11/04/2015

4 motivos que me fazem detestar o programa "Esquenta!"

Logo do programa "Esquenta!", apresentado por Regina Casé. Imagem: Motion TV
     O programa "Esquenta!" é um programa dominical apresentado por Regina Casé nas tardes de domingo pela Rede Globo de Televisão. A primeira exibição do programa foi no dia 2 de janeiro de 2011. O programa em questão vem com a proposta de atrair as classes C, D, e E, uma vez que o Brasil viu nas últimas décadas um aumento no poder aquisitivo das classes populares. A fim de atrair a atenção destas mesmas classes, o programa lembra uma festa em uma periferia carioca. Durante muito tempo a emissora era criticada por não dar espaço à população de baixa renda, o que fez com que muitos a chamassem de elitista; levando a Rede Globo a criar este programa.
     "Esquenta!" foi concebido inicialmente como um programa para ser exibido durante o verão, mas a audiência extremamente satisfatória fez com que o programa ganhasse mais temporadas, espaços e sendo exibido todo final de semana, com diversos temas. O programa apresenta artistas de vários gêneros musicais populares entre as pessoas de baixa renda no Brasil, principalmente o pagode e o funk carioca, populares no Rio de Janeiro.
     A ideia do programa é legal e tudo parece muito bonito, a não ser pelo que será citado abaixo, o que me faz ter repugnância ao programa. Observe:

1 - Estereótipo da população carente e negra: uma vez que o programa tem a finalidade de dar voz aqueles que moram na periferia carioca, pessoas oriundas destes lugares são uma presença constante no programa apresentado por Regina Casé. Ao fazer isso, propositalmente ou não, o programa reforça o estereótipo que o senso comum tem em torno da população negra. No programa em questão, o morador da periferia e sobretudo negro aparecem como pessoas extremamente alegres, divertidas, que pronunciam uma outra palavra errada, que se vestem de modo chamativo e super colorido, usando cortes de cabelo que seguem esta mesma linha. Dançar enlouquecedoramente é uma constante no meio destas pessoas;
2 - Favela enquanto lugar bom: o "Esquenta!" mostra a periferia enquanto um bom lugar para se viver, onde a felicidade é a máxima de quem mora nas zonas periféricas da cidade do Rio de Janeiro, mas quem mora em uma favela sabe que a realidade não é aquela que o programa mostra. As favelas do Rio de Janeiro necessitam de saneamento básico, escolas de qualidade, bons hospitais e serviços básicos essenciais para qualquer pessoa. Definitivamente, a favela não é um lugar bom para se viver;
3 - Propaganda pró - UPP: o programa em questão também faz propaganda favorável as UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora). Em uma das exibições do programa, a Regina Casé chamou ao palco José Mariano Beltrame, delegado da Polícia Federal e atual Secretário de Segurança do Rio de Janeiro. Em palco, a Casé e o Beltrame exaltaram as atitudes da Polícia Militar no processo de pacificação das favelas, onde a polícia é vista como quem veio salvar os moradores das mãos do tráfico. Neste mesmo dia, alguns policiais participaram do programa, passando a ideia de que eram amigos do povo. Estes mesmos policias inclusive dançaram ao som de Naldo Benny e dançaram valsa ao lado de debutantes oriundas das favelas cariocas.
Moradoras de comunidades pacificadas comemoram seus 15 anos e dançam valsa com policiais de UPPs locais. Crédito: TV Globo/Alex carvalho
     Você pode estar se perguntando que mal há em trazer o José Mariano Beltrame e Policiais Militares em um programa de televisão. O problema é que a Polícia Militar atua a serviço do Estado, que por sua vez está voltado para os interesses da elite. É essa mesma elite que vê o pobre (e principalmente o negro) como uma população que deve ter os direitos básicos negados e, além disso, acredita que os mesmos devem ser exterminados. A PM age neste sentido e desta forma age de modo arbitrário com relação aos moradores da favela. Por conta disso, entram em favelas atirando, matam muitas vítimas inocentes, não respeitam moradores e muitas vezes se comportam de modo ilegal. Tudo isso em nome de um Estado fascista que quer ver o negro exterminado.
      Uma vez neste tópico, é impossível não falar deste fato. Quando um dançarino do programa chamado Douglas Silva (que tinha o apelido de DG) morreu de forma arbitrária pela Polícia Militar, houve um programa especial dedicado ao dançarino, onde os convidados estavam todos de branco e a mãe do jovem assassinado esteve presente. De fato, este programa carregava uma grande carga emocional, fazendo qualquer um chorar. Apenas isso. Em nenhum momento do programa a morte do dançarino foi associada às ações arbitrárias de policiais militares e, além disso, a mãe do dançarino não podia fazer críticas às UPPs como vem fazendo. Ao invés disso, a mãe de Douglas Silva só podia falar o que a Regina Casé perguntar. Tudo preparado de modo a não associar a morte do dançarino a uma ação errônea da PM;
4 - Omissão da histórica desigualdade social: no programa, tudo é posto de maneira simplista, onde a cultura do pobre é o funk e a cultura do morador de classe média é a música clássica. Ao fazer isso, ela simplesmente ignora toda a questão histórica, política, econômica e cultural que levam o morador da favela a gostar de funk e o morador da elite a gostar de música clássica. Por exemplo: um violino usado custa em torno de R$ 4,000. 00 e nem é preciso dizer que um morador da favela tem condições de comprar um. Com isto, o pobre terá um gosto cultural diferente daquele que mora na Zona Sul (área nobre da cidade do Rio de Janeiro). Isto é um exemplo bem simplório para mostrar que a Regina Casé joga 'panos quentes' na desigualdade social histórica existente no país.
      Além disso, o programa "Esquenta!" é o único lugar do mundo onde pobres e ricos vivem harmoniosamente. Na prática, isso não acontece, uma vez que a segregação social e racial é uma realidade no país. A elite tem horror em ter de compartilhar um espaço com um morador oriundo das favelas cariocas (lembra do texto da jornalista Hildegard Angel que sugere que as praias deveriam ser pagas? Lembra do texto da jornalista Silvia Pilz que diz que a alegria de um pobre era ir ao médico? Estes são apenas exemplos do horror que a elite tem pela periferia). Desta forma, mostrar gente de várias classes sociais em um mesmo espaço é no mínimo fantasioso.

Conclusão

     A proposta do programa "Esquenta!" merece meus elogios, mas a Regina Casé faz um desserviço ao reforçar estereótipos e omitir desigualdades sociais. Se é para fazer um programa para a periferia, que seja um programa feito pela periferia, longe de qualquer estereótipo e ponto em evidência os problemas e preconceitos que um morador da favela enfrenta.


Um comentário:

  1. Concordo com os dois primeiros tópicos, mas discordo com os dois últimos. A polícia tem função de proteger seus cidadãos de todo e qualquer mal que fira com seus direitos, no entanto, temos visto a constante ação de policiais corruptos que acreditamos que a polícia é a vilã da história, fora o fato de que quando algum policial trabalha bem ele vira manchete de jornal! O fato de um negro que more na favela gostar de funk também não implica em sua renda, existem pessoas de classe mais alta que também gostam de funk, frequentam bailes e tudo o mais. Eu mesmo tenho mais condições de ter um violino do que alguém que more na periferia, no entanto essas condições são insuficientes para se comprar um, não é por isso que eu goste de funk ou música clássica.
    De uma forma ou de outra, o programa é, de fato, ruim, e precisa urgentemente dá lugar a alguma coisa que tenha alguma utilidade no dia-a-dia do telespectador, nem que seja puro entretenimento, a última coisa que esse programa tenta oferecer (e falha miseravelmente).

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