13/10/2015

Questão racial dentro das Assembleias de Deus - algumas reflexões

Imagem ilustrativa. Fonte: afrokut.

     Me lembro de que quando falei pela primeira vez  de racismo dentro das Assembleias de Deus, eu quase fui apedrejado. Este fato me levou a escrever um texto aqui onde eu explico porque a Assembleia de Deus é uma instituição  racista. Por outro lado, eu entendo que a polêmica que houve foi porque este tema é complexo e delicado. Partindo deste princípio, eu resolvi escrever este texto. Não esperem um texto esclarecedor porque o mesmo não é, o mesmo é composto de questionamentos que tem a finalidade de levar o leitor a refletir e chegar a seguinte conclusão: existe racismo ou não dentro das Assembleias de Deus?

Reflexões acerca dos costumes assembleianos: racismo incutido? 

Registro dos missionários presentes na primeira Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil em 1933, no Rio de Janeiro. Identificação dos missionários. Sentadas, a partir da esquerda, Elizabeth Goodband, Sinnea Lundgren (com sua filha Ester), Ester Nelson, Adina Nelson, Signe Carlson, Lisa Söhein e Lyna Nyström. Em pé e em arco, a partir da direita, Nels Nelson, Gustav Nordlund, Samuel Hedlund, Anders Johanson, Simom Lundgren, Nils Kastberg, Samuel Nyström e Walter Goodband. Em pé, ao centro, a partir da direita, Hedvic Nordlund, Jahn Söhein, Esther Andersson, Emma Miller e Joel Carlson. No chão, a partir da esquerda, estão os meninos João Lundgren, Rune Lundren e Ragna Carlson. Os missionários europeus foram bem atuantes durante os primeiros anos das Assembleias de Deus no Brasil. Imagem: Fanpage Memórias das Assembleias de Deus.

- Durante as primeiras décadas das Assembleias de Deus no Brasil, missionários vindos da Europa vieram ao país a fim de auxiliar nos serviços da denominação de maneira geral. Será que eles olharam o Brasil de acordo com seus conceitos ou levaram em conta as particularidades do Brasil na hora da evangelização?

- A Assembleia de Deus é conhecida por sua rigidez com relação aos usos e costumes. Houve uma época em que os homens assembleianos deveriam usar gravata e terno quando iam à igreja. Já as mulheres deveriam usar blusas com mangas até o punho e saias muito abaixo dos joelhos. Sabemos que o Brasil é um país de altas temperaturas. Desta forma, não seria uma falta de bom senso por parte dos líderes da AD impor tais regras? Vale lembrar que naquela época não havia ar condicionado. Imaginem o calor...

Membros da AD Florianópolis. Os homens deveriam usar gravata e terno durante as reuniões, ao passo que as mulheres deveriam usar blusas com mangas até os punhos e saias bem abaixo dos joelhos. Assim eram as "vestes santas". Imagem: blog Memórias das Assembleias de Deus.

- Os homens não podiam ter cabelos longos e as mulheres não podiam ter cabelos curtos. As cristãs assembleianas não podiam fazer penteados, com raras exceções para as tranças. As irmãs podiam usar cabelos trançados, desde que os mesmos não tivessem qualquer enfeite. O Brasil é um país onde mais de 50% da população é negra. Entre os negros, é muito comum os mesmos usarem cabelos trançados, bem como turbantes e demais enfeites. Será que a liderança das ADs se esqueceram deste fato na hora de impor tais regras?

As roupas usadas por algumas populações da África  são bastante coloridas, como mostra a foto. Este estilo não é aprovado pelos assembleianos tradicionais. Imagem: Guia Feminina.

- Uma característica de algumas populações do continente africano é o colorido de suas roupas. Já com relação aos assembleianos antigos, as roupas devem ser sóbrias e sem cores berrantes. O Brasil é um pais onde mais da metade da população é negra e uma parcela desta mesma população costuma usar vestes coloridas. Nenhum líder da AD atentou para isto na hora de formular o estatuto da  igreja?

- Baseados em uma passagem de I Coríntios em que o apóstolo Paulo considera vergonhoso para o homem ter o cabelo crescido e vergonhoso para a mulher ter a cabeça raspada, muitas ADs proibiram (e ainda proíbem) o homem de ter cabelos longos. Mais uma vez este vemos um choque entre religião e cultura. É costume de vários negros de várias regiões do mundo (inclusive no Brasil) ostentarem seus volumosos cabelos crespos. Tal prática vai contra o estatuto da AD, em que os cabelos dos membros devem ser cortados e aparados. Avisem a algumas lideranças que as passagens da Bíblia devem ser lidas  em seu contexto;

- Tenho um amigo evangélico e que milita em um movimento negro. Há aproximadamente um mês atrás ele publicou em sua página no Facebook uma foto seguida de uma indagação acerca da presença dos negros na mesma foto. A foto em questão era de uma revista voltada para o ensino bíblico de uma das maiores editoras evangélicas do país. Tenho em casa dezenas e dezenas de revistas bíblicas desta mesma editora; e devo dizer que a presença de negros nas fotos ilustrativas é ínfima. Se não existe racismo entre os assembleianos, porque não há uma presença maior dos mesmos nas revistas de ensino bíblico?

- Um fato que observei é que nos grandes eventos evangélicos a presença de negro é minoritária. Certa feita, entrei no site de um evento evangélico que acontece anualmente no sul do país e vi as fotos dos convidados e pregadores. Demorei um pouco para encontrar os negros em meio a tanta gente e, além disso, os mesmos estavam em número muito menor ao de brancos. Se há igualdade racial dentro da Assembleia de Deus, porque a presença de negros é tão pequena em grandes congressos evangélicos?

Conclusão

     Ao formularem o estatuto das Assembleias de Deus brasileiras, os missionários europeus não levarem em consideração as particularidades da cultura brasileira e do Brasil em si. Além disso, as lideranças brasileiras reproduziram este mesmo estatuto e parte do mesmo ainda se faz presente em algumas Assembleias de Deus, ao passo que em outras ADs este estatuto desapareceu completamente. O estatuto da Assembleia de Deus pode ser interpretado como racista, chegando a conclusão de que esta mesma denominação discrimina os negros. 

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