio Quadros (1917-1992) não agradou a elite do Brasil. O então presidente renunciaria em agosto do mesmo ano.
     Com a renúncia de Jânio quadros, quem assume é o vice-presidente, João Goulart (1918-1976). Goulart foi o Presidente da República durante os anos de 1961 a 1964. Goulart propôs as conhecidas "Reformas de Base". A mesma tinha a finalidade de realizar a reforma agrária, a reforma urbana, a reforma da educação e a reforma eleitoral. As Reformas de Base eram de caráter nacionalista. Desta forma, as empresas estrangeiras eram proibidas de atuarem em setores como: energia elétrica, frigoríficos, indústria de remédios, refinarias de petróleo e telefones. Os nacionalistas acreditavam que as empresas estrangeiras atuavam nestes setores pensando somente em seus lucros, pouco se importando com os interesses do país. Goulart anunciou as Reformas de Base no dia 13 de março de 1964, no célebre Comício da Central do Brasil. O então presidente não teve tempo de colocá-las em prática. No dia 01 de abril de 1964, a Ditadura Civil-Militar Brasileira foi implantada no país. Mais uma vez, o argumento usado para legitimar tal atitude foi "a proteção da democracia  por parte do comunismo". É importante lembrar que em 1964 o mundo vivia as tensões da Guerra Fria, onde EUA  e URSS disputavam a hegemonia global. Além do Brasil, vários países da América Latina viveram regimes ditatoriais cujos presidentes foram militares. Alguns destes países são: Argentina (1966-1973), Chile (1973-1990) e Uruguai (1973-1985). A Ditadura Civil-Militar Brasileira começou em 1964 e só  terminou em 1985. Deposto, João Goulart se exilou no Uruguai.

Ao lado da esposa, o então presidente João Goulart anuncia as Reformas de Base durante o Comício da Central do Brasil. Goulart não teve tempo de colocar estas reformas em prática, pois semanas depois ele seria deposto por um golpe civil-militar. Com a deposição, João Goulart se exilou no Uruguai. Foto: Reprodução. 

A Igreja Católica e a Ditadura Civil-Militar brasileira

     A ligação entre Igreja e Estado é histórica, no Brasil e também no mundo. O catolicismo deixou de ser a religião oficial do Estado em 1889, quando houve o golpe militar republicano. Deste então, o Estado passou a ser laico. Teoricamente. Mesmo não estando mais unidos oficialmente, a Igreja e o Estado nunca se separaram de fato. Com isso, quando a Ditadura Civil-Militar foi imposta no Brasil, a Igreja Católica assumiu sua posição neste contexto.

Marcha da Família com Deus Pela Liberdade em São Paulo, onde centenas de milhares de pessoas ocuparam o centro da cidade de São Paulo em uma manifestação que reivindicava pautas relacionadas a moralidade, a ordem e o anticomunismo. O alvo era o então Presidente da República João Goulart. Imagem: Folhapress. 

     "Em maio de 1964", disse o historiador Paulo César Gomes Bezerra, "um manifesto assinado por 26 bispos da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) agradecia aos militares por 'salvarem' o país do perigo iminente do comunismo". A declaração dos bispos manifestava gratidão aos novos governantes por terem "acudido a tempo" e impedido a concretização de um "regime bolchevista" no Brasil. "Ao rendermos graças a Deus", dizia o documento, "agradecemos aos militares que, com grave risco de suas vidas, se levantaram em nome dos supremos interesses da nação.". Estas palavras refletem um sentimento que animou parte considerável das ações da Igreja neste período: o temor do comunismo, um sistema destruidor da família e que vinha para destruir os princípios cristãos. Além disso, estas palavras demonstram também uma proximidade com o poder, o que não era novidade na história do país.
     A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, decisiva como suporte ideológico e popular ao movimento militar, evidencia os laços que unem a Igreja e o Estado, uma vez que a Igreja atuou fortemente na organização das manifestações. Atos semelhantes aconteceram também no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba. O padre Antônio Abreu, ligado há mais de quarenta anos ao Instituto Brasileiro de Desenvolvimento (Ibrades), organismo ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), descreve outros aspectos que influenciaram a posição da instituição. Segundo o padre, além de proteger a Igreja da cristandade, havia entre alguns uma simpatia por um nacionalismo popular de base militar, algo parecido com o que Gamal Abdel Nasser promovia no Egito. "No momento do golpe, a identificação da Igreja era com as elites em geral, em uma postura antiliberal e antidemocrática", afirma Abreu. "Entre os que realmente queriam políticas públicas de caráter social, parcela razoável acreditava ser mais provável os militares realizarem aquilo que na democracia não era viável. Julgavam ditaduras esclarecidas mais eficazes para o bem público."
      Fundada no ano de 1952, a CNBB elegeu em 1964 uma direção conservadora. A presidência ficou com dom Angelo Rossi, que logo em seguida foi nomeado pelo papa Paulo VI arcebispo de São Paulo. O então secretário-geral da entidade, dom Hélder Câmara, que foi contra o regime desde o início, foi transferido do Rio de Janeiro para a arquidiocese de Olinda e Recife, sendo substituído por dom José Gonçalves, mais simpático com o regime imposto. Com uma elite católica pronta para dar o seu aval, os militares estavam legitimados para agir.

Carlos Marighella foi assassinado em 1969 em São Paulo, numa emboscada preparada contra o guerrilheiro. Marighella teve o apoio de frades dominicanos. Imagem: Reprodução.

    O apoio da Igreja Católica ao golpe foi majoritário, mas não unanime. O bispo de Volta Redonda (RJ), dom Waldyr Calheiros, foi praticamente um pioneiro: ainda na noite de 31 de março de 1964 leu um sermão cheio de comentários reprovando a derrubada de Jango. Destaque também para a oposição incansável de dom Hélder Câmara, um homem tão combativo que logo passou a ser monitorado de perto pelos militares. Desde 1966, o Centro de Informações da Polícia Federal preparava um dossiê sobre o bispo, e a divisão de segurança e informações do Itamaraty fazia de tudo para impedir suas viagens ao exterior - onde ele sempre denunciava a violência da ditadura que o Brasil enfrentava. A partir de 1970, a imprensa não podia nem citar o nome de dom Hélder.
     A alta cúpula da Igreja Católica seguia alinhada aos militares, mas outras esferas adotavam uma postura crescente de resistência e contestação. "A Igreja, em todos os tempos e lugares, sempre refletiu a luta de classes, como todas as instituições", afirma Frei Betto, dominicano conhecido por sua atuação em movimentos pastorais e sociais. Frei Betto tomou parte direta na mais explícita atuação de setores da Igreja junto à guerrilha: o alinhamento com a Aliança Nacional Libertadora (ANL), de Carlos Marighella. Enquanto dominicanos como Frei Betto ajudavam pessoas a fugirem do Brasil, dom Eugênio Sales, então arcebispo do Rio de Janeiro, oferecia ajuda a pessoas perseguidas por outras ditaduras que haviam sido impostas em vários países da América do Sul. O processo ganhou proporções tão grandes que, a partir de 1979, o bispo chegou a hospedar estas pessoas em sua própria casa, na Rua da Glória. Alguns chegavam por iniciativa do então padre da Companhia de Jesus argentina Jorge Mario Bergoglio, hoje papa Francisco. Tanto dom Eugênio quanto dom Paulo Evaristo Arns teriam recebido pessoas enviadas por Bergoglio ao Brasil.
     A ditadura não estava indiferente a estes movimentos e começou a agir de forma cada vez mais severa. Em 1966, o padre Henrique Pereira Neto, auxiliar de dom Hélder Câmara, foi assassinado pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC), um grupo paramilitar. Depois deste incidente, o regime perdeu o pudor e se voltou contra a Igreja. No começo, a reação da Igreja foi tímida: somente em maio de 1970 veio o primeiro documento da CNBB denunciando a prática da tortura no país, tomando o cuidado de criticar também ações atribuídas à esquerda, como assaltos e sequestros. Em outubro do mesmo ano, a prisão de dom Aloísio Lorscheider, secretário-geral da CNBB, durante uma ação do Departamento de Ordem Pública e Social (Dops) na sede do Ibrades, estremeceu a relação entre a Igreja e o Estado. Foi a primeira vez que um alto dirigente da CBNN esteve nas mãos dos militares. Lorscheider ficou preso por aproximadamente quatro horas. Tempo suficiente para o alto clero atacar o regime com uma ousadia inédita. Os cardeais enviaram uma carta direcionada ao então presidente, o general Emílio Garrastazu Médici, lamentando a "deterioração" de seus vínculos. O impacto internacional também não foi bom: a imprensa do Vaticano noticiou o fato e até o papa Paulo VI manifestou publicamente apoio aos bispos brasileiros. "Foi quando se resolveu criar a Comissão Bipartite, que funcionou entre 1970 e 1974, com o intuito de promover diálogos entre a Igreja e o Estado e evitar a ruptura", afirma o historiador Paulo César Gomes Bezerra. Entretanto, o efeito da medida foi limitado: as relações entre as instituições jamais foram as mesmas.

Leonardo Boff, um dos grandes nomes da Teologia da Libertação no Brasil. Imagem: Reprodução.

     Seria no mínimo uma negligência falar deste período e não citar a Teologia da Libertação. Esta teologia é uma corrente teológica cristã nascida na América Latina durante a década de 1960. A Teologia da Libertação parte da premissa de que o Evangelho exige a opção preferencial pelos pobres. Esta teologia dialoga também com as ciências humanas e sociais. Os opositores da Teologia da Libertação descrevem a mesma como marxismo, relativismo e materialismo cristianizado, tirando o foco principal do Evangelho, que é a salvação do homem. Pelo fato desta teologia dialogar com várias correntes político-ideológicas de esquerda (e a rixa histórica entre a Igreja e estas mesmas correntes, como está sendo analisada neste texto), os opositores da mesma reprovaram esta corrente que nasceu dentro da Igreja Católica. O então Papa João Paulo II (1920-2005) condenou a Teologia da Libertação, assim como o então Cardeal Joseph Ratzinger (que mais tarde se tornaria o papa Bento XVI). O papa Francisco, em uma série de reformas que tem feito na Igreja Católica desde que assumiu o pontificado, em 2013, tem tomado atitudes favoráveis a Teologia da Libertação, discursando em favor dos pobres. Tais atitudes acontecem num momento em que a Igreja Católica perde gradativamente seus fiéis. No Brasil, as pessoas mais conhecidas que se identificam como adeptos da Teologia da Libertação são: Frei Betto, dom Hélder Câmara, Leonardo Boff, Pedro Casaldáliga, Paulo Evaristo Arns e Rubem Alves.

A Assembleia de Deus e a Ditadura Civil-Militar brasileira


Os presidentes militares que governaram o país durante a ditadura (da esq. para a dir.): Castelo Branco, Médici, Figueiredo, Costa e Silva e Geisel. Cooptação dos evangélicos e repressão. Imagem: Reprodução.

     A Assembleia de Deus é a maior denominação pentecostal e a maior denominação evangélica do Brasil. É considerada a "mãe do pentecostalismo", influenciando outras denominações que seguem a doutrina pentecostal. No país, a Assembleia de Deus é composta majoritariamente por pessoas de baixa renda e também de baixo nível de escolaridade. Embora tenha havido mudanças nos últimos anos (veja o exemplo da bancada evangélica presente no Congresso, cuja maioria dos membros são pertencentes a Assembleia de Deus), o fato é que os crentes assembleianos não costumam se envolver com política, pois entendem que estão neste mundo de passagem e que a pátria que lhes esperam é celestial. Como dito, embora esteja ocorrendo mudanças, o fato é que política é um assunto que não costuma encontrar muita ressonância entre os assembleianos. Com base neste fato, se entende que a Assembleia de Deus se manteve calada diante da ditadura, mas uma pesquisa aprofundada revela que não foi de fato isso o que houve.
     No senso comum, a Assembleia de Deus se manteve apolítica durante a ditadura, não se manifestou. Entretanto, se silenciar também significa escolher um lado, quase sempre o do dominante. É como diz o dito popular: "quem cala consente". Não há absolutamente nada sobre os acontecimentos políticos nos meses posteriores ao golpe no Mensageiro da Paz, jornal da Assembleia de Deus. Impera o silêncio total. Freston afirma que "era compreensível que não quisessem entrar em choque com o governo para não ficarem expostas (as igrejas) a todo peso da repressão". Esta atitude fica clara na Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) de 1973, quando orientados por Sotero Cunha (diretor da CPAD na época), os líderes assembleianos não divulgaram uma nota pública contra a TV. O argumento de Cunha revela essa postura ao ter "advertido ao plenário quanto à maneira como a Convenção deliberou a respeito do uso do aparelho de televisão, posto que se deve evitar o perigo de combater frontalmente os meios de divulgação devidamente reconhecidos pelo governo". Reforçando suas palavras, Sotero afirmou "não estar defendendo a TV, mas alertando para o perigo de se estabelecer uma proibição com divulgação no Mensageiro da Paz que venha a ser mal interpretada pelo governo". Percebe-se que até o mais ferrenho conservadorismo se intimidou com o medo da repressão. Repressão esta feita por um regime que, segundo a crença cristã, "salvou o país" do comunismo. Os militares haviam construído nesse período uma mega-infraestrutura para as telecomunicações. Além disso, este mesmo regime era apoiado pela Rede Globo de Televisão, que ajudou a propagar o "milagre econômico" e ignorou as mazelas do povo. As Assembleias de Deus no Brasil (e não só elas) se tornaram um dos "sustentáculos civis" da ditadura no Brasil. Entretanto, com o passar do tempo, o apoio a ditadura será extensivo e ostensivo.
     O VI Congresso da UMADER foi realizado no ano de 1972, entre os dias 23 e 27 de fevereiro, na cidade de Volta Redonda (RJ). É nesta mesma cidade que se encontra a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e este mesmo evento foi considerado "o maior movimento de jovens no Brasil". O mesmo contou com uma extensa programação que incluiu devocionais, plenárias, testemunhos, cânticos e estudos bíblicos. Além da juventude assembleiana, vários líderes (inclusive Paulo Leivas Macalão) compareceram ao evento a fim de prestigiar os jovens. Entretanto, é no dia 25 que ocorre uma concorrida palestra com o comandante do 1º BIB, Ten. Cel. João Cássio Martins de Souza. Esta mesma palestra foi intitulada "Segurança Nacional". A Segurança Nacional era um conceito chave do Regime Militar e de sua manutenção. A mesma apontava para um inimigo comum (os comunistas) e apelava para os valores da ordem e do civismo como forma de coesão social. Com o consentimento dos líderes, a AD neste evento patrocinou a ideologia propagada pelos militares. Não é novidade que alguns líderes e pastores desta mesma denominação cursaram a Escola Superior de Guerra (ESG), onde a Doutrina da Segurança Nacional era ministrada. Altamires Sotero Cunha (então diretor da CPAD), por exemplo, era formado na ESG.

Matéria do Mensageiro da Paz sobre o desfile: "apoio incondicional ao Presidente Médici". Imagem: Reprodução.

     Por causa da comemoração dos 150 anos da Independência do Brasil, a Assembleia de Deus do Ministério do Belenzinho (SP) organizou um desfile cívico pelas principais ruas da capital paulista. O desfile foi extremamente organizado. Bandeiras, bandas, cartazes, hinos religiosos e hinos pátrios estiveram presentes no evento. A manifestação terminou na Praça do Mercado, onde um culto cívico religioso foi realizado. Neste culto, foi convidado a se pronunciar o Comandante do 22º Batalhão Policial, o coronel Francisco Torres de Araújo. O mesmo disse: "Em Munique, onde os atletas de quase todas as nações do mundo, reunidos, participam dos Jogos Olímpicos, imperam o ódio e a intranquilidade, mas aqui nessa praça onde os crentes estão reunidos participando dessas solenidades... imperam o amor e a paz!". Uma desinformação promovida pelo regime. O estado de São Paulo e o restante do país andavam às voltas com ataques, sequestros, torturas e desaparecimentos. O coronel apontava acontecimentos internacionais para confirmar que o Brasil era muito mais seguro. Não se deve esquecer que era o tempo do slogan "Brasil ame-o ou deixe-o".
     Ao fim das solenidades, o orador foi o pastor João Pereira. Em uma fala improvisava, o reverendo revela a imagem que a liderança tinha ainda do governo militar. Se referiu ao então ditador Emílio Médici como "legítimo comandante de todos os brasileiros". Destacou também que Médici era um "dos comandantes da Revolução Democrática vitoriosa de 31 de março de 1964!"
     Medo do "comunismo ateu"? Identificação com a forma autoritária de governo? Simpatia comum com a ideologia nacionalista? Enfim, muitas são as especulações que levaram a AD e outras denominações evangélicas a apoiarem o Golpe Civil-Militar de 1964. É um tema que ainda precisa ser muito estudado. Entretanto, um fato já e mais que evidente: as Assembleias de Deus não foram neutras nesse jogo de poder que durou pouco mais de 20 anos.

A eleição presidencial de 1989 e o anticomunismo


Capa da revista Veja sobre a eleição presidencial entre Fernando Collor e Lula. Collor saiu vitorioso. Imagem: Reprodução.

     A Ditadura Civil-Militar Brasileira acabou em 1985, 21 anos depois de ser imposta no Brasil. Tancredo Neves foi eleito Presidente da República por um colégio eleitoral, de forma indireta. Entretanto, o mesmo faleceu e não pôde assumir o poder. Quem assumiu foi José Sarney, seu vice. Sarney governou até 1989 e deixou o Brasil com uma alta taxa de inflação. Chegou o ano de 1989, ano em que haveria eleições para a Presidência da República. Era a primeira vez em mais de 20 anos que o povo brasileiro voltaria a votar. A expectativa era grande. Vale ressaltar que o mundo vivia os últimos momentos da Guerra Fria, período em que EUA e URSS disputavam a hegemonia global.
     Ocorreram as eleições para o 1º turno e foi necessário que houvesse um segundo. A disputava presidencial passou a ser disputada agora por Lula e Collor. Eram duas pessoas antagônicas e com projetos políticos também antagônicos. Lula era um operário de origem popular, com baixo nível de escolaridade e que também tinha o forte apoio da população carente. Já Fernando Collor era um homem da elite, com uma família de longa tradição política e seu respectivo projeto de governo interessava as elites brasileiras. Foi uma disputa extremamente acirrada e os ataques partiram para o âmbito pessoal, além da propagação de mentiras. A oposição chamou uma ex-namorada de Lula para falar mal do mesmo. Além disso, alguns jornais deram a entender que militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) faziam parte de quadrilha de sequestradores. Mesmo o conteúdo sendo falso, muita gente ficou assustada. Espalhou-se o boato de que Lula seria defensor dos regimes comunistas do leste europeu e que, se o mesmo ganhasse as eleições, o país se tornaria um caos, com empresários deixando de investir no país e viajando para Miami.
     O golpe final foi dado pela Rede Globo de Televisão, que editou o debate presidencial de modo a prejudicar Lula. O que se viu foi um Lula falando besteiras e um Collor falando coisas geniais. Collor saiu vitorioso da disputa e Lula só seria eleito Presidente da República  em 2002.

O anticomunismo na atual sociedade brasileira

     Em julho de 2013, foi lançado o Programa Mais Médicos pela presidente eleita Dilma Rousseff. O objetivo deste programa é que médicos do exterior venham ao país e trabalhem nas periferias e cidades do interior, onde as condições de saúde são precárias. O programa foi criticado pelo fato de o sistema público de saúde no Brasil ser bastante precário e, além disso, a formação dos médicos estrangeiros foi colocada em xeque (se há médicos vindo para o país é porque o sistema de saúde é falho. É fato que não é isso que vai melhorar a saúde, mas já é um avanço. Além disso, os médicos que chegaram ao país estão indo trabalhar em áreas remotas do Brasil, lugares onde a maioria dos médicos brasileiros não querem ir). A maioria dos médicos que chegaram ao país são de Cuba, país cujo sistema de saúde é referência em todo o mundo. O anticomunismo mais uma vez se fez  presente e, além de os médicos cubanos terem de ouvir comentários preconceituosos, os mesmos foram acusados de ser guerrilheiros infiltrados que estavam chegando ao país para fazer do Brasil "uma nova Cuba".
     2014 foi um ano em que houve eleições presidenciais. Ainda frequentava a Assembleia de Deus quando fui em um culto desta denominação e o pregador da noite disse que o Brasil era uma ditadura bolivariana que venerava Fidel Castro. Além disso, o sentimento anticomunista esteve presente na própria eleição presidencial em si. O Partido dos Trabalhadores (PT), partido na qual Dilma concorreu a reeleição, foi mais uma vez tachado de comunista, um sistema que era visto como o destruidor dos preceitos morais e cristãos. No ano seguinte, quando houve as primeiras manifestações pró-impeachment, o anticomunismo se manifestou em cartazes que continham frases do tipo: "Vai pra Cuba!", "Isso aqui (o Brasil) não vai virar uma Venezuela" e "a minha bandeira (a do Brasil) jamais será vermelha". Frases do tipo são ouvidas até hoje, quando a presidente eleita Dilma Rousseff está afastada da presidência por um golpe travestido de impeachment.
     Há pelo menos desde 2015 que existem dois projetos, um em Brasília e o outro no Rio de Janeiro. É o chamado "Escola Sem Partido". Se este projeto for aprovado, os professores não poderão falar sobre as notícias do dia, política, ensinar a evolução das espécies de Charles Darwin e nem discutir questões de gênero e sexualidade. Segundo os defensores do "Escola Sem Partido", a escola seria o local ideal para que estas questões sejam ensinadas. Os adeptos do movimento pregam o "fim da doutrinação de esquerda" nas instituições de ensino. Segundo o deputado federal Izalci Lucas (PSDB-DF), o governo vem atuando no sentido de promover a imagem de Dilma e Lula nos livros didáticos. Neles, há também o que o deputado chamou de "exaltação ao comportamento homossexual". Em abril deste ano, foi aprovado em Alagoas o "Escola Livre", um projeto de lei que proíbe os professores de opinarem em sala de aula. O texto que foi aprovado, de caráter subjetivo, afirma que os professores não podem "doutrinar" ou "induzir" estudantes em assuntos religiosos, políticos e ideológicos. Os professores devem manter "neutralidade" e aquele que descumprir tal regra pode ser punido até com a demissão. A escola é um espaço onde a diversidade deve ser cultivada e o senso crítico exercido. Projetos como o "Escola Sem Partido" e o "Escola Livre" retiram estas funções da escola.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC-SP) mostra para seus seguidores o Projeto de Lei que criminaliza o comunismo, bem como  o seu símbolo. Foto: Reprodução Facebook. 

     Em maio de 2016, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC-SP) apresentou um Projeto de Lei (PL) que criminaliza o comunismo, bem como o seu símbolo (a foice e o martelo). O argumento usado para tal projeto, segundo o deputado, é que o comunismo teria matado mais de 100 milhões de pessoas em um século, mais do que todas as catástrofes naturais e as pestes que o planeta Terra já enfrentou em toda a sua existência. Ainda segundo o deputado, o comunismo destrói os valores cristãos e ocidentais, afirmando que a foice representa a morte e o martelo a destruição. É muita desinformação (ou má fé mesmo) para uma pessoa só.
     Este mesmo Projeto de Lei altera a redação da Lei nº 7.716 de 5 de janeiro de 1989, que trata dos crimes de preconceito de raça ou de cor e da Lei nº 13.260, que tipifica o crime de terrorismo - de 16 de março de 2016, para "criminalizar a apologia ao comunismo". No artigo 1º e 20 da Lei 7.716, que determina a punição para os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, o projeto prevê a inclusão de punição para "fomento ao embate de classes sociais". Segundo pesquisadores, o projeto reforça o extremismo radical.

Conclusão

     As pessoas, principalmente aquelas que pertencem a elite, odeiam o comunismo e as demais correntes político-ideológicas de esquerda porque estas mesmas correntes auxiliam o homem a pensar com autonomia, ajudando-o a ter uma visão crítica da sociedade. Uma vez que para manter o povo sob domínio é preciso deixar o mesmo na ignorância, estas correntes de esquerda acabam não sendo muito bem aceitas. Intrigante são as pessoas pobres que adotam um discurso anticomunista, reproduzindo o discurso do opressor. Historicamente, o anticomunismo tem encontrado apoio majoritário entre os católicos e protestantes. Talvez isso aconteça porque as teorias de esquerda revelam que os cristãos não são tão cristãos como deveriam ser.

3 comentários:

  1. COMUNISMO SEMPRE SERÁ UMA UTOPIA A SER DESEJADA... TODOS SOMOS FILHOS DE DEUS,SOMOS IGUAIS E DEVEMOS NOS AJUDAR UNS AOS OUTROS.

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  2. COMUNISMO SEMPRE SERÁ UMA UTOPIA A SER DESEJADA... TODOS SOMOS FILHOS DE DEUS,SOMOS IGUAIS E DEVEMOS NOS AJUDAR UNS AOS OUTROS.

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  3. O COMUNISMO TAMBÉM É MUITO BOM.

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