30/07/2015

Racismo dentro das Assembleias de Deus

Imagem ilustrativa. Fonte: afrokut. 
     A Assembleia de Deus chegou ao Brasil (se instalando primeiramente em Belém do Pará, cidade para onde foram os missionários responsáveis por trazer o fogo pentecostal ao país) durante o ano de 1911, período em que a região norte do Brasil vivia seu apogeu causado pela  grande quantidade de látex extraídos das muitas seringueiras que se encontravam sobretudo nos estados do Amazonas e do Acre. 
     A Assembleia de Deus pode ser chamada de "a igreja  dos pobres" pelo fato dela ter se consolidado entre as camadas mais baixas da sociedade brasileira. O fato de a mesma ter em sua composição um alto número de pobres e negros não faz desta igreja uma instituição religiosa onde o racismo seja algo inexistente. 

Racismo dentro da Assembleia de Deus

     Antes de falarmos do racismo dentro das Assembleias de Deus, é preciso falar primeiro de como o racismo se manifesta na sociedade brasileira. Ao contrário do que acontece nos EUA (onde o preconceito é declarado, chegando ao extremo de ter bairros de população majoritariamente branca e bairros de população majoritariamente negra), o racismo no Brasil se manifesta de modo sutil, sendo percebido por meio de "brincadeiras", "piadas", imposição de padrões de beleza, atendimento em hospitais, entrevistas de emprego e ações da Polícia Militar por exemplo. Enfim, um racismo institucionalizado.
     A Assembleia de Deus é uma instituição religiosa que está inserida a mais de um século na sociedade brasileira. Em grande maioria, os assembleianos não contestam o sistema político, econômico e social vigentes. Mais que isso: a Assembleia de Deus reproduz a sociedade brasileira sem contestação alguma.
       O racismo entre os assembleianos se manifesta tal como em toda a sociedade: de forma sutil. Mesmo sendo uma igreja onde a presença de mulheres é predominante, a Assembleia de Deus é uma igreja cuja decisão final é dada por homens, presença numericamente inferior ao número de mulheres presentes na denominação. Estas mulheres em grande maioria não exaltam a sua negritude, mas ao invés disso procuram negá-la. Por mais de 10 anos eu fiz parte da Assembleia  de Deus e observei que grande parte das mulheres (negras ou não) tentam a todo custo renegar seus cabelos crespos. Para isso, apelam para alisamentos progressivos, escovas, chapinhas, alisantes e uma grande quantidade de creme para pentear. O resultado disso são cabelos  brancos e encharcados de creme. A Assembleia de Deus é uma igreja bastante conservadora, onde as diferenças entre homens e mulheres é nítida, não dando espaço para o meio-termo. Um assembleiano tradicional do sexo masculino não usa cabelos cacheados, por menos que seja o tamanho (cabelos no estilo do futebolista Fred do Fluminense ou semelhantes ao do Cazuza são reprovados pelo manual dos usos e costumes da Assembleia de Deus). Se para um homem assembleiano, esta regra é dura, podendo usar no máximo um corte asa delta ou um penteado que permita deixar os cabelos de lado, para um homem assembleiano negro, esta regra se torna ainda mais rígida. Pela rara possibilidade de pentear os cabelos de lado ou fazer uma asa delta, os homens assembleianos negros se rendem ao corte à maquina e mais: é um corte a máquina bem baixo, podendo usar no máximo a máquina 2 ou usar o corte militar, onde na parte superior da cabeça número da máquina é maior e na parte superior e lateral o número da máquina é inferior.
          A Assembleia de Deus é uma igreja que adota a organização hierárquica, tal como acontece nas Forças Armadas, onde a posição mais alta é a do pastor e a mais baixa é a do auxiliar de trabalho e/ou obreiro. Nas posições mais altas da Assembleia de Deus, a presença de negros ainda é minoritária. Aqui vale uma ressalva. A Assembleia de Deus é uma igreja que se consolidou entre os negros e pobres residentes nas áreas periféricas do Brasil. Percebo que nestas áreas periféricas a presença de negros é considerável, sendo os mesmos pastores, presbíteros, pregadores e diáconos. Entretanto, estas igrejas humildes lideradas por negros não tem o mesmo prestígio que as Assembleias de Deus presentes no asfalto. Nas Assembleia de Deus de grande prestígio e nos congressos pentecostais de porte nacional e internacional, a presença de negros é minoritária. No seio assembleiano, é forjada a tradição de que cabe ao homem pregar a Bíblia, ao passo de que cabe a mulher cantar. É fato que há assembleianas que são pregadoras, da mesma forma que há assembleianos que são cantores. Entretanto, essa divisão sexista ainda é muito forte. Desta forma, o cenário pentecostal é composto majoritariamente por mulheres. Mulheres brancas por sinal. Me diga uma coisa: quantas cantoras pentecostais são negras? Vale uma ressalva aqui. Eu não estou falando de cantoras negras que estão fazendo sucesso atualmente, seja por um hit caiu no gosto do povo ou porque tem vídeos no Youtube ou até mesmo porque são conhecidas em determinadas regiões do país. Estou falando de cantoras pentecostais em nível nacional, com anos de estrada e que deixaram a sua marca no cenário gospel brasileiro. Não precisa pensar, eu respondo esta pergunta por você: Rose Nascimento. Rose Nascimento é uma mulher oriunda de uma família de cantores gospel, onde a grande maioria dos membros da família são cantores gospel. Mattos Nascimento (irmão de Rose), Willian Nascimento, Gisele Nascimento e Michelle Nascimento (estes três últimos são sobrinhos de Rose Nascimento) são apenas exemplos de cantores que compõe a família Nascimento.
Durante muitos anos a cantora gospel Rose Nascimento exibiu seus cabelos naturalmente crespos. Entretanto, nos últimos anos a cantora se entregou ao alisamento, não mais exibindo seus cabelos volumosos, como fazia outrora. Esta é a capa do CD 'Sempre Fiel' (que foi um verdadeiro sucesso, onde conjuntos de mocidade e senhoras tinham este CD). Reparem no cabelo da cantora. Foto: americanas.com. 

     Aqui vale mais uma ressalva. No Brasil, devido a implementação de cotas raciais em vestibulares e concursos públicos, o ensino obrigatório de História da África e indígena; e a militância de movimentos negros em várias parte do país têm feito com que a presença do negro seja cada vez maior em universidades, órgãos púbicos e chefia de empresas. A Assembleia de Deus tem feito parte desta mudança e atualmente vemos os negros tendo um destaque dentro do movimento pentecostal que não tinha outrora. Elaine Martins, Fabiana Anastácio, Deise do Vale, Valquíria de Oliveira, Pastor Melvim e Jotta A são exemplos de cantores negros que tem se destacado atualmente dentro do cenário gospel pentecostal. Porém, a igualdade racial está longe de se fazer presente no seio assembleiano.

Situações de racismo vivenciadas por mim dentro da Assembleia  de Deus

     Na verdade, meu primeiro contato com a Assembleia de Deus foi quando tinha aproximadamente três anos de idade. Meus pais se divorciaram quando ia fazer dois anos de idade e após este episódio minha mãe se tornou uma fervorosa assembleiana. Eu, minha mãe e minha irmã éramos presença constante nos cultos da semana, escola bíblica, culto de domingo... Quando ia fazer cerca de 8 anos de idade, minha mãe saiu da Assembleia de Deus e deste então não frequenta igreja nenhuma. Nesse tempo, eu fiquei sem frequentar igreja nenhuma também e cheguei até a ter contato com o espiritismo. Mas foi por puco tempo e mais uma vez fiquei sem contato com religião alguma. Com 13 anos de idade eu retornaria a Assembleia de Deus.
     Vim de uma família conservadora e minha mãe não me deixava de forma alguma eu ter cabelos crescidos: tinha que passar a máquina, querendo ou não. TODO MÊS era uma briga para eu cortar o cabelo porque eu NUNCA gostei de fazer isso. Chegando a idade adulta, eu continuei não gostando de cortar cabelo e minha mãe não fez mais nada. Não concordou, mas também não se opôs. Pois bem, deixei o cabelo no estilo black power e continuei a frequentar a denominação. Cada coisa que eu ouvi... Pessoas que tem o cabelo tão crespo quanto o meu (talvez até mais) ficaram impressionadas com o meu novo penteado, como se nunca tivessem visto aquilo na vida delas. Oras, o cabelo destas pessoas pode ficar assim também, é só parar de cortar o cabelo a máquina ou deixar de se entregar ao alisamento progressivo e chapinhas! Além disso, quase todo mundo que me via me recomendavam produtos para alisar o cabelo ou "soltar" os cachos. Além disso, repreenderam o meu penteado tendo por base uma passagem bíblica onde o apóstolo Paulo considera como vergonha um homem ter os cabelos longos. Passagem bíblica essa que por sua vez revela os costumes de uma época, não sendo aplicada para nós.
      Eu também já testemunhei casos de racismo dentro da Assembleia de Deus. Por conta da minha idade, quando eu me converti, eu fui para o conjunto de adolescentes. No conjunto, havia um menino negro e os demais adolescentes do conjunto o chamavam de "neguinho", "macaco", "macaquinho", ...A situação chegou a tal ponto que foi preciso a liderança do conjunto e os pais dos adolescentes repreenderem os mesmos. Outra situação de racismo dentro da denominação me vem a memória neste exato momento. No conjunto de mocidade havia uma jovem que a todo custo tenta manter os cabelos alisados. Para isso, ela faz alisamento progressivo, só aparece nos cultos depois de ter feito chapinha nos cabelos e quando os cabelos não estão alisados, eles estão muito bem amarrados. Certa feita, observando o seu esforço em conter o volume de seus cabelos, eu perguntei porque ela não deixava o cabelo no estilo black power e em resposta ela disse que não, que não gostava. Daí, vem uma reflexão. Porque que ela não gosta de cabelo no estilo black power? Não é meramente uma questão de gosto, pois o gosto é construído na família, na escola, na TV e na sociedade em geral. Será que ninguém nunca ensinou a ela a aceitar e gostar seus cabelos tais  como são?

Racismo dentro da Assembleia de Deus dos EUA

     Se você acha que o racismo só é algo existente nas Assembleias de Deus do Brasil, está enganado. O movimento pentecostal se iniciou entre fins do século XIX e início do século XX (tem gente que acha que o pentecostalismo é um modismo do século XX. Entretanto, a história mostra que o movimento pentecostal sobreviveu ao longo dos séculos, tendo o seu apogeu no século passado) nos EUA. O racismo é algo presente no movimento pentecostal iniciado nos Estados Unidos da América. William J. Seymour foi um cristão negro que liderou reuniões pentecostais no começo do século XX  e que ficaram conhecidas como o 'Avivamento da Rua Azusa'. Este episódio é visto pelos historiadores como o principal catalisador para a divulgação do movimento pentecostal no século XX. Em 1905, Seymour se mudou para Houston, onde passou a frequentar a escola bíblica de Charles Fox Parham, considerado uma peça primordial na formação do pentecostalismo. William J. Seymour teve de assistir as aulas de Parham sentado em uma cadeira colocado no corredor porque era negro. Para mim, é simplesmente contraditório um cristão ser racista. Não foi Jesus quem nos ensinou a amar o próximo incondicionalmente?

Membros da igreja Assemblies of God (Assembleia de Deus) e do Conselho Pentecostal Unido das Assembleias de Deus (UPCAG, sigla em inglês). A reconciliação aconteceu em 2004. Foto: Geledés.
     Em 1917, um negro vindo de Chicago se aproximou da igreja Assembleia de Deus (AG, sigla em inglês). Alexander queria que a denominação o enviasse como missionário para a Libéria. Entretanto, o pedido foi negado pelos lideres da AG na época pelo fato de Alexander ser negro. Esta atitude levou Alexander a se unir as igrejas afro-americanas da Nova Inglaterra e juntos formaram o Conselho Pentecostal Unido das Assembleias de Deus (UPCAG) no ano de 1920. A denominação atendeu prontamente o pedido de Alexander e o mesmo fez uma viagem missionária a Libéria, onde abriu 18 igrejas. Como resultado de um processo iniciado quatro anos antes, em 2014 Thomas Barclay da UPCAG e George O. Wood da AG se reuniram e as duas denominações fizeram as pazes por conta do que havia acontecido há 97 anos atrás. Com esta reconciliação, os líderes das duas igrejas assinaram um acordo de filiação cooperativa na sede nacional das Assembleias de Deus em Springfield no estado de Missouri. O acordo prevê que as congregações da UPCAG podem continuar agindo de forma independente se desejarem, mas caso o contrário, poderão aproveitar e se beneficiar de todo o apoio, recursos e o nome das Assembleias de Deus (AG).

Conclusão

     O racismo é uma  realidade nas Assembleias de Deus no Brasil. O racismo dentro desta denominação se manifesta como na sociedade brasileira: por meio de atitudes veladas. Este racismo é tão sutil que muita gente chega a negar a existência do mesmo dentro da denominação. 

2 comentários:

  1. Para ampliar esta complexa discussão sugiro:
    http://saudepublicada.sul21.com.br/2015/07/20/a-psicanalise-as-discriminacoes-e-as-religioes/

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  2. Olá, Telmo!!

    Obrigado por ler meu texto e por ter deixado esse link para ampliar o assunto. Volte sempre!!

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